Wallace Andrioli Guedes*

Em meio às tantas trapalhadas cometidas em pouquíssimo tempo pelo governo Bolsonaro, chamou atenção de veículos de imprensa a declaração do presidente, em visita oficial a Israel, sobre o nazismo ter sido um movimento de esquerda. O chanceler Ernesto Araújo afirmou o mesmo em visita ao Senado, durante debate com o senador Randolfe Rodrigues.

Para quem acompanha a atuação dessa nova direita brasileira na internet desde muito antes da ascensão de Bolsonaro, não há nenhuma novidade nessas falas. O guru intelectual do movimento que levou um deputado do baixo clero à presidência da República, Olavo de Carvalho, já esposa essa tese há um bom tempo, com as certezas arrogantes que lhes são características. Mas, afinal, faz algum sentido debater a localização do nazismo no espectro político, suspeitando de sua convencional caracterização como movimento de extrema-direita?

Não muito, se com base nos argumentos utilizados por Carvalho, Bolsonaro, Araújo et caterva. Tais figuras estão engajadas politicamente numa cruzada para, entre outras coisas tenebrosas, reescrever a história (não só do Brasil) com base em distorções e meias verdades. Carvalho, por exemplo, defende que Hitler foi uma criação de Stalin para destruir a Europa ocidental numa guerra e abrir caminho para o avanço do comunismo – desconsiderando, ao seu bel prazer, a trajetória política do próprio líder nazista e da extrema-direita alemã, que têm início num período anterior à ascensão de Stalin ao poder na União Soviética. Ou será que Carvalho arriscaria construir alguma aproximação entre as organizações paramilitares nacionalistas, criadas na Alemanha nos estertores da Primeira Guerra Mundial, e o comunismo? Seriam as Freikorps, por exemplo, comunistas?

Além disso, o argumento dos interesses de Stalin na guerra europeia é, em si, tolo. É verdade que uma eventual destruição do continente europeu, engolfando suas economias capitalistas e sistemas políticos liberais, poderia abrir caminho para a ascensão dos partidos comunistas nacionais. É verdade também que o governante soviético adotou, no início da década de 1930, uma postura refratária às possibilidades de aliança entre comunistas e sociais-democratas (apelidados por ele de sociais-fascistas), o que facilitou a chegada de Hitler ao poder. Mas, ora, estamos aqui no campo da realpolitik, da adoção de estratégias políticas que podem se revelar certas ou erradas com o tempo, e do estabelecimento de horizontes de expectativa com base nessas estratégias. Saltar daqui para “Stalin criou Hitler” é distorcer a história da maneira mais vulgar imaginável. E, vale observar, a partir de meados daquela mesma década o Partido Comunista da União Soviética (PCUS) e o Comintern mudaram de atitude, passando a defender as alianças amplas com setores democráticos contra o avanço fascista. Não à toa, o regime soviético apoiou os republicanos contra Franco (aliado a Hitler e Mussolini) na Guerra Civil Espanhola, entre 1936 e 1939.

Há, claro, os argumentos mais essencialistas, do tipo que tomam o nome do partido nazista (Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, NSDAP) como prova de seu posicionamento na esquerda. Segundo essa lógica, se um partido se proclama “socialista”, ele só poderia ser de esquerda. Se ainda há um “dos trabalhadores” em sua sigla, talvez até seja possível uma aproximação com o PT. Aqui se encontram a estupidez dos que acreditam em argumentação tão rasa com a mera manipulação política conduzida por olavistas e bolsonaristas, visando a associar seus adversários a tudo que há de negativo na história. O comentarista de política internacional da Globo News, Guga Chacra, respondeu em tom adequado, dizendo que, por seu nome, o Partido Social Liberal (PSL) de Bolsonaro seria considerado de esquerda nos Estados Unidos. Outras pessoas lembraram da República Democrática Alemã (RDA), que era como o regime comunista da Alemanha Oriental, bem pouco democrático, se autoproclamava.

Mas talvez seja possível tirar algo de positivo desse misto de sandice e mau-caratismo. Tratar as distorções históricas da nova direita brasileira como estímulo para estudar e debater mais história pode ser um caminho interessante. E, nessa chave do debate franco e embasado, é pertinente tornar mais complexas algumas leituras sobre o nazismo. Dois pontos merecem especial destaque aqui: a concepção de “nacional socialismo” e o caráter revolucionário do movimento encabeçado por Hitler.

Para além do nominalismo tacanho de olavistas e bolsonaristas, o primeiro ponto revela uma disputa pelo termo “socialismo” naquela primeira metade do século XX. O socialismo de matriz marxista, reivindicado por partidos e movimentos de esquerda, está associado à crítica ao capitalismo e às hierarquias, ao igualitarismo social e ao combate às desigualdades, tendo os trabalhadores como agentes de uma transformação em escala internacional. Para os nazistas, no entanto, esse não era o “verdadeiro” socialismo.

O historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva (2000) destaca o que chama de “utopia fascista”, relacionada à mitificação de um passado (medieval, no caso alemão) comunitário, supressor de liberdades individuais. Da construção de uma nova sociedade baseada nesse passado, negando, portanto, toda a tradição política e intelectual derivada do Iluminismo e da Revolução Francesa (marcada, por um lado, pela defesa das liberdades individuais, e, por outro, pela emergência da luta contra hierarquias sociais instituídas), advém o socialismo nazista, um socialismo nacional que contém componentes fortemente reacionários. Portanto, o liberalismo, mas também o marxismo e o bolchevismo são vistos pelo nazismo como “filhos de 1789”. Logo, como inimigos a serem abatidos.

Mas a utopia nacional-socialista seria construída a partir de uma revolução. Entra aqui o segundo ponto. Para Teixeira da Silva, tal revolução destruiria a ordem liberal-burguesa, bem como o bolchevismo, e construiria um novo tecido social, baseado na união harmoniosa entre capital e trabalho, família, comunidade profissional e local, a bem dos interesses da nação. Ora, se o marxismo e as vertentes políticas originárias nele (comunismo, socialismo, bolchevismo) também pretendem destruir a ordem liberal-burguesa, sua concepção de sociedade a ser construída é oposta à do nazismo. A revolução comunista é internacionalista e baseada na luta de classes, enquanto a nazista é nacionalista e baseada na conciliação de classe e no componente racial.

Pode soar estranha a ideia de uma “revolução de direita”. A historiadora Denise Rollemberg (2017) defende essa possibilidade, considerando tanto o radicalismo de algumas mudanças empreendidas pelo nazismo quanto a ideia de uma “revolução da alma” – termo usado por Robert O. Paxton (2007) –, mais baseada numa mudança profunda de valores e referências do que na alteração das condições materiais da sociedade.

E há um último aspecto a ser considerado: a passagem do fascismo e do nazismo da condição de movimento político à de governo. Na prática, ao ascenderem ao poder, Mussolini e Hitler lideraram um processo de abandono do viés anticapitalista de seus respectivos movimentos, se unindo ao status quo econômico da Itália e da Alemanha. É bastante conhecida, por exemplo, a participação de grandes empresas alemãs na reconstrução do país sob Hitler e, posteriormente, no esforço de guerra e na exploração de mão de obra escrava, proveniente dos campos de concentração. Dessa forma, o historiador britânico Ian Kershaw (2016) entende que a revolução foi, na pratica, trocada pela contrarrevolução: o combate à ameaça comunista se tornou prioridade.

Por fim, é importante reconhecer que, em vídeo recente, Carvalho modificou sua posição sobre o tema, citando o historiador israelense Zeev Sternhell para ressaltar a dificuldade de localizar o nazismo com precisão no espectro político, dada sua apropriação de componentes característicos das esquerdas e das direitas tradicionais. No entanto, a semente da distorção histórica já foi plantada e semeada por anos pelo autoproclamado filósofo – curiosamente, um conhecido crítico do Iluminismo e da Revolução Francesa, sujeito frequentemente lembrado como figura de proa de uma suposta “revolução de direita” em curso no Brasil. Seria Olavo de Carvalho nazista?

 

Wallace Andrioli Guedes é doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), pós-doutorando em História na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF),  além de colaborador da Escuta.

** Crédito da imagem:  <https://brasilescola.uol.com.br/historiag/nazismo.htm&gt; Acesso em: 16 maio 2019.

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