Silmara L. Marton*

Andrés del Río**

O grito se fazia mais forte, mais intenso na conhecida Praça do Papão, no centro da cidade de Angra dos Reis, estado do Rio de Janeiro! Foi assim que no dia 08 de maio de 2019, um movimento gigante e catártico de jovens estudantes, professores e funcionários do Instituto de Educação de Angra dos Reis da Universidade Federal Fluminense se formou na praça pública, como parte da agenda prevista por todos os campi da mesma universidade em Ato “Eu defendo a UFF”, a única universidade pública da região. Em meio a população angrense e seus transeuntes, se formava ali naquela tarde um quasar pulsante da comunidade acadêmica que, com muita emoção, entoava palavras e gritos e saltava do chão pela defesa da Universidade Pública, pela Educação de qualidade, pela defesa dos direitos dos trabalhadores. Essa força se expandia nos outros e em todos nós.

Do que emergiu tamanha força? Não foi da noite para o dia. Mas, também não demorou muito para que, movidos pela indignação e coragem, estudantes e professores se organizassem para as aulas públicas e Ato para esse grande dia – uma manifestação histórica de todos os campi da UFF contra o corte de 30% de verbas no orçamento da UnB, UFBA e UFF operado pelo Ministério da Educação dias antes e seguido do aviso da extensão da mesma medida para as demais instituições federais de ensino superior no Brasil.

A movimentação estudantil já tinha iniciado bem antes e é difícil aqui em poucas linhas traduzir a sua articulação e organização que se deu por dias, noites e madrugadas a fio. Certamente os próprios estudantes têm muito mais a dizer sobre isso. Porém, como professores que convivemos com esses alunos e tantos outros no espaço do IEAR/UFF, somos testemunhas das ações cotidianas criativas e críticas que vêm produzindo há alguns anos por meio de suas reuniões, assembléias e atividades. Há grupos genuinamente formados por estudantes, entre outros, como é o caso do Ubuntuff (coletivo de estudantes negros da UFF) e do Diversifica (coletivo de LGBT´s da UFF) no instituto, que se somam aos demais estudantes trabalhadores em defesa desse seu espaço no ensino superior público.

São em torno de 700 estudantes espalhados nos cursos de licenciatura em Pedagogia e Geografia e no bacharelado em Políticas Públicas que ingressaram no IEAR-UFF, em sua ampla maioria, em decorrência das políticas educacionais de expansão do ensino superior, adotadas pelos governos Lula e Dilma desde 2003 a 2015, acompanhadas da entrada de mais professores doutores por concursos públicos. Desde sua criação em 2009, precedida pela existência de um curso de Pedagogia na UFF[1], em Angra, o IEAR vem se consolidando com grande resistência e, cada vez mais, como expressão fundamental na região de ensino superior público, gratuito e de qualidade, através de seus projetos de iniciação à docência, licenciatura, pesquisa e extensão e demais outras atividades de diálogo com comunidades locais.

Esses mesmos estudantes, muitos deles são trabalhadores que nasceram e/ou residem na região Sul Fluminense e quase a metade são oriundos de outras cidades e estados desse imenso país desigual e injusto, os quais enfrentam a falta de moradia estudantil consolidada, passam por situações de vulnerabilidade em vários níveis (como alimentação não adequada) e são afetados diretamente no seu desempenho e em sua saúde física e mental. Mas, ao mesmo tempo, resistem com muita coragem e esperança. Convivem pacificamente as diferentes crenças, e muitos dos estudantes são evangélicos e cristãos que, a partir do acesso a outras referências teóricas e visões de mundo que circulam no espaço acadêmico, experimentam um processo não menos difícil e dialético em suas consciências e, simultaneamente, se oferecem como possibilidades para que o discurso científico se abra ainda mais e seja múltiplo, diverso e polifônico. Muitos entre todos esses estudantes que integram o IEAR-UFF vêm se formando como licenciados em Pedagogia, Geografia e bacharéis em Políticas Públicas. Alguns têm seguido a carreira de pesquisa, haja vista que alguns deles integram atualmente cursos de mestrado em universidades no Rio de Janeiro, Niterói, Seropédica e São Gonçalo. Outros são professores de escola públicas da região e em outras cidades.

Como nunca houvera antes na história das universidades do Brasil, as mulheres negras e homens negros passaram a entrar nesses espaços, pelo regime de cotas[2]. Esse regime que se tenta demonizar e eliminar. Foram 173 campi universitários e 360 institutos técnicos federais construídos nesse período. Foram formados cerca de 400.000 profissionais e financiados 2.500.000 milhões de pobres, que não tinham como entrar na universidade até então. Foram pretos e pardos que passaram a 13% dos universitários, enquanto no governo anterior eram apenas 5% do total de alunos nas universidades.

Dia 08, na Praça do Papão em Angra dos Reis, foi um acontecimento. Foi uma tarde que iniciou com as aulas abertas dos professores rodeados de alunos compenetrados em aprender sobre “estudos sociais da infância” e a importância dos adultos em ouvirem as próprias crianças; a escuta de “paisagens sonoras” como modo de se exercitar uma “pedagogia da escuta” e de se educar pela arte e filosofia na vida e, sobre a importância da política, pois nos leva a ter a consciência no nosso pertencimento à “pólis”, ao espaço público e pela necessidade do uso da palavra que argumenta, que ouve, que discute, que pensa, que dialoga, que transforma.

Aos poucos, ao cair da tarde, mais gente que ali se encontrava no centro da cidade de Angra dos Reis se juntava à manifestação, além de outros professores, esses oriundos das escolas públicas da região, que já vêm lutando cotidianamente nesses espaços para que sua profissão seja respeitada. Entre várias das organizações e movimentos na rua, contamos com a presença expressiva dos guaranis do magistério indígena da região. Alem deles, contamos com o apoio do sindicato de trabalhadores da Verolme, colaborando com um carro de som e outros sindicatos da comunidade local estiveram ali acompanhando toda a passeata pelas ruas do centro de Angra dos Reis até a Praça do Zumbi, onde se deu o lindo desfecho do Ato de 08 de maio: as atividades culturais.

Aquele dia de manifestação foi grandioso também por uma outra razão: se fez escutar por uma população angrense e, muito provavelmente, por meio das palavras de ordem dos manifestantes em favor da educação pública e contra a reforma da previdência, foi ela conduzida a escutar a si mesma e o lugar onde vive. Se até pouco tempo atrás aparentava o morador da região estar acostumado com o turismo exacerbado, a violência, a especulação imobiliária, a tomada dos morros pelo tráfico, a morte, hoje parece não ser possível. Sabe-se que a violência está por toda a parte, mas ainda existe muito silêncio. Lembremos que Angra dos Reis foi um dos espaços onde o bolsonarismo teve uma quantidade expressiva de votos, superando os 70%.

Dias antes de 8 de maio, a população foi acometida por uma abordagem extremamente violenta do governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel que, com o discurso de que “acabaria com a bagunça”, havia participado de uma ação, a pedido do prefeito da cidade Fernando Jordão, e juntamente com o Batalhão de Operações Especiais – Bope, para colocar fim à violência promovida pelo crime organizado em algumas comunidades da região. Nas redes sociais aparece a imagem de um governador dentro de um helicóptero sobrevoando Angra e do qual foram disparados tiros sobre alguns pontos da região. Por sorte, uma tenda de evangélicos estava vazia quando sobre ela foram disparados dez tiros. O que esperar de um governador com gana de cometer assassinato?

Angra dos Reis é um cartão postal? É conhecida por possuir 365 ilhas paradisíacas, com águas verdes, claras e transparentes, rodeada de mata atlântica e alvo atrativo para turistas do Brasil e, principalmente, de várias outras partes do mundo. De fato, a região de Angra dos Reis é maravilhosa e resguarda uma paisagem natural rara e diversificada, porém, ao mesmo tempo e contraditoriamente, é uma zona de conflito de terras e de tráfico, de pobreza, de violência. Nos últimos dois anos, são vastas as notícias de cobertura de jornais locais sobre disputa entre facções do tráfico, violência[3] , desemprego com o fechamento de mais de 10 mil vagas de trabalho e queda do número de trabalhadores da construção naval, como os funcionários do Estaleiro Brasfel de 12 mil para 1,2 mil[4]. Angra possui índice alto de homicídios contra mulheres[5]. Angra é uma terra cobiçada pelos grandes empresários e especuladores de terras. Por essa razão também, as comunidades indígenas e quilombolas resistem e lutam pela demarcação de seus territórios há décadas.

Ter uma universidade pública nesse lugar já é a instauração de uma contracorrente a essas condições pelas quais passa a população, que vive em estado de pobreza, desigualdade social, violência, com direitos humanos comprometidos e à gradativa exclusão dos seus direitos à saúde e educação. Ter uma universidade com jovens trabalhadores da cidade e de demais outras cidades desse país imenso é uma lufada de esperança! É uma maneira de afirmar que é possível sim, a partir da educação, alterar a reprodução de uma ordem social desigual e injusta na sociedade brasileira por meio da formação crítica, sensível e comprometida de estudantes jovens que, engajados nessa luta histórica, poderão alterar seus destinos e das futuras gerações.

Os estudantes que hoje ocupam os espaços da universidade não viveram o tempo de 68, mas eles são também a realização das utopias daquelas gerações anteriores. Hoje são jovens mulheres negras e pardas, jovens homens negros e pardos, LGBT´s, em sua grande maioria, oriundos de classes populares, pois no Brasil há discriminação sim. Há racismo sim, há divisão de classes e é entre os negros pobres que há mais exclusão de direitos e violência e, entre as mulheres negras e pobres, ainda mais exclusão de direitos e violência.

Naquele dia 08 de maio de 2019 na Praça do Papão, no centro de Angra dos Reis, aconteceu um aumento gigantesco de nossas potências de agir, estudantes, professores e funcionários do IEAR-UFF em conexão com a comunidade local. 15 DE MAIO DE 2019 será o dia da GREVE NACIONAL DA EDUCAÇÃO. Será ainda mais forte, intenso e alegre o movimento!

* Silmara L. Marton é Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e Professora Adjunta de Filosofia da Educação IEAR – Universidade Federal Fluminense. Colabora com a Escuta.

** Andrés del Río é Doutor em Ciência Política pelo IESP-UERJ e professor adjunto da Universidade Federal Fluminense. Colabora com a Escuta.

em https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/05/escolas-particulares-de-sao-paulo-vao-parar-em-dia-de-protestos.shtml

Notas

[1]          Disponível em site do IEAR – www.iear.uff.br: “A história do Instituto de Educação de Angra dos Reis da Universidade Federal Fluminense, o IEAR-UFF, está intimamente ligada à experiência pioneira e inovadora proporcionada pela parceria entre esta Universidade e a Prefeitura Municipal de Angra dos Reis, em consonância com as experiências que se multiplicam em meio ao movimento de redemocratização do Brasil ao longo dos anos 1980, tendo como resultado a criação, na década de 1990, do primeiro curso de Pedagogia de Angra dos Reis, fruto de projetos de extensão universitária e assessoria pedagógica realizados pela Faculdade de Educação da UFF-Niterói”.

[2]             Disponível em site da UFF, acessado em 12 de maio de 2018: “ALei nº 12.711 de 29 de agosto de 2012 garante a reserva de 50% das matrículas por curso e turno nas universidades federais e institutos federais de educação, ciência e tecnologia a alunos oriundos integralmente do ensino médio público, em cursos regulares ou da educação de jovens e adultos. Os demais 50% das vagas permanecem para ampla concorrência. Esta Lei foi regulamentada pelo Decreto nº 7.824 de 11 de outubro de 2012, que define as condições gerais de reservas de vagas, estabelece a sistemática de acompanhamento das reservas de vagas e a regra de transição para as instituições federais de educação superior”.

[3]     Angra dos Reis, conforme dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) do Estado do Rio de Janeiro, teve 123 homicídios entre os meses de janeiro a setembro de 2018 e que Angra dos Reis é o local mais violento da região Sul Fluminense. Disponível em https://tribunasf.com.br/angra-dos-reis-123-assassinatos-nos-nove-meses-de-2018/ Acesso em 12 de janeiro de 2019.

[4]                 Informação disponível no Jornal Online Globo Rio Sul, de 19 de abril de 2019. Acesso em 12 de janeiro de 2019.

[5]     Em sistematização de pesquisa do Prof. Dr. André Rodrigues (IEAR-UFF) sobre “Violência letal e violência contra as mulheres na Bahia da Ilha Grande e Região”, do LEPOV – Laboratório de Estudos sobre Política e Violência, coordenado pelo mesmo professor, nos dois últimos anos houve aumento do índice de violência letal contra mulheres nos municípios de Angra dos Reis, Mangaratiba, Paraty e Rio Claro, sendo que 55% das vítimas são negras ou pardas. Conforme dados da pesquisa, essa mesma proporção aparece no município de Angra dos Reis, ou somente nas mortes decorrentes de intervenção policial no município.