Por Fernando Perlatto*

A coluna “Escuta Recomenda” é publicada aos domingos, assinada por um dos editores da revista, Fernando Perlatto, com sugestões de leituras de textos de política e de cultura, publicados na imprensa ao longo da semana, além de indicações de livros.

Política

A semana foi marcada pela publicação de artigos que procuraram refletir sobre as ameaças e os riscos à democracia brasileira representadas pelo governo Bolsonaro, que, em feliz definição no último episódio do “Fórum de Teresina”, podcast da revista Piauí, o jornalista José Roberto de Toledo denominou de “caquistocracia”, o governo dos piores.

* A cientista política Maria Hermínia Tavares de Almeida, em artigo publicado na Folha, na quinta, intitulado “A batalha da hora”, destacou os riscos para a democracia brasileira: “Que ninguém se engane. Como ele se jactou mais de uma vez, Bolsonaro veio para destruir “isso daí” —e “isso daí” nada mais é do que a democracia com compromisso social, inscrita na Constituição de 1988. Assim fará, se puder”. Apesar dos riscos, Almeida chama a atenção para os possíveis focos de resistência as ataques perpetrados pelo governo: “Sem esquecer que, da experiência de construção democrática no país, nasceu uma multiplicidade de organizações e redes —reais ou virtuais— de ativistas que se ocupam da defesa de direitos dos múltiplos grupos identitários da sociedade. (…) Por fim, há uma imprensa plural que, embora predominantemente conservadora, não é por natureza oficialista. Do lado dos freios institucionais, cabe lembrar que a estrutura federativa do Estado; o multipartidarismo; um Congresso fragmentado no qual a maioria situacionista nunca é dada, mas tem que ser construída; e os poderes ampliados das instituições que formam o sistema de Justiça se traduzem em robustos diques de contenção às tentações hegemônicas do Executivo”

Leia o artigo de Maria Hermínia Tavares de Almeida em:

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/maria-herminia-tavares-de-almeida/2019/05/a-batalha-da-hora.shtml

* A reflexão sobre os riscos para a democracia no país também está presente no artigo “Quando será tarde demais?”, de Conrado Hübner Mendes, na revista Época. Em diálogo com David Runciman, autor do livro Como a democracia chega ao fim, destaca “dois motores principais” para o enfraquecimento d democracia: “a fadiga da legalidade e a erosão da infraestrutura material da democracia. O primeiro ocorre quando autoridades testam a força da lei até que se esgote o estoque de energia e capital político das instituições de controle. O Judiciário, mesmo que não capitule por vocação, não aguenta sozinho por muito tempo. O segundo diz respeito ao processo de exacerbação do antagonismo social, de degradação das condições para o exercício da liberdade na diferença. A imprensa, as salas de aula e as instituições culturais sentem o golpe e se autocensuram por instinto de sobrevivência”. Mendes conclui seu texto com a pergunta provocadora: “Quando será tarde demais? Quando os compromissos de 1988 serão desmoralizados por completo?”

https://epoca.globo.com/quando-sera-tarde-demais-23651869

* Para uma visão menos pessimista sobre a crise das democracia, indico a leitura da entrevista do cientista político Adam Przeworski, publicada neste domingo na “Ilustríssima”, da Folha: “É verdade que muitas democracias estão passando por crises de instituições representativas, crises que têm profundas raízes nas condições econômicas, sociais e culturais. Essas crises podem durar muito tempo e algo terá que mudar, mas acredito que a democracia, como método de escolher governos por meio de eleições, está aqui para ficar”. Apesar da crença otimista na resistência da democracia, Przeworski alerta: “O que é novo é a subversão da democracia por políticos democraticamente eleitos, uma erosão gradual da democracia por meios constitucionais, como na Venezuela, na Turquia, na Hungria e talvez no meu país natal, a Polônia. (…) as erosões graduais da democracia por meios legais são um fenômeno relativamente novo e ainda não conhecemos seus padrões”.

Leia a entrevista de Adam Przeworski em:

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/05/morte-da-democracia-virou-bordao-para-atrair-imprensa-diz-autor.shtml?utm_source=facebook&fbclid=IwAR0freeo6QNrgFZiV-kR7JJG_9xuBznxJ-DU1MB0i6XjYmk9aO1X8XO6A94

* Retornando ao governo Bolsonaro, Rosângela Bittar, em texto chamado “Os sabotadores”, publicado na quarta-feira, no Valor, destaca aspecto importante sobre as crises desta semana envolvendo Olavo de Carvalho e os militares: Bolsonaro não é vítima do “esquema de sabotagem formulado por Olavo de Carvalho e executado pelos filhos do presidente”, mas “é coautor”: “É agente ativo e, com sua frouxidão, participa do processo de humilhação impingido aos militares e ministros do núcleo de poder presidencial, atacados pelos que estão sob a proteção da distância virtual.”

Leia o artigo de Rosângela Bittar em:

https://www.valor.com.br/politica/6244691/os-sabotadores

* Sobre a crise no governo desencadeada pelos enfrentamentos entre “olavistas” e militares, vale a leitura do artigo de Mario Sergio Conti, publicado no sábado na Folha, no qual o autor destaca o caráter “bonapartista” do governo Bolsonaro: “O recurso à arruaça decorre da natureza do governo, que é bonapartista. Bolsonaro está mais próximo do segundo que do primeiro Napoleão; mais perto do Bonaparte sobrinho do que do tio. (…). Em sendo assim, é da lógica de Napoleão 3º se alçar acima das classes, incitando querelas abaixo dele. O surgimento de uma liderança, mesmo na copa e cozinha do Planalto, curto-circuita o seu poder. Bolsonaro Bonaparte é divisionista e diversionista porque precisa”

Leia o artigo de Mario Sergio Conti em:

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/mariosergioconti/2019/05/napoleao-3o-derrota-trotski.shtml

* Ainda sobre a disputa entre “olavistas” e militares, merecem destaque também dois artigos publicados na Folha, por Reinaldo Azevedo na sexta e por Demétrio Magnoli, no sábado, que convergem na sugestão aos militares que abandonem o governo caótico de Bolsonaro. Para Azevedo: “Bolsonaro queria apenas a sua honorabilidade, não suas opiniões, seu senso de dever, sua moralidade, seus compromissos com o que apropriadamente chamam “pátria”. Esses valores não são compatíveis com a gramática do poder em curso”. Para Magnoli: ““Os populismos certamente são capazes de matar as democracias por dentro (Turquia, Hungria, Venezuela). No Brasil, porém, mais provável é que a ‘revolução’ bolsonaro-olavista provoque a implosão do próprio governo Bolsonaro. Se os generais não querem aparecer como cúmplices do desastre, resta-lhes apelar à retirada tática”.

Leia o artigo de Reinado Azevedo em:

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/reinaldoazevedo/2019/05/voltem-para-os-quarteis-soldados-deu-tudo-errado.shtml

Leia o artigo de Demétrio Magnoli em:

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/demetriomagnoli/2019/05/retirada-tatica.shtml

* Vários textos publicados na imprensa ao longo desta semana buscaram refletir criticamente sobre o absurdo decreto de porte de armas editado pelo governo Bolsonaro, que, na prática, coloca, de modo arbitrário, fim ao Estatuto do Desarmamento. Destaco o artigo do pesquisador e Diretor-Presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima publicado na quarta, na Folha: “A medida assinada pelo presidente Jair Bolsonaro é claramente uma tentativa de enterrar o Estatuto do Desarmamento, que está em vigor no país desde 2003. Deixa a impressão que estamos voltando aos tempos da ditadura, quando os governos preferiam legislar por ‘decretos-lei’. Como não estamos na ditadura, é inconcebível que um decreto altere uma lei votada no Parlamento e longamente discutida na sociedade”. Neste domingo, no Globo, a co-fundadora e diretora do Instituto Igarapé, Ilona Szabó de Carvalho também publica um bom artigo no qual demonstra os riscos para o aumento da violência contidos no decreto: “Além de ilegal, o decreto é uma sucessão de irresponsabilidades e com potenciais consequências letais para a sociedade. (…) O decreto da morte precisa ser derrubado com máxima urgência. Precisamos nos mobilizar como sociedade para cobrar ação rápida e contundente dos Poderes Legislativo e Judiciário”

Leia o artigo de Renato Sérgio Lima em:

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/05/decreto-de-bolsonaro-e-um-deja-vu-autoritario.shtml

Leia o artigo de Ilona Szabó de Carvalho em:

https://oglobo.globo.com/opiniao/artigo-vidas-nao-sao-moeda-de-troca-23659765

* Outros textos publicados na imprensa buscaram conexões entre o decreto assinado pelo presidente e as características autoritárias do governo Bolsonaro. Destaco, nesse sentido, o artigo de Eugênio Bucci, no Estadão, na quinta, com o ótimo título “Um país se desfaz com machões e armas”: “Imagens explícitas da fusão doentia entre virilidade e pólvora nunca foram tão obscenas – e tão oficiais – no Brasil. Nunca a política esteve tão entregue ao tiroteio. (…) A macheza fumegante ocupa o topo da pirâmide das virtudes políticas” Mais adiante: “Não há mais como ter dúvidas: o que está em formação no Brasil é um pacto autoritário, de viés fascistizante, que anuncia aos súditos uma bonança que será produzida por tiros de fuzil”. Em artigo intitulado “Bem-vindo ao porão”, publicado na Folha, na sexta, Vladmir Safatle destaca aspectos semelhantes: “A função disso é simples: é a lógica Sérgio Fleury no poder. Está tudo pronto para um país emergir de grupos de milicianos, de esquadrões da morte, com o beneplácito da vista grossa do governo. Quem aplaude torturadores só pode mesmo esperar que o país vire o paraíso do extermínio de pobres, pretos, índios e ativistas”. Já Janio de Freitas, na Folha de domingo, destaca a trajetória de Bolsonaro, sempre associada à violência: “Sempre apoiado pelo mesmo segmento eleitoral, em Brasília ligou-se à bancada da bala e aos ruralistas. E deu continuidade ao uso da tribuna para a apologia dos crimes de morte da ditadura, torturadores, policiais degenerados e operações de extermínio. A relação dos Bolsonaros com milicianos estava aí anunciada. Questões como saúde e educação nunca o interessaram. Já a tomada de terras indígenas, o morticínio de tribos por grileiros, madeireiros e policiais, a expulsão de favelados não deixaram de o animar: contra as vítimas, sempre na defesa da violência. A letal, sobretudo. Trinta anos de vida mansa, egocêntrica, desumana em muitos sentidos.”

Leia o artigo de Eugênio Bucci em:

https://opiniao.estadao.com.br/noticias/espaco-aberto,um-pais-se-desfaz-com-machoes-e-armas,70002821488

Leia o artigo de Vladmir Safatle em:

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/2019/05/bem-vindo-ao-porao.shtml

Leia o artigo de Janio de Freitas em:

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/janiodefreitas/2019/05/vida-publica-de-bolsonaro-e-demarcada-por-ideia-da-morte.shtml

* Outra temática relevante na semana foi aquela referente aos ataques do Ministro da Educação às universidades públicas. Sobre o tema, vale a leitura do artigo de Celso Rocha de Barros, publicado na segunda-feira na Folha, “Guerra às universidades”, que destaca de que maneira estes ataques às universidades se aproximam de movimentos realizados por governos reacionários como o de Viktor Orbán na Hungria: “Recentemente, o líder húngaro mudou a lei para inviabilizar a permanência da Universidade Centro Europeia (CEU) na Hungria. A universidade deve se transferir para Viena, na Áustria”. Em entrevista publicada pelo jornal Nexo Jornal, o professor da Universidade de Yale, Jason Stanley, também destacou esta frente internacional anti-intelectual. Já em artigo publicado na sexta, no blog da revista Cult, intitulado “As universidades públicas e a bizarra segregação brasileira”, Tatiana Roque destaca um aspecto essencial da defesa das universidades públicas: “Devíamos encarar, contudo, como prioridade civilizacional manter vivo um dos únicos espaços públicos em que filhos de famílias mais pobres e mais ricas – assim como brancos e negros – convivem, com razoável igualdade de direitos. Nossas escolas são segregadas, nossos hospitais são segregados. Restam poucos locais agregadores para além a universidade pública. (…). Asfixiar os raros espaços democráticos que conquistamos pode ser traumático, pois, mesmo em tamanho reduzido, esse é um pedaço de Brasil que deu certo”. Em artigo publicado no jornal O Globo deste domingo, “Desmonte!”, o professor titular da UFRJ Marco Lucchesi faz uma crítica veemente às tentativas de desmonte das universidades públicas e defende a necessidade da resistência frente aos ataques: “Tenho mais de 50 anos e nunca me senti tão vilipendiado como professor. Os reitores das universidades são tratados como agentes da desordem e do ‘marxismo cultural’ (…). Não busco a imprecação e o pugilato. Trabalho no campo das ideias, de modo contundente e ao mesmo tempo respeitoso. Mas não vou assistir, de braços cruzados, ao desmonte da Universidade pública”.

Leia o artigo de Celso Rocha de Barros em:

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/celso-rocha-de-barros/2019/05/guerra-as-universidades.shtml

Leia a entrevista de Jason Stanley em:

https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2019/05/08/O-que-há-de-brasileiro-e-de-global-nos-cortes-nas-universidades

Leia o artigo de Tatiana Roque em:

https://revistacult.uol.com.br/home/universidades-publicas-segregacao-brasileira/

Leia o artigo de Marco Lucchesi em:

https://oglobo.globo.com/opiniao/artigo-desmonte-23659749

* Ainda sobre as destruições na era Bolsonaro, indico o artigo publicado na quinta, na Folha, da cientista política Debora Rezende de Almeida, sobre o decreto editado pelo governo que extingue mais de 50 conselhos e colegiados, com participação da sociedade civil: “Os fóruns compostos por governo e sociedade civil são resultado da luta de vários atores na redemocratização e não pertencem a um partido. São fruto de debates intensos durante a Constituinte sobre como seria possível reverter nossa história autoritária e excludente, especialmente no campo da formulação das políticas públicas, marcado por um debate entre elites. Ademais, os conselhos são importantes instrumentos de controle do Estado”. Relacionado a esta temática, destaco artigo do cientista político Adrian Gurza Lavalle, publicado na “Ilustríssima”, da Folha, neste domingo, no qual aborda o decreto que extingue conselhos e destaca o quanto o Brasil é um país “inóspito ao ativismo social”: “O Brasil é inóspito ao ativismo social. Relatórios comparativos internacionais das entidades Global Witness e Anistia Internacional, publicados em 2018, situam o país entre aqueles com maior número de assassinatos de ativistas dedicados à defesa dos direitos humanos e do meio ambiente. O governo do presidente Jair Bolsonaro tem se mostrado determinado a tornar ainda mais hostis as condições para a mobilização social.”

Leia o artigo de Debora Rezende de Almeida em:

https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2019/05/representacao-precisa-de-participacao.shtml

Leia o artigo de Adrian Gurza Lavalle em:

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/05/brasil-e-ambiente-inospito-ao-ativismo-social-diz-pesquisador.shtml

* Em busca para aumentar sua já combalida popularidade, o presidente Bolsonaro se dedicou nesta semana a participar de programas de televisão, como o de Sílvio Santos e Luciana Gimenes. Em sua coluna publicada na quinta-feira, no jornal O Globo, Bernardo Mello Franco destaca: “Não é só por estética que brilham os olhos de Luciana. Como revelou a colunista Bela Megale, a apresentadora acaba de ser contratada como garota-propaganda do governo. Vai receber dinheiro público para elogiar a reforma da Previdência. O animador Ratinho também entrou no pacote. Não vai faltar café no bule”.

Leia a coluna de Bernardo Mello Franco em:

https://blogs.oglobo.globo.com/bernardo-mello-franco/post/sem-resolver-crises-bolsonaro-compra-elogios-na-tv.html

* Sobre a base social do governo Bolsonaro, merece destaque a entrevista publicada na terça pela Folha da antropóloga Rosana Pinheiro-Machado sobre a transformação do “lulismo” em “bolsonarismo”. Sobre a temática, também vale destacar que a revista Piauí retomou a divulgação do ótimo artigo escrito pela jornalista Consuelo Dieguez e publicado na edição de janeiro de 2019, “Juventude Bolsonarista”, na qual traça um retrato sobre a juventude que aderiu à campanha de Bolsonaro, tendo como uma de suas protagonistas a empresária Letícia Catelani, demitida esta semana da APEX, pelo seu novo presidente, o almirante Sergio Ricardo Segovia Barbosa.

Leia a entrevista de Rosana Pinheiro-Machado em:

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/04/transformacao-de-lulismo-em-bolsonarismo-e-detectada-em-estudo-na-periferia.shtml

Leia o artigo de Consuelo Dieguez em:

 https://piaui.folha.uol.com.br/materia/juventude-bolsonarista/?fbclid=IwAR1y3eeSedlck7vtvpr9PgzOZcqSuONCUq92YfafrR5_JiIiaN7gyJYPpxgDNGfDWDeKrWosVIGE6Zl11KlvBZ5xa7Z0N5J4HwwXzG6mx2BIG5uIUeGfcLF_nFlUymD452d3-lWiJ_BVPesaEthg

* Entre os assuntos da semana, destaca-se a decisão da comissão mista do Congresso que analisa a Medida Provisória (MP) 870, sobre a reforma administrativa do Governo Bolsonaro, que decidiu retirar do Ministério da Justiça e Segurança Pública, comandado por Sergio Moro, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Os reveses enfrentados pelo ministro Moro, desde sua posse, são objetos de análise dos editoriais do Estadão e da Folha publicados neste domingo:

Leia o editorial do Estadão em:

https://opiniao.estadao.com.br/noticias/notas-e-informacoes,um-superministro-sem-forca,70002825032

Leia o editorial da Folha em:

https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2019/05/derrotas-de-moro.shtml

* O cientista político Fernando Limongi publica no caderno “Ilustríssima”, da Folha, neste domingo um artigo que destaca a tensão entre os três poderes no país: “Escrita por congressistas, a Constituição de 1988 reforçou os poderes do Executivo e do Judiciário em detrimento do Legislativo. Prevaleceu, como sintetizou o ministro do Supremo Tribunal Federal Luís Roberto Barroso, a falta de confiança no legislador ordinário”. Destaco também dois artigos que foram publicados na terça-feira, que dão evidência às tensões que atravessam os três poderes da República. Em artigo publicado na Folha, o Ministro do STF, Ricardo Lewandowski, fez uma crítica explícita às “corporações”, que vêm ampliando seus poderes de atuação, defendo a limitação de suas atuações: “Entre nós, certos estamentos, na acepção sociológica da palavra, como ministérios públicos, órgãos de fiscalização, polícias em geral, guardas municipais, agências reguladoras, repartições fazendárias, setores do funcionalismo e até mesmo segmentos da magistratura, nos últimos tempos, vêm ampliando sua atuação, sem maiores obstáculos, mediante diferentes pretextos, para muito além das respectivas esferas de competência, transmudando-se em verdadeiros –embora anômalos– atores políticos. (…). Cumpre aos poderes constituídos – os quais ainda se resumem aos três originalmente idealizados por Montesquieu – tornar a inseri-las nos lindes de onde têm extrapolado com inusitada desenvoltura, sobretudo por meio de medidas que visem a coibir eficazmente abusos de autoridade, sob pena de chegar-se a um irreparável esgarçamento institucional”. Já o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, fez uma crítica também explícita a algumas das agendas levadas adiante pelo Poder Executivo, sobretudo relacionadas às temáticas da educação e do meio-ambiente, em artigo publicado no jornal Valor Econômico.

Leia o artigo de Fernando Limongi em:

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/05/constituicao-colocou-poderes-em-conflito-diz-fernando-limongi.shtml

Leia o artigo de Ricardo Lewandowski em:

https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2019/05/autonomizacao-das-corporacoes.shtml

Leia o artigo de Rodrigo Maia em:

https://www.valor.com.br/politica/6239909/o-parlamento-tem-compromisso-com-o-futuro

* Nesta semana, Guilherme Boulos foi entrevistado no programa do filósofo conservador, Luiz Felipe Pondé. Vale a pena assistir a entrevista, sobretudo pelo fato de ela demonstrar que em tempos marcados pelos gritos e ofensas, é possível uma conversa civilizada entre pessoas que pensam diferente. O estímulo a espaços como estes, nos quais representantes de perspectivas políticas opostas se colocam para debater sobre temas diversos, pode ser um bom caminho para os dias atuais. Sobre o tema, também indico o vídeo do chamado “debate do século”, em torno do tema da felicidade, envolvendo o filósofo de esquerda Slavoj Zizek e o psicólogo de direita Jordan Peterson.

Veja o vídeo da entrevista de Boulos a Pondé em:

https://www.youtube.com/watch?v=grKgZ2bF__I

Veja o debate entre Zizek e Peterson em:

https://www.youtube.com/watch?v=xNcQ5PfDkqg

Indicação de livro de política na semana: O povo contra a democracia, de Yascha Mounk (Companhia das Letras, 2019)

 Cultura

* Uma das polêmicas que tomou conta da cena cultural desta semana girou em torno do lançamento do filme Vingadores: O Ultimato, que ocupou mais de 80% das salas de cinema nacionais. Sobre o tema, vale a leitura do artigo de Cacá Diegues “Mais abuso” publicado no jornal O Globo, na segunda: “Para estimular nossa paranoia de abandono absoluto, basta olhar para a composição do novo Conselho Superior de Cinema, órgão regulador da atividade, administrado pela Ancine, nomeado e sob controle do Ministério da Cidadania. Ali, só se sentam conselheiros de grandes empresas americanas de cinema, além de representantes do sindicato deles, a Motion Pictures Association of America”.

Leia o artigo de Cacá Diegues em:

https://oglobo.globo.com/opiniao/mais-abuso-23641664

* Indico nesta semana o Podcast da “Ilustríssima Conversa”, da Folha, sobre a história do proibicionismo das drogas, com o professor Henrique Carneiro, do Departamento de História da USP, autor do livro Drogas. A história do proibicionismo (Autonomia Literária, 2019). Sobre o tema, aproveito para sugerir a leitura de dois artigos publicados na quarta na Folha sobre o julgamento a ser retomado pelo STF de um recurso da Defensoria Pública de São Paulo que solicita a inconstitucionalidade da criminalização da posse de drogas para consumo pessoal no Brasil. Cristiano Maronna, Secretário-executivo da Plataforma Brasileira de Políticas de Drogas, e Juliana Kweitel, Diretora-Executiva da Conectas Direitos Humanos, publicam um artigo sobre a importância da descriminalização: “Portugal, Espanha, Uruguai, Holanda e Canadá, além de diversos estados dos Estados Unidos, já tornaram suas legislações sobre consumo de drogas mais flexíveis. Em 2018, a ONU aprovou um texto que propõe uma abordagem para controle de drogas baseada em políticas que foquem nas pessoas, na saúde e nos direitos humanos e exortou os países a mudarem suas leis para promover alternativas à punição.” Ilona Szabó de Carvalho destaca os problemas na política atual de combate às drogas e defende sua mudança:  “(…) depois de me debruçar sobre esse tema por mais de uma década, conhecendo de perto diversas experiências, posso afirmar que nada é tão perverso e contraproducente quanto a política de drogas atual. Com responsabilidade, é possível mudar a lei, monitorar sua aplicação e fazer os ajustes necessários para que os seus objetivos iniciais de promover a saúde, o bem-estar e a segurança das pessoas possam ser finalmente atingidos”. Como complemento da discussão, indico reportagem publicada no El Pais desta semana sobre de que maneira Portugal se tornou referência mundial na regulação das drogas, bem como o ótimo documentário Quebrando o Tabu, lançado em 2011, com direção de Fernando Grostein Andrade e Cosmo Feilding-Melen.

Ouça o podcast da “Ilustríssima conversa” em:

http://folha.libsyn.com/proibio-de-drogas-foi-pauta-histrica-de-esquerda-e-direita

Leia o artigo de Cristiano Maronna e Juliana Kweitel em:

https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2019/05/descriminalizacao-do-consumo-de-drogas-no-stf.shtml

Leia o artigo de Ilona Szabó de Carvalho em:

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ilona-szabo/2019/05/politicas-de-drogas-nas-maos-do-stf.shtml

Leia a reportagem do El Pais em:

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/05/02/internacional/1556794358_113193.html

Assista ao documentário Quebrando o Tabu em:

https://www.youtube.com/watch?v=tKxk61ycAvs

* Vale a pena a leitura na edição da “Ilustríssima” da Folha deste domingo do especial que fizeram em homenagem aos 50 anos do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), fundado em 3 de maio de 1969. O especial conta com um depoimento de Fernando Henrique Cardoso (fundador do centro de pesquisa), Angela Alonso (atual presidente), textos de pesquisadores como Glauco Arbix, Carlos Torres Freire, Paula Montero, Ronaldo de Almeida, Marcos Nobre, Sergio Costa, Marta Arretche, além da entrevista de Adam Przeworski e dos artigos de Fernando Limongi e Adrian Gurza Lavalle, mencionados anteriormente.

Leia a “Ilustríssima” da Folha em:

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/

* O escritor Luiz Ruffato lançou esta semana seu novo livro, O Verão Tardio, pela Companhia das Letras. O escritor concedeu uma entrevista interessante para a Folha, na qual fala de literatura e sobre a situação atual do país. Destaco uma frase que faz pensar: “Nossa literatura retrata historicamente a classe alta e os miseráveis. A faixa da população que se esforça muito para ter algum conforto não tem espaço nos livros, no cinema, em lugar nenhum. Então, como ninguém olha para eles, ninguém compreende muito bem o que está acontecendo no país hoje”. Complementa: “Além de não mostrar a classe média baixa, a literatura urbana brasileira também é feita no eixo Rio-São Paulo. Não há um olhar para o interior, onde não há saneamento e sobra violência e medo.”

Leia a entrevista de Luiz Ruffato em:

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/05/para-luiz-ruffato-literatura-ignora-classe-media-baixa-que-votou-em-bolsonaro.shtml

* José Padilha lança esta semana na Netflix a segunda temporada de sua controversa série O Mecanismo. Ao El Pais ele concedeu uma entrevista em que busca explicar sua visão idealizada de Sergio Moro, exposta na primeira temporada, e sua decepção recente:

Leia a entrevista de José Padilha em;

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/05/10/cultura/1557523369_599359.html

* Por fim, destaco ótimo ensaio que li esta semana de Fred Coelho, publicado na última edição da revista Serrote, intitulado “O Brasil como frustração”: “O tempo presente é, na verdade, o grande desafio projetivo que enfrentamos. De certa forma, perdemos aos poucos o direito a futuros de países novos e precisamos viver de forma radical o agora. Ironicamente, talvez essa seja a oportunidade de o Brasil deixar de ser uma frustração para se tornar um campo aberto de experimentações”

Leia o ensaio de Fred Coelho em:

https://www.revistaserrote.com.br/2019/03/o-brasil-como-frustracao-por-fred-coelho/

Indicação de livro de ensaios da semana: Verifique se o mesmo, de Nuno Ramos (Editora Todavia, 2019)

* Fernando Perlatto é um dos editores da Revista Escuta.