João Martins Ladeira*

É bastante engenhoso o roteiro de Em Trânsito (Transit, 2018, de Christian Petzold). Certo homem assume a identidade de um escritor morto cuja fama lhe garante passagem e visto para longe de uma perseguição política que, cedo ou tarde, vai devorá-lo. Porém, sua fuga o leva de encontro a ninguém menos que a esposa daquele de quem tomou o nome, num relacionamento entre ambos no qual a moça desconhece tal troca de identidade.

Um thriller? Nem um pouco. Não é a primeira vez que Petzold borra aquilo que vemos. Por isso, Em Trânsito foi entendido como uma denúncia do “estado de emergência” do qual – certamente – não estamos lá muito distantes. No New York Times, Manohla Dargis chegou a traçar paralelos com Walter Benjamin e sua fuga pelas montanhas, propondo aí uma ilustração de “Sobre o Conceito de História”, num indício de quando a exceção é a norma.

Na esteira, vieram as comparações com Kafka e K. Dick, mas essas parecem soluções óbvias demais. Enxergar no filme uma alegoria sobre o dia em que precisaremos todos de autorizações de fuga não parece insensato. De fato, há uma reflexão sobre a arbitrariedade da perseguição, no manuseio da violência de Estado como um traço intrínseco ao autoritarismo. Mas ater-se apenas a isso consiste num caminho fácil.

 

Circuitos perversos

Se o filme nos poupou de mais um passeio por um antiquário cinematográfico é porque possui outra natureza. Versa não sobre a Guerra, mas sobre um sentimento que o conflito – qualquer conflito – radicaliza graças a seu absurdo. Em Trânsito se debruça sobre o imperativo da espera, e o modo como tal sensação associa os personagens. Juntos, eles aguardam, em vínculos que se desdobram de um para o outro numa cadeia infinita.

Toda essa maçaroca de associações gira em torno de Marie (Paula Beer), esposa de um homem e amante de outro, esse que se faz passar pelo primeiro indivíduo. Quando somos apresentados a ela, há um gesto quase cômico, quando a moça confunde Georg com outrem. Marselha é uma cidade grande e tal encontro casual soa sem sentido, pois, entre todos os estranhos, esbarra-se com quem passa por seu esposo.

Mas o que se poderia esperar desse universo fechado, onde tais refugiados parecem fadados a se deparar uns com os outros? De toda essa insensatez, surge uma comunhão, e a prova está nos encontros entre Georg e a mulher que cuida dos cachorros (Barbara Auer) ou com o músico (Justus von Dohnányi). Estranho seria a ausência dessas repetições, imagem do inferno descrito pelo próprio Weidel no trecho narrado para o cônsul americano (Trystan Pütter).

Esse conjunto recíproco de relações entre Georg, Marie e o invisível Weidel se torna o eixo do filme. Em Trânsito é a história da transposição de um homem para alhures, numa posição que o aproxima do escritor, sem, contudo, levá-lo a ponto algum. Uma comparação fútil seria com a história do doppelgänger, como alguém que encontra o seu duplo e nos choca com isso. Mas, no filme, não há qualquer metamorfose de um em outro.

Na verdade, a obra reflete sobre o que ocorre quando a história de uma pessoa é encenada por outra. O disfarce com a identidade de um morto torna visível a indefinição lentamente construída, quando todas as fronteiras parecem se misturar nesse conjunto cada vez mais opaco de relacionamentos. Pois, em pouco tempo, torna-se indiferente quem é quem e o que cada um procura nos demais.

 

Mais uma fuga

Não parece sem propósito que se tenha considerado Em Trânsito uma versão absurda de Casablanca (1942, de Michael Curtiz), como se o ato de Georg em manter Richard (Godehard Giese) e Marie juntos o assemelhasse a Rick, numa renúncia que somente um herói poderia suportar. A comparação é perspicaz, mas esse gesto se parece muito pouco com a autoafirmação estoica que apenas um Bogart conseguiria imprimir a seus personagens.

Na obra de Petzold, há um ciclo interminável de delongas e restituições. Só assim se compreende a feição que Marie assume, essa personagem errante, eternamente fadada a procurar por algo ou por alguém. Na conclusão, ouvimos seus passos, os mesmos sons que, numa outra cena, escutamos na rua antes de vermos a jovem entrar naquele mesmo café onde já ocorreram tantos encontros. Mas nada mudou.

Alguém parte: passagens e vistos o levam embora, mas a fuga nunca termina. No fim, permanecemos com Georg após ele se tornar aquele que busca por uma porta e não mais quem guarda uma chave. O rapaz ofereceu a Marie a chance de partir, mas, depois, será a mulher quem lhe garantirá algo pelo qual esperar. Frente à morte num naufrágio nunca visto – do qual nós, como Georg, apenas receberemos a notícia – tal sensação só aumenta.

Em Trânsito reflete a tensão de um mundo de vistos, no qual o tédio da demora toma a vida e a prende num circuito de papéis. Alguém morre, e lança adiante uma esperança vaga que passa de mão em mão. Abre-se uma brecha, mas passar por ela hoje pode se mostrar bastante inútil. Pois amanhã tudo recomeça, diante de autorizações tão fúteis como uma promissória que não vale um níquel…

*João Martins Ladeira é professor e pesquisador em Comunicação. Também colabora com a Escuta.

Anúncios