João Dulci*

Em 1989, chegou ao ápice na Inglaterra um problema que já se arrastava havia alguns anos: o descaso com os torcedores de futebol. Numa tarde ensolarada na cidade de Sheffield, no estádio do Sheffield Wednesday, 95 torcedores do Liverpool morreriam esmagados pela incompetência da organização e da polícia. Quase três anos depois, foram desligados os aparelhos do nonagésimo sexto, que ficara em coma por todo aquele tempo.

O massacre de Hillsboro foi a gota d’água para um processo nítido de descaso com a maior diversão popular da Inglaterra. O jogo que se tornou rapidamente o passatempo preferido pela classe trabalhadora estava, desde fins dos anos 1960, sendo prejudicado pela violência de alguns fans, no fenômeno terrível do hooliganismo. A repressão aos hooligans, grupos de bárbaros jovens que tinham por diversão, além do futebol, a violência contra torcedores rivais, se fazia de forma tímida e com poucos recursos de inteligência policial. O fenômeno é muito bem descrito no livro “Entre os vândalos”, de Bill Bufford, uma espécie de etnografia informal sobre a violência no futebol inglês dos anos 1970 e 1980. Ganhou uma versão cinematográfica que, embora repleta de cenas de violência, suaviza as anotações de Bufford e acaba por se perder pelo simplismo das explicações.

Bill Bufford, um jornalista americano que abandonou Harvard para viver na Inglaterra por uns anos, faz uma longa análise sobre psicologia e comportamento de massas, mas peca por uma ou outra conclusão um tanto pueris, como a de que as torcidas jamais aceitariam que um jogo terminasse empatado, por isso resolviam no porrete o empate que ocorrera dentro de campo. Um pensamento americano demais (os esportes americanos não têm empate) para um fenômeno socialmente mais complexo. O hooliganismo cresceu em conexão bastante robusta com o desmonte do Estado de Bem-estar social e com o aumento do desemprego. O discurso da working class pairava sobre a mente de jovens que não viveram o auge da social-democracia trabalhista inglesa. O futebol, um esporte então acessível mesmo para aqueles que viviam do Estado, bebendo suas cidras e cervejas em pubs, era uma via de escape para a incerteza que o futuro lhes revelava. Por apenas algumas poucas libras, um trabalhador (mesmo que desempregado) podia ir a um estádio de futebol passar 105 minutos xingando os adversários, os torcedores adversários, o juiz e seus próprios jogadores.

A ligação do futebol com trabalhadores e sindicatos na Inglaterra aparece com alguma relevância no livro “Mundos do Trabalho”, do historiador marxista Eric Hobsbawn. Muitos clubes surgiram como passatempo de sindicatos, como são, por exemplo, os casos de City e United, em Manchester. Outros possuem forte ligação com grandes categorias profissionais, como os estivadores de Liverpool e de Southampton, os mineiros de várias cidades centrais do país, os cervejeiros de Newcastle, dentre muitos outros exemplos. Os clubes mais ligados às elites universitárias, que carregavam nomes gregos ou romanos, foram sendo relegados, aos poucos, ao esquecimento. É interessante a analogia, mesmo que breve, que Hobsbawn constrói, quando do primeiro título da Copa da Inglaterra de um clube ligado à classe operária, o Blackburn Rovers, cujo lema é “Arte e Trabalho”. Ele diz que os clubes do interior da Inglaterra travavam suas batalhas pelo território do país sempre mirando a conquista da capital, já que as decisões da Copa eram jogadas em Londres.

Na década de 1980, os fenômenos do desemprego e do hooliganismo pareciam mais graves do que nunca. A polícia praticava sua repressão usando de violência física e pouca inteligência. Eram incontáveis os confrontos nas estações de trem que funcionavam como entroncamentos principais para a chegada das torcidas rivais. Nos arredores dos estádios, quase todos tão antigos quanto o próprio futebol, localizados em bairros residenciais de ruas estreitas, as brigas eram quase inevitáveis. Emboscadas eram muito facilmente preparadas, como mostra a série documental “The Firm”, sobre os grupos de hooligans semiprofissionais, que se denominavam firmas. Os locais preferenciais eram as vielas que davam acesso às estações de trem e metrô e os pubs onde se concentravam os torcedores antes das partidas. Não eram raras mortes por espancamento ou facadas. Havia uma estranha ética nessa barbárie: o uso de armas de fogo era muito mal visto. A luta deveria durar mais tempo possível, de modo que fosse possível produzir o máximo de adrenalina e gastar o máximo de miligramas do álcool acumulado antes das partidas.

Os casos mais graves de destruição associada aos hooligans são muito conhecidos. O incêndio que consumiu o estádio do Bradford City iniciado por torcedores visitantes revoltados, resultando em 56 mortos no ano de 1985; a tragédia de Heysel, na Bélgica, num jogo entre Liverpool e Juventus, iniciada por hooligans ingleses que tentaram invadir o setor italiano, com 39 mortes (o que resultou no banimento dos clubes ingleses das competições europeias, proporcionando o surgimento do hooliganismo nacionalista em jogos da seleção inglesa); e mesmo uma quase tragédia no ano de 1981, no estádio de Hillsboro, num jogo entre Tottenham e Wolves, com 39 feridos. Não são incomuns as cenas do lendário Brian Clough, técnico bicampeão europeu com o Nottingham Forest, xingando seus próprios torcedores por brigarem nos estádios, ou correndo atrás de hooligans bêbados que invadiam o gramado. O treinador, um trabalhista de costumes conservadores, chegou a bater num adolescente dentro do campo. O jovem declararia à imprensa, dias depois, que mereceu apanhar, mas o treinador foi suspenso pela atitude. Nada do que aconteceu antes de 15 abril de 1989 seria tão grave como a tragédia de Hillsboro.

Os eventos, hoje, são bastante conhecidos, mas durante vinte anos as versões falaciosas se sobrepuseram aos fatos. Semifinal da Copa da Inglaterra entre Nottingham Forest e Liverpool. Os eventos se iniciam 21 dias antes da partida. Dois policiais experientes resolvem pregar uma “peça” num colega novato. São descobertos e suspensos da polícia local, mas seu chefe, um policial experiente em organização de jogos grandes, com um aprendizado fundamental em função da quase tragédia de 1981, foi transferido. Em seu lugar, foi nomeado um supervisor com nenhuma expertise em jogos de futebol, David Duckenfield. A entrada dos torcedores do Forest ocorre sem maiores problemas, por uma rua mais larga. Os torcedores do Liverpool, maioria naquele dia, ficam relegados a uma problemática entrada lateral, que já havia sido identificada como um gargalo pelo ex-chefe da polícia. Até às 14h30, a entrada dos “reds” ocorria normalmente, pelas poucas catracas que davam acesso às arquibancadas. A partir desse horário, a sequência de eventos se torna confusa e trágica.

Muitos torcedores começaram a se aglomerar, gerando uma insuportável pressão para aceder ao estádio. Não era incomum a polícia inglesa tolerar uma leve superlotação para evitar conflitos nos arredores dos estádios, liberando o acesso de grupos de torcedores sem ingressos. Geralmente esses torcedores se dirigiam aos piores lugares do estádio. Cercados com grades e barras de metal, onde as pessoas se aglomeravam em pé para tentar assistir às partidas. Sem qualquer plano de emergência e com o jogo prestes a começar, a polícia percebe a aglomeração e libera a entrada dos torcedores. Ansiosos por conseguirem ver o início da partida, todos se dirigem ao portão maior, empurrando os torcedores que já haviam entrado. Não há brigas fora do estádio. Os relatos dos policiais que estavam do lado de fora dão conta de um consumo moderado de álcool, algo raro para jogos de tamanha importância, quando latas e garrafas se acumulavam em montanhas de lixo. As pessoas espremidas contra as grades sentem incômodos, e tentam se comunicar com os policiais de dentro do campo. Sem qualquer acesso entre a arquibancada e o gramado, algumas desfalecem. Atônito, o chefe de polícia se mantém em silêncio. Alguns policiais no gramado, por iniciativa própria, começam a tirar torcedores da arquibancada para dentro do campo, em tentativas paliativas para o problema que se avizinha. Vagarosamente, 95 pessoas morrem por asfixia. Durante vinte anos, os hooligans foram acusados de terem se matado. As vítimas tornaram-se seus próprios algozes. Os inquéritos iniciais concluem que brigas do lado de fora e consumo excessivo de álcool levaram à tragédia. Nenhuma linha é escrita sobre a incompetência da organização e da polícia.

As consequências dos eventos levam a conservadora Margaret Thatcher a tomar medidas radicais. Investimentos em inteligência policial, retirada de todas as grades que separavam campo e arquibancada. Instalação de cadeiras numeradas nos estádios. Aumento dos preços dos ingressos. Tudo isso levou a um gradual encarecimento dos tíquetes, que se tornariam proibitivos para a classe trabalhadora inglesa com o passar do tempo, principalmente depois da assinatura de contratos televisivos com a Sky Sports, de Rupert Murdoch, que transformou a liga inglesa em um dos campeonatos mais ricos do mundo. Atualmente, não se assiste uma partida da glamurosa Premier League sem deixar menos de 180 reais na entrada. Isso se o cidadão conseguir entrar, uma vez que, pelo menos quinze dias antes, qualquer interessado deve preencher um pré-cadastro com suas informações, que serão investigadas pelas polícias locais. Caso os donos de carnês anuais tenham adquirido todas as entradas, não há venda de ingressos nas bilheterias dos estádios.

Atualmente se sabe que os relatórios policiais de Hillsboro foram falaciosos e que as reportagens agressivas de jornais de grande circulação só serviram para aumentar o estigma contra torcedores de futebol. Finalmente, em 2017, os verdadeiros responsáveis foram indiciados, ainda sem punição definitiva. Todo dia 15 de abril se celebram homenagens em toda a Inglaterra, principalmente em Liverpool, onde não há jogos nesta data. Como efeitos colaterais, talvez nenhuma das pessoas presentes na partida de 1989 conseguiriam comprar ingressos para uma partida de futebol atualmente. Em um filme de Ken Loach (À procura de Eric), um velho torcedor do Manchester United afirma não torcer mais pelo time, já que o time não o quer no estádio. A classe trabalhadora foi banida dos estádios, como solução para um problema social.

Não é possível chegar a uma conclusão objetiva sobre o tema. É fato que a violência dentro e fora dos estádios diminuiu (embora não tenha acabado). Mas também é fato que os estádios se tornaram locais assépticos ocupados por pessoas das classes mais altas. Na Inglaterra não há “favelas”, mas a festa das favelas ficou a quilômetros de distância de qualquer “Road”, “Park”, ou “Ground”, nomes comuns de estádios naquele país.

No Brasil, o advento da Copa do Mundo acelerou o processo de gentrificação dos estádios de futebol. As concessões dos estádios a grupos privados trouxeram a lógica do mercado para os preços dos ingressos. Quase como um litro de diesel, os ingressos brasileiros flutuam ao sabor dos ventos. Como os rendimentos médios dos trabalhadores brasileiros não flutuam, senão pra baixo, a ida da favela brasileira a jogos de futebol ficou apenas na memória. O Flamengo tem tido marcas acima de 40 mil torcedores por partida. Isso se explica, se entendermos que a proporcionalmente diminuta elite brasileira ainda é composta de milhões de pessoas em termos absolutos. De certa forma, é o que explica o sub emprego e a presença de faxineiras, ascensoristas e porteiros no cotidiano brasileiro.

E assim chegamos, finalmente, à Vila Cruzeiro, ou a qualquer favela brasileira. Flamengo e Fluminense jogavam no Maracanã, em 2010. O primeiro tempo terminara 3×1 pros tricolores, que começaram a entoar, no ritmo de Ivete Sangalo, a ofensa recorrente “Silêncio na favela” contra os amuados flamenguistas. Lembro-me que alguns anos antes, o mesmo placar de intervalo terminaria 4×3 para o Flamengo, o que ainda mantinha vivas nossas esperanças naquele jogo. Nossas esperanças atendiam pela curiosa alcunha de “império do amor”, em função de um ataque composto por Adriano “Imperador” e Vágner “Love”. E nossas esperanças se cumpriram, com uma espetacular virada num segundo tempo em que o rubro-negro faria quatro gols, fechando a conta da partida em 5×3. A torcida não se fez de rogada e transformou a ofensa tricolor em sua própria alma. O silêncio virou festa e a festa na favela, de favela e nas favelas não terminaria tão cedo naquele domingo.

Eis que uma empresa de marketing chamada X-Tudo declara que não utilizará mais o termo “festa na favela” em nenhuma postagem da conta “Flamengo”. A diretoria alega, em nota, que não vetou o termo, apenas não incentiva seu uso. A mesma diretoria que levou pra dentro de campo um sujeito que quebrou uma placa em homenagem a Marielle Franco. A mesma diretoria que disse não apoiar homenagens a um ex-atleta do clube torturado até a morte nas instalações da aeronáutica. A mesma diretoria que, por medo de prisão por homicídio culposo, passou mais de uma semana sem uma declaração objetiva sobre dez mortos em suas instalações esportivas. A mesma diretoria que busca acordos mesquinhos no pagamento das indenizações às famílias das mesmas vítimas. Uma diretoria tão ciente de seus objetivos, que procura afastar o clube mais popular do Brasil de sua alma. É claro que o Flamengo não é apenas favela. Sua torcida é tão grande que é favela, asfalto, interior, centro, floresta, cerrado, sertão, planalto, litoral e serra. Não há um lugar no Brasil onde o Flamengo não seja recebido de braços abertos por centenas, milhares de pessoas. Mas um clube que tem como mascote um urubu não tem o direito de se afastar ainda mais de uma base popular tão sofrida. Ao invés de se manifestar em solidariedade às vítimas de tiro ao alvo, busca se aproximar do dono das armas. E ajuda a abater o espírito daqueles que se foram sem nunca deixar de amar o Flamengo. Marielle era flamenguista e ex-moradora de favelas. Luciano Macedo era flamenguista e morador de favela.

A assepsia iniciada como solução para uma tragédia ganha contornos estranhos em nossas terras. Mas, não bastasse a assepsia objetiva nos estádios, agora quer-se a assepsia simbólica de um clube popular. Como na Inglaterra, a classe trabalhadora está afastada dos estádios. Aqui, por motivos muito diferentes dos de lá. Afastou-se também os sub empregados. Mas nenhuma diretoria vai acabar com a identidade rubro-negra, assim como na Inglaterra, nenhuma primeira-ministra conseguiu acabar com a identidade das pessoas com seus times de coração. Pode-se estar longe das arquibancadas, mas sempre que o Flamengo vencer, queira a atual diretoria ou não, a festa na favela vai acontecer.

João Dulci é Doutor em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e e Políticos (IESP-UERJ) e Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Colabora com a Escuta.

** Crédito imagem: <https://www.foxsports.com.br/blogs/view/379090-bueno-aposta-em-criticado-pela-torcida-do-flamengo-para-salvar-o-time-seria-o-titular&gt;. Acesso em: 21 abr. 2019.

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