Fernando Perlatto*

Em um livro primoroso publicado em 1992, intitulado A Retórica da Intransigência, o economista Albert Hirschman buscou mapear argumentos retóricos mobilizados por escritores diversos que, desde o final do século XVIII, buscaram se contrapor a agendas progressistas a favor da ampliação de direitos civis, políticos e sociais. Mobilizando autores de diferentes cepas, como Burke, Le Bon, Tocqueville, Mosca, Pareto e Michels, Hirschman estabeleceu três grandes ondas de reação intelectual à expansão da agenda de direitos, ancoradas em teses reacionárias principais, que ele denominou de perversidade, futilidade e ameaça. Não se trata de discutir cada uma dessas teses – para aqueles que não leram o livro fica aqui o convite para fazê-lo –, mas tão somente destacar que cada uma delas se ancorava em argumentos claros e bem construídos, que, a despeito das merecidas críticas que receberam, contribuíram, de algum modo, para a dinamização do debate público à época em que foram formuladas.

Para ir direto ao ponto que pretendo chamar a atenção, tenho a impressão de que vivemos, sobretudo no Brasil dos dias atuais, em um momento anti-Hirschman por excelência, no qual a retórica da intransigência foi completamente colonizada pela retórica do insulto. Se havia raiva, ira e, por óbvio, intransigência, nos argumentos mobilizados pelos autores reacionários analisados por Hirschman, havia também um esforço de refinamento das opiniões, uma busca de convencimento do outro em torno de ideias, que faziam com que elas se colocassem minimamente abertas ao debate e ao escrutínio público. A retórica anti-Hirschman dos dias atuais é a da radicalização e a da exacerbação da intransigência, com o consequente fechamento e esgarçamento do debate público. Ainda que esta retórica não seja uma novidade, ela tem ganhado novos contornos em tempos recentes.

A esfera pública no Brasil tem sido ao longo dos últimos anos inteiramente dominada pela violência do discurso, pelo aviltamento da palavra e pela lógica do xingamento e da afronta. A agressão fortuita e o ataque gratuito ao outro se deslocaram do terreno da exceção e se converteram em normas naturalizadas e legitimadas, sem maiores contestações. O resultado disso é rebaixamento da discussão pública, o elogio à falta de educação, a valorização do ódio, a consagração da injúria. Os argumentos não mais importam; o que vale é a retórica do insulto.

O bolsonarismo representa precisamente esta retórica do insulto. O twitter, espaço das frases curtas, sem maiores exigências de reflexões mais complexas, e o Facebook e o Instagram, como veículos para o compartilhamento de vídeos “lacradores”, são as ferramentas de comunicação perfeitas para este tipo de discurso que busca o tempo todo o achincalhe do outro, ridicularizado, reduzido a fórmulas prontas e convertido em inimigo, que deve ser se não extinto, ao menos humilhado em praça pública. A assunção de Olavo de Carvalho a guia intelectual da “revolução” em curso, nos termos de Paulo Guedes, tem encaixe perfeito para um comportamento baseado no afrontamento virulento àqueles de quem se discorda. Os filhos do presidente e o próprio presidente – completamente alheio a quaisquer liturgias que o cargo exige – são os garotos propaganda de um projeto político que tem no insulto seu eixo de estruturação principal.

A retórica do insulto se organiza em torno de alguns eixos centrais, que lhe conferem força e organicidade. Talvez o mais evidente deles seja a conversão da ofensa em norma, a naturalização do xingamento como argumento condutor da discussão pública. Esta prática, da adjetivação negativa em tons grandiloquentes, se organiza em torno da premissa da necessidade do ataque furioso àqueles que apresentam opinião diversa, fechando-se, a priori, a qualquer possibilidade de conversa com o outro. A frase do irmão do recém nomeado Ministro da Educação, Arthur Weintraub, em evento organizado por grupos de direita no início deste ano, é exemplar desta “conversão da ofensa em norma”. Segundo ele – como destacado em reportagem da Folha de São Paulo – “se um ‘comunista’ chega com o ‘papo ‘nhoim nhoim’, xinga”. prática esta também defendida por Olavo de Carvalho. E Weintraub completa: “Nesse tipo de diálogo” não é possível se basear em “premissas racionais”.

Esta ausência de “premissas racionais” é o outro eixo central da retórica do insulto, que é essencialmente anti-intelectual. Não importa o que diz o IBGE sobre a taxa de emprego, o que afirmam institutos diversos sobre o aquecimento global, o que falam estudiosos sobre a política externa, o que defendem cientistas sobre a terra redonda, o que sustentam especialistas sobre as consequências do armamento da população, o que afiançam professores universitários sobre o golpe de 1964, a ditadura civil-militar e o nazismo; o que importa é a “opinião”, alçada à categoria de verdade. Como já dito por alguém, o julgamento do “tio do churrasco” sobre o mundo social – ancorado no discurso do “eu acho” e nos sensos comuns mais naturalizados – passa a ser compreendido com o mesmo grau de veracidade das posições emitidas por especialistas sérios, que se debruçam sobre estas temáticas com método, formulando suas opiniões a partir de uma análise consistente que envolve diálogo com bibliografia pertinente e trabalho empírico sistemático. Para os portadores da retórica do insulto, a opinião destes especialistas baseadas em “premissas racionais” de nada vale; preferem, antes, se ancorar em “Fake News” disparadas pelo Whatsapp, e atacar os institutos sérios e as universidades como antros de difusão do “marxismo cultural”.

A retórica do insulto também se ancora na premissa de que a polêmica deve ser o eixo central da discussão pública. Não apenas o presidente eleito, mas vários daqueles que chegaram aos legislativos estaduais e federais nas últimas eleições se tornaram conhecidos publicamente mediante a produção de polêmicas criadas em redes sociais em torno de temas aparentemente consensuais, contribuindo para projetar suas ideias para audiências mais amplas. Esta lógica polemista – que se manifesta, por exemplo, nos discursos e práticas de uma figura como o deputado estadual do Rio de Janeiro, Rodrigo Alvim (PSL), contra a memória de Marielle Franco ou em posicionamentos obviamente absurdos em torno de consensos históricos, como ditadura e nazismo –, se articula com as dimensões da “ofensa como norma” e com o “anti-intelectualismo”, mas a eles agrega um outro fator, relacionado à busca permanente por afirmações “bombásticas” e “chocantes” que sejam capazes de impulsionar “likes” e compartilhamentos nas redes sociais, ainda que ao custo de ferir memórias daqueles que sofreram processos de violência e de repressão.

Soma-se a estas características que conformam a retórica do insulto aquela que podemos chamar de desculpas constrangidas. Com isso quero dizer que não é que muitos dos portadores da retórica do insulto não se arrependam – pelo menos, publicamente – de muitos dos seus discursos atravessados por ódio, raiva e virulência, não tanto pelo conteúdo em si, mas mais pela repercussão das declarações. Porém, quando questionados de forma mais incisiva pela opinião pública, voltam atrás e pedem “desculpas constrangidas”, como se a violência retórica cometida pudesse simplesmente ser revertida de forma simples, com um mero pedido de desculpas. Dois exemplos recentes ilustram esse tipo de comportamento. Quando perguntando sobre vídeos homofóbicos, machistas e racistas produzidos durante vários anos, antes de chegar à presidência, Jair Bolsonaro respondeu: “Eu fazia xixi na cama até os cinco anos. Vou ter de me arrepender disso também”?, como se esta frase fosse suficiente para abrandar as reiteradas ofensas historicamente proferidas contra diversos grupos sociais. Em outro episódio que ganhou destaque, o deputado estadual de São Paulo, Douglas Garcia (PSL), que disse que tiraria uma transexual a tapas do banheiro, após ser acusado de transfobia, pediu “desculpas constrangidas”, embora um dia depois, ainda que se assumindo homossexual, tenha reafirmado sua agenda contra as políticas direcionadas para os grupos LGBTT.

Uma outra marca forte que atravessa a retórica do insulto, e que se articula com as duas anteriores, é a vulgaridade do discurso. Vulgaridade aqui, registre-se, destacada em forma negativa, sem qualquer tipo de moralismo. Uma das agendas de grupos progressistas se vincula precisamente à necessidade de deslocar o debate sobre a sexualidade e áreas afins do território do proibido, alçando-o a temática relevante da discussão pública. Porém, o que os portadores da retórica do insulto fazem é o oposto: buscam combater e proibir qualquer discussão pública sobre a sexualidade, mas não se peiam em usar a linguagem sexual para pautar o debate público. Exemplares deste tipo de comportamento são os patéticos episódios do “golden shower” e os tuítes repletos de palavrões de Olavo de Carvalho. Esta vulgaridade, importa destacar, não é exclusiva da direita, mas também está presente entre setores progressistas, como se verificou no caso do deputado Zeca Dirceu (PT) e a provocação rebaixada ao ministro Paulo Guedes em uma seção da Câmara dos Deputados dedicada a discutir a proposta da Reforma da Previdência, com os termos “tigrão” e “tchutchuca”, que, além da vulgaridade evidente, exibem traços óbvios de machismo.

Além da conversão da ofensa em norma, do anti-intelectualismo, do polemismo exagerado, da desculpa constrangida e da vulgaridade do discurso, duas outras características conformam a retórica do insulto: a suspensão arbitrária da discussão e o elogio à violência. Em relação à primeira, a retórica do insulto parte do pressuposto segundo o qual se não se tem argumentos, pior para os argumentos; que se cesse o debate. Poderia mencionar exemplos diversos desse tipo de prática. Mas, me concentro em dois em particular. Quando perguntado por jornalistas sobre as origens financeiras de vídeo celebrando o golpe de 1964 difundido pelo Whatsapp do Planalto e por Eduardo Bolsonaro (PSL), o porta-voz da presidência, Otávio do Rêgo Barros, simplesmente disse que se tratava de um “assunto encerrado”. Já em outro episódio, quando confrontado por jornalistas acerca do tuíte absurdo e irresponsável sobre o Hamas, Flávio Bolsonaro (PSL) respondeu que aquele assunto era uma “página virada”. As duas manifestações – “assunto encerrado” e “página virada” – são ilustrativas da lógica da “suspensão arbitrária da discussão”, como se coubesse a eles – e tão somente a eles – a decisão de dizer quando se encerra o debate sobre determinado assunto em uma sociedade democrática.

Por fim, a retórica do insulto está profundamente articulada ao “elogio à violência”. Ao invés da conversa ponderada, da negociação e do diálogo, a lógica que rege aqueles impulsionados pela retórica do insulto é a do “tiro, porrada e bomba”. Qualquer ideia de mediação é explodida e esvaziada em privilégio da celebração pura e simples da brutalidade. A frase do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), “A polícia vai mirar na cabecinha e… fogo”, é paradigmática deste tipo de discurso ancorado na truculência, que dispensa o intermédio da palavra. Não restam dúvidas de que esta é a faceta mais perversa da retórica do insulto pelas implicações concretas a que ela conduz. É este tipo de perspectiva que orienta o silenciamento, quando não a celebração por parte de autoridades, como o próprio Witzel e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), de atrocidades cometidas por forças do aparato do Estado – a exemplo do caso da recente chacina de quinze pessoas no morro Fallet-Fogueteiro, no Rio de Janeiro, ou dos oitenta tiros direcionados por homens do Exército contra um carro, assassinando o músico Everaldo dos Santos Rosa –, como se estas forças estatais tivessem o condão de instaurar a pena de morte no país, decidindo quem pode ou quem não pode sobreviver. O elogio da violência atravessa a retórica do insulto e conduz à naturalização da selvageria e da barbárie como formas legítimas de “solução” dos problemas do país.

É possível dizer que as diferentes características da retórica do insulto podem estar presentes de forma completa ou parcial nos discursos de sujeitos sociais e políticos, mas, quer seja de maneira isolada, quer seja de maneira unificada, ela tem como consequência principal o aviltamento completo da esfera pública. Diferentemente das distintas formas de retórica da intransigência discutidas por Hirschman – que, apesar da intransigência per se, abriam possibilidades para a discussão pública –, a retórica do insulto – baseada na ofensa, no anti-intelectualismo, no polemismo exagerado, na desculpa constrangida, na vulgaridade do discurso, na suspensão arbitrária da discussão e no elogio à violência – fecha-se ao debate, representando um risco real para a democracia brasileira. Enfrentar esta retórica – e não se deixar ser colonizado por ela, como acontece com alguns segmentos – parece ser um dos principais desafios para os setores progressistas, em um contexto no qual a reconstrução da esfera pública se coloca como tarefa urgente.

* Fernando Perlatto é um dos Editores da Revista Escuta.

** Crédito imagem: JOEL SILVAFOLHAPRESS.Imagem retirada do site: <https://brasil.elpais.com/brasil/2015/08/15/politica/1439603254_047841.html&gt;. Acesso em: 10 abr. 2019. 

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