Jorge Chaloub*

O “chefe da polícia” pelo twitter manda avisar que é urgente o retorno aos “bons tempos”. Depois dos “excessos” de manifestações populares, realizadas com a tolerância e mesmo o incentivo da permissiva Constituição de 1988, agora devemos voltar plenamente às épocas em que o povo na rua é, sem dúvida, questão de polícia.

A construção de um Estado policial no Brasil, amparada em uma autoritária ideologia de ordem, se mostra de forma cada vez mais evidente. Das vergonhosas twittadas do atual presidente à recente proibição policial, felizmente revogada, de vários dos mais tradicionais blocos do carnaval carioca, passando pela repressão de manifestações políticas no carnaval de Belo Horizonte, não faltam exemplos de intervenções contrárias mesmo aos mais tímidos critérios de uma democracia liberal. O direito de manifestação deve ser agora submetido, clamam as forças no poder, à razão policial do Estado.

Não estamos diante de nenhuma novidade ou do retorno de práticas longamente esquecidas. O temor das massas é reincidente em nossa história. Nos primeiros momentos da nossa República, por exemplo, a defesa de uma política nacional amparada nos estados, por Campos Sales, tinha como objetivo explícito a construção de uma ordem “por cima das multidões que tumultuam, agitadas, nas ruas da capital da União”. As multidões não deixaram de ser temidas, nem de tumultuar as ruas da capital, mesmo que viessem a assumir lugar e protagonismos então impensáveis. Neste movimento de democratização marcado por idas e vindas, avanços e golpes, a Constituição de 1988 ocupa um lugar de destaque. O amplo catálogo de direitos, a definitiva consagração do sufrágio universal – com a garantia plena participação política dos analfabetos – e o claro compromisso com a redução das desigualdades abriram novos horizontes. Mesmo ante inúmeras continuidades, com a Ditadura dando muitas cartas no processo de transição, a redemocratização surgia marcada pela crença em novos dias.

Trinta anos depois, nossa Constituição ainda convivia com inúmeras permanências nefastas. As condutas autoritárias do Estado nunca cessaram nos locais mais pobres, como as diversas mortes violentas acumuladas ao longo desses anos, com uma ampla maioria de vítimas dentre os jovens negros, bem demonstram. Nem só de mazelas, entretanto, se fez o período. A ordem democrática permitiu o ecoar de novas vozes, mesmo em meio a desigualdades econômicas, simbólicas e educacionais. A nova ordem policialesca pretende, à título de resolver nossos inegáveis problemas, como nossos alarmantes índices de violência, destruir a maior parte possível dessas conquistas virtuosas.

Marcado por uma particular capacidade de representar e emular nosso oceano de contradições, o carnaval expôs de forma eloquente as disputas políticas da nossa conjuntura. Apenas um olhar simplório toma a festa como simples negação da ordem normal, transgressão completa que apenas reforça a dimensão rotineira do cotidiano. Se há, por certo, uma dimensão de negação dos ritos e hierarquias oficiais na festa de Momo, o carnaval não possui, por outro lado, uma dimensão apenas negativa, mas antes surge como um modo distinto de olhar o pretensamente regular. Mais do que a negação de uma ordem, estamos diante da proposição de ordens alternativas, que tem, sem dúvida, a intenção de ridicularizar normalidades solenes, mas também propõem formas distintas de perceber o mundo. Este delinear de ordens alternativas não se esgota na sugestão, mas ganha corpo e concretude no carnaval. Qualquer um que já tenha ido a um grande bloco ou visto uma escola de samba percebe, sem muito esforço, como mesmo as expressões mais anárquicas possuem lógicas ou linguagens, mesmo que extremamente entrópicas. O carnaval extrema a dialética entre ordem e desordem, descrita por Antônio Candido em sua crítica de Memória de um Sargento de Milícias.

Nada mais avesso a lógicas policiais, que negam caminhos e vozes alternativas, do que essa lógica carnavalesca, que mesmo em suas dimensões mais submissas a ordens oficiais ainda transborda das mãos dos que buscam regulá-la. Marcadas ao longa das décadas por grandes momentos de protesto e alinhamentos com as mais reacionárias forças do país, as escolas de samba expõem bem essa dialética de ordem e desordem, assim como este inevitável transbordamento. Em conjuntura onde se tornaram objeto primordial de ataque das várias falanges do partido da ordem, seja por seus vínculos com a perseguidas religiões afro ou por sua atual dependência de incentivos estatais, elas se tornaram um centro de discursos progressistas, pelas mãos de carnavalescos, como Leandro Vieira e Jack Vasconcelos. O desfile da Tututi e a épica passagem da Mangueira, que tiveram por didático contraponto a narrativa oficialesca da Vila Isabel, foram belas demonstrações desse caminho.  Somado ao usual caráter crítico do carnaval de rua, a sensação foi de resposta – cuja extensão, por certo, é bem difícil de precisar – às reiteradas tentativas de imposição policial da nova ordem. Justamente por isso as enfáticas reações à festa, presentes não apenas no primarismo dos tweets do presidente, mas nas reações de uma direita radical que odeia qualquer diversidade.

O porvir não nos promete dias tranquilos. O carnaval, entretanto, apontou caminhos capazes de lidar com as tempestades que já se formam no horizonte. Em tempos onde os repertórios tradicionais da esquerda pouco mobilizam as massas, talvez seja o momento de abandonar toscas correlações entre sisudez e eficácia, e ouvir as ressonâncias que, mesmo após a quarta-feira, ultrapassam o pano.

*Jorge Chaloub é um dos editores da Escuta.

Fotografia de Rodrigo Gorosito, do G1. Disponível em https://www.geledes.org.br/com-homenagem-a-marielle-e-leci-brandao-mangueira-e-a-campea-do-carnaval-carioca-de-2019/