Wallace Andrioli Guedes*

Green Book atraiu para si um bocado de raiva, sobretudo por, sendo dirigido e escrito por homens brancos, abordar o racismo nos Estados Unidos com pouca profundidade e numa chave abertamente conciliadora. Isso num ano em que o tema foi tratado de forma bem mais confrontadora, em filmes como Infiltrado na Klan, Sorry to Bother You, Pantera Negra e O Ódio que Você Semeia, todos de diretores negros (Spike Lee, Boots Riley, Ryan Coogler e George Tillman Jr., respectivamente). No entanto, há um ponto importante a ser considerado nessa recepção conturbada do mais recente vencedor do Oscar de melhor filme: o fato de que não é só de racismo que fala Green Book, mas também, e com igual destaque, de desigualdade de classes.

Tony Vallelonga (Viggo Mortensen), o protagonista, é um ítalo-americano de vida simples, que recorre a pequenos trabalhos de naturezas diversas (segurança de boate, competidor em concurso de quem come mais cachorros quentes, motorista) para sustentar sua família. Ele também reproduz cotidianamente preconceitos disseminados na comunidade italiana de Nova York, algo explicitado quando joga fora os copos utilizados por dois trabalhadores negros que visitam sua casa. Vallelonga é contratado para conduzir o carro de Don Shirley (Mahershala Ali), músico negro, culto e rico, numa turnê pelo sul do país. As relações entre os dois personagens são construídas não apenas sobre as tensões raciais, mas também de classe. Pouco se fala disso, no entanto.

Parece haver na crítica de cinema contemporânea certa dificuldade de discutir questões relativas ao conflito de interesses entre classes sociais. É verdade que, em países como Estados Unidos e Brasil, o racismo é tão estruturante quanto a exploração capitalista, mas, ao mesmo tempo, a luta antirracista pode ser mais facilmente apropriada por um discurso puramente identitário, baseado na premissa da incorporação dos grupos excluídos num sistema econômico que se mantém intacto. Pantera Negra, de certa forma, reproduz esse discurso em seu ato final, ao optar pela vitória do rei aristocrático T’Challa sobre o vilão revolucionário Killmonger. Na sequência, o herói discursa na ONU sobre a necessidade de construir pontes ao invés de muros, apresentando sua pátria, Wakanda, ao mundo, enquanto a Nakia (Lupita Nyong’o), espiã altamente qualificada e namorada de T’Challa, é reservada a administração de um centro de assistência social para jovens negros em Los Angeles.

É claro que Pantera Negra é um filme muito mais conectado a elementos da cultura negra do que Green Book, que a aborda com um humor muitas vezes descuidado, típico do cinema de seu diretor, Peter Farrelly (de Débi & Loide, Quem Vai Ficar com Mary?, Eu, Eu Mesmo e Irene, O Amor é Cego, Ligado em Você e Passe Livre, entre outros). E o tratamento dado por Farrelly e seus corroteiristas (Nick Vallelonga e Brian Hayes Currie) à questão da desigualdade de classes é também raso e conciliador. Mas o ponto é: por que só a discussão sobre racismo é usada para criticar o filme? Porque é o caminho mais fácil para uma parte da crítica cinematográfica que não consegue extrapolar a superfície do discurso progressista contemporâneo.

Por fim, um mérito involuntário de Green Book. Mesmo com sua falta de profundidade, ao cotejar o racismo sofrido por um artista erudito e bem-sucedido no sul dos Estados Unidos com a posição social ocupada por um biscateiro branco em Nova York, o filme acaba lançando luz sobre a atualidade. Em tempos de bolhas que isolam os que pensam diferente, Green Book é eficiente na defesa do contato com a diversidade, advogando, ainda que com muitas limitações, pela existência de complexidade e humanidade mesmo em grupos frequentemente reduzidos a rótulos negativos.

Wallace Andrioli Guedes é doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), pós-doutorando em História na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF),  além de colaborador da Escuta.