João Dulci*

Em Durkheim, dentre outros escritos em “Da divisão do trabalho social”, o autor discorre sobre a justiça. É bastante interessante como o Direito ganha contornos na transição da solidariedade mecânica para a orgânica. O Direito transforma-se num indicador da transição. Mas uma das figuras mais interessantes da teoria durkheimiana é o opróbrio. O opróbrio não é apenas a expiação de um crime, explícito publicamente, figura constante no mundo da solidariedade mecânica, nem a restauração da ordem anterior, presente nesse Direito imaginado da solidariedade orgânica. O opróbrio é a necessidade da humilhação pública. É uma pena que se faz para além da própria pena. É forçar a vergonha do apenado, de maneira que ele não sinta nunca mais a vontade de cometer o mesmo crime de novo, se isso for possível.

Em tempos de um assassinato coletivo, como o ocorrido em Brumadinho, o opróbrio seria a humilhação do CEO. Em tempos de capitalismo lato sensu, essa imagem jamais existiria. O camarada senta-se com os ministros do Meio Ambiente (um morto-vivo no atual governo) e com o ministro das Minas e Energia (conjugação que apenas reflete o atraso do nosso país em termos de commodities e fontes energéticas) e resolve, em tom cidadão kaneano que jamais, neste país, uma exploração de minério invadirá a terra como dantes. Disposto a uma coletiva de uns poucos minutos, já que tem que tomar um avião de volta para algum lugar, responde às confusas perguntas derivadas de confusas explicações sobre o futuro da Vale (outrora Vale do Rio Doce – ainda vão por a culpa em Getúlio). Alguns engenheiros presos, mas o CEO sai-se pela porta dos fundos para salvar as ações de uma empresa de composição mista que não pode mais se dar ao luxo de perder 0,5% do seu valor de mercado, afinal as investigações em Nova Iorque estão batendo à porta. Nenhuma resposta sobre questões penais, muito menos sobre se o governo quer defenestrá-lo, vivo, da gerência da referida multinacional.

A tragédia é uma tragédia, é uma tragédia. Um homem é um homem. Fôssemos o país comunista, terrorista e revoltado, a sede da Vale teria sido ocupada como uma reitoria de universidade diante de um reitor pelego. Não. Lamentamos a morte de mais de 300 pessoas, como lamentamos, em bottom line, a contusão de Neymar.

Mas o preâmbulo tosco sobre Durkheim, infelizmente, não é sobre um possível opróbrio do CEO. Até porque ele circula como alguém que vive intensamente a função. Num país sério, esse sujeito teria sido demitido, um inquérito policial teria sido aberto, e ele estaria avaliando suas possibilidades de fuga, Mônaco, Taiti, ou Buenos Aires. O preâmbulo é sobre um preso. Alguns diriam “preso político”. Outros diriam “ladrão”, “bandido”, “larápio”, ou qualquer sinônimo que o Word ou a Internet forneça. O preâmbulo é sobre Lula da Silva.

Há 28 anos, dona Lindu, mãe de Lula, falecia. Lula estava preso no Dops de São Paulo, depois das famosas greves do ABC. São incontáveis os documentos e filmagens que demonstram a vontade de Lula de afastar as greves da questão política. Dois filmes clássicos (um censurado, e outro não terminado a contento) apresentam a mesma fala de Lula, no estádio da Vila Euclides, pedindo para que a greve não descambe para uma greve política, uma vez que o sindicato poderia sofrer intervenção. Alemão, companheiro de sindicato, contradiz Lula. Alega que a argumentação deve também incluir a questão política, a ditadura e o arrocho salarial. Há um impasse. Lula vence a votação. Nas imagens de Leon Hirszman e de Renato Tapajós pode se ver uma faixa em que aparecem Lula e Jesus Cristo. Embaixo, algo como: eles lutaram por seu povo (falo aqui de memória).

No filme de Tapajós, que embora se cruze com o de Hirszman, retrata mais fortemente a greve de 1980, alguns detalhes saltam mais aos olhos. Enquanto o ABC da Greve termina com o conluio entre governo e indústrias para a reposição das perdas pela greve de 1979, Renato Tapajós retrata a tensão com a ocupação do sindicato pelas forças da repressão. Já não me lembro mais em qual dos dois, ocorre uma celebração de 1º de maio em São Bernardo, no paço municipal, com a presença do prefeito, artistas e Dom Cláudio Humes, que pede a multidão que ore pela liberação do sindicato. Outros tempos. A Igreja católica brasileira, cega pela doutrinação marxista, acreditava que os trabalhadores eram aqueles pelos quais Jesus Cristo lutaria no século XX, que o mesmo Jesus jamais abraçaria uma ditadura militar, e que o foco eram os pobres. Essa mesma Igreja só seria resgatada do limbo por um papa argentino, comunista e vaidoso, que escolheu como nome uma alcunha jamais escolhida, para nem sequer ser chamado de primeiro: Francisco.

Creio ainda estar certo ao dizer que é no filme de Tapajós que mostra que o sindicato sofre a temida intervenção. Cláudio Humes abre as portas da catedral de São Bernardo para algumas reuniões. Como o massacre de La Victoria, em Santiago, já havia ocorrido, os governantes brasileiros não queriam novo banho de sangue com representantes do Estado do Vaticano. Para aliviar as coisas, resolvem que o líder das greves e orador das reuniões na igreja seja preso. Lula é levado para o Dops, como um aviso para que as greves parem. Qual não foi a surpresa dos governantes que as greves continuaram. Pior, a imprensa do Brasil inteiro rumou ao ABC para retratá-las. Os estudantes de São Paulo, do Rio de Janeiro e de muitas outras capitais se uniram em solidariedade aos grevistas, sabendo que as greves anteriores haviam fracassado por falta de dinheiro e suprimentos aos grevistas.

Ainda no filme de Tapajós, como uma provocação educada às forças repressoras, as esposas dos grevistas, incluindo uma jovem Marisa Letícia, operária como o marido, saem às ruas de São Bernardo pedindo justiça salarial, devolução da sede do Palácio dos Metalúrgicos (não sei se já tinha esse nome à época) e a libertação de Lula.

A história andou. O Brasil, aos passos de formiga, incluiu em seu dicionário o vernáculo “democracia”. Lula foi eleito presidente, com a esperança de muitos, a desilusão de muitos, a oposição de muitos. Em seu discurso da vitória, Lula lembrou de sua mãe, choroso, quando recebeu o primeiro diploma, de torneiro mecânico, do SESI. Lula lembraria dessa cena inúmeras vezes. Inúmeras vezes se emocionaria ao lembrá-la. Inclusive em sua posse como presidente, disse: pra alguém que só tinha o diploma de torneiro mecânico, receber o diploma de presidente…e lágrimas.

Mas antes, muito antes, quando Lula ainda estava preso, sua mãe faleceu. Era ditadura. Lula não estava preso por um processo transitado parcialmente em julgado por um tribunal federal, com direito à presença de um advogado e divulgação internacional. Lula estava nos porões. Lula estava preso por ser um líder sindical. Por amedrontar, com algumas centenas de milhares de trabalhadores, a portentosa ditadura do Brasil grande. Quando sua mãe morreu, Lula foi autorizado a velar o corpo de sua mãe e a ir ao enterro de sua mãe.

Sem nenhuma pretensão jurídica, não sei o que Lula fez ou deixou de fazer. Lula foi condenado em segunda instância e foi levado à Polícia Federal de Curitiba, o que, por si só, já é uma afronta à execução penal brasileira, que presa pela proximidade do preso à residência familiar. Vavá, irmão de Lula, acaba de morrer. É público, para os que conhecem qualquer passagem da vida de Lula, que Vavá cumpriu o papel de pai, uma vez que o pai biológico de Lula se esvaiu quando lhe conveio. Estamos numa democracia. A defesa de Lula pediu à Justiça que Lula pudesse acompanhar o velório do irmão mais velho, figura paterna em sua formação. A Justiça negou. A prisão de Lula, publicamente, é uma restauração durkheimiana da ordem institucional brasileira. Ela foi necessária para que a população elegesse seu opositor e extirpasse, para sempre, sua herança do país. Mas isso não é o suficiente. Lula precisa sofrer o opróbrio. Lula precisa saber que qualquer preso seria acompanhado ao enterro de seu irmão, menos ele. Lula não é um preso comum.

João Dulci é Doutor em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ) e Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora. Colabora com a Escuta.

Fotografia de Clóvis Granchi Sobrinho/Estadão. Disponível em https://acervo.estadao.com.br/noticias/acervo,lula-foi-liberado-da-prisao-para-enterro-da-mae-em-1980,70002699834,0.htm