João Dulci*

Num dos mais famosos quadros do grupo Monty Python, um senhor entra numa loja de animais e tenta devolver um papagaio, alegando que lhe foi vendido um papagaio empalhado como se fosse um animal vivo. Ele tenta de todas as formas mostrar o fato óbvio de o bicho não estar vivo, mas o vendedor contra-argumenta das mais inimagináveis maneiras que o papagaio é assim mesmo. Ele é quieto. O comprador é que está enganado. (Se não me equivoco, foi Brecht quem disse que não havia nada mais difícil que provar o óbvio.) Num dos muitos finais do quadro do grupo inglês (que foi refilmado até ao vivo no Hollywood Bowl), o comprador, num ato de irritação, bate com o papagaio no balcão da loja, para mostrar que ele não reage. O vendedor vira pra ele e diz: agora você o matou.

Aos vinte quatro dias do novo Brasil, vivemos num esquete do Monty Python, que não se iniciou hoje. Desde há alguns anos, demonstrar o óbvio não tem sido tarefa fácil para alguns brasileiros. Embora soe engraçado, foi preciso provar pra muitos que MAMADEIRA DE PIROCA não existe, que tampouco é distribuída para crianças nas creches públicas brasileiras. Uma das entusiastas defensoras desta tese foi descoberta por parlamentares holandeses agora, porque disse, em 2013, que na Holanda os pais masturbavam bebês.

Uma das primeiras medidas adotadas para o novo Brasil foi o afrouxamento da posse de armas para defesa pessoal. O argumento liberal é de que se dá autonomia ao indivíduo para defesa de sua mais intrínseca propriedade: a vida. Não há argumento contrário que fique de pé diante de tamanho apelo emocional. É difícil desenvolver um raciocínio que prove, por exemplo, que se a proteção da vida não funciona no Brasil, alguma razão há por trás. Os bandidos!, responderia um entusiasta mais afoito. Os bandidos existem e operam livremente por incompetência das forças que deveriam reprimi-los. Mas as forças que deveriam reprimi-los passaram há algum tempo de forças ostensivas a modelos de selfies em protestos. E assim vamos, redemoinho adentro, para chegar na estranha constatação que os modelos de selfies podem estar errados, que podem ter alguns pecadilhos no armário, uma verba recebida de forma não legal, uma ajuda de custo, um carro usado vendido num momento de maior aperto.

Armas em casa não resolvem o problema da corrupção, por exemplo, algo que será extirpado do país nas próximas 48 horas. Não resolvem, pasmem, o problema da corrupção policial. A constatação de sua necessidade, no fundo, é a materialização da falha dos modelos de selfie.

Há uns anos foi assassinada uma juíza que investiu contra um grupo que colecionava deslizes na corporação militar. Mais ou menos ao mesmo tempo, recordam-se as tentativas do deputado eleito, Marcelo Freixo, de destrinchar as milícias do estado do Rio de Janeiro. O deputado vive sob escolta policial desde então, mesmo destino que teve o ex-secretário de segurança pública, Luiz Eduardo Soares, ao tentar, sem grande sucesso, exonerar policias corruptos. Ano passado, uma vereadora da cidade do Rio de Janeiro foi assassinada. Marielle Franco. Não se pode acusar abertamente ninguém, já que a investigação minuciosa e cuidadosa ainda está em curso. As suspeitas, apenas isso, recaem sobre milicianos muito bem treinados nas fileiras da escola de modelos de selfies. A vítima mais recente dos descuidos militares foi Jean Wyllys, deputado federal por dois mandatos.

Em entrevista publicada pela Folha de São Paulo, o deputado eleito para um terceiro mandato abre mão do seu posto, sendo um dos primeiros auto exilados do novo Brasil. As razões apontadas por ele dizem respeito à presença de um senador garoto, umbilicalmente ligado aos pequenos deslizes militares no estado fluminense, além da presença, na presidência da nova república isenta de corrupção, de um declarado inimigo de Wyllys. A entrevista é forte o bastante para demonstrar que Jean Wyllys sente-se ameaçado, amedrontado e acuado no novo Brasil. Ele foi falsamente acusado de inúmeros crimes pelas sempre vigilantes fake News espalhadas nas redes, sendo obrigado a instaurar alguns processos por calúnia, injúria e difamação. Num deles, o ator pornográfico Alexandre Frota foi obrigado judicialmente a pagar-lhe algumas centenas de milhares de golpinhos. Mas o medo de Jean Wyllys vai além das acusações de pedofilia. Passa por ameaças reais de morte que pululam em suas redes e em seus telefones.

Jean foi, para mim, que mal o conhecia, uma grata surpresa no Congresso Nacional (para os que o conheciam, apenas confirmou as expectativas). Tendo sido o primeiro deputado federal declaradamente homossexual, defendeu as causas LGBT, conquistando o direito da união civil homoafetiva. Se alguém acha pouco tal conquista, deve estar longe do Brasil há muitos anos. O reconhecimento desse direito ergue a população LGBT a um status extremamente relevante aos olhos do Estado. O mesmo Estado que se recusa a incluir qualquer referência à população LGBT quando trata de crimes contra minorias. Mesmo que os assassinatos e agressões da população homossexual seja quase um esporte olímpico neste país, que detém um dos mais altos números sobre o tema em todo o mundo.

No entanto, Jean Wyllys está longe de ser um cidadão de bem no novo Brasil. Está mais para a ponta da praia do que para o seio da família brasileira. Não foi para Jean Wyllys, por exemplo, que o afrouxamento na posse de armas foi feito. Ele não se enquadra no perfil do novo brasileiro, assim como negros, pobres, mulheres, estrangeiros ou Galileu Galilei.

Para mim, pessoalmente, resta a memória do discurso de Jean Wyllys, ao proferir seu voto contra o prosseguimento do processo de impeachment de Dilma Rousseff. Ele demora um bom tempo para iniciar seu voto, sob vaias, porque alguns deputados em torno dele o humilham, inclusive tirando o microfone de sua frente. Jean Wyllys teve em sua altivez a maior arma naquele instante, mais até que em suas palavras. Do alto de sua dignidade, votou como segue:

“Em primeiro lugar, quero dizer que estou constrangido de participar dessa farsa, dessa eleição indireta, conduzida por um ladrão, urdida por um traidor/conspirador e apoiada por torturadores, covardes, analfabetos políticos e vendidos. Essa farsa sexista. Em nome dos direitos da população LGBT, do povo negro exterminado nas periferias, dos trabalhadores da cultura, dos sem teto, dos sem terra, eu voto não ao golpe. E durmam com essa, canalhas!” Era o 78º contra o impeachment, que algumas horas depois seguiria seu curso para um oceano ainda a ser definido.

Aos poucos, bem aos poucos, a obviedade vem à tona. Alguns, no entanto, insistem em não enxergá-la. Não adianta bater com a obviedade no balcão da loja, sob o risco de sermos acusados de termos matado a verdade.

* João Dulci é Doutor em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ) e Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora. Colabora com a Escuta.

** Crédito da imagem: Agência Câmara. Retirada do site: <https://exame.abril.com.br/brasil/jean-wyllys-diz-que-desistiu-de-mandato-e-vai-deixar-brasil-apos-ameacas/?fbclid=IwAR1qL1t_HMq_fXLr9BYJLviXkMA-T587Y5aY9Vh9SFqVxORpwoIMyihobsQ&gt;. Acesso em: 25 jan. 2019.

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