João Dulci*

O subcontinente latino-americano é uma miríade de países de distintas origens dos períodos colonialistas europeus. As espoliações seculares resultaram em alguns dos países mais pobres e de pior IDH do mundo e alguns países cujas maiores características são a diversidade e a desigualdade. Há alguns anos, São Paulo tinha mais helicópteros que Nova Iorque e, há algumas décadas, dizia-se, de forma marcadamente estrutural, que o Brasil reunia o que havia de melhor na Bélgica e o de pior na Índia. Apesar disso, orgulhamo-nos da primeira revolução escrava no Haiti, das origens africanas na culinária e na música brasileiras, e do letramento argentino. Na década de 1990, pululavam estatísticas sobre a enorme quantidade de livrarias no centro de Buenos Aires, e de como o ar europeu pairava por Montevidéu. Chamou-se um desses países de Suíça sul-americana. Inevitáveis referências à Europa tornaram-se sinal de progresso e desenvolvimento. Tentou-se, em diversas áreas, copiar o que havia de melhor na Europa ocidental. Eram outros tempos, em que a Hungria gerava apenas uma leve desconfiança e estava longe qualquer inspiração política vinda daquele país.

No velho mundo, ainda na esteira da reconstrução continente, em 1955, criou-se a Copa dos Campeões da Europa, torneio que reunia os campeões nacionais em uma disputa em dois jogos eliminatórios e que serviu, em seus primeiros anos, para a consolidação cultural e material do regime franquista, com os dois mil títulos do Real Madrid em cinco anos. Com um ataque que faria corar de raiva os antiglobalistas, o time sintetizava a extensão de poder de Franco, reunindo em seu ataque cinco jogadores de cinco nacionalidades distintas. Se Messi jogasse naquela época, não teria nenhuma vergonha de se naturalizar espanhol, o que faria cessar as suspeitas sobre seu verdadeiro intuito ao vestir as cores albicelestes.

Pois que em 1960, do lado de cá do Atlântico, resolvemos nós responder à criação da copa europeia, criando a Taça Libertadores da América. Esteticamente, já se marcava uma distinção, uma vez que copas eram os troféus onde se podia servir o espumante para o campeão. A taça daqui carregava desde sempre uma bola embaixo de um jogador, com duas estranhas orelhas de Shrek nas laterais. Em sua base, são gravados os nomes dos campeões. Uma réplica é oferecida ao time campeão e a taça original é levada aos estádios na finalíssima do torneio. O nome da competição, como uma provocativa resposta indireta e terceiro-mundista aos colonizadores, se deu como homenagem aos grandes nomes que as histórias nacionais elevaram às categorias de heróis. Bolívar, San Martin, O’Higgins e que tais, juntos, são representados como nossos libertadores. Em inúmeras edições, partidas foram disputadas em canchas que homenageiam políticos das nações participantes. Nações essas, por sinal, situadas em quase todas as edições na porção sul-americana do subcontinente. Afora algumas participações mexicanas, a disputa ficava restrita a apenas 17 mil quilômetros de extensão e 5 mil metros de altitude.

Ao longo dos anos, a competição teve distintos caminhos. Na década de 1960, dava sinais de que seria um torneio bem-sucedido, com equipes de alto nível, como o Peñarol de Spencer, bicampeão, o Santos de Pelé, também bicampeão, e o tricampeão Estudiantes de La Plata, de Carlos de Bilardo, que viria a ser campeão mundial como treinador da Argentina em 1986. Mas, pelo menos da perspectiva brasileira, o viés de baixa começou logo no fim daquela década. Com partidas disputadas em estádios de estrutura questionável (não me parece certo que isso tenha mudado muito), jogos extremamente violentos e premiação baixa, os times brasileiros, principalmente o grande Santos, preferiam excursionar mundo afora do que colocar suas canelas à disposição dos adversários. Em diversas entrevistas, os jogadores da máquina santista ainda confirmavam essa versão que, se verdadeira ou não, é aquela em que eles acreditam.

A década de 1970 viu algumas equipes brasileiras de alto nível serem eliminadas pelos times argentinos. Foi um período de supremacia portenha, com os muitos títulos do Independiente (o Rey de Copas), quatro vezes campeão e base da seleção na copa de 1978, o primeiro título do River Plate, com Ramón Diaz como maior ídolo, e o primeiro título do Cruzeiro, que voltaria a ser campeão na década de 1990.

A década de 1980 iniciou-se com o título do Nacional. No ano seguinte, o Flamengo venceria, numa edição contestada pelos torcedores do Atlético de Belo Horizonte, que reclamam da atuação do juiz José Roberto Wright. Na finalíssima, o caso dos jogadores do Cobreloa, munidos de pedras nas mãos, e o volante Anselmo, que entrou em campo apenas para quebrar a perna de um adversário do time chileno. Foi um período de consagração para grandes nomes do futebol brasileiro, marcando ainda os últimos títulos uruguaios, mas que não recuperaria totalmente o torneio como algo grandioso. Creio que isso só ocorreria no decorrer dos anos 1990, se é que de fato ocorreu algum dia.

O decênio seguinte assistiu a um grande time do São Paulo, que chegou a três finais consecutivas, perdendo apenas a terceira para o então modesto Vélez Sarsfield (àquela época, o mais famoso Vélez do continente). Para evitar que esse escrito se torne um verbete de Wikipedia, ouso dizer que, de lá pra cá, houve muitos campeões (afinal, são quase 30 anos), até que se chegasse à final de 2018. Falarei especificamente dela lançando mão de longas digressões.

A final de 2018 demorou quase um mês entre o primeiro e o segundo jogos. A final de 2018 reuniu os dois maiores times da Argentina, fazendo, provavelmente, o maior clássico do continente americano: River x Boca. A final de 2018 é o Charles Dickens das finais de libertadores. Reuniu o que poderia haver de melhor, e o que podemos fazer de pior em nossa pequena porção de terceiro mundo. De maneira a eximir brasileiros, uruguaios, paraguaios e chilenos de responsabilidade, podemos dar apenas uma mirada na composição da maior final de todos os tempos a partir do olhar argentino.

River Plate e Boca Júniors refletem, já em seus nomes, o orgulho que os argentinos têm de uma incerta influência inglesa que se faz sentir em alguns setores daquele país. Há um sem número de almirantes com pomposos sobrenomes britânicos. Ambas as equipes nasceram na região portuária de Buenos Aires, adotando cores e nomes estrangeiros. River Plate, uma canhestra tradução de Rio da Prata (afinal, uma tradução literal resultaria em algo como, rio metálico, ou rio prato para os mais jocosos), e os meninos de la Boca, que coloriram seu manto com as cores da Suécia. Times de bairro, que ficaram maiores que o próprio país. Algumas décadas mais tarde, o River, provavelmente cansado da pobreza da Boca pré-turismo, se mudou para o rico bairro de Nuñez, deixando seu ex-vizinho pintar el bario com suas cores. Não há um turista desavisado que não tenha gasto dinheiro pagando por uma foto com o sósia de Maradona, incrivelmente mais gordo que o original, ou ao recostado numa caricatural estátua del Diós.

No entanto, apesar da grandeza das duas maiores potências bélicas portenhas, ambas as equipes reproduzem uma simpática tradição de times de bairro. Nos anos 1990, dizia uma estatística inglesa (como não?) que a Argentina só tinha menos times profissionais de futebol que a própria Inglaterra. Desses, precisamente 138% situam-se na província de Buenos Aires, espalhados por tantos bairros como os cantados nos tangos lacrimosos de Homero Manzi e Horacio Ferrer. Da rivalidade dos bairros saíram algumas histórias curiosas, como a do Chacarita Júniors, time dos comunistas buenairenses. O estádio do time situava-se ao lado do cemitério, o que motivou o apelido de “funebreros”. Numa disputa política, a equipe teve se mudar para a o distrito de General San Martín, deixando o estádio ao modestíssimo Atlanta. A proibição de torcida visitante, moda que ecoaria na final da Libertadores, nasceu de uma batalha campal pelas ruas de Mataderos, protagonizada pelos torcedores de Vélez Sarsfield e do Nueva Chicago. Uma das mais vorazes rivalidades situa-se em Avellaneda, famoso reduto peronista, onde poucas quadras separam Independiente e Racing Club. Não há como não ouvir os primeiros versos de “Sur”, por exemplo, e não lembrar do famoso time de Boedo, o San Lorenzo.

Além da tradição dos bairros e sua identidade com os clubes, o futebol argentino é famoso pelas suas Copas do Mundo no mínimo questionáveis, e por uma forte identidade política. Não houve um presidente ou líder argentino ao longo do século XX que não fingisse gostar de futebol. Perón era torcedor do Racing, cujo estádio receberia seu nome. Outro torcedor dos acadêmicos foi Néstor Kirchner que, curiosamente, viu seu time sair de uma fila de mais de 40 anos sem títulos nacionais. Sua substituta, Cristina Kirchner, recebeu apoio de torcidas organizadas de River e Boca. Che Guevara, único morador não soviético de Cuba a jogar futebol, torcia para o Rosário Central. Macri foi presidente do Boca Júniors. Isso sem esquecer do general Videla, torcedor do River, que usou e abusou da copa de 78 para aumentar sua popularidade. Seus soldados chegaram a dar “passeios” com presos políticos para convencê-los de que a Argentina da junta militar estava feliz e os havia esquecido.

Sem a ambição de transformar esse texto sem norte num infindável compêndio de histórias desconexas sobre futebol, lembro ainda da homenagem do simpático Platense ao maior cantor de tango já nascido em solo argentino, Roberto Goyeneche, que dá nome à arquibancada principal do Estádio Ciudad de Vicente Lopez.

Mas a final da libertadores não apresentou esse colorido cenário. Era o melhor dos tempos. Foi o pior dos tempos. É uma final que começa muito antes dos jogos jogados. River e Boca chegaram à decisão de formas, no mínimo, questionáveis. Os milionários, que alteraram muito seu time ao longo da competição, jogaram a primeira fase inteira com um jogador irregular, não sendo punido por um critério conmebolesco que garante impunidade àqueles que não forem denunciados, regra que parece inspirar alguns setores judiciais brasileiros. Do lado dos genoveses que vergam as cores da Suécia, é impossível não lembrar da injusta expulsão de Dedé, no primeiro jogo das quartas de final, que acabaria abrindo espaço para o segundo gol argentino.

Nas semifinais, River e Boca enfrentaram dois times brasileiros, combinação que ensejou a famosa afirmação do bostero Macri, de que preferia que a final fosse entre dois brasileiros. A sorte divorciou-se de Macri há muito e, agindo com toda a liberdade individual sonhada pelos seus parceiros liberais, escolheu uma final argentina, portenha e de la Boca. O primeiro jogo seria disputado no místico, sujo e íngreme estádio da Bombonera, local para onde se recomenda iniciar a locomoção umas 10 horas antes das partidas, inúmeras são as barreiras até a entrada. Tampouco se pode acessá-lo munido de isqueiros ou relleno de bebida alcóolica, embora nas imediações das torcidas organizadas os usos de psicotrópicos, álcool, tabaco e isqueiros sejam mais que liberados. O segundo jogo seria no Monumental de Núñez, palco da final da copa de 1978, onde, como diria o professor Luís Simas, a trave salvou a ditadura argentina.

Estranhamente o primeiro jogo ocorreu sem maiores perturbações, exceção feita à defesa do River, que prefere se encastelar na própria área, criando o caos para seu pobre arqueiro. Para quase todos, o fim da partida, sem vencedor, garantiria um bom jogo na segunda perna da final, a última disputada em dois jogos. Quis o destino que a segunda perna fosse uma longa e enfadonha disputa fora dos campos.

A história é conhecida por quase todos. Com 70 mil pessoas dentro do estádio, um grupo de torcedores atirou tudo o que viu pela frente no ônibus do Boca Júniors. Estilhaços acertaram alguns jogadores e o jogo não aconteceu naquele sábado, não aconteceu naquele domingo e só viria a acontecer algumas semanas depois, em solo espanhol.

A decisão sobre o local do jogo é o que há de mais relevante nesta história, já que o jogo, em si, só ficou bom mesmo na prorrogação. Efetuou-se um leilão de sedes, que incluíam Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Dubai e Paris. Mas a escolha foi por uma final em Madri. A final em Madri passa uma borracha em quase tudo que foi contado aqui sobre o espírito, as origens e a história da Taça Libertadores da América. É uma piada pronta. Além da perfeita aceitação de que nem as nossas mais singelas quimeras terceiro-mundistas se mantêm de pé, mais grave foi o desnudar pleno da incompetência organizacional de qualquer pessoa que respire nas imediações da Conmebol. Simbolicamente, os libertadores da América cruzaram o Atlântico para devolver aos europeus mais um pedaço de prata. Só faltou mesmo transportar a taça numa caravela espanhola construída com madeira africana. O nosso continente tem uma história que encerra exploração, espoliação, ditaduras, torturas, desaparecimentos, guerras e rivalidades (muito mais sérias que essa bobagem de Brasil e Argentina). Mas nosso continente ainda podia se orgulhar de ter futebol, jogado ao nível do mar ou no pico dos Andes. E, num estádio sujo ou num estádio de Copa do Mundo, lá estávamos, a torcer por jovens à espera da emissão do passaporte para emigrar para a Europa. Já não precisam mais de tanto esforço. Exportamos os jogadores, os times, a bola e a taça.

* João Dulci é Doutor em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ) e Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora. Colabora com a Escuta.

Imagem de Keystone-France / Getty. Disponível em https://www.lavanguardia.com/deportes/futbol/20160519/401888296416/real-madrid-pentacampeon-copas-de-europa.html

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