João Martins Ladeira*

I

Para um filme sobre viagens ao espaço, são raros os momentos em O Primeiro Homem (First Man, 2018, de Damien Chazelle) no qual desfrutamos o espetáculo prometido. Mantidos boa parte do tempo no interior dos claustrofóbicos módulos espaciais, somente uma vez ou outra vemos a nave pela perspectiva espetacular de um olho flutuando no espaço. Há, em obras deste tipo, um caráter grandioso, dado o traço fantástico que, em prol de um universo fabricado, elimina uma natureza impossível de apreender a menos que a produção viaje para fora da Terra. Numa contradição curiosa, a vastidão do infinito cabe num estúdio. Quando surgem, os atores desses filmes contrastam com tais reconstituições como um mero detalhe.

Mas o trabalho de Chazelle decorre das sensações particulares de um personagem. Invertendo a fórmula, tal filme subordina a recomposição miraculosa ao ponto de vista de alguém, transformando a viagem num acessório bem menos importante. O trabalho retoma a individualidade de Neil Armstrong (Ryan Gosling), atendo-se ao modo como apreende certos momentos – e, mais importante, como somos todos convidados a compartilhá-los. O Primeiro Homem surge como uma reconstituição atrelada à narrativa da solidão pessoal. Contudo, faltam imagens aptas a dimensionar cinematograficamente o resultado.

Decerto, O Primeiro Homem elimina parte do glamour da ficção científica. Mas, ao invés de qualquer esforço por “desconstruir” o gênero, tem-se tão somente uma biografia como qualquer outra, que, por acaso, passa-se no espaço. Atados como nos encontramos a Armstrong, sentimos aquilo que ele sente. Se esse filme espacial nos priva da magia tão típica a um gênero do qual essa obra decididamente não participa, vemo-nos, então, convidados a experimentar medo e apreensão frente à fúria do universo, remontada diante da câmera na expectativa de traduzir as dificuldades da missão.

Essencial para esse resultado se torna a escolha dos planos. Quase tudo ocorre no rosto de Gosling. Escolha contraintuitiva frente à grandiosidade do tema, é notável a quantidade de closes dessa face. O traço não se repete apenas durante a introspectiva aventura. Atenta-se ao rosto mesmo na Terra, como quando se narra a vida doméstica do astronauta e de Janet (Claire Foy). Uma análise dos planos revelaria uma passagem essencial para todo o filme, na qual usualmente se salta do rosto para um longo plano americano, enquadrando os personagens em conjunto. Decisão repetida em outras ocasiões, a cena em que o casal dança ilustra a questão – mas não é isso que importa aqui.

II

A construção esconde outro objetivo. O Primeiro Homem não existiria sem efeitos especiais: contudo, passa longe do tão gasto CGI. De fato, privilegia objetos concretos trazidos para o interior da filmagem, permitindo à câmera capturar uma realidade trabalhosamente reconstituída. Em contraponto ao registro dos atores contra um fundo verde visando à produção de imagens digitais, o filme toma parte num conjunto de obras que prefere se utilizar de réplicas meticulosamente modeladas a fim de sugerir os objetos originais. A redução frente ao original se torna o principal mecanismo para, através de tais brinquedos, elaborar a semelhança esperada no interior da imagem.

Há algo de concreto em tais miniaturas. Elas são falsas, mas, também, estranhamente reais. Uma réplica do foguete em ignição instaura traços aleatórios. As chamas se espalham, assim como ocorreria a um objeto nas proporções corretas produzindo fogo. Caso essa imagem tivesse de ser digitalmente produzida, se precisaria programar as chamas, baseando-se numa suposição sobre como deveriam se comportar, ao invés de contar com o registro de um fato ocorrido. Quando este tipo de cinema afirma sua concretude, o faz frente a uma ilusão muito maior, a qual, como alternativa, se teria de recorrer.

A luz correta faz a câmera evocar tais objetos, pois, como um souvenir guardando a própria coisa, eles se parecem com seu referente. Mas essa não é a única técnica em pauta. O Primeiro Homem depende de imagens tomadas no interior das naves a fim de capturar as faces que tanto importam. Esse momento envolve a reconstrução dos próprios equipamentos de voo. No interior deles, inserem-se os atores com o objetivo de reter sua interpretação em contraste com um tipo estranho de cenário. Tais equipamentos são fotografados diante dos astros e do céu, mas, aqui, a Terra não é nada além de imagens exibidas em gigantescas telas de LED, cuja imensa precisão produz o fundo contra o qual se filma o resultado definitivo.

O efeito psicológico mais importante de O Primeiro Homem está nas dificuldades da viagem. Os módulos perdem o controle, chacoalham, giram. Essas máquinas realmente se agitam no set. Seu movimento depende de gigantescos braços mecânicos, que sacolejam as reproduções a fim da câmera capturar seu efeito sobre o ator. Nada mais velho que filmar a Antártida em algum território repleto de neve, mas muito mais seguro. Há o frio, mas não o gelo mortal. São escolhas clássicas na pretensão de reconstruir o inacessível. Agora, essa solução se mescla com algo que lembra os ingênuos cenários construídos no interior dos estúdios da Hollywood clássica, dentro dos quais parecia caber todo o mundo: desertos, florestas ou cidades.

Quando se considera o cinema no interior de sua própria história, a reconstituição da realidade de O Primeiro Homem se torna mais concreta devido somente à inconcretude do digital. O espaço sideral é inacessível: mas a sua reconstrução em plena Terra se contrapõe a outra ilusão mais inverossímil. Os esforços de reconstruir a realidade se mostram tão intensos porque os efeitos especiais exerceram a sua presença de modo muito repetido. É contra eles que certos filmes se levantam. Comparado a obras que não existiriam sem um objeto concreto, O Primeiro Homem mais parece um estranho meio-termo entre Kon-Tiki (1950, de Thor Heyerdahl) e Avatar (2009, de James Cameron).

Para o cinema, a relação com a realidade não pode nunca ser considerada uma questão menor, um anexo curioso a problemáticas supostamente mais importantes, como narrativas ou ideologias. Os múltiplos vínculos que essa arte desenvolve com o mundo, apropriando-o em sua potência máxima ou simplesmente burlando o imperativo por ele introduzido, lidam com aquilo que esse ofício possui de mais específico. Trata-se de um atributo essencial dessa atividade, e compreender os múltiplos usos que a ele se dá indica um problema não apenas importante, mas absolutamente essencial.

III

Ater-se a tal solidão contém uma postura ousada. Mas o limite de Chazelle está no modo como a encaminha. O Primeiro Homem esbarra em sua própria dificuldade em inventar imagens sem tão somente repetir o próprio cinema. Quando se enquadra a Apollo 11, vê-se a vastidão do espaço como se a visão estivesse posta na fuselagem da nave, mostrando o universo sem apagar a presença da máquina e evitando um enquadramento banal do equipamento. A bela decisão, todavia, apenas repete a decupagem de Interestelar (2014, de Christopher Nolan). Além disso, soa constrangedor que o acoplamento entre a Gemini 8 e a Agena se pareça tanto com 2001: Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odyssey, 1968, de Stanley Kubrick). Há até uma valsa.

Ainda mais grave, toda a construção cinematográfica do espaço retoma os próprios filmes produzidos pela Nasa sobre a missão Apollo. Basta assistir aos documentários Nasa – 50 anos de missões espaciais (When We Left Earth: The Nasa Missions, 2008), especialmente o episódio Landing the Eagle, e Footprints on the Moon: Apollo 11 (1969, de Bill Gibson).  Não se trata apenas de que sejamos lembrados dessa história recente, mas que venhamos a rever as próprias imagens que sobre ela se produziu. Em diversos momentos, tem-se a impressão de que essas narrativas documentais foram refilmadas, numa ficção incapaz de elaborar seus próprios traços.

Aquelas técnicas que se contrapõem à computação retomam um ambiente paradoxal, elaborando um mundo irreal com o objetivo de repetir, dentro de um universo da ficção, um espetáculo documental. Repetindo as viagens especiais a partir de réplicas extremamente semelhantes, produzem-se registros que se comportam como se as viagens da Apollo 11 ocorressem uma segunda vez, agora em estúdio. Mas, além disso, Chazelle torna o seu filme uma lembrança daquilo que boa parte do público já viu, ainda que em frações dilaceradas, estas que seu trabalho faz a gentileza de reagrupar.

Reconstituir um ambiente mediante evidências físicas sobre como os objetos eram ou deixavam de ser não consiste em nenhuma novidade para o cinema. Objetivo de quase toda a ficção científica está em recriar o espaço como se a produção tivesse viajado para fora da Terra. Mas O Primeiro Homem reconstrói os próprios filmes sobre a missão Apollo. Recuperar as imagens de certo documento e repeti-las permite elaborar um resultado bastante particular. Que esse traço se una a um espetáculo tão atento aos detalhes oferece um dado sabor ao filme, o qual, a despeito de sua graça, esbarra numa certa falta de imaginação.

* João Martins Ladeira é professor, escritor e colaborador da Escuta.

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