João Martins Ladeira*

O Doutrinador (2018, de Gustavo Bonafé e Fabio Mendonça) é, sem dúvida, mais uma entre as muitas variações sobre a mítica da Lava Jato, nas infinitas derivações possíveis dessa fábula sobre a ordem que, finalmente, conseguiu-se elaborar no Brasil. Movimento raro esse no qual se consegue construir uma mitologia para uma sociedade – ou pelo menos para uma parte dela. Porém, embora seja uma fração de um processo bem mais amplo, o filme não deixa de ter uma curiosa especificidade, devido às idas e vindas com que nos leva a atermo-nos a nosso herói mascarado apenas para, mais adiante, abandoná-lo. Que se tenha optado por uma criatura de história em quadrinhos ao invés de se recontar dramaticamente mais uma entre as muitas versões possíveis de um épico para o qual acontecimentos reais ainda oferecem intenso material aumenta ainda mais a particularidade desse trabalho.

O flerte com os super-heróis soaria ridículo, mas O Doutrinador cumpre a função de nos conceder uma versão nacional das sagas dos encapuzados da Marvel. As semelhanças com a série elaborada por Steve Lightfoot, O Justiceiro (The Punisher, 2017), são desconcertantes. Como não poderia faltar, estamos diante de um anti-herói mentalmente debilitado, fruto de uma guerra que o faz clamar, num misto de ódio e violência, por justiça. Mas essas aparências se mostram apenas superficiais, pois, para além de tal casca, surgem as reais conexões que orientam o filme. Retomando a leva de produções brasileiras desde Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro (2010, de José Padilha), tenta-se, aqui, falar sobre uma certa política, esse tema do qual o cinema policial sempre se esforçou por prescindir.

Assuntos para nós alienígenas – máscaras e uniformes de vigilantes secretos – naturalizam-se somente a partir do instante em que esse trabalho se afirma como uma derivação de Polícia Federal: A Lei é para Todos (2017, de Marcelo Antunez) ou O Mecanismo (2018, de José Padilha). A escolha dos oponentes dá o tom à obra. Entre todos os vilões possíveis de servir como alvo para o Doutrinador, escolhem-se não as quadrilhas de traficantes, as máfias estrangeiras ou os segredos de Estado, enredos, em comparação, disponíveis para a Marvel. No Brasil, o problema reside nos políticos corruptos, vistos, aqui, como um mal imperativo de extinguir. Para isso, o pretexto do filme esbarra numa narrativa que personaliza uma perda apenas para abandoná-la com uma rapidez nunca antes vista no filme policial, numa leitura sobre esse tipo de filme nossa, idiossincrática.

Neste gênero, a vingança se motiva por traumas pessoais – e a família surge, ora sim, ora não, como um recurso importante. Miguel (Kiko Pissolato) precisa assistir à morte de sua filha para que sua jornada tenha início. O choque concede um pretexto para a identificação entre o público e esse homem, tornando aceitável quase quaisquer atitudes. Não há muita novidade nesse enredo, utilizado no cinema policial em Bullitt (1968, de Peter Yates), no qual se assiste ao assassinato de um colega; ou mesmo em obras de outra natureza, típicas à seara B, como A Outra Face da Violência (Rolling Thunder, 1977, de John Flynn). Esses trabalhos tiveram o cuidado de deixar clara essa conexão entre a motivação inicial e a ação posterior. Tais mortes nunca foram um tema menor, pois este cinema lida sempre com a tensão entre o universo institucional da lei e o indivíduo que, de muitos modos, encarna sua execução.

Mas, em O Doutrinador, o elo – ou a sua falta – com um universo particular a legitimar os atos do personagem foi cuidadosamente desmanchado. Em nenhum momento se faz qualquer conexão explícita entre a prisão do governador e o atentado contra o policial. Nós nunca vemos quem disparou a bala perdida que acerta a pobre menina. Que o pistoleiro nunca seja localizado não é um mero detalhe. Mais estranho: para o nosso herói, parece mais importante destruir os corruptos que localizar a mão responsável pelo tiro. Todos os pretextos que introduzem a trama são rapidamente descartados em prol daquilo que realmente importa: a cruzada de toda uma sociedade, substanciada nesse único homem, contra o seu mal maior.

O efeito de catarse deveria ser estarrecedor – mas não é. Não seria absurdo imaginar que Miguel esteja errado, e que a morte de Alice (Helena Luz) tenha realmente sido apenas um acidente maléfico. Intrigante que essa hipótese não seja nem ao menos apontada pelo filme. E indícios para considerá-la não faltam. Um observador atento poderia perguntar por que sua família teria sido a única vítima de qualquer retaliação. Parece no mínimo curioso que nunca se veja nenhum atentado – na verdade, nenhuma tentativa de ataque – contra Edu (Samuel de Assis) ou qualquer outro personagem. O Doutrinador jamais causará o furor de Tropa de Elite (2007, de José Padilha) – talvez, por ter sido projetado a fim de evitar esse prazer incômodo. Os enganos que terminam delicadamente enunciados nos protegem de tal efeito.

Para cumprir os pressupostos nos quais o filme se baseia, é indispensável que, embora Miguel careça de certeza sobre o que aconteceu, não deixe, mesmo assim, de agir. Há um impulso maior que o define como o tipo de herói mais caro a um cinema de mito, apto a assumir um drama de vastas proporções épicas. Dessa perspectiva, qualquer conexão entre causa e consequência se torna descartável. Veja-se os laços que levam o policial até a frente da sede do Governo. Carentes de propósito, resultam numa associação entre uma corrida casual, clichê recorrente para o homem de ação que tenta “espantar seus fantasmas”, e o protesto da população anônima, reprise de junho de 2013. Pela força do destino, um ato conduz a outro e o Doutrinador recebe forças das massas que o circundam.

A invasão do Governo tem início sem qualquer inferência racional, envolvendo motivos tão somente pressupostos. Se a solução para o assassinato da menina soa como uma premonição, então o estopim para a primeira execução do Doutrinador resulta de outra sequência arbitrária de elos causais: é porque ambos fluem para um objetivo maior, uma missão a qual esse personagem não pode se eximir. Quando o Doutrinador nem ao menos interroga o governador Sandro Correa (Eduardo Moscovis) sobre o pistoleiro que teria executado os disparos, quando socar um corrupto até a morte parece mais relevante que esclarecer um assassinato pessoal, isso se deve a uma obsessão brasileira: o combate a todos os corruptos.

Talvez apenas o Super-Homem fosse tão altruísta a ponto de sacrificar desse modo suas preocupações mais pessoais em prol das mazelas de uma sociedade – com uma diferença: ele nunca seria tão bárbaro. As execuções orientadas pela jornada sagrada, em relação a qual não parece muito saudável a deputados, senadores ou futuros presidentes se colocar no caminho, aparecem como um fim em si, sobrepondo-se a todas as contradições sempre tão caras ao gênero policial. A obra sabe disso, e joga com nossa identificação dúbia em relação a um assassino tão frio. Faz com que nos identifiquemos com ele num momento, apenas para nos ensinar o quanto deveríamos nos arrepender de tal elo. Numa engenharia bastante dúbia, é o próprio filme que permite a dúvida sobre um vínculo indispensável à condução da trama.

Se tal decisão surge como a primeira nuance, outras conexões elaboradas ao longo da narrativa se mostram ainda mais desconcertantes. O passo seguinte surge quando se encerra a primeira metade do filme. O atentado equivocado contra Antero Gomes (Carlos Betão) deixa claro para o público que pode não ser muito razoável confiar plenamente no julgamento do Doutrinador. A sapiência usualmente abençoa os heróis uniformizados, norteando suas decisões, mas aquelas suas premonições talvez tenham funcionado somente até aqui. Agora, esse vingador se descobre envolvido em eventos que nos lembram do perigo de certas escolhas. A prova é o tiro que acerta alguém sem relação direta com sua cruzada.

A partir desse momento, o filme muda de tom. A segunda metade de O Doutrinador parece construída para desfazer qualquer simpatia que porventura tenhamos construído com o personagem. Progressivamente, o trabalho nos convida a abandonar aquele que parecia ser o nosso herói, oferecendo-nos outro. No lugar de um justiceiro, tem-se um policial sensato, operando dentro da lei. Num dos diálogos, somos didaticamente informados que o trabalho da polícia não é matar, mas proteger. Levados a trocar a vendetta descontrolada por uma postura ponderada, vemo-nos obrigados, também, a reconsiderar nossas escolhas pregressas. O Doutrinador parece uma mola, aplicando maior ou menor tensão sobre uma superfície na qual nos esforçamos para mantermo-nos de pé.

Poucas obras são capazes de se envolver num malabarismo tão intenso. O Doutrinador é um filme que se esquiva. Nas duas metades em que se reparte, parece decidido sobre a mítica a qual aderir, mas zeloso frente à tensão contida nos rumos que aponta. A qual visão de mundo se prender? Ao elogio da violência irracional? Em nossa sociedade, o império da lei é uma imagem difícil de crer. As dualidades exploradas pelo cinema policial lidavam com um absurdo interminável – fazer valer as normas hoje, frente à certeza de que, amanhã, vai-se deparar com um novo criminoso –, que, entre nós, ainda busca por uma solução clara. Quando se trata de corrupção, a resposta é óbvia: varrer tudo que estiver no caminho. Mas, felizmente, Bonafé e Mendonça escapam dessa barbárie, embora nela resvalem.

Quando nosso herói se transforma em vilão, o seu próprio filme se volta contra ele, contrapondo-se a quem, anteriormente, parecíamos nos divertir observando seus avanços. A luta contra os corruptos parece uma missão indiscutível, mas não tão consensual a ponto de ser levada ao limite do homicídio brutal. Há algo de conciliatório em O Doutrinador, em sua expectativa por apresentar uma solução pautada pela ordem para um tema em relação ao qual imaginamos que nenhuma saída seja possível – com exceção, quem sabe, de uma resposta radical. Que o trabalho lute por se esquivar de algo tão somente brutal culmina na autodestruição do próprio Doutrinador. É um muro, decerto, contra o qual o filme vê-se obrigado a se chocar, na isenção que o livra de indicar qualquer caminho explícito.

* Gritar, não precisa… mas qualquer um vê que João Martins Ladeira é do tipo que tem um #elenao estampado bem no meio da testa. Também colabora com a Escuta.

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