João Martins Ladeira*

O debate público sobre a indicação de Moro para o Ministério da Justiça (e Segurança) se concentrou, de fato, em aspectos essenciais, mas não foi completo. As consequências de tal ato vão além do que se tem dito, e gostaria de chamar atenção para uma questão especificamente midiática: a repercussão, no subterrâneo da internet, das ações a serem tomadas pelo próximo governo a fim de expurgar seus inimigos (analistas como a historiadora francesa Maud Chirio já sugeriram a possibilidade de MST e MTST serem muito rapidamente classificados como grupos terroristas), e a participação que o futuro ministro pode (ou não) ter neste processo. O WhatsApp não pode parar, e Moro, quer queira ou não, está aí para, entre outros afazeres, contribuir com isso.

Decerto, em sua entrevista coletiva da última terça Moro deixou claro que não pretende considerar os movimentos sociais deste modo, embora não tenha deixado de descartar que certos atos mereceriam punição. Talvez tivesse sido mais oportuno fazer outra pergunta: já que o PL 272 está aí, o que o juiz entende como terrorismo? Atos concretos de violência ou também declarações públicas? Não seria absurdo imaginar que uma formulação do último tipo daria margem para se considerar qualquer fala como potencialmente perigosa, como Celso Rocha de Barros salientou com muita ironia na última segunda. Também não pareceria absurdo que processos contra alguns personagens corressem com a notável velocidade com a qual alguns desafetos foram tratados. A declaração de Mourão a BBC Brasil em 30 de outubro sobre Haddad e seus “trinta processos” dá o que pensar.

Mas estas são questões para meus colegas analistas políticos, assim como são problemas de tal natureza a indicação do juiz como sucessor presidencial; a sua condução ao STF; o prazo de validade dele e de outros superministros se o governo fizer água; as dificuldades de demitir alguém com tamanha estatura; e, é claro, o conflito de interesses entre sua indicação e a celeridade com que, após o julgamento pelo TRF-4, Moro ordenou a prisão de Lula e inviabilizou a candidatura do ex-presidente. Todos são temas importantes. Todavia, uma questão igualmente fundamental recebeu menor atenção. Os analistas se esqueceram de outra parcela do problema: aquela que se refere ao intestino dos grupos de internet, este serviço de propaganda, em parte formal, em parte informal, instaurado pelo bolsonarismo.

A presença de Moro no governo dá vazão a certos anseios da sociedade. Joga-se com o público, oferecendo à plateia um paladino da justiça com superpoderes. Mas, vejamos. As mídias tem repercutido o fato com muita força, tanto os meios de comunicação convencionais (estes que o bolsonarismo precisa desqualificar) quanto as suas estruturas digitais. Como era de se esperar, ambos ocuparam posições diferentes. Os arrependidos da Lava Jato criticaram agora as ações que ontem tanto aplaudiram. Os jagunços de WhatsApp saíram em defesa da decisão. No Intercept Brasil, o interessante texto de Leandro Demori publicado no sábado lembra como as narrativas de internet apresentaram intensa homogeneidade na interpretação de tal fato. Mas tudo isso é chover no molhado. Estes tópicos se prenderam às mensagens, mas ignoraram os meios e o papel que cumprem em nosso tempo.

Estamos em meio a uma transformação no equilíbrio entre estas duas estruturas de comunicação, e a presença de um ministro com poderes para, na letra da lei, produzir intervenções recorrentes oferece oportunidade ímpar para alimentar este novo ambiente. As ações de Moro vão nutrir prioritariamente o contraditório ciclo de informações desconexas, oferecendo repertório para o confronto ideológico que é marca de nosso tempo. Exemplo intenso disso está num outro conjunto de declarações vindas de Mourão, informando-nos sobre diálogos prévios com o juiz. O vice-presidente não é idiota nem suas declarações brotaram do descuido. A confusão estabelecida, a dispersão gerada, a sua repercussão intensa nos espaços mais diversos, a delimitação de uma data precisa pelo próprio Moro: todas estas ações surgiram como uma estratégia.

Ficamos todos confusos, e esta confusão se tornará usual. Pior, será patrocinada pelo Estado através de uma estrutura de comunicação localizada no próprio Executivo. Quando começarem as discussões judiciais – as prisões que talvez priorizem os inimigos políticos da vez, acusados (justa ou injustamente) de corrupção – estes acontecimentos de intenso apelo vão permitir manifestações cotidianas. Nunca o jogo de poder dependeu tanto desta conexão com os meios, e, agora, este foco passa para mídias on-line alimentadas em apoio ao Executivo, e não contra ele. Torna-se contraditório que estas iniciativas de visibilidade possam, hoje, passar ao largo da mídia convencional que tão fielmente alimentou a Lava Jato e concedeu prioridade a um juiz específico, esquecendo-se de mencionar o quanto a operação era muito maior que ele.

Os disparos em massa via WhatsApp surgiram como o equivalente brasileiro das intervenções na campanha presidencial norte-americana de 2016, realizadas através de mensagens intensamente segmentadas, apropriando-se de uma estrutura de difusão muito particular, até então praticamente ignorada pelas campanhas políticas brasileiras. Tais tecnologias produzem um espaço invisível, no qual uma infinidade de grupos isolados repercute mensagens profissionalmente produzidas, mas difundidas através de laços pessoais: um local de incomunicabilidade no qual o contato íntimo oferece credibilidade a informações que não possuem nenhuma. Tal canal de difusão faz parte das estratégias do “populismo nacionalista”, movimento do qual o Brasil agora faz parte. Ele não vai parar após janeiro e pensar que as ações do governo não alimentarão tal universo é pura ingenuidade.

Para obter o resultado que tem custado nossa sanidade política e algumas amizades, certas características parecem indispensáveis. Há uma lógica de segredo no aplicativo. Em contraponto a uma esfera de indivíduos agregados debatendo publicamente, vemos estes espaços segregados, longe dos olhos de todos, nos quais fluem as barbaridades mais estapafúrdias ou as informações mais desconexas. Os agregados humanos reunidos ao redor de pequenas telas, estas que demandam mensagens como slogans, tornam-se mais eficazes conforme se mostram mais distantes do escrutínio. Câmaras de eco movidas a algoritmos foram imprescindíveis em outros capítulos da comunicação digital. Mas o WhatsApp não depende da hierarquização por algoritmos. Remete ao tom sectário que impõe às relações. As separações que temos experimentado se devem à configuração que tal interface concede a nossos encontros.

É preciso entender este mecanismo, a fim de encontrar meios de ultrapassá-lo. Certas forças de oposição a Bolsonaro se perderam num gigantesco desgaste em meio a críticas sobre o caso Lula, prova de que esta estratégia de confusão pode se mostrar útil. Tais informações conseguiram pautar o embate, e a contraposição de discursos contra ou a favor dispersaram esforços que, se tudo ocorrer como na campanha, tão somente oferecerá energia ao novo governo. É difícil para a oposição se eximir às críticas de tais fatos, mas pior é não saber como deles se desvencilhar – e a tentativa do PT de acionar o CNJ surge como típico exemplo de hardball, nos dizeres de Levitsky e Ziblatt em Como Morrem As Democracias. Ou se passa ao largo desta postura ou se fica preso à lógica desta propaganda. FHC foi inteligente: fora as farpas aqui e ali, deu os parabéns e sentou-se para esperar o futuro. Mas apenas isso não basta. É urgente imaginar formas de contraposição ao que se forma bem nos nossos olhos.

*João Martins Ladeira é professor, escritor e colaborador da Escuta.

Imagem de Sérgio Lima, do Poder 360. Disponível em https://www.poder360.com.br/eleicoes/nova-regra-do-whatsapp-pode-prejudicar-bolsonaro/ e publicada em 19 de abril de 2017.