Lício Caetano do Rego Monteiro*

Caros colegas,

Parabéns aos professores que vocês são, e aos futuros professores que nossos alunos estão se formando para ser. Em algum momento vocês escolheram essa profissão, ou talvez tenham sido escolhidos para ela. Toparam o desafio de aprender e de ensinar.

Nossa profissão está em jogo. Tem a ver com as eleições. Mas a essa altura não depende só de que o pior aconteça, pois o que está em jogo vai para além disso. Trata-se da nossa capacidade de se vincular com a realidade, de produzir conhecimento e fazer política entre pessoas.

Sempre digo que interrompo minha aula quando chego a mais de 4 alunos olhando o celular ao mesmo tempo. É difícil manter quase 4 horas seguidas de aula sem que eu mesmo seja um desses a consultar, mesmo que discretamente, meu celular.

A captura da atenção tem se tornado cada vez mais a captura da percepção do real. Assim como nossa experiência cognitiva, a nossa percepção do real é hoje mediada pelos objetos técnicos que nos habitam, especialmente o celular, o computador e as redes por estes ativadas.

Os espaços comuns de experiência da realidade, mediada por humanos, espaços de trocas entre pessoas de carne, osso, olhos, narinas, cabelo, têm se tornado mais restritos, os momentos mais curtos e a ocupação mais rarefeita. Notamos isso todos os dias, mas poucas vezes essa constatação se impôs de forma tão drástica quanto nesse momento das eleições. Atravessamos um umbral. Essa frase tenho repetido nos últimos dias.

A sala de aula é um dos redutos possíveis das relações entre pessoas que permitem um vínculo mais espesso com o real, até mesmo um certo compromisso com o real. É um espaço sobrevivente no mundo atual.

Uma cadeira. Olhe uma cadeira. Ela é bonita ou feia? Ela é confortável ou desconfortável? Ela foi cara ou barata? Ela precisa ser colocada aqui ou ali? Mas é uma cadeia e todos ali estão vendo a mesma cadeira.

O fechamento em círculos virtuais, no entanto, tem feito com que alguns vejam a cadeira como um cachorro. E quando pergunto se a cadeira é bonita ou feia, me respondem: mas isso não é uma cadeira, é um cachorro. O diálogo se interrompe. Uma parte fica reservada ao mundo cadeira-cachorro, outra parte segue adiante na resposta à pergunta.

A cadeira é qualquer cadeira que vocês podem encontrar numa sala de aula e que será tomada como exemplo por mim ao dizer isso. A cadeira-cachorro é qualquer coisa que assuma o lugar do real quando milhares de pessoas juram e compartilham pelas redes que existe – e que está sendo distribuído por aí para crianças, por exemplo. Há cadeiras-cachorros se espalhando a todo momento já faz tempo, mas não damos conta de quanto isso afeta nossa capacidade de pensar e de aprender.

Fazer política exige conhecimento. Uma versão excludente dessa frase nos diz que quem não tem conhecimento não deveria participar. Uma versão mais solidária lê de outra forma: participar da política é uma forma de exigir conhecimento – e de produzir conhecimento.

O engajamento político que tenho visto por parte de vários alunos pode ser um dado interessante. Mas a política pressupõe troca, confrontação de ideias e visões da realidade, exige que cada um possa se manifestar. A participação política deve ser um chamado ao conhecimento, que se produz entre pessoas diferentes, assim como a política.

Professor vem do latim, do verbo profitari, pro e fateri, “declarar ante”, “proclamar”. O verbo fateri guarda o sentido de reconhecer, confessar, o que significa de alguma forma também “falar a verdade”. Ensinar também vem do latim, insignare, literalmente “colocar um signo”. Sinal, signo, marca “que é preciso seguir para alcançar algo” (ver Oculto nas Palavras, Castello e Mársico, 2007, presente de minha querida professora Ingrid, que o traduziu).

Vejamos então como seguimos os signos e como os colocamos. Quando aponto para uma cadeira, digo cadeira e o aluno vê cadeira, estamos operando nesse sentido original de seguir os signos, vinculando o signo ao caminho a ser seguido em aproximação ao real. Quando aponto para uma cadeira e o alguém vê um cachorro, a sequência entra em curto-circuito. É claro que não se trata só de estabelecer conexão entre cadeira e cadeira, mas isso deveria ser uma premissa básica sem a qual fica muito difícil seguir adiante.

A sala de aula é um espaço de liberdade. E de encontro entre pessoas. A realidade se constrói nesse encontro, em que várias pessoas olham a mesma cadeira e podem sobre ela falar o que pensam. Trago notícias do futuro. Compartilhar o olhar sobre o real com outras pessoas está se tornando quase um ato libertador. Negar esse espaço comum às pessoas e a si mesmo será um ato de servidão – para muitos, a servidão voluntária por excelência dos tempos atuais.

No programa do candidato Bolsonaro lemos que seu governo pretende ampliar a educação à distância para as zonas rurais. Em entrevista, ele diz que a educação à distância deve abarcar até o ensino básico, ou seja, desde crianças de 6 anos.

Isso diz respeito ao professor, retirado de seu lugar de trabalho, precarizado e substituído. Diz respeito às crianças, privadas desde cedo do contato e da interação com outras crianças e com seus professores. Diz respeito também a pais e mães, que ao saírem para trabalhar deverão se preocupar com os filhos pequenos em casa fazendo educação à distância. Imagino o impacto até mesmo nutricional que isso pode trazer. E em nome de quê? Dois motivos são apontados: baratear o ensino e combater o marxismo nas escolas – um exemplo de cadeira-cachorro que ninguém viu, mas falam por todo canto.

Aqui em Paraty conheço quem são as crianças que serão as primeiras candidatas a inaugurarem o ensino à distância no Ensino Fundamental. Aquelas que moram onde o direito à escola foi negado por diversas gerações. Para que a escola chegasse onde elas vivem, foi preciso que suas comunidades se fizessem ativas, se engajassem como movimento social, fizessem política, foi preciso que professores topassem todas as dificuldades para poder estar ali, foi preciso que a universidade pública estivesse perto o suficiente para atuar no que era necessário, e depois de tudo isso junto ser chegado o momento em que a criança pôde ouvir seu nome na chamada e responder “Presente!”.

Presente! Esta é a palavra que inaugura o dia de uma criança na escola. Dizer que está presente. E ter ali um professor ou uma professora para constatar sua presença. Para autorizar sua fala que se aconchega diante de alguém que a escuta. Antonio: presente!, Carlos: presente!; Emília: presente!; Joana: presente! Marielle: presente! e daí por diante. Cada aluno e aluna se acende como uma vela na escuridão. Pequenas revoluções.

Ainda um trecho do plano de Bolsonaro para a educação: “expurgar a ideologia de Paulo Freire” das escolas. Às vezes parece que o plano não faz sentido, é um arremedo de powerpoint montado às pressas. Mas talvez não seja assim, pois existe uma possibilidade de isso tudo ter sido pensado detalhadamente e de forma séria e coerente justamente para atacar um dos redutos de nossa humanidade.

Um dos princípios da pedagogia de Paulo Freire é o que a pessoa lê o mundo antes de ler a palavra. A alfabetização exige, pois, algum nível de contato com a realidade, ou melhor, uma imersão na própria realidade, matéria prima da aprendizagem. A palavra geradora, que desencadeia o processo de alfabetização, deveria então fazer parte do universo significativo do aluno, algo do mundo concreto, em que a cadeira é uma cadeira. Nisso residiria então o empoderamento que a apropriação da leitura e da escrita traz para a pessoa, que passa a mediar sua inserção no mundo com o recurso da palavra e traduz seu discurso sobre o mundo em texto.

Hoje o que se constata é justamente a negação da realidade e até mesmo da palavra. No universo virtual, a comunicação prescinde da palavra e do real, são bits contra bits. O que se considera real passa a se opor ao mundo intersubjetivo em que o conhecimento e a verdade são construídos. O real é mediado pelas redes que nos habitam. Neutraliza-se o potencial político da apropriação da palavra, da escrita, da leitura em favor de um fluxo contínuo de imagens e cliques. Ergueram um muro no real e nós ficamos do lado de cá.

Propor o ensino à distância para crianças a partir dos 6 anos de idade é plenamente coerente com expurgar Paulo Freire. É negar a mediação entre a palavra e a realidade. Mais do que uma proposta de educação, é um enunciado do fim dos tempos, ou pelo menos dos tempos dos professores e alunos numa sala de aula compartilhando algo do real.

Saramago certa vez previu, falando sobre o twitter, que este era uma “tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até ao grunhido”. Ele era otimista. O recuo da linguagem, o recuo do discurso político, a erosão do espaço comum do real coabitado por pessoas de carne, osso, olhos, narinas, cabelo, inibe até mesmo o grunhido, ou faz dele quase a única reação possível.

Bertolt Brecht, em outros tempos, escreveu sobre o “analfabeto político”, aquele que “não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos políticos”. Brecht dizia que essa era o pior, mas estava sendo também otimista. Pior é aquele que ouve, fala e participa, mas como mero vetor, como um spam humano, que bombardeia mensagens que a própria pessoa nem conseguiu assimilar, que dirá traduzir isso em palavras, em discurso coerente, é como um fluxo intestinal que se projeta diretamente para o mundo virtual, conexão direta entre o fígado e o smartphone, a interface orgânica da máquina sem a qual a máquina não adentraria os espaços meio públicos meio privados de nossas conexões múltiplas.

Nossa capacidade de resposta é limitada, não dá para acompanhar a velocidade dos bombardeios de mensagens, pois precisamos de um tempo para pensar, refletir, antes de seguir o signo. O que está em jogo é nossa capacidade humana de mediar os fluxos de informações. E, particularmente, no caso da sala de aula, está em jogo nossa possibilidade de efetivamente ensinar e aprender. Considerando o tanto que ainda nos combatem, acho que ainda conseguimos algo. Terão que nos incendiar como os bombeiros de Fahrenheit 451 faziam com os livros e leitores.

Ou nós professores terminaremos nossos dias como uma grande seita secreta, como os alquimistas, desaparecidos e lembrados muito tempo depois, no dia que os escafandristas do Chico encontrarem na madrugada uma vitrola tocando Jorge Ben Jor, em alguma cidade submersa.

Eu tenho alternado minhas fases entre tentar reagir e tentar entender essas mutações.

Continuo usando palavras para convencer, mesmo num mundo em que as imagens via whatsapp colonizam nossa compreensão do real. Não é sempre que conseguimos expressar racionalmente, em palavras, o significado das coisas. Por mais que eu tente racionalizar, por mais que eu tente dizer isso em palavras, não consigo expressar plenamente o porquê de eu ser contra Bolsonaro sem antecipar a expectativa de que meus interlocutores habitem o mesmo mundo que eu, um mundo em que ser a favor do Bolsonaro seja algo inconcebível, e que esse compromisso pudesse ser estabelecido de forma implícita sem que eu precisasse exprimir isso numa palavra.

Recusar o fascismo seria um pressuposto a partir do qual as palavras e as coisas pudessem se encontrar novamente e fazer sentido, em que um mundo comum da política pudesse se estabelecer, não para concordar em tudo, mas exatamente para delimitar um espaço para o dissenso, o debate, as diferenças.

Mas vejam, esse não-saber-como-dizer não seria fruto da distância, da velocidade, da informação pré-fabricada que circula em memes e fakes. Seria sim o silêncio cúmplice da proximidade, da presença, do reconhecimento mútuo entre pessoas que coabitam um mundo comum. Mais do que imagens e discursos, é preciso que saibamos guardar esse mundo comum em que nossos silêncios se reconheçam dentro de uma sala de aula e autorizem tacitamente as palavras geradoras de nossa resistência.

Abraços!

*Licio Caetano do Rego Monteiro é Professor Adjunto de Geografia Humana do Departamento de Geografia e Políticas Públicas da UFF Angra dos Reis e colaborador da Escuta.

O cartum da imagem é de autoria de André Dahmer.