João Dulci*

Confirmada a vitória de Dilma Rousseff, em 2014, o comitê de campanha do PT esperou pelo telefonema do candidato derrotado, como de praxe em saudáveis democracias. O telefonema nunca veio. Aquela campanha havia sido marcada por tentativas de oposição de todas as matizes. José Aníbal, grão-duque tucano, havia “tuitado” a famosa frase de Lacerda sobre Getúlio, parafraseada de acordo com as conveniências do momento. “Não pode ser candidato. Se for, não pode ser eleito. Se eleito, não pode tomar posse. Se tomar posse, não pode governar”. Como um Jucá, Aníbal deu a senha para se pôr em marcha o plano psdbista dos anos seguintes.

Daquela eleição foi dito que havia dividido o Brasil. Os resultados apertados das urnas pareciam ser um indicador forte disso (como se apertados não fossem os resultados de inúmeras democracias mundo afora). Aqui, nos apraz lavadas eleitorais. Parece que legitima mais o presidente eleito, mesmo que ele se estrepe diante de um Congresso multipartidário e confuso, com inúmeros ilustres deputados de quem não ouviremos falar, a menos que ganhem as páginas inquisitórias da Lava-Jato, ou que nós conheçamos seus redutos eleitorais. Admiramos grandes viradas de candidatos até então desconhecidos do grande público, mas rejeitamos que um equilíbrio entre situação e oposição seja algo saudável. É curioso este fenômeno. Nos Estados Unidos, dois presidentes recentes venceram pela maioria do Colégio Eleitoral, mas tiveram menos votos que seus concorrentes. O partido derrotado, com razão, contestou um ou outro ponto, mas não se movimentou para o caos. Exceto minorias democratas e republicanas, poucos apostam explicitamente no “quanto pior, melhor”.

Voltando ao Brasil, Aníbal e seus colegas trataram de transformar a vida governamental num inferno. Não que o partido ocupante da presidência também não tenha ajudado. Digo sem purismos que, aos olhos de hoje, quase tudo fazia parte do saudoso jogo democrático. No auge do processo de golpe/impeachment, o que muito se lia era que “as instituições estão funcionando”, mesmo que testadas aos seus limites. O PT jamais concordou com esse argumento, mas o vislumbre de uma vitória nas eleições de 2018 deixou alguns cães de guarda menos ferozes, principalmente após a consumação da deposição da presidenta Dilma Rousseff.

No início de 2018, parecia nítido que a chamada “polarização” entre PT e PSDB retornaria ao cenário eleitoral. Antes de mais nada, é preciso dizer que era uma polarização ao centro e triangular, porque sempre foi muito curioso o menosprezo que analistas midiáticos tiveram à força local que o PMDB sempre teve. Os movimentos de rua, principalmente a partir de 2014, pareciam mais calmos com a chegada do ano eleitoral, e cria-se que a adesão ao PSDB e ao DEM seria algo mais natural. Muitos chamavam à razão a responsabilidade da população e seu centrismo. Muitos negavam os radicalismos do povo brasileiro. Apelou-se até a um certo nacionalismo do povo, que em sua maioria rejeitava as políticas privatistas. Nada disso aconteceu. As leituras de jornalistas, cientistas políticos e sociólogos se mostraram redondamente equivocadas (não me eximo disso. É insuportável a postura de comentarista de jogo terminado).

Focos de violência que surgiram no Brasil ao longo dos anos foram minimizados. A visão de uma escalada de violência política no Brasil foi tida como uma coleção de casos isolados. A invasão a uma sede sindical, a explosão de uma bomba na porta do Instituto Lula, os tiros ao ônibus da caravana do ex-presidente, agressões constantes a professores de História, Geografia e Sociologia, assassinatos de homossexuais, crimes contra negros, linchamentos públicos dos mais variados tipos, denúncias de doutrinação marxista (!), Escola sem partido, impeachment por pedaladas. Tudo isso era isolado, localizado e não podia ou devia ser lido como um conjunto de eventos cujos elementos comuns se mostram hoje: são episódios violentos, de origem conservadora, motivados por ódio político em seu sentido mais amplo.

A reação a isso tudo foi a defesa da democracia. Em caso de violência política, usemos as armas da democracia. E as armas da democracia se mostraram cada vez mais frágeis diante de um arsenal bélico pesado, que incluiu armas de fogo, armas brancas, whats app e fake News. E mais democracia inclui jogar o jogo eleitoral. Respeitar seus ritos. Se Lula não pode ser candidato, inscrevam outro, diziam os petistas. Se Ciro, Manuela, Boulos, Marina querem ser candidatos, que sejam, dizia Lula no fim de semana de sua prisão. Se as regras do jogo exigem candidaturas, que se candidatem! E assim fomos às urnas.

A estratégia de Lula e do PT pode ser criticada por diferentes frentes, mas as críticas merecem algumas ponderações. Por que não lançar uma candidatura única? Será que os candidatos gostariam de ter o PT em suas chapas? Se tivessem, em qual posição? Como ficaria o discurso antipetista caso alguém carregasse consigo um petista? A chapa única reuniria de fato os votos de toda a esquerda?

Conheço muitos que votaram em Ciro (mas obviamente não conheço seus 13 milhões de eleitores). As razões para votar em Ciro são muitas, e não se resumem ao antipetismo de esquerda, a um cansaço do PT, a críticas à corrupção, ao seu programa de governo ou a uma simpatia com a memória política cirista. Elas reúnem isso tudo. Mesmo assim, Ciro não ocupou o espaço que parecia ser de Marina Silva, não ocupou o espaço do PT, não avançou sobre uma direita moderada. Sua votação proporcional foi semelhante àquelas que teve em 1998 e 2002. A soma de seus votos com os de Haddad dá um resultado muito parecido com o número de votos de Dilma no primeiro turno de 2014 (43,2 milhões em 14 e 44,6 mi em 2018), embora eles tenham vindo separados.

Lula deveria ter desistido da disputa desde o início? Pode ser, mas os resultados de pesquisas mostraram que a rejeição a Fernando Haddad subiu muito rapidamente. Será que ele conseguiria manter tal rejeição baixa com mais 4 semanas de campanha? Impossível de dizer.

Os fatos dão conta apenas de que Haddad se mostrou um candidato suficiente para forçar um segundo turno eleitoral, contando com a sólida votação de Ciro Gomes (e só). As votações dos “terceira via” se mostraram pífias. Se os institutos de pesquisa captavam corretamente as intenções de voto antes do dia 07 de outubro, o que parece é que, ou as terceiras vias estavam superestimadas pelas amostras, ou houve uma migração deles para a candidatura de Bolsonaro. No primeiro caso, subestimaram não apenas o antipetismo, mas a defesa do autoritarismo liberal de Estado. No segundo, também.

O antipetismo pode ter se manifestado na soma dos votos dos outros candidatos que não Haddad. É verdade. Mas o antipetismo não explica sozinho a ascensão de Bolsonaro. Como disse Boris Fausto, em entrevista recente a “O Globo”, há uma questão civilizacional que não foi captada. Uma questão que, apesar da provocação feita acima sobre os cientistas sociais, já vinha sendo denunciada por muitos pesquisadores, talvez sem uma unidade conceitual mais precisa que o termo “nova direita”. Não digo que o conceito esteja errado. Digo apenas que ele parece muito polido quando olhamos a foto ampliada do que vem ocorrendo no país. O avanço autoritário, que juntamente com a onda da “nova direita” reúne todas as violências que vimos observando no Brasil, é algo muito denso e, hoje, muito desavergonhado. E é favorito no segundo turno.

Quem passeia pelas redes virtuais e seus grupos sabe que raramente se viu um grupo tão organizado na defesa desse autoritarismo. Há respostas para todas as barbaridades. “Ele defende a tortura”: mas ele já reviu essa posição! “Ele é contra os gays”: nunca foi contra os gays! Prove! “Ele é um deputado irrelevante!”: sempre foi boicotado no Congresso! “Ele defende a ditadura”: ele defende o regime que salvou o país da ameaça comunista! “Ele vai acabar com o 13º”: quem disse isso foi apenas o vice, que já foi desmentido! “Sua candidatura defende a possibilidade de um autogolpe”: não foi ELE quem disse isso!

Poderíamos ficar aqui citando as contradições bolsonaristas até a edição de 30 anos de aniversário da Escuta (lançada sabe-se lá de onde), mas não vamos. ELE está no segundo turno, contra Fernando Haddad. Terminado o pleito de domingo dia 07, ainda dizíamos num grupo de amigos: agora é a hora de um bloco pró-democracia. Com humildade, todos terão que contribuir e abrir mão de alguma coisa. E façamos, portanto, uma frente democrática contra o autoritarismo. Pois bem, a segunda-feira chegou. E com ela, a decepção.

Diante da avalanche autoritária que nos arrebatou, os primeiros oportunistas saíram a bradar seus apoios a Bolsonaro, no esforço de tentar angariar votos. Isso ocorreu em todos os estados onde haverá segundo turno. Querem uma boquinha na tática do whats app, a mais bem sucedida estratégia eleitoral já vista em muitos anos. Um candidato, Guilherme Boulos, juntamente com o PSOL, anunciaram prontamente o apoio a Fernando Haddad. O PDT anunciou um apoio crítico, sendo isso o que for. Acredito que seja um apoio do tipo: vou continuar criticando o PT, mas lavo minha consciência quando o pior acontecer. Não subo em palanques, não mobilizo minha rede, mas jamais poderei ser acusado de qualquer coisa. Ok, é do jogo e está longe de ser o pior.

O pior, sem dúvida, é a falsa neutralidade. Se houvesse uma fila para a queima de biografias, alguns grandes nomes da política brasileira já estariam se acotovelando nela. Jamais poderemos achincalhar publicamente as trajetórias respeitosas de Marina Silva, de Fernando Henrique Cardoso, dos socialistas brasileiros, dos comunistas do PPS e de tantos outros neutrinhos que hoje se isentam. Mas, como diria um dos clássicos da Sociologia (aqui apenas parafraseio), a neutralidade é o apoio ao estado de coisas. O estado de coisas é um cenário turvo, em que o autoritarismo está prestes a receber o aval das urnas para espalhar sua ideologia, mesmo que eles digam que não a tem, apenas por má fé e ignorância. A neutralidade é o apoio à vitória de Bolsonaro. O que dirão as Marinas Silva e os FHCs do futuro sobre esses nomes? Serão eles equiparados a figuras como JK e Lacerda? O que diremos, nós cientistas sociais, sobre a OMISSÃO desses nomes no momento mais difícil da nossa jovem democracia? Com o perdão do tempo e correndo o risco de equívocos, acho que a história futura do Brasil talvez não tenha nenhuma polidez em seu julgamento. É possível que o governo Bolsonaro, caso se confirme, seja apenas ruim. Mas é possível que ele seja muito pior. A tranquilidade ficará apenas com aqueles que não se omitiram.

* João Dulci é Doutor em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ) e Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora. Colabora com a Escuta.

** Crédito da imagem: “Arquivo/Estadão Conteúdo”. Retirado do site: <https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2018/por-que-ciro-gomes-lembra-muito-o-tucano-mario-covas-da-eleicao-de-1989-91vozv42lt68nz6mapmwvchzi&gt;. Acesso em: 17 out. 2018.

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