João Martins Ladeira*

O Succès de scandale parecia fora de moda, mas os tempos andam estranhos, e Roger Waters terminou envolvido num belo anacronismo. É curioso: não teria sido a sua música a despertar polêmica; e, neste caso, algum desavisado poderia considerá-la até bastante anódina.

Engano.

Vejamos: o confronto surgiu do aspecto cênico da apresentação, do muro que associa Bolsonaro a Orbán – ponto de vista, aliás, bastante preciso –, entre outros pigmeus do boulevard. O som seria um problema menor frente ao cenário, certo? Ora, mas como, se não havia sido o próprio Pink Floyd a associar, na música pop, o espetáculo ao som numa única experiência? Limpar o show destas perturbações não faria valer tranquilamente o bilhete do ingresso.

O que está em jogo corre mais fundo. As reações de São Paulo e Brasília (por enquanto) insinuam certos elos poderosos entre música e sociedade no Brasil de hoje. A plateia foi bastante ingênua em achar que a noite poderia sofrer alguns ajustes aqui e ali, garantido que todos se divertissem até a morte. Já a música pop em nosso país se mostrou muito mais sagaz, solucionando tal tensão de modo bem perverso. Sim, pois o que se vaiou no show de Waters já foi, higienicamente, eliminado há tempos em nossas canções, num trabalho deveras sutil.

Explico-me.

Não é casual que, em nosso cenário musical, o rock tenha sido relegado (pelo público) a segundo plano. Agora, parece soar um tanto inaceitável o fato de que cada artista deste gênero, ao produzir conexões muito curiosas e bastante específicas para a sua música, terminasse flertando recorrentemente com a contracultura. No fim, todas estas apropriações parecem demasiadamente “esquerdopatas” (o que quer que este vocábulo em novolíngua queira significar) para andar livremente por aí.

No caso do Pink Floyd, este vínculo estava em associações das mais variadas. Veja-se Ummagumma, talvez o álbum mais radical da banda: parecia uma estranha associação entre traços dispersos da música moderna coletados segundo as possibilidades limitadas daqueles personagens: de Bartók (“Sysyphus”) a Debussy (“The Grand Vizier’s Garden Party”), passando por Stockhausen (“The Narrow Way”), tudo surgia ali imprensado na medida do possível.

Alguns destes artistas de vanguarda poderiam ser indiferentes à política; outros, mais dúbios em relação a certos ideias progressistas. Mas, para uma banda como o Pink Floyd, o amálgama a reunir esta disparidade tão absurda entre a música de vanguarda e o rock estava no espírito de crítica que a contracultura alimentou, sem o qual este estilo não conseguiria sobreviver. Não importava que apenas Adorno conseguisse enxergar, através da análise, os ideais que Schoenberg conscientemente parecia menosprezar. Para a geração dos anos 60, a necessidade de engajamento se mostrava demasiadamente presente.

Na deificação da juventude típica a este período, as encarnações desta sensibilidade apontaram para as direções mais diversas. Em certos casos, deixavam de lado as aventuras sonoras mais ousadas em prol, por exemplo, de letras políticas. A carreira do próprio Pink Floyd ilustra o caso. Conforme as experimentações musicais foram se tornando mais ocasionais, cedendo lugar a álbuns mais palatáveis (The Dark Side of the Moon, The Wall), o espírito de contestação contido na música ressurgia nas palavras, estas pobres palavras incapazes de descrever o nosso tempo.

Há um questionamento digno ao se discutir se este espírito de rebeldia valia de alguma coisa ou se era apenas um engano autorreferente. Porém, fato é que o horizonte de crítica; a tentativa de construir uma música para um mundo que ainda não está dado, que ainda poderia vir a ser; a expectativa por emancipação através da crença no valor da atitude; da exploração da inconsciência para além da casca racional do ser: todas estas ideias não cabem mais na nossa música pop.

O rock pode apontar para muitas direções, pode ser abertamente narcisista ou meramente hedonista; contudo, expurgar completamente de seu âmago esta visão herdada da contracultura soa impossível. Contudo, as nossas apropriações musicais de maior sucesso hoje – veja-se, como um indício, o sertanejo – conseguem, num contraponto interessante, livrar-se sem qualquer peso de todo este conjunto indesejável de perspectivas.

Esta música pode se nutrir apenas daquele hedonismo e tão somente de tal narcisismo, sem a demanda por resguardar, para além disso, o que quer que seja. Assim, tais canções conquistaram uma estranha autonomia em relação a experiências pregressas.

Mas fizeram ainda mais.

Curiosamente, realizaram o desejo de produzir uma música própria, cara ao Brasil. Nós não precisamos mais de Roger Waters. Temos ídolos nacionais com espetáculos tão grandiosos, e eles falam a nossa língua em mais de um sentido.

Ocorre que este hábil expurgo não se esgota aí. De Violeta Parra a Mercedes Sosa até o Clube da Esquina, havia um ethos que a letra que Brant e os irmãos Borges descrevia, já no âmbito da carreira solo de Milton Nascimento, como esta vontade de ser “da América do Sul” e “do mundo”, num jeito nosso de nos conectarmos com o planeta. Por caminhos tortos, não precisamos agora nem de Lennon e McCartney nem de ninguém.

Em nosso próprio conservadorismo, nós nos bastamos, em derivações estéticas próprias, com suas dimensões concretas grandiosas – públicos, estádios, receitas – equiparáveis aos circos que podemos, enfim, abandonar. E o fazemos de um modo particular, num sonho invertido quando comparado ao passado, profundamente hábil e terrivelmente grosseiro em relação a este espírito contracultural, coisa hoje descartável, mas que gerações anteriores tanto prezaram por afirmar.

*João Martins Ladeira não despreza aqueles braços dos quais o sr. Floyd falou e, também, não nega as artimanhas daquele mesmo artista para se acalmar. Talvez por isso colabore com a Revista Escuta.