Álvaro Okura de Almeida*

Você começa a conversar e então o sujeito não admite que houve ditadura. Quando o faz não admite que foi um erro. Não acredita na democracia, nem como valor nem como método. Não admite que direitos humanos possam ser uma linguagem mínima disponível para se opor a arbitrariedades e violências estatais contra a dignidade de todos. Fala dos DH como se fosse um “pessoal” ligado a “esquerda e ao comunismo”. De saída, não exclui a tortura como método de punição e investigação. Cansado do caos que é a segurança pública, crê que violência se resolve com armas, ódio e assassinatos.

Para ele, não houve golpe em 1964 ou 2016. Dilma teria sido afastada por corrupção, por “pedaladas fiscais” e pelo “conjunto da obra”. Para ele, foi a vontade do povo, legitimamente construída, a despeito das eleições. Já esqueceu Romero Jucá e Sérgio Machado. Não vê seletividade, oportunismo, partidarismo ou ilegalidade alguma na prisão de Lula. Idolatra Moro. Convicto está que nossos professores são pervertidos sexuais e/ou doutrinadores marxistas. Não se indigna com a morte da Mariele. Pensa que intervenção militar pode ser uma solução. Tem certeza que o PT é o partido mais corrupto da história do país. Que o PSL – com seus Frotas, Janaínas e Majores – é uma solução aceitável para uma nova política. Concorda que os povos indígenas são vagabundos que roubam terras e que a responsabilidade da violência no campo é exclusiva do MST. Convencido está que escravidão é tema do passado, que o racismo é uma falácia, que o mérito é o que há e que o bolsa família estimula a vagabundagem e reprodução em ritmo de coelho. Nunca ouviu falar de Justiça de Transição e tem certeza que a Comissão Nacional da Verdade (e suas irmãs regionais) foi uma jogada petista para não investigar os “dois lados”.

Hoje, não crê que a eleição do candidato a ditador levará a um cenário em que pessoas terão suas vidas (ainda mais) ameaçadas por simples oposição política, ou considera isso um mal menor. Tudo que se diz nesse sentido parece exagero, bravata ou estratégia eleitoreira.

Tudo isto está em Bolsonaro. Se o sujeito concorda com qualquer uma destas posições, a chance de seu voto não ser em Haddad é enorme.

Para desanimar quem acredita na força dos argumentos há as fakenews, o marketing eleitoral estilo Cambridge Analytica e uma rede de TV de telespectadores-fiéis disposta a enfrentar a legislação eleitoral. Também tem a justificada mágoa do PT, tem crise econômica e desemprego e uma polarização medonha em torno do candidato que só diz o que dá polêmica ou aquilo que numa democracia normal seria crime.

Nada disso foi criado do nada. Foram três décadas de evangelho neoliberal e oposição desleal aos governos petistas. Não são poucas pessoas que passaram a conceber sua relação com o Estado unicamente como consumidores. Taxpayers, que exigem para si um serviço à altura dos impostos pagos. Uma comunidade de cidadãos com direitos e laços de solidariedade aparece de modo muito residual. É o Império do Eu e do Mercado. Mercado, aliás, que é ator e ambiente. Tem humores e condições.

Com Whatsapp e redes sociais chegamos no regime, como disse Eliane Brum, da auto verdade. A opinião pessoal parece ter precedência lógica e ontológica sobre os fatos. É o individualismo levado às últimas consequências. Neste reino, não se trata de persuadir pela força do melhor argumento baseado em razões e fundamentado na história. Consistência e coerência não importam, como nos ensinou o MBL. Nossa história política está em suspenso numa esfera pública inexistente ou capturada pela lógica das redes.

Mas também é bom não esquecer que este quadro de horror que presenciamos agora também é fruto da canalhice (não achei termo mais preciso) de certos grupos políticos e midiáticos que, pelos interesses econômicos mais mesquinhos e de curto prazo, certos de sua capacidade de controlar o processo pelo alto, estimularam uma narrativa fraudulenta que serviu de apoio ao golpe parlamentar. Na urgência da tarefa auto-imposta, os envolvidos não se importaram agregar a crescente participação de grupos saudosos da ditadura, racistas e odiadores de todo tipo. Talvez, na convicção de que não passariam de lunáticos que temporariamente poderiam servir à causa, fazendo número e barulho nas ruas e redes sociais, ou ainda na percepção arrogante de quem poderia expurgar na hora oportuna esse ranço autoritário. Mais que isso, Mervais, Sardenbergs, Villas, Pannuzios, Nunes e afins e suas doutas “opiniões”  promoveram uma desqualificação incessante do “intelectualismo” e um sentimento tóxico de ódio à política, aos partidos e aos políticos. Não só o enquadramento tele-dramático da vida nacional, com seu maniqueísmo típico de moços-Moros e bandidos, mas a forma desrespeitosa e agressiva com que tratou sua oposição. Durante todo este período, destaca a absoluta falta de respeito para com os taxados “políticos corruptos”, encarnados simbolicamente em Lula, Dilma e o PT, com ou sem condenação. Aprendi o significado de “caterva” lendo um editorial do Estadão referindo-se à cúpula do PT.

Como vimos nas urnas, erraram no cálculo. Os resultados do PSDB e do PSL estão aí, de modo distinto, para provar. A fortuna cobrou a conta da imprudência.

Existem interesses e sentimentos identificáveis no posicionamento dos muitos a favor do autoritarismo (re)nascente. Os indicadores sociais e econômicos do país estão em queda livre há anos. Mas também é preciso pensar como os vários fragmentos destas “histórias alternativas” são juntados para sustentar a alucinação ou novilíngua autoritária que é a história brasileira segundo Bolsonaro. Nada disso é novo, mas a dimensão é. Nada disso foi criado originalmente por Bolsonaro, mas a forma da articulação é de sua autoria.

Não se dá um golpe impunemente. A desestabilização causada pela quebra do pacto democrático (eleitoral, pelo menos) anos atrás tem efeitos institucionais e cognitivos. A democracia impedida teve sabor e aroma de justiça verdadeira para muitos. Fez parecer o intenso processo de “des-democratização” (que viria a ser o governo Temer) um fruto de nossa democracia de “instituições fortes e em funcionamento”. Não é à toa que a boa parte da população, enfiada em meio à crise, má-fé eleitoral e desemprego não sabe, literalmente, o que pensar. Já não sabemos qual história de nós mesmos é a mais fidedigna ou nem sequer quais são os pontos de disputa.

No fim acabamos com uma farsa que tem tudo para se desdobrar em imensa tragédia. Whatsapp será decisivo nas urnas mas sua estrutura narrativa, feita de memes e efêmera, não seria capaz de criar um sentimento tão arraigado de nacionalismo violento, anti-esquerdismo, anti-política, intolerância e anti-intelectualismo.

É bem verdade que em 17 de abril 2016 ninguém, nem os capitães do golpe parlamentar, poderia imaginar a força que viria a adquirir o bolsonarismo. Portanto, a culpa não é deles ou da mídia exclusivamente, mas suas parcelas de responsabilidade não podem ser negadas. A formação dos posicionamentos e opiniões perigosas que se consolidam no ciberespaço dos aplicativos e das redes sociais se alimentou e se alimenta de um quase jornalismo-investigativo inescrupulosamente tendencioso. Para não esquecer que, no fim, a hoje distante pauta de democratização dos meios de comunicação ainda se fará necessária.

O cenário é trágico. No entanto, eu acredito em milagres. Não há a possibilidade de perder a esperança. #AgoraéHaddad! E como disse o profeta e articulador desta desgraça que se desdobra no presente: que Deus tenha misericórdia desta nação.

*Álvaro Okura de Almeida é doutorando em Ciência Política no IFCH-UNICAMP, além de colaborador da Escuta.

 

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