André Rodrigues*

No céu cinzento sob o astro mudo

Batendo as asas pela noite calada

Vêm em bandos com pés de veludo

Chupar o sangue fresco da manada

 

Se alguém se engana com seu ar sisudo

E lhes franqueia as portas à chegada

Eles comem tudo eles comem tudo

Eles comem tudo e não deixam nada

(José Afonso, “Os Vampiros”)

 

Há duas coisas na vida das quais me orgulho: de minha relação com Isis, minha companheira com quem caminho há 19 anos; e de ser professor. Minhas duas paixões. Dedico a ela e a meus alunos e minhas alunas o melhor de mim.

Trabalho na Universidade Federal Fluminense, no Instituto de Educação de Angra dos Reis, onde leciono disciplinas nos campos da ética, da filosofia e da teoria política. Em sala de aula e no cotidiano da universidade vivo o melhor que a experiência humana pode oferecer, depois do amor: uma existência movida pelo saber e pela reflexão. Ali tecemos, linha e linho, um patrimônio comum, incomensurável, profundo, indestrutível. Trabalho, em geral, em turmas dos períodos iniciais. Tenho a felicidade de compartilhar esse espaço –  onde o pensamento é livre, criativo, inquieto – com jovens, em sua maioria, de origem popular, e também com pessoas mais velhas do que eu que retornam para a sala de aula para refazer trajetos interrompidos ou iniciar novos rumos. Na mesa, no quadro, nos cadernos e nos livros, pensadores que tentaram decifrar o mundo e a vida política, desde a Antiguidade até os tempos atuais. Quantas questões! Quanta variedade de respostas! Quantas possibilidades, riscos, angústias e caminhos exploramos nas aventuras do pensamento! Enquanto sistematizo conceitos, apresento exemplos, abro parêntesis, preencho o quadro com minha letra medonha, vejo expressões de espanto, de dúvida, de sono dos que trabalham durante o dia. Ganho o meu dia quando vejo aquela fisionomia de alguém que pensa pela primeira vez um assunto que lhe afeta por uma perspectiva nova. Viajo no tempo: lembro de quando cursava minha graduação na UERJ e minha cabeça fervilhava com uma ideia que me levava a ver uma questão por um ângulo inédito – isso, muitas vezes, a partir de pensadores que registraram suas contribuições há milênios. Uma inauguração constante. Um tipo de prazer que só as crianças têm, algo que nos rejuvenesce. Nunca saímos de sala de aula da mesma forma que entramos.

É uma violência sem tamanho o discurso que emerge na esfera pública, que defende um cerceamento da liberdade de aprender e ensinar e que tenta reduzir essa experiência a uma “doutrinação” leviana. Querem negar nossas experiências e, consequentemente, nossas existências. Nutrem uma imagem dos docentes como aproveitadores, corruptores, suspeitos e inimigos dos alunos e alunas. Afirmam que os jovens não têm que possuir pensamento crítico, só precisam receber hierarquia e disciplina. Querem retirar suas juventudes, negar suas existências, para que a morte do espírito seja o pretexto da morte física. Querem os espaços de sala de aula cada vez mais estéreis. Querem que o ensino à distância – que é instrução, não ensino – se inicie já na educação básica. Priorizam uma educação para o mercado de trabalho. Uma educação que ensine a subalternidade e não a emancipação.

Grande parte dos alunos e alunas com quem divido essas experiências, não estariam em sala de aula antes das políticas de expansão das universidades públicas, como o REUNI. Eu mesmo não teria acessado a carreira da educação superior. No dia em que passei no concurso da UFF, estava sozinho em Angra dos Reis. Fiz três telefonemas: uma para Isis, outro para a minha mãe e o terceiro para João Trajano de Lima Sento-Sé, meu professor da UERJ. Liguei para dar a notícia e para agradecer aos três.

Ingressei na UERJ no mesmo ano em que foi implantada a primeira política de cotas no Brasil. Não fui cotista, mas vi a universidade ser, cada vez mais, o espaço de jovens negros e negras e de origem popular. Encontro, vez por outra, contemporâneos meus que estão por aí em atividades de pesquisa e docência e que compartilham comigo essa trajetória popular que viu seus horizontes progressivamente ampliados. Para além dos esforços individuais de cada um, foram as políticas públicas de expansão do ensino superior, praticadas pelo governo federal, a partir de 2002, o elemento preponderante dessas trajetórias.

Quando as cotas foram implantadas, logo começou o discurso de que a universidade cairia de rendimento porque os cotistas possuiríam uma formação básica precária. Os dados produzidos pela UERJ e por outras universidades que aderiram às cotas, não demoraram em desmonstrar que os cotistas não estavam atrás dos demais alunos. O que mudara é que a universidade tinha se tornado mais plural, mais democrática. Hoje, mais uma vez, as cotas estão sob ataque de um discurso que não sabe operar pela lógica da diversidade. E martelam na tecla que indica a privatização das universidades – a UERJ como prioridade – como o único caminho. O lucro como razão, a educação como mercadoria. Minha mãe trabalhava em mais de um emprego para sustentar sozinha os filhos e nunca teve que tirar um centavo do seu salário para arcar com meus estudos. Hoje estão a farejar os bolsos dos trabalhadores e trabalhadoras.

Eles se angustiam porque aquilo que construímos até aqui é sólido, imprescrutável, verdadeiro como a vida. Por isso eles mentem, mobilizam robôs virtuais, retorcem o real com as armas que possuem. Eles se enfurecem porque as escolas e universidades não cabem sob o teto baixo de suas casas e seus palanques. Mas sob a cumeeira alta das escolas e das universidades cabem a casa, a igreja, os movimentos sociais, a rua e o povo.

É urgente dizer não! Aos que pretendem atrelar o pensamento, patrulhando nossa liberdade de pensar. Dizer não! Aos que querem empurrar os negros e os pobres para fora das universidades. Não! Aos especuladores que querem abocanhar os salários dos mais pobres os fazendo pagar por aquilo que deve ser defendido como um direito. Temos ainda a oportunidade de dizer não a Jair Bolsonaro nas urnas. Seguiremos dizendo não na vida e nas ruas.

* André Rodrigues é Doutor em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos – IESP/UERJ e Professor adjunto de pensamento político da Universidade Federal Fluminense (IEAR/UFF). Também colabora com a Escuta.

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