Em homenagem a Otavio Dulci, a Revista Escuta publica textos escritos João Dulci, Ignacio Delgado e Flávia Xavier sobre este grande intelectual e professor.

Uma homenagem

João Dulci*

Este é um relato meramente pessoal. A morte de Otávio Dulci me dói de forma dilacerante. Um dos principais responsáveis por eu ter escolhido as Ciências Sociais e a Sociologia. Lembro-me de seu apoio sempre humilde e sempre altruísta. No pior dos cenários, Otávio sempre tinha uma palavra positiva para nos fortalecer. Seu apoio me foi inestimável ao longo da minha graduação, do meu mestrado e do doutorado. Posso dizer, sem medo de errar e sem cometer nenhuma injustiça a todos aqueles que estiveram ao meu lado que, sem ele, não teria chegado aonde cheguei.

Mas a perda de Otávio Dulci não é uma perda apenas pessoal ou familiar. É uma perda para o país. Sua luta contra a ditadura, alvo constante nas trincheiras da FAFICH. Sua luta pela fundação de um partido dos trabalhadores. Sua participação inestimável nas articulações pelas Diretas, na construção de programas de governo das candidaturas de Lula, de Patrus Ananias e de tantos que souberam escutar suas palavras serenas de sabedoria. Desconheço um nome que não o tenha conhecido e nada tenha aprendido com ele.

Otávio, com uma obra densa e arguta para o pensamento social e político brasileiro, era, em todos os aspectos, um professor. Uma referência. Não apenas intelectual, mas de vida. Sua moderação só era rompida pela incisiva defesa dos direitos humanos e da democracia. É impossível  não relacionar o momento atual com sua perda. Imagino um Otávio angustiado com os rumos que o país tem escolhido, desconstruindo tudo pelo que ele havia lutado.

Hoje, perdi um tio, um professor e um guru. A UFMG e a PUC-Minas, parte de sua própria memória. As Ciências Sociais perderam uma mente privilegiada. O Brasil perdeu mais um democrata.

* João Dulci é Doutor em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ) e Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora. Colabora com a Escuta.

Uma amizade 

Ignacio Godinho Delgado*

Conheci Otávio Dulci ao final da década de 1980, quando eu cursava o mestrado em Ciência Política no DCP. Sabia que era de esquerda e estudava as elites mineiras, destacadamente o empresariado, e, pesquisando a FIEMG, busquei me aproximar dele, que era de outro Departamento, o de Ciências Sociais, na FAFICH. Mas foi muito mais que um interlocutor e mestre. Gente boa demais, sabia tudo de Minas Gerais, falando de sua gente e de suas histórias como quem conhece todo mundo, seus laços de parentesco, seus elos políticos, suas idiossincrasias.

Torcia para o América e ria uma risada que nos levava a todos que o ouviam para o centro das histórias que contava.

Depois de conhece-lo, li seu livro sobre a UDN, que, de certa forma, ao olhar para seu mais renhido adversário, antecipava o resgate acadêmico e político da tradição trabalhista originada na trajetória de Getúlio Vargas, então minimizada pela sociologia uspiana, que nos guiava a todos.

Otávio participou de minha banca de mestrado e, entre conversas em Belo Horizonte, Juiz de Fora e Ibitipoca, cogitávamos de fazer alguma coisa juntos sobre Minas Gerais, talvez uma biografia. Nunca aconteceu, mas foi daquelas promessas sempre germinavam em nossos encontros. Desde a década de 1980, de todo modo, mantivemos uma camaradagem especialíssima, acadêmica, política e pessoal

Era ótimo encontrar com Otávio. Nos eventos acadêmicos, nas bancas lá, nas bancas cá, nas oportunidades que surgiam e criávamos. Quando nos reuníamos, às vezes em momentos bem espaçados no tempo, era como se o último encontro tivesse ocorrido no dia anterior. Na derradeira oportunidade, em 2016, com o golpe já desferido contra o povo brasileiro e o país, Otávio expressou uma tristeza profunda, que nos acometia a todos. Dizia que não imaginava estarmos discutindo os problemas da corrupção, atribuída ao PT, uma vez que os sonhos que nos mobilizaram, por décadas, miravam a reforma agrária, a redução das desigualdades, a construção de um país mais justo e democrático. Isso, entre a UFJF e a rodoviária, onde embarcaria para BH. Ao sair do carro, contudo, me consolou: mas temos que perseverar.

Otávio nos legou uma obra múltipla, que lidou com temas como as elites empresariais no Brasil e em Minas Gerais, a ordem política brasileira, os partidos políticos, a história e a cultura de Minas Gerais, o desenvolvimento comparado, à escala regional e internacional. Circulava com desenvoltura pela História, a Sociologia e a Ciência Política. Mineiramente. Discreto. Brilhante. Seu livro, Política e Recuperação Econômica de Minas Gerais, é um clássico nos estudos sobre desenvolvimento regional, articulando um modelo analítico refinado para a análise comparativa, com extensa pesquisa sobre a atuação das elites empresariais, políticas e burocráticas, em Minas Gerais, na promoção do desenvolvimento no estado.

Atuou na UFMG, na PUC, colaborou com órgãos diversos. Militou intensamente em favor da democracia e da justiça social. Acreditou no Brasil e em seu povo.

Com tristeza incontida fiquei sabendo da morte de Otávio Dulci, de infarto fulminante, na manhã de terça-feira, 10 de outubro de 2016. Todos que o conheceram tiveram o privilégio de aprender muito. Acima de tudo, era um excelente sujeito. Sereno, firme, bem-humorado, amigo.

Confesso que chorei muito. Me pareceu, ao longe, que era mais um que deve ter sucumbido à tristeza que tomou conta do país desde o golpe de 2016.

Solidariedade à Eliza, André, Luiza, irmãos, parentes e amigos (as).

Como Otávio dizia, temos que perseverar. Que sua memória nos ilumine.

*Ignacio Godinho Delgado é Professor Titular da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), nas áreas de História e Ciência Política, pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia-Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (INCT-PPED), e colabora com a Revista Escuta. Doutorou-se em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 1999, e foi Visiting Senior Fellow na London School of Economics and Political Science (LSE), entre 2011 e 2012.

 

Professor, orientador e conselheiro

Flávia Pereira Xavier*

Peço desculpas pelas palavras arranhadas ou desordenadas, pois elas brotam conforme minhas emoções e lembranças do Otávio professor, orientador no sentido mais amplo e do conselheiro.

A primeira delas é de quando eu era uma aluna caloura das Ciências Sociais da FAFICH/UFMG e bati na porta de um grupo de pesquisa que se dedicava a estudar a Sociologia do Trabalho. Otávio me recebeu com um largo sorriso e me acolheu. Ele foi meu primeiro orientador na universidade e já comecei aprendendo a fazer pesquisa de campo. Orientava a pesquisa, mas também orientava os conflitos de seus alunos com o curso e nossas vocações. Certa vez subindo as escadas rumo ao 4º andar da FAFICH, onde se alojavam os grupos de pesquisa, ele me perguntou sobre o que eu gostava de estudar. Eu estava no 2º período e encantada pela Sociologia e pela forma de se fazer ciência – a metodologia de pesquisa. Ele, então, me disse: um bom sociólogo precisa saber metodologia de pesquisa. Eu compreendi isso e segui. Veja, Otávio, acabei por ensinar jovens estudantes metodologia… Aprendi muito com ele Sociologia Brasileira e Sociologia Histórica. Era um professor dedicado e entusiasmado pelos temas que ensinava. A interação com os alunos fluía naturalmente. Quem não se lembra das suas risadas?

Nas conversas informais, também aprendi muito, inclusive sobre política. No tempo da graduação fui militante do movimento estudantil na universidade e muitas vezes conversamos sobre isso. Ele me contava sobre a UNE do seu tempo, sobre os professores que já militaram também, mas era enfático: um bom militante, tem que ser bom aluno. Eu compreendi isso e segui. Otávio formava pessoas, era paciente com nossas teimosias e falhas. Raras vezes o vi impaciente. Quando ele ficava ‘bravo’ era por um motivo justo, não tinha como esconder, porque ele ficava vermelho. Já demos muita risada disso.

Na minha defesa de monografia, meticulosamente me corrigiu. Compreendi isso e segui. Hoje, juntando minhas memórias, compreendi mais o Otávio, e vou seguir, com o coração mais apertado, mas seguirei buscando refletir um pouco dele nos meus alunos.

* Flávia Pereira Xavier é  Doutora em Sociologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Professora da Faculdade de Educação desta mesma universidade.

Anúncios