Pedro Lima*

Quase todos à minha volta pareciam atordoados com os resultados das urnas na noite deste domingo, sete de outubro. Após acompanhar por uma semana o crescimento das intenções de voto no candidato fascista para além do suposto “teto” (que girava em torno dos 33%), a irresolução deste domingo pareceu-me boa notícia. Não pelo que, para muitos, representou mero adiamento de derrota inevitável, como se as três semanas que nos separam do segundo turno representassem os últimos suspiros antes da morte anunciada. E sim, genuinamente, pelas possibilidades de vitória que parecem se abrir para o campo democrático com a continuidade da disputa. Em tempos sombrios, de derrotas a perder de vista, vale ressaltar certas razões pelas quais ainda se pode conceber uma vitória na luta política mais importante desde a redemocratização dos anos 1980.

Em primeiro lugar, ondas de reta final de campanhas eleitorais tendem a ser avassaladoras. No mais das vezes, elas carregam forte poder de atração que contam com uma espiral multiplicadora de votos e adesões de última hora, quase sempre culminando na vitória definitiva do agraciado. O fato de que a onda pró-fascismo não ultrapassou os 46% de votos válidos neste domingo deve, sim, ser comemorado, ainda mais porque os resultados dos demais candidatos da direita sugerem que já houve forte movimento de migração de votos para o líder das intenções de voto, em antecipação de movimento típico de segundo turno. Não à toa, o Datafolha da véspera das eleições mostrava Alckmin, Amoedo, Meirelles e Dias somando 6% a mais do que eles viriam a ter, juntos, nas urnas. E a projeção de sábado para o fascista (40%) ficou exatamente seis pontos percentuais aquém do resultado de domingo.

A onda tende, portanto, a refluir, o que não significa, no primeiro momento, um recuo das intenções de voto no ex-capitão, mas sim um estancamento na transferência de votos que lhe beneficiava. Somado a este refluxo tendencial da onda, o outro fator mais relevante deste segundo turno deverá ser a evolução da taxa de rejeição. Ao longo do mês que se passou entre a facada e as eleições, a taxa de rejeição do filhote da ditadura manteve-se relativamente estável, sempre próxima a 44%. É evidente que o incidente de Juiz de Fora amenizou uma possível alta de sua taxa de rejeição, tanto por criar empatia pela vítima, quanto por complexificar a tarefa dos candidatos rivais que precisavam atacá-lo – e também, ainda mais importante, por tirar de cena um ator político pouco afeito ao escrutínio permanente na esfera pública. Passado um mês, e passada a comoção com o atentado, é provável que vejamos uma retomada da curva ascendente de rejeição ao candidato, até porque a máquina de propaganda do PT pouco se dedicou, até agora, a desconstruir a chapa capitão/general.

Além disso, impõe-se à candidatura fascista um dilema difícil de resolver: ir aos debates e correr o risco de expor toda a boçal fragilidade do ex-capitão; ou não comparecer, alegando um impedimento médico, e correr o risco de ser visto como um covarde que teme se expor ao contraditório? Quem julga ser pouco arriscada a decisão pelo não comparecimento subestima o eleitorado e o evidente descompasso que irá se evidenciar entre a truculência de quem resolveria tudo pela força e a pusilanimidade de quem foge de debates. E quem afirma que a presença nos debates não terá maiores implicações sobre os adeptos do bolsonarismo esquece que já tivemos eleições anteriores (2006) em que, muito devido a performances pífias em debates, um candidato perdeu dois milhões e meio de votos do primeiro para o segundo turno.

Tudo isso não será suficiente se o campo democrático não se afirmar enquanto tal. Espera-se, pois, que se façam logo os acertos necessários para que Ciro Gomes se dedique integralmente à transferência de seus treze milhões de votos para Haddad e Manuela. Sem a participação direta de Ciro na campanha do segundo turno, as chances de vitória se tornarão remotíssimas. Pela coerência de sua atuação política nos últimos dezesseis anos e pelas primeiras declarações dadas logo após a divulgação dos resultados eleitorais de domingo, é de se esperar que Ciro não falte ao compromisso democrático. Com ele a bordo, e com as massivas vitórias de petistas e aliados nas disputas dos governos de estados no Nordeste, é razoável supor que há margem para aumentar ainda mais a já expressiva votação de Haddad/Manuela entre o povo nordestino.

O segundo turno não traz, como pontificam alguns sábios, uma “nova eleição”. Há um reposicionamento dos demais candidatos, o que pode trazer alterações nos cenários, mas é evidente que os acúmulos do primeiro turno permanecem, em grande medida, no segundo. Isso vale tanto para a rejeição, quanto para a adesão. Nesse sentido, o primeiro turno representou para o PT o desafio de realizar em tempo recorde a transferência de votos de Lula para Haddad. Esta foi, na prática, a única tarefa a que se lançou o partido depois de 11 de setembro. Restando ainda reatrair algo em torno de 10% das intenções de votos que eram indicadas a Lula na última pesquisa em que seu nome foi incluído (há uns cinquenta dias atrás), número que hoje significa mais ou menos 5% dos votos válidos, Haddad deverá abandonar progressivamente o figurino de herdeiro de Lula e reforçar o discurso de portador de um petismo (ainda mais) moderado.

Não há ninguém melhor do que Haddad para desempenhar esse papel, que combina espontaneamente com suas posições políticas. O equilíbrio entre, de um lado, a agenda progressista de preservação de direitos e ampliação do acesso dos mais pobres à educação e ao consumo e, de outro, a agenda liberal da austeridade fiscal parece ser a “quadratura do círculo” (Singer) projetada por Haddad. Importam menos, a essa altura, as dúvidas sobre como esse equilíbrio poderá ser concretamente operacionalizado em um eventual governo. Antes, é preciso vencer as eleições – e Haddad é o melhor quadro do PT para fazer todos os acenos possíveis aos liberais que ainda tiverem algum apego à democracia.

O jogo ainda está sendo jogado. O fascismo conta com uma combinação bizarra de um profissionalismo Made in USA para o jogo sujo das redes sociais e um amadorismo extremo no âmbito da coordenação dos discursos de seus protagonistas. O nosso lado conta, além do mais, com a intransigência na defesa dos valores democráticos, em nome dos quais teremos vinte dias para fazer a maior virada da história das eleições no Brasil. É uma bela tarefa esta que se põe diante de nós – e é por Herzog, Marighella, Marielle e tantos outros, que não podemos nos dar ao luxo de chorar derrota antes do tempo. Mesmo porque sabemos bem que “tampouco os mortos estarão a salvo se o inimigo vencer”.

*Pedro Lima é professor de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e colaborador da Escuta.

Imagem TV Globo/G1. Disponível em https://oglobo.globo.com/brasil/manifestantes-fazem-atos-favor-contra-bolsonaro-no-rio-23113319

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