Paulo Henrique Paschoeto Cassimiro*

Uma busca pelas palavras “Fernando Henrique e Lula” no Google nos direciona para uma dezena de fotos que evocam a imagem de um período da história brasileira que começa com a redemocratização e que se encerrará com a provável ida de Bolsonaro e Haddad ao segundo turno das eleições de 2018. PT e PSDB, a despeito das enormes diferenças que polarizaram as disputas eleitorais brasileiras nas últimas quatro eleições, também dividem características comuns: são as duas principais “novidades” do sistema político brasileiro durante o processo de redemocratização (o PT como um novo partido de trabalhadores e o PSDB como uma dissidência progressista de “notáveis” do PMDB); ambos se formaram com a missão de encerrar a “Era Vargas” e têm raízes intelectuais no ambiente acadêmico paulistano. PT e PSDB pareciam apontar para um futuro moderno da nossa nascente democracia: de um lado um partido de esquerda com vínculos com movimentos sociais e sindicatos e que propunha modernizar as relações entre Estado, Capital e Trabalho no Brasil; do outro um partido liberal e progressista, confiante em sua capacidade de modernizar o Estado brasileiro e abrir a economia nacional para o mercado global (o desejado “choque de capitalismo” de Mario Covas). Esses dois partidos “modernos” prometiam superar, à esquerda, o “atraso do populismo” que mantinha o país à sombra dos impasses da democracia de 46, representado por Leonel Brizola, e, à direita, o fisiologismo oligárquico, cujo principal representante era o PFL e as elites nordestinas. No meio dos dois, o PMDB, “fiador” da redemocratização, parecia cada vez menos uma solução, diante da responsabilidade de arcar com o passivo da transição pactuada e das incapacidades do governo Sarney.

Em 1989, apesar da vitória de Collor, a promessa de um sistema político-partidário estável e moderno parecia abalada, mas não destruída: Mario Covas, candidato a presidente da república pelo PSDB, declara o apoio de seu partido a Lula no segundo turno e, com a derrota do candidato petista, PMDB, PSDB e PT comandam a oposição ao governo Collor e o processo de impeachment no Congresso Nacional. Contudo, o movimento dos dois anos posteriores mudaria definitivamente os rumos do sistema político brasileiro: o PT – ao contrário dos demais partidos de centro-esquerda como PPS, PSB e PDT – recusa-se a participar da ampla base de apoio do governo Itamar Franco. A deserção petista da frente ampla que conduziu o impeachment obedecia não só a um movimento para capitanear à esquerda as insatisfações dos trabalhadores com as reformas econômicas e políticas ditas neoliberais, mas, sobretudo, à necessidade de afastar Lula, naquele momento líder das pesquisas de intenção de votos para 1994, dos custos políticos da eventual participação do PT em um governo em crise[1].

A eleição de 1994 marca uma reconfiguração do sistema político brasileiro que duraria pelos próximos 20 anos. Com o sucesso do Plano Real, o PSDB escolhe Fernando Henrique Cardoso como candidato à Presidência da República para enfrentar Lula. Já o PMDB decide não reconhecer a escolha tucana como um “desdobramento natural” do sucesso econômico do governo e lança a candidatura de Orestes Quércia – adversário histórico de FHC e dos tucanos paulistas. Enquanto a candidatura de Lula contava com uma ampla coalizão de partidos de centro-esquerda, os tucanos, buscando viabilizar a candidatura de FHC, selariam aliança com PFL e PTB, dois dos principais representantes do fisiologismo oligárquico da política brasileira, estabelecendo assim o padrão das coalizões partidárias que vigoraria no Brasil desde então: um “cabeça de chapa” com visibilidade nacional e agenda, e um conjunto de partidos fisiológicos cuja relação com o governo seria construída na base da divisão e ocupação de cargos públicos. A vitória maiúscula de FHC contra Lula daria força ao novo presidente para atrair outros partidos de centro e direita – como o PMDB o PP e o PL – consolidando uma maioria parlamentar que garantiria a governabilidade dos dois mandatos tucanos e que, com algumas novas presenças e ausências e após um período inicial de tensão no inicio do ciclo petista, seria mantida como a base de apoio dos governos Lula e Dilma.

Derrotado nas eleições de 2002, o PSDB iria para a oposição, acompanhado do PFL. Este último veria sua importância violentamente reduzida graças à devastadora ascensão de Lula e do PT no nordeste: o partido, que havia elegido a segunda maior bancada do país na Câmara dos Deputados nas eleições de 90 e 94, e a maior bancada em 1998 (105 deputados), sofreria uma queda acentuada ao longo das eleições seguintes, até amargar em 2014 a eleição de apenas 21 deputados – já com a mudança de nome do partido para Democratas (DEM). Já o PSDB se consolidaria como o principal partido de alternativa ao PT e ao lulismo: além de manter-se entre as maiores bancadas do congresso (a despeito de uma queda no número total de representantes), o tucanato iria projetar lideranças regionais importantes – como Geraldo Alckmin e Aécio Neves – governando por longos períodos os dois maiores estados da federação, além da constante participação de FHC como o principal articulador no debate público de um discurso de centro-direita, atacando o que ele acreditava serem as contradições e limitações do projeto petista em aprofundar a modernização da sociedade, da política e da economia brasileiras pela agenda do liberalismo. A despeito das quatro derrotas sucessivas nas urnas para Lula e Dilma, o PSDB parecia o fiel depositário da confiança de uma expressiva minoria da população brasileira concentrada, sobretudo, na região sul, sudeste e centro-oeste.

A narrativa do “Brasil moderno” das regiões desenvolvidas e escolarizadas contra o “atraso” da tutela populista que Lula exerceria contra os mais pobres tomou conta de boa parte da opinião pública de classe média e, eleitoralmente, o PSDB foi capaz de capitalizar esse discurso. A “udenização” do PSDB, contudo, sofreria sua grande inflexão com a escalada dos escândalos de corrupção envolvendo a alta cúpula petista. Após a aposta frustrada no “sangramento” do PT durante o Mensalão – que culminou com a mais vergonhosa derrota do PSDB em 2006, protagonizada por Geraldo Alckmin, que conseguiria a proeza de obter menos votos no segundo turno que no primeiro – o discurso oposicionista dos tucanos parecia ter finalmente encontrado um ponto eficiente: o PT seria o protagonista da corrupção, o “gerente” de uma corporação do mal ocupada em predar o Estado, que envolvia toda a base de partidos políticos do governo, setores importantes do capitalismo nacional e que tinha no ex-presidente Lula o seu principal articulador. O antipetismo havia se convertido numa ideologia, a base sobre a qual o PSDB buscaria alicerçar seu discurso público a partir de então.

Mas havia um 2013 no meio do caminho…

Com as manifestações de julho de 2013 uma coisa ficou evidente: o PSDB não era o destino natural do antipetismo. Contudo, o tucanato apostou que, ao incorporar o antipetismo como principal característica política do seu discurso, ele seria capaz de capitalizar eleitoralmente essa disposição ainda difusa no eleitorado. E bateram na trave em 2014, com o crescimento impressionante da campanha de Aécio Neves até a derrota final por apenas pouco mais de três milhões de votos. O tucanato acreditava que as eleições daquele ano haviam dado uma “vitória moral” ao PSDB: diante de uma recessão econômica devastadora, de uma base de governo em frangalhos, de uma presidente abúlica e de um judiciário que acossava o PT, a vitória tucana parecia uma questão de esperar as eleições de 2018. Um primeiro “gostinho” de vitória o PSDB sentiu em 2016, após a ascensão meteórica do desconhecido e “não político” João Dória e a derrota no primeiro turno do “preferido” de Lula, Fernando Haddad, nas eleições municipais de São Paulo. A vitória nas próximas eleições parecia apenas uma questão de resolução dos conflitos internos do tucanato: Aécio Neves e seu cacife eleitoral de 2014 ou Geraldo Alckmin, cuja maquina eleitoral estadual nas eleições municipais de 16 havia assestado um golpe de morte no PT paulista?

Mas o udenismo tucano teve pressa: começou questionando a legalidade da chapa Dilma-Temer no TSE, acusada de receber dinheiro de corrupção para financiar a campanha; protagonizou o impeachment do governo Dilma no congresso (sendo, inclusive, premiado com a escolha do relator do processo no Senado, o senador Antônio Anastasia) e terminou fazendo parte da base do governo Michel Temer. O último passo parece não ter sido unanimidade no partido, tendo sido patrocinado, sobretudo, pelo senador José Serra, que corria por fora na disputa interna para a vaga de candidato à presidência nas próximas eleições. Mas o fato é que o PSDB assumiu um protagonismo inquestionável no governo Temer, com altos custos cobrados após o “affair” Joesley e a divulgação das gravações de Aécio Neves pedindo propina: o PSDB demorou quase dois meses para decidir-se por abandonar o governo Temer, deixando clara as fraturas internas no comando do partido, representadas principalmente pelo conflito entre Aécio e Tasso Jereissati – a quem restou o papel difícil e pouco convincente de “último republicano” dos caciques tucanos. Junte-se a isso o começo da divulgação das investigações do Ministério Público sobre o escândalo das merendas e do superfaturamento das obras do metrô durante o governo do nome que havia se convertido em escolha natural do PSDB para as eleições de 2018: Geraldo Alckmin.

Os resultados que podemos observar da campanha eleitoral até agora mostram uma surpreendente confirmação do que podia ser percebido de maneira difusa nos ânimos de 2013: boa parte do voto do PSDB nas quatro últimas eleições nacionais acompanhou por inércia a oposição aos governos petistas. O PSDB era a opção colocada por um sistema político razoavelmente estabilizado para os eleitores que buscavam uma alternativa ao PT: a incapacidade dos demais partidos em propor e projetar nacionalmente nomes relevantes para as eleições trouxe a oposição para a sombra do tucanato. Mas o PSDB acabou por chocar o ovo da serpente que o engoliria: ao alimentar o antipetismo como elemento principal da sua identidade política, o PSDB projetou lucros que a sua vinculação inegável com o sistema político brasileiro não lhe permitiria usufruir: o antipetismo demandava, no seu atual momento de radicalização, uma liderança fora do sistema (ou pelo menos que pudesse aparentar estar fora, sem estar de fato), desvinculada dos altos custos cobrados nos últimos anos pelo compromisso com o modelo político de governabilidade e de financiamento do sistema partidário que a política brasileira consolidou em 1994 e que garantiu a estabilidade política por 20 anos.

A entrevista de Tasso Jereissati ao Estadão no último dia 15 de setembro soa como uma Unção dos Enfermos para o PSDB: ao reconhecer a incapacidade do partido em formular uma alternativa viável de centro-direita graças aos custos políticos da “fidelidade” tucana ao governo Temer, Tasso expõe um dos elementos mais importantes para a compreensão do agora inevitável fracasso tucano nas eleições: a aposta do PSDB na manutenção do sistema político que ele ajudara a botar de pé revelou-se, ao fim, equivocada, dado o contexto de radicalização à direita do animo antipetista. Qualquer uma das duas possibilidades colocadas hoje pelas pesquisas eleitorais deixará o PSDB numa situação delicada: com uma eventual vitória do PT, a tendência de que a extrema-direita continue sendo o polo aglutinador do voto antipetista deslocará definitivamente os tucanos do papel de opositor protagonista conquistado na era Lula. Caso a extrema-direita seja vitoriosa, caberá ao PSDB integrar ou não o governo: em ambos os casos, com o desprestígio crescente de seus velhos medalhões, o partido será apenas mais um em um parlamento que, segundo apostam muitos analistas do sistema partidário brasileiro, deverá diminuir as diferenças do tamanho entre as bancadas dos maiores partidos e ampliar a fragmentação partidária, cabendo ao PSDB um papel absolutamente minoritário ou sua absorção pelo bloco do “Centrão”. Há ainda uma terceira possibilidade: a eventual vitória de João Dória ao governo de São Paulo pode alçá-lo a uma posição de liderança num contexto de desprestígio crescente da velha elite tucana e fortalecer a aposta do partido em um discurso antipetista, mas também antissistema – movimento já esboçado por Dória em 2017, ao tentar viabilizar sua candidatura para a presidência da República. Nesse caso, Dória iria buscar polarizar o espaço no qual hoje Bolsonaro reina absoluto.

Independentemente da alternativa que se concretizará, o fato é que os sinais apontam para um impasse que deverá colocar em xeque o papel central que o PSDB vinha ocupando no espectro político brasileiro nos últimos 20 anos. Restaria ainda saber se a derrocada do PSDB virá sozinha, ou será indício de uma transformação que coloca um fim definitivo nos sonhos de uma democracia moderna, com um espectro político de partidos fortes e com projetos bem identificáveis, pelo menos da forma como o Brasil do final dos anos 80 anunciava; o Brasil que as fotos de Lula e FHC juntos ecoam, como mais uma promessa da nossa história política terminada antes do fim.

* Paulo Henrique Paschoeto Cassimiro é bacharel em Ciências Sociais pela UFF e doutor em Ciência Política pelo IESP-UERJ, além de colaborador da Escuta.

Imagem disponível em http://robsoncidadao.com.br/noticia/17796

Notas

[1] Ambas as hipóteses para explicar a recusa do PT em integrar o governo encontram-se no notável trabalho de Brasílio Sallum Jr. O Impeachment de Fernando Collor. Sociologia de uma crise. São Paulo: Editora 34, 2015.

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