Jorge Chaloub*

Uma das mais nocivas narrativas da presente eleição se constrói a partir de certa ideia de falsa equivalência. Neste discurso, o analista político “realista” clama, com ares de moderação e sofisticação epistemológica,  pelo retorno de um centro perdido entre os supostos radicalismos à direita e à esquerda. Não estamos diante de um fenômeno novo. Nada mais comum do que a retórica do realismo, que reivindica ao próprio discurso uma compreensão privilegiada do mundo, longe das paixões de seus adversários. Também é corriqueira a luta pelo centro político, sobretudo em eleições majoritárias, onde é necessário ir além dos convertidos para vencer. Todos esses motes retóricos ganham, entretanto, outras feições e graves consequências quando mobilizados numa eleição como a atual, onde o candidato Jair Bolsonaro desponta como uma extrema direita com reais chances de vitória e a adesão de grande parte da população.

Seja pela retomada mal ajambrada, consciente ou não, da ideia aristotélica da virtude da meia medida ou através do recurso ao simples senso comum, que rejeita radicalismos, chega-se aos traços de um cenário completamente artificial, onde as forças políticas são analisadas de modo apenas formal, sem atenção a como efetivamente atuam no mundo. Perde-se, assim, qualquer ideia de intensidade da ação política. A atenção a várias perspectivas sobre um mesmo evento, necessária para um conhecimento mais complexo do mundo, não se confunde com a igual valorização de todas as vozes.

Nas redes sociais a retórica da falsa equivalência dá o tom de boa parte das manifestações, usualmente a partir de piruetas argumentativas capazes de mobilizar uma multidão de informações que parecem dizer muito, mas não resistem a um olhar mais detido. O mal não se limita ao twitteiro anônimo, mas assola nossa academia e se destaca na grande imprensa, sempre ávida por consultar seus especialistas e ecoar a voz dos analistas “moderados”. Todos a clamarem por um conceito de democracia enquanto administração das coisas, sem qualquer atenção às dimensões transformadoras da ação política.

A moderação é antes recurso retórico que lugar privilegiado para o conhecimento do mundo. Há muito soa antiquada uma postura que crê na possibilidade de um discurso neutro, que ignore as mútuas implicações entre quem reflete e o objeto de pensamento. É antes na consciência das influências que recaem sobre as ideias, do que no seu esquecimento, que estão as reflexões mais rigorosas. Todos os lugares do pensamento são construídos, até mesmo aquele que se pretende equidistante. Um argumento complexo deve não apenas ouvir todas as vozes, mas ser capaz de compreender suas diferenças. A prudência, virtude do mundo político segundo o velho Aristóteles, não se confunde com indistinção entre todas as ações e discursos, mas justamente emana da capacidade de avalia-los para, então, bem agir.

O resultado de alguns desses equívocos é a construção de um fajuto centro político, que confere pretensa objetividade ao que não corresponde a qualquer narrativa embasada da história do país após a redemocratização. Em tempos de tanto gosto pela gritaria, é necessário esclarecer que não há neste texto a pressuposição de qualquer virtude intrínseca à esquerda ou centro-esquerda, que deve ser criticada por seus erros e equívocos. Os poréns ante atores políticos não implicam, contudo, no descarte de todo o resto que os constitui. Há que se salvar o bebê em meio a água que escorre pelo ralo. É antes a característica de certa moral, e não da política, a divisão do mundo em termos de bem e mal absolutos, radicalmente distintos e, justamente por isso, comparáveis. Essa visão moralizante recusa as mediações próprias do mundo democrático, tendo se tornado o discurso dominante dos que pretendem chancelar as práticas democráticas, seja nos tribunais, quartéis ou redações. Perde-se, nestes movimentos tão em voga na atual conjuntura, a própria essência da prática democrática, que se distingue pela autonomia das decisões do povo.

Quando tal visão de mundo moralizante se veste com a velha retórica da moderação, ganha corpo o discurso responsável pelas absurdas comparações entre Bolsonaro e Lula, retratados como dois extremos a se confrontarem na política nacional. Equipara-se um presidente que esteve a frente de governo de centro-esquerda durante 8 anos, e viu sua sucessora governar durante mais 5 anos e quatro meses, sem qualquer tentativa de romper com a Constituição ou atacar minorias, com um candidato de corte francamente fascista – o conceito é preciso no caso – cuja ações e declarações atentam de forma explícita contra a ordem democrática e as mais diversas minorias. Neste caso, a pretensa moderação nada mais é do que um equívoco, com funestas consequências.

Alguns podem objetar que a polarização não decorre das suas vontades, mas das escolhas do eleitorado, que se divide entre pró e antilulista, e elege o ex-militar como principal representante dos críticos do ex-presidente. A existência da polarização não importa, todavia, na equivalência dos termos da mesma. Aliás, é justamente o protagonismo da extrema direita no ataque à centro esquerda, e a clara desproporção entre os dois polos, uma das chaves centrais para a compreensão do Brasil contemporâneo. O radicalismo – este outro mote retórico da disputa política – não se encontra proporcionalmente distribuído na arena política brasileira. Enquanto a centro direita psdbista flerta, ao menos desde as últimas eleições, com pautas mais próximas de uma direita empedernida, como seu claro discurso de recrudescimento na segurança pública demonstra, os candidatos do grande campo da esquerda e da centro esquerda se mostram cada vez moderados em suas propostas, mesmo que elas por vezes venham adornadas em uma retórica que se pretende radical.

A história é um bom critério para tal comparação. Comparados aos seus representantes nas eleições entre 1989 e 1998, os atuais candidatos das tradições petista e trabalhista se mostram muito mais próximos do centro. Até mesmo o político mais identificado com uma esquerda programática na atual eleição, Guilherme Boulos, é mais moderado que os concorrentes anteriores do PSOL. Se a retórica é parte central do mundo político, e interfere diretamente na repercussão das ideias no mundo, não se pode, por outro lado, reduzir o conteúdo das propostas ao tom que as cerca. O tom muitas vezes elevado de petistas e ciristas não resiste a um mais detido olhar aos seus discursos. O reconhecimento de que a realidade comporta muitas narrativas não significa que todas elas sejam igualmente válidas.

Os perigos de equiparações irresponsáveis são particularmente graves em ordens democráticas. A democracia tem por peculiaridade uma representação aberta do lugar e dos efeitos do poder, de modo que o caminho a ser trilhado nunca se encontra previamente estabelecido e todas as vozes devem poder ressoar no mundo público. Para que a democracia perdure, e não se cristalize em oligarquia travestida governo do povo, é necessária ampla tolerância com seus críticos, já que estamos diante de um processo de contínua expansão e não de um regime estático. Por outro lado, a democracia deve ser capaz de limitar aqueles que tramam explicitamente para violá-la a partir de métodos antidemocráticos, como o ataque a minorias. Distinguir entre a resistência que constitui uma ordem democrática, e a confronta para garanti-la, e os golpes que apenas visam derrubá-la para seu próprio proveito não é tarefa simples, ou pronta de antemão, mas demanda um olhar atento, caso a caso. As recentes criminalizações de militantes políticos e movimento sociais mostram como supostos remédios de proteção à democracia podem se converter em venenos.

Não estamos, entretanto, diante de complexas distinções sobre o lugar da resistência frente às instituições, mas frente a algo evidente: a confrontação entre centro-esquerdas plenamente inseridas nas disputas institucionais e um dileto representante do fascismo. Tornar ambos extremistas em confronto sufoca mesmo os mais moderados esforços de reforma da ordem social e acaba por contribuir para a destruição do próprio regime democrático.

*Jorge Chaloub é um dos editores da Escuta.

**Imagem de Lucio Bernardo J/Câmara dos Deputados, disponível em https://congressoemfoco.uol.com.br/especial/noticias/militaristas-tomam-plenario-da-camara-e-pedem-intervencao-das-forcas-armadas-na-politica/

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