Jorge Chaloub*

Ainda atônita pela tragédia do Museu Nacional, Raquel me disse que o cenário, de tão grotesco, abria um tempo em que não eram mais necessárias metáforas para descrever o processo de destruição que vivemos. O desastre do cotidiano poderia ser visto sem recorrer à imaginação ou às elucubrações literárias, já que as metáforas ganhavam plena realidade, e efeitos, nesse realismo fantástico que crescentemente nos assola.

A queima do Museu pode ser compreendida a partir do encontro de ao menos duas visões de mundo que ganharam, e ganham, cada vez mais força em nosso cotidiano. Por um lado, a perspectiva de que não temos propriamente história, já que nossos mais de 500 anos antes se assemelham a uma “terra arrasada”, da qual pouco vale a pena guardar. Não seríamos, segundo tal argumento, um povo capaz de cultura, como outros do lado de lá do Atlântico ou mais acima no continente, mas apenas capaz de sobreviver às mazelas da existência. Por outro, ganha nova roupa certa percepção tecnocrática do mundo, que vê nas tantas coisas que compunham o Museu Nacional um gasto desnecessário, supérfluo. Para que gastar com futilidades o que pode ser investido em atividades “produtivas” e “necessárias”, o fundamental num mundo onde os almoços não são gratuitos e os gastos são limitados por exigências da boa técnica econômica? As visões não se opõem, mas, sobretudo em tempos mais recentes, andam cada vez mais juntas. Seus opositores serão taxados de ingênuos, irrealistas, ou, segundo as retóricas mais inflamadas, de “esquerdistas”, “esquedopatas” e, por mais incrível que possa parecer, “comunistas”.

Talvez museu seja mesmo coisa de comunista, não no sentido estrito dos adeptos ao marxismo ou dos filiados e simpatizantes de partidos à esquerda, mas sim daqueles que, de algum modo, partilham de alguma aposta existencial no terreno do comum. Um lugar como o Museu Nacional, sobretudo em um país periférico, é a possibilidade de muitos terem acesso ao que poucos podem ver em suas viagens à Europa ou aos Estados Unidos. Do lado do metrô de São Cristóvão era possível conhecer fósseis de dinossauros, múmias e borboletas, dentre tantas outras coisas, que talvez revelassem a crianças, submetidas a currículos pouco estimulantes em suas escolas, o caráter algo mágico do conhecimento.

O Museu também abrigava ciência de ponta, feita quase sempre com alto custo pessoal aqui em Pindorama.  A imagem dos pesquisadores arrombando portas do prédio em chamas para retirar fósseis oferecem uma boa, e dramática, representação dessa prática. No campo que me é mais próximo, as humanidades, a instituição abrigava o mais influente programa de Antropologia Social do país, lugar cuja própria existência confronta as narrativas tecnocratas ou da “terra arrasada”. A ampla maioria dos trabalhos aponta, justamente, para a vitalidade das formas de vida no país, sobretudo a partir do olhar para lugares pouco identificados com o pensamento pelos discursos dominantes. A Antropologia também desnuda as precárias naturalizações presentes no discurso da técnica e da neutralidade do saber econômico, tão propalado pela nossa imprensa que, uma vez consumada a tragédia, verte lágrimas de ocasião.

Eu gostaria de encerrar este texto com uma nota otimista. Mas, ao menos por agora, não consigo. Prevejo que os discursos logo caminharão para o absurdo ataque a personalidades escolhidas, sobretudo as que trabalham na UFRJ, segundo a onda punitivista e moralista que nos assola e contribuiu para a tragédia, e para a desvalorização de tudo que é público, ignorando de forma conveniente como mesmo o que o setor privado contribui para a ciência e a cultura no país se faz à custa de isenções de impostos.

Fruto de muitos eventos e maus encontros, a tragédia aparece como exposição crua das destrutivas lógicas da austeridade, que não se restringem ao atual governo, mas encontram nele e no Golpe de 2016 perfeito exemplo. A brutal redução do já ridículo orçamento destinado à manutenção é particularmente eloquente. O governo Temer não está, entretanto, descolado de grupos sociais influentes, material e simbolicamente. Apesar de suas pífias taxas de popularidade, ele encarna, assim como tanto outros candidatos nesta eleição, a crença de que a cultura e a ciência devem ser privilégio de poucos, usualmente esses que podem passar suas férias nos principais museus do mundo, mesmo que frequentemente não o façam. Enquanto isso a metáfora da destruição de certa ideia mais inclusiva de país, e da tentativa de reconstrução dos mais cruéis e demofóbicos traços de outra, ganha realidade, para além dos textos inócuos como este, no fogo que tudo queima perante um poder público que nem mesmo encontra água para combatê-lo.

*Jorge Chaloub é um dos editores da Escuta.

Imagem de Uanderson Fernandes, da Agência O Globo, disponível em https://oglobo.globo.com/rio/incendio-de-grande-proporcao-atinge-museu-nacional-na-quinta-da-boa-vista-em-sao-cristovao-23032665.

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