Joyce Louback* e Lívia Monteiro**

“Você vai apanhar muito na vida, Elza!”

Foi com essa frase que o musical “Elza”, encenado no teatro Riachuelo, no centro do Rio de Janeiro, começa a nos impactar. Nos 120 minutos de duração, a vida, carreira e trajetória de Elza Soares são cantadas e interpretadas pelas talentosíssimas atrizes negras Larissa Luz, Janamô, Júlia Dias, Késia Estácio, Khrystal, Laís Lacorte e Verônica Bonfim selecionadas para o espetáculo e acompanhadas pelas musicistas Antônia Adnet (violão/cavaquinho), Priscilla Azevedo (acordeão/teclados/escaleta), Guta Menezes (trompete), Georgia Câmara (bateria/percussão), Neila Kadhí (guitarra/pandeiro/bases eletrônicas) e Marfa Kourakina (baixo), que criam os sons e tocam os ritmos da peça.[1]

Maria, Joana, Marta, Ana, Helena, Regina, Kátia e outros nomes de mulheres são lembrados no palco e dividem a cena com as histórias de Elza. Personagens reais de um Brasil que está entre os países com maior índice de feminicídios no mundo, segundo o Mapa da Violência 2015 (Cebela/Flacso).[2] Marielle Franco e Tatiane Spitzner também são lembradas. A menção aos seus assassinatos, logo na abertura da peça, situa Elza Soares como uma mulher insurgente contra o controle dos corpos e as condições de opressão. Seu corpo é político. Suas vivências – o casamento forçado, a fome, a morte dos filhos, o trabalho precarizado, a violência doméstica – estruturam um discurso que transcende o sofrimento.

Elza é dor convertida em potência artística e suas histórias de dores e violências são contrastadas no musical com as de resistências e reinvenções da “cantora brasileira do milênio”, eleita pela rádio BBC de Londres e a “mulher do fim do mundo” – como ela canta e também se apresenta.

O musical trata a excepcionalidade de Elza Soares. Mas é possível assisti-lo e lembrar de Nina Simone, Aretha Franklin, dona Ivone Lara, Omara Portuondo e as jovens Karol Conka, Luedji Luna, Linn da Quebrada e Tássia Reis, artistas negras de diferentes gerações e países, com trajetórias e sons distintos, mas que em comum tem seus corpos negros ancorados nas estruturas do racismo, da exclusão e das desigualdades sociais herdadas do passado escravista nas Américas.

Nessa perspectiva transnacional que tem como eixo o Atlântico negro, em especial EUA, Brasil e Cuba, é possível perceber que existem trânsitos culturais e estratégias e agências encontradas pelas artistas negras, em meio aos estereótipos racistas e tentativas de inferiorizações construídas sobre a população negra e o passado escravista. Spirituals, jazz, blues, maxixes, sambas e outros gêneros musicais enquadram-se na categoria que Du Bois[3] afirmou como expressões culturais do “nascimento do new negro”, termo ligado aos movimentos artístico, intelectual, cultural e musical vivenciado durante o “The Harlem Renaissance” nos EUA e com reverberações em outras partes atlânticas que ajudaram a redefinir as identidades negras no século XX. Elza e as artistas lembradas provém desses movimentos e utilizam suas vozes para se afirmarem e se projetarem.

No Brasil, o legado cultural da escravidão deixou suas marcas nas rodas de jongo, lundus, partido-alto, maxixes, sambas e até músicas eruditas que agitavam as cidades, especialmente o Rio de Janeiro. Elza é filha desse tempo e herdou desse passado o aprendizado artístico que desafiou expressões culturais e gêneros musicais convencionais. Sua carreira contribuiu para a redefinição das identidades raciais no rádio, shows, festivais e assim Elza conquistou seu espaço na música popular brasileira, como resposta às desigualdades raciais, sociais e de gênero, como aponta Angela Davis.[4]

No início do espetáculo, as sete Elzas começam se equilibrando em latas e baldes, uma sensível referência ao samba clássico de Candeias Júnior, “lata d’água na cabeça”, e também ao cotidiano da favela de Moça bonita, lugar de nascimento da cantora. A cor cinza do cenário e dos figurinos introduz o público ao começo da vida de Elza, também nebuloso e perpassado pela miséria e as dores da violência. As latas dão forma aos corpos dos personagens masculinos (o pai e o primeiro marido), sempre rígidos, secos, impassíveis diante da figura feminina.

Embora as tragédias pessoais ganhem proeminência, há de se destacar que as quedas e voltas por cima de Elza são relatadas de modo a elogiar sua capacidade de seguir em frente. Um dos méritos do texto da peça é o de não apresentar uma narrativa linear e nostálgica. Ao contrário, o feitiço do tempo está no presente, nas metamorfoses identitárias de Elza e na sua resistência cotidiana ao longo das últimas seis décadas, perto ou longe dos holofotes.

O cinza dá lugar a cores vivas e recortes assimétricos nos vestidos, que apresentam a construção da Elza-estrela, cuja voz se afirma como um motim, uma revolta doce contra as circunstâncias de subalternidade que a circundam. O arquétipo da mulher de família, sob o controle do patriarcado, é transgredido pela ideia de mulher que, nas frestas, se impõe como artífice da própria história. Afinal, Elza concilia maternidade, matrimônio e pobreza a uma vida inteira dedicada à arte. Ao longo da peça, a projeção da trajetória desviante de uma mulher negra é celebrada como uma conquista de todas as demais; uma reação à lógica perversa de anulação da condição feminina.

O episódio do relacionamento de Elza com o jogador Garrincha durante a década de 1960 talvez seja o exemplo mais marcante de como o sexismo e a misoginia atuam como estruturas ocultas de dominação. A dona da maior voz do Brasil tornou-se “a outra”, “a amante”, “a maldita”. A responsável pelo fim do casamento de um gênio do esporte, que abandonou família e filhos para viver clandestinamente com “aquela”. O assédio da mídia, a reação moralista da sociedade da época e a perseguição perpetrada pela ditadura militar incidiram diretamente sobre o destino de Elza. A caça à bruxa trouxe de volta a violência, os excessos e, desta vez, o ostracismo. O peso do destino recaiu sobre as possibilidades de se erguer novamente. Elza desaparece da vida pública, um castigo para um corpo audaz, insubmisso.

Os tons acinzentados voltam à cena. Desta vez, combinando com a cor dourada e o brilho das lantejoulas. A Elza-transbordamento, musa máxima da canção popular, ícone feminista, mulher negra resistente ressurge. As glórias da artista se confundem novamente com as derrotas da sua vida pessoal. Mas desta vez, a força da sua persona se afirma categoricamente como triunfo, mas também como denúncia. A mulher que irrompeu contra inúmeras formas de apagamento e autoridade demonstra sua perenidade ao negar, mais uma vez, o silêncio.

A militância de Elza é a própria existência. Sua vida é, por si mesma, um ato político. No palco do teatro Riachuelo essa existência é referendada, agora, por um elenco feminino negro, e também na plateia negra e majoritariamente formada por mulheres, que se conectam à vida e obra de Elza Soares como se se apropriassem de um manifesto, uma declaração sobre vidas que estão na arena política de disputa por narrativas de emancipação e representatividade. O protesto é o eixo de uma obra artística e de uma trajetória pessoal que estão em conexão com a atuação dos movimentos sociais e da renovação dos campos de luta democrática.

No Brasil que ainda insiste em enxergar-se pelas lentes da democracia racial com o símbolo da identidade nacional ligado à mestiçagem que tende a “disfarçar” o racismo, Elza e seu lugar de fala[5]  apresenta-se na contramão desse ideário. Elza é uma mulher, negra e pobre que ocupa a esfera pública. A menina, que veio do “planeta fome”, célebre resposta dada pela cantora ao questionamento de Ary Barroso sobre a sua origem, tornou-se uma diva da música popular ao inserir-se em um lugar não destinado às mulheres da sua condição.

Quase ao final do espetáculo, as Elzas presentes – atrizes e plateia – cantam emocionadas “A Carne”, música protesto lançada pela artista em 2003, composta por Seu Jorge, Marcelo Yuca e Wilson Capellette, que denuncia o racismo com o refrão “a carne mais barata do mercado é a carne negra.” Esse mesmo refrão é cantado com alterações significativas na peça para “a carne mais barata do mercado agora não é mais a carne negra”, acréscimos fundamentais para o país que, por um lado, ainda convive com o genocídio da população de jovens negros e, por outro, tem buscado construir políticas públicas pautadas pelos movimentos sociais negros para a igualdade racial.

O último disco de Elza Soares, lançado em 2018, com músicas inéditas tem o título “Deus é mulher”[6]. A trajetória, força, voz e corpo de Elza Soares nos fazem crer que sim, Deus é mulher.

Notas:

[1] Destaca-se, ainda, o belíssimo trabalho da diretora Duda Maia.

[2] Disponível em: <http://dossies.agenciapatriciagalvao.org.br/violencia/pesquisa/mapa-da-violencia-2015-homicidio-de-mulheres-no-brasil-flacsoopas-omsonu-mulheresspm-2015/>, Acesso em 27 ago. 2018.

[3] Du Bois foi um intelectual negro norte-americano, fundador da National Association for the Advancement of Colored People (NAACP) em 1909 nos EUA e o termo “new negro” fez parte das críticas e reações às leis segregacionistas raciais norte-americanas, conhecidas como Jim Crow. DU BOIS, William E. B. As almas da gente negra. Trad. Heloísa Toller Gomes. Rio de Janeiro: Lacerda Ed., 1999.

[4] DAVIS, Angela. Mulheres, raça e gênero. Trad. Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2016.

[5] RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? São Paulo: Letramento, 2017.

[6] Link para o clipe: https://www.youtube.com/watch?v=yktrUMoc1Xw.

* Joyce Louback é doutora em sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP/UERJ) e é colaboradora da Escuta.

** Lívia Monteiro é doutora em história pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e é colaboradora da Escuta.

 

* Imagem retirada do site: <https://www.geledes.org.br/elza-soares-fala-sobre-feminismo-o-amor-por-garrincha-e-como-cantar-ainda-e-remedio-bom/&gt;. Acesso em: 30 agosto 2018.

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