Pedro Lima*

O ambiente pré-eleitoral é propício a deduções amalucadas e redundâncias pouco edificantes. No tempo das redes, trava-se contato contínuo com uma torrente de análises de conjuntura, dos mais variados matizes – e aventurar-se nesse campo parece, e tende a ser, mero exercício de reiteração de obviedades ou de especulações mais ou menos esperançosas. Diante dessas desanimadoras coordenadas, exponho a seguir algumas intuições sobre o cenário político do país, partindo da imagem de que, espremidos entre o golpe parlamentar de 2016 e as eleições de outubro de 2018, vivemos uma conjuntura desconjuntada. Esta se caracterizaria, por um lado, pela progressiva cristalização de um cenário em que um possível vencedor de “eleições desimpedidas” não poderá vencê-las. Não por impotência própria, mas antes pela provável imposição do arbítrio que domina o país há mais de dois anos e que não dá sinais de qualquer apego às “regras do jogo” da competição eleitoral. Por outro lado, a agenda do retrocesso parece precisar de legitimidade eleitoral, de modo que alguma forma de suspensão das eleições pode implicar um passo que faça a situação escapar de vez do controle dos atores interessados. Estamos diante de um golpe que precisa se redimir eleitoralmente – precisa, mas talvez não possa pagar para ver. Em torno desse tema, as notas seguintes esperam ao menos ajudar a organizar alguns componentes que, óbvios ou não, determinam esses tempos sombrios em que vivemos. Menos para estancar grandes esperanças de reviravolta democrática, e mais para situá-las em face da iminência de aprofundamento do golpe.

 

A (im)possível vitória do PT

É tarefa complexa, para não dizer inviável, amarrar analiticamente todas as causas e atores do golpe de 2016. A sobreposição dos adjetivos pertinentes (parlamentar, midiático, judicial, empresarial, etc.) já o demonstra. Não há dúvida, contudo, de que o alvo prioritário era o PT – após treze anos de governos petistas e de quatro eleições, os múltiplos atores da direita desejaram e realizaram a derrubada da Dilma. Tampouco é preciso supor uma ação perfeitamente concertada, à moda conspiratória, entre todos aqueles atores. O que houve foi a convergência necessária para concretizar o interesse dos envolvidos (oligopólio midiático, Lava Jato, amplos setores do Judiciário e do Ministério Público, Mercado, classe média tradicional, partidos de direita e, não menos determinante, um presidente-gangster da Câmara dos Deputados).

Ocorre que, pouco mais de dois anos depois, chegamos a um cenário pré-eleitoral em que o PT aparece como um dos sólidos postulantes na corrida presidencial. Dados recém-divulgados de identificação partidária do eleitorado mostram que o PT retomou índices elevados (29% de preferência, segundo o Ibope, mais do que a de todos os outros partidos somados), similares aos que apresentava em inícios de 2013, quando o Governo Dilma ainda era aprovado por considerável maioria. Se nas eleições municipais de 2016 a derrota acachapante fazia crer em um provável ocaso do partido do Lula, o que se vê agora, no âmbito presidencial, é uma potencial volta por cima (em que, vale notar, o partido segue atrás do lulismo como coadjuvante, mergulhado no viciado pragmatismo aliancista que o tem destruído por dentro há décadas). Constatada a possível recuperação, sobrevém a dúvida: afinal, pode o PT vencer essas eleições presidenciais?

Aqui, evidentemente, não restam dúvidas de que o candidato será Fernando Haddad. Não há quem acredite que o Judiciário irá permitir a candidatura Lula – não o faria sob nenhuma hipótese, menos ainda depois de confirmado um quadro em que, segundo Datafolha, IBOPE e CNT-MDA, Lula estaria muito próximo de uma vitória em primeiro turno (se as eleições fossem hoje). A dúvida, pois, é se a chapa Fernando Haddad/Manuela D’Ávila pode vencer as eleições de outubro. Que, eleitoralmente, a chapa pode vencer, parece evidente – Lula já transferiu votos e impulsionou Dilma a vencer as eleições de 2010 e 2014, de modo que a transferência de votos, apesar de incerta, não parece assim tão enigmática. Talvez o mais difícil, manter a fidelidade do eleitorado lulista mesmo com o líder caçado e preso, já tenha sido feito.

Hoje, o destino dos votos de Lula é problema secundário diante da questão fundamental sobre se é plausível, dada a história política recente do país, que a chapa Haddad-Manuela vença. Em pleno contexto de golpe. Conceber essa vitória implica considerar plausível que as forças golpistas permitam a retomada de um projeto que, com todos os seus problemas (e foram muitos), teve um sentido geral democratizante. Parece absurdo – e é absurdo imaginar uma súbita conversão democrática da parte de quem não conheceu nenhum limite para derrubar uma presidenta notoriamente íntegra e prender o maior líder dos trabalhadores na história do país por ter praticado “atos indeterminados”.

Os índices de intenção de voto em Lula sugerem que o PT só não estará no 2º turno se nos próximos quarenta dias acontecer algo muito fora da curva em termos de dinâmica eleitoral. Ou se as forças golpistas resolverem intervir para inviabilizar a participação do PT já desde antes do 1º turno. Mas o golpe parece, paradoxalmente, precisar dessas eleições. Impedir o PT de participar, a essa altura, faria das eleições algo tão farsesco que nem a mídia oligopolizada, virtuose na arte do ilusionismo, seria capaz de forjar normalidade. Daí o duplo descompasso: de um lado, uma tendência eleitoral que não pode se concretizar por causa do sentido geral do golpe; de outro, um golpe que parece precisar de eleições minimamente livres para legitimar sua agenda de reformas, depois do fiasco histórico de Temer.

 

Impeachment, vitória de pirro

Há quem vincule o golpe apenas aos eventos que definiram a deposição de Dilma. Mais convincente é a interpretação que afirma se tratar de um processo mais amplo de reação conservadora, cujo ímpeto antidemocrático teve sua expressão mais alta no impeachment, mas nele não se esgota – vide a tentativa aberta de manipular as eleições com a prisão do Lula, vide as seguidas tentativas de retirar da população direitos garantidos pela Constituição de 1988. A reação teria, talvez, mais chances de êxito se tivesse contornado a ânsia imediatista do antipetismo pelo impeachment, ou seja, se tivesse sabido mascarar minimamente seus anseios golpistas. Mas anseios golpistas talvez sejam afobados por definição.

A posteriori, a destituição de Dilma revelou-se retumbante fracasso. Em diversos níveis: no plano discursivo, a versão de que o impeachment transcorreu normalmente, com as “instituições funcionando”, perdeu a disputa simbólica e hoje a maioria da população afirma que se tratou de um golpe; no plano econômico, a Reforma Trabalhista, não obstante seus efeitos imediatos perversos, ainda depende das eleições para se concretizar, enquanto a Previdenciária não saiu do papel, e a persistência da crise legou o elevado desemprego e a recessão como símbolos da política econômica do endeusado “dream team” tucano; no plano político, o Governo Temer tornou-se o mais impopular da Nova República, determinando, por ora, a impotência eleitoral de seus dois candidatos, o formal (Meirelles) e o real (Alckmin).

Impossível não imaginar, em deriva contrafactual, como chegaríamos às eleições se Dilma permanecesse na presidência. Não parece absurdo supor que a crise econômica persistiria até hoje, impulsionada pelo emparedamento do governo por um Congresso liderado pela oposição despudorada de Cunha e seus sucessores afins. Nesse quadro, parece improvável que o PT chegasse revivificado a essas eleições. E é provável que o PSDB de Alckmin pudesse colher os frutos do desgaste inevitável que se abateria sobre o governo petista. Não à toa, o próprio Geraldo Alckmin foi um dos últimos tucanos a pular no barco do impeachment, capitaneado por Serra e Aécio desde a primeira hora – talvez o “simpatizante” da Opus Dei intuísse que o momento era de prudência e não de arroubos voluntaristas. Para quem mirava 2018, o obstáculo desde sempre era Lula, e não Dilma. Bastaria deixar a Lava Jato se encarregar de tirar Lula da disputa, o que poderia até parecer menos escandaloso aos olhos da população do que parece, agora, quando isso se dá em óbvia continuidade com o impeachment mambembe.

Mas a autocontenção não prevaleceu: a possibilidade de derrubar Dilma foi agarrada como se fosse a última chance de derrotar o PT. Em meio a bonecos infláveis gigantes, patos amarelos, juízes e promotores vestindo-se de líderes cívicos e fazendo dobradinha com os políticos mais sujos da república, tudo isso alimentado pela abissal desfaçatez de classe que caracteriza os ricos e a classe média verde-amarela ruborizada pela corrupção: em meio a tudo isso, deu-se o impeachment, como se não houvesse o amanhã. Mas havia – e a Caixa de Pandora começava a revelar seus intestinos.

 

O efeito Caixa-de-Pandora

Que a Fortuna, em todos os sentidos possíveis, importa nos assuntos políticos, sabemos há quinhentos anos. O abismo dos efeitos não-intencionais tende a transformar a disputa política em campo minado, fazendo com que seja pequena a distância entre vitórias consagradoras e derrotas trágicas. Assim é que os supostos vitoriosos de 2016, que ali de fato venceram a disputa das ruas, se vêem hoje às voltas com um inimigo íntimo relativamente inesperado (lembremos as manifestações pelo impeachment de 2015 e 2016, quando todos os interessados faziam vista grossa às faixas de conteúdo abertamente fascista que já eram parte da cena).

Depois de anos alimentando o monstro do anti-esquerdismo, as forças da direita têm agora que disputar votos com uma extrema-direita convicta de que a força é o melhor remédio. Não ajudou que o moribundo Governo Temer tenha dado seu último suspiro em busca de algum apoio popular inventando uma intervenção militar no Rio de Janeiro. É difícil voltar a ser liberal depois de atravessar o rubicão do golpe.

O patamar eleitoral típico dos tucanos, de 30% ou mais desde 2002, parece agora seriamente ameaçado pelas hostes bolsonaristas. Isso transforma o primeiro turno em uma disputa ferrenha para conquistar eleitores radicalizados pelo “tudo ou nada” em que a direita transformou a disputa política no país. A chapa Alckmin-Amélia é sintoma evidente disso: o Nordeste é visto como território perdido, e interessa apenas disputar os votos da parcela visceralmente antipetista do eleitorado.

Nesse compasso, boa parte dos 48% que votaram contra Dilma e o PT no segundo turno de 2014 encontra-se dividida e empurrada ao extremismo antidemocrático. As tentativas preliminares de vincular a candidatura tucana ao que seria um imaginado “centro democrático” resultaram patéticas, desmentidas de imediato pela coligação com DEM, PP, PTB e consortes. Tampouco ajuda à direita tradicional que o candidato seja Alckmin, alguém profundamente enraizado no establishment (em tempos de antipolítica) e com carisma nulo (em tempos de mitos virtuais). Nos primeiros debates, a figura tosca do ex-capitão conseguia, precisamente por sua estupidez atroz, gerar mais potencial de empatia do que a robótica desenvoltura pré-programada e os discursos professorais monocórdicos do tucano.

Dois anos depois do impeachment, o PSDB chega às eleições em farrapos. Resta saber se a máquina midiática será capaz de inflar as perspectivas do candidato oficioso de Temer. Por ora, parece que, mantidas as intenções de voto em nível similar ao atual, as já frequentes deserções no campo tucano alcançarão um ponto de não-retorno em meados de setembro – e aí é Marina quem pode acabar se aproveitando da debandada.

 

Tábua de salvação

A possibilidade de Marina Silva ser alçada à condição de representante da direita em um segundo turno contra o PT merece cogitação. Ainda que sejam remotas, pois o jogo parece mesmo estar sendo jogado entre Alckmin e Bolsonaro, as chances de Marina podem crescer caso fique patente a inviabilidade da candidatura tucana e se faça necessário lutar com as armas, sempre fajutas, dos autoproclamados outsiders.

A vantagem de Marina sobre o ex-capitão para ocupar o lugar que sempre pertenceu aos tucanos vem da constatação de que as chances de vitória da acreana em eventual segundo turno são bem maiores. Além de contar com o recall de duas eleições em que teve cerca de 20% dos votos, Marina teria boa entrada no eleitorado feminino que vem demonstrando repulsa pelo candidato do PSL. Seria, nessa chave, mais fácil reagrupar o antipetismo em torno de Marina, cujo passado recente a credencia plenamente a pleitear tal posto (não custa lembrar que ela declarou apoio a Aécio em 2014, manifestou-se a favor do impeachment em 2016 e defende abertamente a prisão de Lula e todas as ações da Lava Jato).

Em todo caso, mesmo que o candidato misógino recue para a casa dos 10%, será preciso a quem estiver no segundo turno pela direita atrair esse contingente, que bem pode marchar em bloco para o voto nulo. E aqui, talvez o passado remoto da ex-petista possa lhe subtrair votos importantes. Contra Marina, pesa ainda o fato de ela ter perdido o fôlego na reta final do primeiro turno em 2014, quando foi ultrapassada na última semana da campanha. Se ela, com a estrutura do PSB, não conseguiu ampliar seu eleitorado o bastante, seria contra-intuitivo que o fizesse com a minúscula Rede. Também para Marina, parece árdua a tarefa de minar a candidatura fascista – fechar a Caixa de Pandora há de ser mais difícil do que abrir.

Ciro Gomes, por sua vez, também parece se voluntariar para a missão, mas seu passado recente na luta contra o golpe não o habilita. Não é bem visto pelos patriotas da Avenida Paulista. Girando em falso entre um discurso de expert econômico, uma postura de portador da autoridade perdida e algumas declarações antipetistas (sempre mais agressivas quando miram em Dilma), Ciro soa desesperadamente consciente de que a força eleitoral de Lula não lhe deixa brechas para crescer.

Em meio a esse cenário, pouco espaço resta à candidatura Boulos-Guajajara. A aliança entre o prócer dos sem-teto e a liderança indígena herda algo da melhor faceta de Junho de 2013 – faceta esta que, se conseguiu atuar eleitoralmente no segundo turno de 2014 para evitar retrocessos, parece agora não ter força suficiente para levantar uma candidatura própria. Assim, é o caso de torcer para que a importante inflexão de abertura do PSOL para longe do sectarismo e para mais perto das lutas dos movimentos sociais não termine abandonada por conta de míseros resultados eleitorais no pós-2018. A simples presença da chapa Boulos-Guajajara nos debates é, por si só, crucial e deve ser valorizada pelo que é: um primeiro passo na construção de uma alternativa de esquerda para superar o mofado horizonte desenvolvimentista em que o “progressismo” ainda insiste em atuar.

 

Tempos sombrios

Especulações à parte, restam as evidências de que os atores da reação conservadora não terão pudores para impedir uma vitória popular nas urnas. Logo após a publicação dos resultados da primeira leva de pesquisas em agosto, já vieram à tona ações do Ministério Público contra Haddad, o que parece ser apenas o começo. Outras ações, como as empreendidas pelos fanáticos da Lava Jato de Curitiba com o fim de cercear ainda mais as liberdades (!) de Lula no cárcere, revelam que o jogo continuará pesado.

O estranho de viver num contexto de golpe é experimentar a sensação de que não há limites para a arbitrariedade. Projeções que soariam demasiado paranoicas em momentos de disputa política regrada despertam, hoje, fundada preocupação. Um terceiro ato do golpe, depois do impeachment e da prisão de Lula, está a caminho. As forças da reação precisam das eleições – mas talvez sejam obrigadas a abrir mão de vez de qualquer arremedo de legitimidade democrática.

Do lado de cá, pesquisas de intenção de voto são comemoradas (e talvez devam mesmo sê-lo) como sintomas de que o povo permanece atento e contrário às maquinações da velha ordem. Mesmo vãs, as esperanças valem mais a pena do que o desalento. Sombrios são os tempos em que um quinto do eleitorado expressa intenção de aderir ao fascismo explícito – mas, apesar de tudo, é de se comemorar que o golpe não tenha conseguido, por ora, domesticar as memórias, os desejos e as lutas de boa parte da população.

*Pedro Lima é professor de Ciência Política da Universidade Estadual deLondrina (UEL) e colaborador da Escuta.

Imagem da Agência Brasil, 2016. Disponível em https://www.poder360.com.br/governo/apos-aumento-de-imposto-fiesp-recoloca-pato-amarelo-na-avenida-paulista/