João Martins Ladeira*

Existem muitas metamorfoses em O Nome do Jogo (Get Shorty, 1995, de Barry Sonnenfeld), mas nem todas terminam bem-sucedidas. Há o gângster que pretende se tornar cineasta, assim como o produtor de filmes baratos que busca seu espaço em obras dignas de nota. A destreza com que se movem define o que conseguirão vir a ser. A mesma habilidade em se transformar não se encontra presente nos demais integrantes deste universo. No outro extremo, está o traficante que espera, do mesmo modo, conquistar o seu quinhão de Hollywood, embora falhe enormemente. E, claro, vemos também o chefão carente da astúcia necessária para compreender as armadilhas pelo caminho. Neste jogo, o vencedor não é o mais cruel, violento ou impiedoso, mas aquele que melhor sustenta as aparências.

Ganha o mais competente no trabalho de invenção. Criar o novo não é tarefa fácil. Implica certa irreverência com o que existe, permitindo a reformulação do mundo ao redor. Lidar com os demais se mostra imprescindível, e as mutações elaboradas se ancoram na arte de convencer. Em O Nome do Jogo, todos os envolvidos vestem muitas máscaras, testando cada uma, pois do efeito delas depende o seu sucesso. Sobrevive quem melhor elaborar a matéria-prima da crença a fim de trabalhar quem quer que seja como parte de seu plano. Qualquer entidade moral termina sempre obsecada por desempenhar apenas um personagem: sendo o que é, pretende se manter sempre o mesmo. Contudo, estes outros heróis não possuem pontos fixos. Se tomam parte neste jogo é porque renunciaram a qualquer estabilidade.

Mestres da criação elaborando a si próprios nutrem certo segmento do filme de crime. Em O Nome do Jogo, Chili Palmer (John Travolta), um agiota de Miami, transfere-se até Los Angeles munido da desculpa perfeita para a aproximação inusitada com Harry Zimm (Gene Hackman), produtor B a quem pretende oferecer sociedade. Exigir uma dívida dificilmente se mostra um bom pretexto para uma parceira, mas Palmer faz o outro crer numa ideia para o filme no qual o gângster cinéfilo quer transformar a sua própria vida. Não parece ruim o projeto. Porém, para Zimm, a única chance de levá-lo adiante está em solucionar outra pendência. Trata-se de mais dinheiro, que, desta vez, pertence a Bo Catlett (Delroy Lindo), dono de um negócio de aluguel de limusines e de outro, de venda de drogas.

A trama gira em torno destes dólares? São muitas as mãos pelas quais passam tais cifras. Há o otário de Las Vegas, manobrado por Palmer quando este descobre o golpe que o bobalhão se mostrou incapaz de dar. Desaparecer de um avião que termina por explodir enquanto se foge de uma dívida de 15 mil; receber uma indenização de 300 mil porque o nome estava na lista de passageiros – estes são sinais de esperteza, decerto. Mas abandonar a esposa infeliz com uma carta escrita no papel timbrado do hotel onde está curtindo o jogo e as garotas, não. Leo Devoe (David Paymer) é um trapalhão, mas a inabilidade de um é a riqueza do outro.

Existe também a ingenuidade de Zimm, recuperando, da Costa Leste, os percalços de Palmer com Ray “Bones” Barboni (Dennis Farina), chefão a contragosto deste herói, que ele não cansa de ludibriar. O produtor crê em sua habilidade para convencer Bones a virar seu sócio, mas o que ganha é apenas uma mandíbula quebrada. Zimm já havia se encalacrado durante a negociação que deveria livrar-lhe de Catlett, tudo por não deixar Palmer desempenhar o seu papel na trama. A estratégia era colocar o traficante ocasional no seu devido lugar, mas o produtor parece fadado a convocar empecilhos para o interior de Mr. Lovejoy, seu primeiro trabalho sem monstros nem alienígenas. Quando não se sabe o que fazer, nada como ficar quieto e deixar quem sabe falar. Apenas um boboca se meteria com quem não convence.

Falta ao filme de Palmer uma mulher atraente – ao menos isso é o que Zimm lhe dirá. O papel termina preenchido por Karen Flores (Rene Russo), sagaz o suficiente para compreender a trama do agiota antes de todos os demais. É ela, junto com o gângster, quem mais se empenha noutra jogada: trazer Martin Weir (Danny DeVito), o ator egocêntrico, para o projeto de Lovejoy; contudo, a lábia conduzirá o artista para o filme de Palmer. Prova de seu trejeito, junto com o personagem principal apenas Karen atravessará a barreira em direção à nova vida como produtora. Tudo depende do tino para deslizar por entre as frestas, trazendo os incertos para perto: o treinamento oferecido por Palmer a Weir sobre a cobrança de dívidas e o interesse despertado no ator para a “Cadillac das minivans” espelham o ponto.

Enquanto isso, a estupidez se concentra em Catlett e Barboni. O primeiro pensa ser capaz de empurrar para Palmer a armação do armário C-18. Todavia, o antagonista prova sua agilidade ao entender a tocaia policial, desvencilhando-se daquele que não pode escapar a seu papel de chofer de limusine. Mas não apenas. Catlett termina equacionando muito mal os seus próprios sócios ao matar o sobrinho de um chefão mexicano. E o fato de que o rapaz deveria voltar para casa com 500 mil depois de uma transação não torna as coisas melhores. A incapacidade de reconhecer quem é quem custa caro. Fatal se torna o instante quando lhe escapa também que Bear (James Gandolfini), cansado de uma condição que não o leva a lugar algum, muda de lado.

Mas nada se compara ao afã com que o Barboni salta nos braços da polícia, na sua cegueira frente aos riscos contidos no tal armário de aeroporto, sem ao menos cogitar a chance das chaves em poder de Palmer serem o oposto daquilo que parecem. Falta-lhe qualquer sagacidade para compreender as aparências, e este erro o torna facilmente manipulável. Para cada um dos personagens talvez exista uma face por trás destas máscaras; mas o objetivo do filme está menos em encontrá-la, e mais em explorar a reação dos demais frente a estes muitos rostos. Os outros se tornam um público, num relacionamento sustentado pela sua susceptibilidade a certo espetáculo. Por medo ou por burrice, alguns homens se deixam levar; outros, não.

O Nome do Jogo faz parte de um gênero dúbio, cômico e violento. Seus bandidos usualmente pequenos lutam por prosperar. Gângsteres de todo tipo são decisivos para o cinema. Mas, o caráter desta parcela de malandros se encontra no esforço por explorar nos outros a crença sobre si mesmos, rompendo a estabilidade devido ao impulso que causam nos demais. Estes criminosos astutos se movem com a mesma leveza com a qual o prestidigitador faz um objeto desaparecer; falam com a sagacidade que convence algum incauto de uma escolha compatível, apenas na aparência, com seus interesses, num envolvimento sempre voluntário dos demais no jogo. Ninguém é inocente. Para que um sujeito seja passado para trás, precisa existir o seu interesse no dinheiro fácil. A trama passa longe de quem é avesso à vontade de ganhar, ao risco que implica alguém destinado a perder.

Decerto, o ganho financeiro motiva estes personagens. Quem, fora o sacerdote, encontra-se imune à riqueza? Sim, o dinheiro importa; mas, nestas narrativas, parece nunca ser o fim. Por isso o tamanho destes bandidos é pequeno: para que tal expectativa não se sobreponha ao incansável esforço de se modificar. Na verdade, o homem obsecado pelo ganho, dirigindo suas energias somente para acumular capital surge apenas como uma visão mais pobre deste especialista na confiança. Num extremo, há aqueles para quem os dólares em excesso nunca os deixam ultrapassar o que já existe. No outro, vê-se indivíduos que jamais se submetem a uma experiência previsível.

Talvez o melhor contraponto ao gênero do pequeno criminoso astuto sejam os filmes de grandes trapaças, espécie que se desdobra em certas narrativas de ficção – A Grande Aposta (The Big Short, 2015, de Adam McKay), Wall Street: Poder e Cobiça (Wall Street, 1987, de Oliver Stone) – ou em documentários – Trabalho Interno (Inside Job, 2010, Charles Ferguson), Enron: Os Mais Espertos da Sala (Enron: The Smartest Guys in the Room, 2005, de Alex Gibney). O limite da manipulação está no instante em que a culpa pela apropriação da fé envolve não só os atos de alguém, mas a estrutura econômica e política que este mesmo personagem não produziu, mas tenta controlar. Curioso como daí vem, também, o interesse por desvendar o ganho ilegal. Não é casual que, ao invés da leveza de filmes como O Nome do Jogo, estas outras obras assumam um tom moral.

Conforme os eventos se tornam maiores, o personagem exposto a estas forças incontroláveis se transforma. Perigoso, sua atividade se resume à exploração pura e simples, e tudo se converte apenas em crime. Desaparece o riso. A solução para evitar a perda da inocência reside em se ater aos arranjos mirabolantes, incapazes de ultrapassar os ganhos de esquina. Quando os atos deixam de envolver grandes projetos racionais, o cômico exerce todo o seu poder de liberação. Este humor reside na fantasia sobre o que se pretende ganhar. Acreditando, tais homens inventam, flertando com habilidades que os levam para longe de quaisquer dificuldades. Não há nada que os prenda, livres como se encontram de tudo que é sério – e velho.

* João Martins Ladeira não mente. Pergunte a ele se quer dizer o que fala e ele – certamente – responderá que sim. Também colabora com a Escuta.

 

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