Fernando Perlatto*

Em ensaio seminal já tornado clássico, publicado em 1969, intitulado “Cultura e política, 1964-1969”, reproduzido no livro O Pai de Família e Outros Ensaios, o crítico literário Roberto Schwarz buscou analisar a cena cultural no Brasil no período posterior ao golpe de 1964. De acordo com ele, neste período, de modo surpreendente, a despeito da repressão e da censura em curso, que seriam exacerbadas com o AI-5 de 1968, “a presença cultural da esquerda não foi liquidada” e a sua produção “de qualidade notável”, “não parou de crescer”, se conformando como “dominante” no campo artístico. Para Schwarz, embora a ditadura fosse claramente de direita, haveria uma “relativa hegemonia cultural da esquerda no país”, que poderia ser “vista nas livrarias de São Paulo e Rio, cheias de marxismo, nas estreias teatrais, incrivelmente festivas e febris, às vezes ameaçadas de invasão policial, na movimentação estudantil ou nas proclamações do clero avançado”. De maneira geral, “nos santuários da cultura burguesa a esquerda dá o tom”. Esta “hegemonia da esquerda” seria, segundo Schwarz, o “traço mais visível do panorama cultural brasileiro entre 1964 e 1969”.[1]

Ainda que atravessando uma conjuntura muito diversa, com diferentes características, atores e cenários, seria possível partir do ensaio de Roberto Schwarz como provocação no sentido de refletir sobre a cena cultural brasileira e suas relações com a política no período que se se seguiu ao golpe parlamentar que depôs a presidenta Dilma Rousseff (PT), em um processo que se iniciou em dezembro de 2015, com a aceitação da denúncia e se concluiu em agosto de 2016. O campo cultural foi impactado de forma profunda com a chegada de Michel Temer (PMDB) ao poder. Após tentativa inicial frustrada de acabar com o Ministério da Cultura, o governo se viu diante da necessidade de substituir vários dos ministros que ocuparam a titularidade da pasta, e, desde então, vem enfrentando tensões frequentes com a cena artística do país.

Diante da atual conjuntura que se seguiu ao golpe parlamentar de 2016, como pensar o campo cultural brasileiro e suas relações com a política?

Em artigo publicado na Folha de São Paulo, intitulado “Memória de um antissemita”, Mario Sergio Conti, ao mencionar a conjuntura política que vivemos, constatava que, apesar do momento político conturbado, atravessado por uma enorme crise institucional e social, o campo artístico estaria, de forma geral, em “silêncio”. Cito o jornalista:

“O silêncio prevalece porque foi funda a auto desmoralização dos líderes derrotados. Não houve isso em 1964. Apesar do golpe, músicas, romances e filmes críticos foram feitos nas fuças da ditadura. Até o tempo fechar de vez, no fim de 1968. Agora, os artistas estão quietos. A resposta da arte ficou mais lenta porque o tempo agora é de desagregação. Ela não se restringe à política. A desindustrialização, a financeirização e a desregulamentação assolaram a economia. E a arte virou, cada vez mais, negócio” (grifos meus).[2]

O texto de Conti é um bom ponto de partida para o início da reflexão que proponho realizar neste ensaio sobre as relações entre cultura e política no Brasil na sequência do golpe parlamentar de 2016. Afirmo, desde já, que aceito, com ressalvas, o argumento de Conti segundo o qual “o tempo agora é de desagregação”. Porém, não posso convergir com o diagnóstico mais geral de que “os artistas estão quietos”. Pelo contrário. Há, no mundo cultural, vozes gritando, movimentos se organizando, coletivos se movimentando. Basta lançar olhar para diversos centros e periferias, cantos e frestas do país, que o que se vê é um ativismo cultural dinâmico e potente em torno da conformação de diversas “esferas públicas subalternas”.[3] O problema está – e é precisamente em torno desta hipótese que procuro sustentar a conclusão deste ensaio – na ausência de uma articulação mais efetiva entre este ativismo cultural à esquerda e a política institucionalizada em torno de partidos políticos progressistas, de modo a fazer com que as pautas, demandas, reivindicações e agendas defendidas pelos artistas consigam tensionar e disputar de modo mais efetivo os rumos do país na esfera pública seletiva.

Porém, antes de chegar à exposição desta hipótese em torno da ausência de uma articulação mais efetiva entre arte e política no Brasil pós-golpe de 2016, é necessário contrastar a tese do silêncio e afirmar a presença na cena cultural brasileira de iniciativas e movimentos progressistas que têm sido impulsionados em diferentes espaços e campos artísticos, após o golpe parlamentar de 2016. Para tanto, buscarei construir uma espécie de cartografia da cena cultural deste período, com o intuito de identificar tendências e caminhos mais evidentes na literatura, no cinema e na música, que afirmam a presença de produções artísticas críticas, que vêm buscando impulsionar reflexões diversas sobre a sociedade brasileira e problematizações de aspectos vários da conjuntura política do país. Não se tem aqui, por óbvio, qualquer pretensão de cobrir e esgotar a análise da dinâmica do cenário cultural brasileiro pós-golpe de 2016. Trata-se, tão somente, de um exercício reflexivo no sentido de construir um mapeamento que contribua no sentido de diagnosticar e afirmar presenças na cena cultural do país.

Desagregação negativa e virtuosa do campo cultural

Um primeiro aspecto que é fundamental a ser destacado é o de que Conti acerta, parcialmente, ao perceber que vivemos atualmente em tempos de “desagregação”. Assim como os demais campos da vida intelectual, o campo cultural vem passando, ao longo dos últimos anos, por processos intensos de especialização e de fragmentação. Se antes havia um diálogo mais acentuado entre os diferentes campos da produção artística, em décadas mais recentes, tem-se testemunhado uma crescente particularização e isolamento destas criações artísticas em linguagens muito específicas, levando a uma crescente autonomização dos diversos espaços de criação cultural. A esses processos se somam a exacerbação do individualismo e da competitividade neoliberal, cada vez mais acentuada, que ganham contornos ainda mais intensos em um momento no qual, como destacado por Conti, a arte vira “cada vez mais um negócio”. Essas transformações estruturais, que transcendem o mundo artístico per se, mas que nele reverberam com enorme intensidade, produzem o movimento de “desagregação”, apontado por Conti, com todas as consequências daí advindas para a conformação de lugares comuns que possibilitem novos encontros, conversas e a construção de projetos coletivos.

Porém, ainda que esta leitura de Conti sobre a desagregação esteja correta, a análise por ele realizada, por seu tom demasiadamente pessimista, perde muito de sua força ao deixar de atentar para o quanto este processo também tem de virtuoso. Um dos fenômenos mais interessantes dos últimos anos no campo artístico é precisamente um movimento em direção à desagregação impulsionado, em grande medida, pela democratização da produção da cultura, a partir do aparecimento de novos sujeitos individuais e coletivos criadores de obras artísticas. Não se pode deixar de destacar o papel importante que agências estatais desempenharam neste processo – com a criação, por exemplo, durante os governo Lula, em especial nas gestões de Gilberto Gil e Juca Ferreira à frente do Ministério da Cultura, de políticas públicas específicas e de espaços como os Pontos de Cultura, além de leis de incentivo em todo país –, mas deve-se conferir a segmentos diversos da sociedade civil o maior crédito no sentido de, mesmo em tempos de dificuldades e obstáculos vários, terem conseguido protagonizar ações importantes que impulsionaram a produção cultural para lugares e sujeitos periféricos, anteriormente pouco viabilizados.

Nessa direção, é possível pensar que o movimento de desagregação também esteve diretamente vinculado à problematização das instâncias e dos lugares outrora aceitos e consolidados como hegemônicos do campo artístico, com a consequente descentralização geográfica e democratização social da produção cultural, tanto no país, quanto nas cidades, impulsionando a pluralização de sujeitos produtores de cultura. A própria noção de cultura foi problematizada, ampliada e colocada em cheque nesta dinâmica de transformações, tornando mais plurais e diversificadas as formas de expressão artística. Nesse processo de dinamização do campo cultural, a internet desempenhou um papel fundamental, abrindo – mediante a utilização de blogs, sites, YouTube, redes sociais, sistemas de streaming – novos espaços para a produção e circulação cultural, inclusive possibilitando o financiamento coletivo, a partir de mecanismos como o crowdfounding. A partir da mobilização dessas ferramentas, novas vozes, antes silenciadas na esfera pública seletiva, puderam aparecer e se expressar, atingindo públicos diversos. E é importante destacar que, se isso ocorreu do ponto de vista da produção cultural, o mesmo se deu em relação ao acesso à cultura. Sem desconsiderar em absoluto a enorme desigualdade ainda existente no país no que concerne às possibilidades de se ter acesso a diversas formas de manifestações culturais, é factível dizer que, se antes, a sua fruição ficava restrita a círculos muitos restritos, a internet tem aberto novas possibilidades de se conhecer a produção cultural, em especial as obras de artistas “alternativos”, que teriam enormes dificuldades de transitar pela esfera pública tradicional.

“Silêncio dos artistas”? Movimentos e politização do campo cultural brasileiro

Para além da “desagregação”, um segundo aspecto que vale a pena discutir em relação ao texto de Conti diz respeito ao seu diagnóstico acerca do “silêncio dos artistas”. Esta interpretação não parece se encaixar – e, de fato, não se encaixa – com diversos movimentos que têm sido realizados pela classe artística, impulsionados desde o golpe de 2106, com o intuito de criticar ações propostas pelo governo Temer. A ocupação do pátio do Palácio Gustavo Capanema no Rio de Janeiro, em maio de 2017, conformando o movimento conhecido como “Ocupa MinC”, que se espalhou também para outras cidades do país, evidenciou a capacidade de resistência de sujeitos individuais e coletivos que conseguiram impedir o fim do Ministério da Cultura, tal qual defendido pelo governo Temer assim que tomou posse. Na esteira das ocupações e das críticas surgidas às ações deste governo em relação à cultura, foram constituídos, ao longo dos últimos meses, vários coletivos e grupos culturais, compostos por artistas diversos, como “Movimento 342 Agora”. Ainda que sem poder real de transformação, os gritos “Fora Temer” e “Lula Livre” entoados em milhares de shows e apresentações culturais pelo país, com o apoio dos artistas no palco, vêm tendo um papel simbólico no sentido de contribuírem para reforçar e consolidar os péssimos índices de aprovação de um governo cada vez mais impopular.

Nestas ações de resistência da cena cultural no país, há que se chamar a atenção para outros acontecimentos que evidenciam enfrentamentos vários dos artistas com o governo que ascendeu ao poder após o golpe de 2016. Um dos momentos de maior relevância nesse sentido foi o discurso contra o governo Temer proferido em 2017 pelo escritor Raduan Nassar, quando da entrega a ele do Prêmio Camões, seguido de uma resposta desastrosa do então ministro da Cultura, Roberto Freire (PPS), que gerou ampla repercussão. Outras ações no campo cultural também ganharam destaque, a exemplo do desfile realizado em 2018 pela escola de samba Paraíso do Tuiti, que abordou a questão da escravidão, o desmonte da CLT e fez críticas abertas ao governo Temer. Ainda no carnaval, várias foram as manifestações que tomaram as ruas das cidades do país em 2017 e 2018, com diversos blocos fazendo protestos bem-humorados contra o presidente e seu governo. Soma-se a essas iniciativas de resistência durante o carnaval, ações pontuais que contrastam com a interpretação do “silêncio dos artistas”, a exemplo das manifestações que ocorreram em defesa do Teatro Oficina, de José Celso Martinez Correa – que, registre-se, remontou, em nova versão a peça O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, que, encenada originalmente em 1967, é retomada em um novo contexto de retração democrática –, que embora direcionadas contra Silvio Santos – que busca apropriar-se do terreno utilizado pelo grupo –, ganhou contornos políticos muito evidentes. Ou até mesmo os atos públicos realizados pelos servidores do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com apresentações do coro, do balé e da Orquestra Sinfônica, contra o governo estadual em decorrência dos atrasos salariais, mas que também assumiram uma dimensão de oposição política muito explícita ao descaso com a cultura que vem ocorrendo no país.

Para reforçar a divergência em relação a esta interpretação acerca do “silêncio dos artistas”, é importante ressaltar o quanto a cena cultural brasileira se vê hoje profundamente atravessada por um processo intenso de politização. Politização esta que ocorre tanto à direita, quanto à esquerda. Em relação a este aspecto, é importante contrastar a hegemonia do campo cultural pela esquerda no final dos anos 1960 – descrita por Roberto Schwarz em seu ensaio sobre cultura e política naquele contexto –, com a conjuntura atual, na qual a direita tem mostrado uma participação cada vez mais ativa na esfera pública cultural. Não se trata apenas da intervenção mais destacada de intelectuais liberais no debate público – a exemplo de Gustavo Franco, Marcos Lisboa, Armínio Fraga e Samuel Pessoa – que ganharam ainda maior destaque na imprensa com as críticas às políticas desenvolvimentistas levadas à frente pelos governos do PT, em especial por Dilma Rousseff – explicitadas em livros como Anatomia de um desastre, de Claudia Safatle, João Borges e Ribamar Oliveira (2016) e Como matar a borboleta azul, de Monica Baumgarten de Bolle (2016) –, mas da participação mais destacadas de intelectuais, portadores de uma retórica mais virulenta, que se assumem abertamente de direita como Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo, Luiz Felipe Pondé, Rodrigo Constantino, Guilherme Fiuza, Marco Antonio Villa, Denis Lerrer Rosenfield, Diogo Mainardi, Rachel Sheherazade e Leandro Narloch.[4]

A presença destes intelectuais na esfera pública cultural se faz não apenas com a publicação de suas colunas em jornais de grande circulação do país, mas também na consolidação de um nicho específico do mercado editorial, que tem se expandido significativamente. Se Roberto Schwarz constatava que no final dos anos 1960 as “livrarias de São Paulo e Rio” estavam “cheias de marxismo”, hoje, basta entrar em qualquer livraria brasileira que se perceberá a presença nas prateleiras de um tipo de literatura abertamente de direita, com lugar de destaque para livros como como O Mínimo que você Precisa para não ser um Idiota (Olavo de Carvalho), O País dos Petralhas e Objeções de um Rottweiller Amoroso (Reinaldo Azevedo), Esquerda Caviar, Privatize Já! e Contra a Maré Vermelha (Rodrigo Constantino), Lula é Minha Anta (Diogo Mainardi), O Brasil tem cura (Rachel Sheherazade), Não é a Mamãe e Que horas ela vai? (Guilherme Fiuza), Guia do Politicamente Incorreto da História do Brasil (Leandro Narloch), Pare de Acreditar no Governo (Bruno Garschagen), O Mito do Governo Grátis (Paulo Rabello de Castro) e A corrupção da inteligência: intelectuais e poder no Brasil (Flávio Gordon).

Há que se destacar também a expansão no mercado editorial de um tipo de literatura, mais diretamente associada à direita, que vem crescendo ao longo dos últimos anos no Brasil, sob o impulso da “Operação Lava-Jato”. Exemplares nesse sentido são livros como Lava-Jato. O juiz Sergio Moro e os bastidores da operação que abalou o Brasil, de Vladmir Neto (2016), Polícia Federal. A lei é para todos, de Ana Maria Santos e Carlos Graieb (2017), O jogo sujo da corrupção, de Luiz Flávio Gomes (2017) e Petroladrões: 3 anos da Operação Lava-Jato, de Ivo Patarra (2017). Ainda que estas obras, pelo menos retoricamente, se proponham o desafio de analisar os processos de combate à corrupção no país levados à frente pela Operação Lava-Janto, elas acabam por assumir como perspectiva central a denúncia da experiência da esquerda no poder, como se os anos petistas fossem aqueles que inauguraram e tornaram estruturais os problemas éticos enfrentados no Brasil.

Além dessa presença evidente destes intelectuais de direita na esfera pública cultural, é claramente perceptível um deslocamento cada vez mais significativo das agendas de movimentos sociais de direita no Brasil – em especial, do Movimento Brasil Livre (MBL) – da pauta contra a corrupção – retórica mobilizada para impulsionar a classe média na oposição ao governo Dilma Rousseff – para uma agenda mais moralista, direcionada ao campo dos valores, no qual a dimensão da cultura passa a assumir um papel central.

Se ações nesse sentido já ganharam destaque em iniciativas que estes grupos realizaram em torno de um movimento como a chamada “Escola Sem Partido” – que, a pretexto de combater a “ideologização” do espaço escolar, busca, ao fim e ao cabo, silenciar o pensamento crítico nas salas de aula –, bem como na organização de protestos contra a presença da filósofa Judith Butler no Brasil para uma palestra em São Paulo e nas ameaças direcionadas à editora da Boitempo, Ivana Jinkings, pelo lançamento de uma coleção de livros infantis sobre a obra de Marx, elas ganharam ainda maior visibilidade nos embates realizados por militantes e apoiadores destes grupos contra exposições e performances acusadas de fazerem apologia à pedofilia, como ocorreu em Porto Alegre, no Santander Cultural, com a exposição Queermuseu: Cartografias da diferença na arte brasileira, e em São Paulo, com a performance La Bête, de Wagner Schwartz, na abertura do 35ª Panorama da Arte Brasileira, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM). Em consonância a esses acontecimentos, houve também a repressão em Brasília contra Maikon K por sua performance em frente ao Museu Nacional da República, intitulada DNA de DAN, no qual o artista aparecia nu dentro de uma bolha de plástico, assim como a autocensura do Museu de Arte de São Paulo (MASP), que proibiu a entrada de menores de 18 anos, mesmo acompanhados dos pais, na exposição História das Sexualidades. Soma-se a estas censuras em exposições e performances, aquela que ocorreu contra a atriz travesti Renata Carvalho, que interpretou Jesus Cristo na peça teatral O Evangelho segundo Jesus, rainha do céu, proibida em Jundiaí por ordem judicial.

Porém, mesmo diante destas situações de censura e repressão, o que se verificou em sequência não foi um “silêncio dos artistas”, mas, pelo contrário, uma intensa mobilização e movimentos de resistência. O MAM, por exemplo, se colocou publicamente contra a censura ao espetáculo La Bête, ao passo que o MASP, após várias manifestações, reverteu sua posição em relação às restrições para a exposição História das Sexualidades. De outra parte, os três artistas que foram alvos mais diretos da censura e da repressão – Wagner Schwartz, Maikon K e Renata Carvalho – se juntaram para montar um espetáculo chamado Domínio Público, recentemente representado no Festival de Teatro de Curitiba. Já a exposição Queermuseu: Cartografias da diferença na arte brasileira, que havia sido proibida em Curitiba, assim como no Rio de Janeiro, após veto do prefeito da cidade, Marcelo Crivella (PRB) para a sua montagem no Museu de Arte do Rio (MAR), será finalmente exposta após uma ampla e bem sucedida campanha de financiamento coletivo, que contou com um leilão intitulado “Queremos Queer” com obras doadas por vários artistas e uma atividade cultural no Parque Lage, com um show de Caetano Veloso.

Da mesma forma que o campo cultural brasileiro se politizou à direita na conjuntura que se seguiu ao golpe de 2016, o mesmo ocorreu em relação à esquerda. As disputas principais estiveram, prioritariamente, associadas a embates relacionados ao “lugar de fala” na produção da cultura, que ganhou novos contornos nos debates que seguiram à publicação em 2017 do livro de Francisco Bosco, A vítima tem sempre a razão? Lutas identitárias e o novo espaço público brasileiro (Editora Todavia). Exemplar desta tensão foi a resenha crítica desta obra feita por Manoela Miklos para a edição impressa da revista Quatro Cinco Um (Edição 07), em texto intitulado “O crepúsculo do esquerdomacho”, posteriormente respondida por Bosco em artigo publicado na edição eletrônica da mesma revista, com o título “Aos argumentos, cidadãos”. Merece também destaque o lançamento de dois livros importante de Djamila Ribeiro – O que é o lugar de fala (2017) e Quem tem medo do feminismo negro (2018) –, que também impulsionaram debates importantes sobre esta temática.  Não se trata aqui de expor os pontos defendidos por Bosco, Miklos e Ribeiro, e nem de entrar no mérito dos posicionamentos de cada um, mas apenas chamar a atenção para o fato do quanto esta tensão em torno do “lugar de fala” tem reverberado com intensidade na cena cultural brasileira, podendo ser também observada nas reações de setores do movimento negro ao filme sobre a escravidão, Vazante, de Daniela Thomas após sua exibição no Festival de Brasília de 2017, e nas objeções realizadas pela escolha da atriz Fabiana Cozza para interpretar Dona Ivone Lara em um musical, por ser “branca demais”, assim como nas críticas protagonizadas por grupos da comunidade trans à peça Gisberta, protagonizada pelo ator Luis Lobianco, que interpreta uma transexual.

Esta politização da esfera pública cultural à esquerda também acabou por reverberar nas universidades brasileiras, sobretudo após a ameaça realizada pelo Ministro da Educação, Mendonça Filho, ao professor Luiz Felipe Miguel, da Universidade de Brasília (UNB), pelo oferecimento de uma disciplina intitulada “O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil”. A reação imediata foi a organização por parte de diferentes professores de diversos cursos pelas universidades do país voltados para discutir o golpe parlamentar de 2016. Para além deste acontecimento, é perceptível ao longo dos últimos anos uma crescente politização da produção acadêmica das ciências humanas, que têm assistindo uma espécie de retorno às análises de conjuntura, ancoradas em interpretações sobre o Brasil, que em uma forma mais ensaística, têm procurado compreender os avanços, limites e dilemas da democracia no país. Este movimento de “retorno à conjuntura” – que se iniciou em anos anteriores, mas ganhou novos impulsos nos últimos tempos[5] – pode ser verificado em livros coletivos que buscaram compreender e denunciar o golpe de 2016, a exemplo de Por que gritamos golpe (2016) e A resistência ao golpe (2016), mas, sobretudo, em obras mais densas analiticamente, a exemplo dos trabalhos de Leonardo Avritzer, Impasses da Democracia no Brasil (2016), Jessé Souza, A Radiografia do Golpe (2016) e Elite do atraso (2017), Tales Ab’Saber, Lulismo, carisma pop e cultura anticrítica (2016), Ruy Fausto, Caminhos da esquerda (2017), José Maurício Domingues, Esquerda. Crise e futuro (2017), Wanderley Guilherme dos Santos, A democracia impedida (2017), Encruzilhadas da democracia Luiz Felipe Miguel e Flávia Biroli (2017), Renato Janine Ribeiro, A boa política. Ensaios sobre a democracia na era da internet (2017), Ridículo político (Marcia Tiburi, 2017), Vladimir Safatle, Só mais um esforço (2017), Maria Rita Kehl, Bovarismo brasileiro. Ensaios (2018), Valsa brasileira (Laura Carvalho, 2018) e André Singer O lulismo em crise (2018).

Esboço de uma cartografia de presenças

Para além deste movimento de politização testemunhado na esfera pública cultural, se faz necessário o exercício de construção de uma pequena cartografia de obras artísticas que têm sido produzidas desde o golpe de 2016, no sentido de afirmar a presença de uma cultura crítica em um contexto de intensas mudanças. Não dedicarei a atenção às produções hegemônicas da indústria cultural, orientadas prioritariamente para o entretenimento – como best-sellers na literatura, filmes mais vistos no cinema e músicas mais tocadas nas rádios e plataformas digitais –, pois estas demandariam uma abordagem muito específica, a partir de uma perspectiva analítica diversa. Concentrarei a minha atenção em produções artísticas mais vocacionadas para uma abordagem crítica da realidade brasileira, dividindo-as em três grandes campos, inclusive aqueles mencionados por Conti em seu texto, a saber: literatura, cinema e música. O mapeamento aqui esboçado serve apenas como uma tentativa de percepção de diferentes manifestações artísticas que, implícita ou explicitamente, vêm interpelando, inquirindo e problematizando a crise no tempo presente, se colocando em direção contrária à onda conservadora que assola o país, e dialogando com questões, pautas e demandas que têm ganhado cada vez mais espaço neste Brasil em transe pós-golpe de 2016.

No campo literário, é notável o impulso ou a concretização, entre 2016 e 2018, de diversas iniciativas individuais ou coletivas que têm contribuindo para a conformação de um pensamento crítico no país. A valorização da “literatura periférica” em um contexto marcado pelo fortalecimento do conservadorismo evidencia esforços orientados no sentido de se contrapor a processos de exclusão que tenderam a se exacerbar desde o golpe de 2016. Com o termo generalista de “literatura periférica” quero me referir mais especificamente a um tipo de produção literária que busca valorizar segmentos historicamente excluídos do campo literário hegemônico, a exemplo dos negros e das mulheres. O próprio fato de as últimas três edições anuais do maior evento literário que acontece no país – a Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP) – terem como homenageados escritores como Ana Cristina Cesar, Lima Barreto e Hilda Hilst, com uma participação cada vez mais significativa de autores antes excluídos dos circuitos literários tradicionais – é evidente de que uma agenda de resistência tem, gradativamente, se afirmando no campo literário, sem que isso signifique uma subsunção completa da estética literária à política.

A esse movimento se soma a organização de eventos importantes, como o “Primeiro Encontro Nacional do Mulherio das Letras”, que ocorreu em outubro de 2017, em João Pessoa, iniciativa voltada para a valorização da literatura produzida por mulheres, em consonância com a organização de diversos círculos de leitura de mulheres lendo mulheres espalhados por diferentes cidades pelo país. Há que se destacar também neste movimento a conformação de diversos festivais literários nas periferias do país e das cidades, do qual a Feira Literária das Periferias (FLUP), que ocorreu no Morro do Vidigal em 2017, homenageando o dramaturgo Oduvaldo Viana Filho, o “Vianinha”, talvez seja o exemplar mais destacado, além do destaque que vêm ganhado editoras independentes e alternativas ao grande mercado, a exemplo da Editora Malê, voltada prioritariamente para a publicação de escritoras e escritores negros. Todas essas iniciativas – somadas a ações como a inclusão em 2018 do álbum Sobrevivendo no Inferno (1997), dos Racionais MC’s, na lista de leituras obrigatórias na categoria “Poesia” para o vestibular da UNICAMP – contribuem no sentido de se lançar novos olhares para a “literatura periférica”, o que, ao lado dos méritos propriamente literários, explica a projeção recente alcançada por uma escritora como Conceição Evaristo – vencedora do Prêmio da revista Bravo! na categoria “Destaque de 2017” e que anunciou o lançamento de sua candidatura à Academia Brasileira de Letras (ABL), contando com amplo apoio de diversos setores –, a valorização da literatura de Carolina de Jesus – especialmente do seu potente Quarto de despejo. Diário de uma favelada – e do destaque recebido pelo jovem escritor morador de favela, Geovani Martins, no lançamento pela Companhia das Letras em 2018 do livro O sol na cabeça.

Os debates que se seguiram a uma reportagem publicada pelo Segundo Caderno, do jornal O Globo, em outubro de 2016, que abordava a presença de personagens gays em romances lançados no país naquele ano – em especial, Homens elegantes, de Samir Machado, Simpatia pelo demônio, de Bernardo Carvalho; O amor dos homens avulsos, de Victor Heringer; Meia-noite e vinte, de Daniel Galera; e O tribunal de quinta-feira, de Michel Laub – são também exemplares do quanto as discussões de temáticas relacionadas à “literatura periférica” – não apenas no que diz respeito àqueles que escrevem, mas também aos personagens majoritariamente retratados nos romances – se impuseram na esfera pública do país.

Um dos romances que ganharam maior repercussão no Brasil desde o golpe de 2016 foi A Resistência, de Julián Fuks, não apenas pelas qualidades intrinsecamente literárias do livro – que fizeram com que o autor fosse laureado com os mais destacados prêmios de literatura, como o Prêmio Jabuti (2016), o Prêmio Oceanos (2016) e o Prêmio José Saramago (2017) –, mas também pelo fato de esta obra trazer à tona uma série de temáticas – a exemplo das continuidades da ditadura com a democracia – que dialogam de forma profunda com movimentos de resistência que vêm tendo lugar na atual conjuntura política. O próprio discurso de Fuks, quando da cerimônia de premiação do Jabuti, é ilustrativo nesse sentido. A reflexão sobre a ditadura e a resistência também está presente no livro de Maria Valéria Rezende, Outros cantos, vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura de 2017, no excelente Noite dentro da noite (2017), de Joca Reiners Terron, assim como em um dos lançamentos de maior repercussão no campo literário em 2017, o primeiro volume da trilogia da obra A noite de espera, de Milton Hatoum. E ainda no que concerne às iniciativas de resistência, deve-se registrar ações orientadas no sentido de chamar a atenção e denunciar a situação precária vivida pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a exemplo da aula inaugural do Instituto de Letras, proferida por Silviano Santiago sobre o seu premiado livro Machado (2016) e da realização do encontro naquela universidade da Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC).

Muitos dos romances que chegaram ao mercado editorial em 2017 e 2018, ainda que não dialogando de forma explícita com a política – como é o caso, por exemplo, de um livro como o de Cristóvão Tezza, A tirania do amor (2018) – se mostraram muito sensíveis às transformações que vêm tendo curso na sociedade brasileira no tempo presente. Um livro como Meia-noite e vinte (2017), de Daniel Galera, por exemplo, aborda as insatisfações, as desilusões e os desconfortos de uma geração de jovens no final dos anos 1990 e 2000, que testemunha diversas mudanças culturais e político-sociais no Brasil no tempo presente, tendo como pano de fundo as manifestações de junho de 2013. A polarização política e social vivida pelo país, com a consequente exacerbação do clima de ódio e de intolerância, que tem nas redes sociais seu principal veículo de manifestação, é destrinchada, a partir de um prisma muito particular, por Michel Laub, em O tribunal da quinta-feira (2016). As transformações da indústria cultural, cada vez mais mercantilizada, e o esfacelamento do campo cultural em tempos recentes, aparecem com tintas singulares no romance de Fernanda Torres, A glória e seu cortejo de horrores (2017). As tensões sociais vivida por setores da classe média, que ganharam novas dimensões e contornos nos últimos anos, recebem destaque em um livro como Acre (2017), de Lucrécia Zappi. E, ainda que de forma implícita e metafórica, características muito manifestas da sociedade brasileira, exacerbadas neste contexto de crise política e social – a saber, a exclusão social e a violência –, aparecem, a partir de prismas diversos, nas obras recentes de escritores como Luiz Ruffato (Inferno provisório, reeditado em 2016), Evandro Affonso Ferreira (Nunca houve tanto fim como agora, 2017), Carlos Eduardo Pereira (Enquanto os dentes, 2017) e Ana Paula Maia (Assim na terra como embaixo da terra, 2017).

Assim como ocorre na literatura, o cineastas brasileiros têm produzido uma série de obras que dialogam de forma direta com a conjuntura política do país ou que abordam temáticas que dizem respeito às mudanças sociais que vêm tendo curso na sociedade brasileira ao longo dos últimos anos. Se, de um lado, tem-se testemunhado o lançamento de filmes que inquirem a conjuntura política a partir de uma perspectiva mais conservadora – do que são exemplares obras como Polícia Federal. A lei é para todos (2017), de Marcelo Antunez e Real. O plano por trás da história (2017), de Rodrigo Bettencourt –, de outro, têm sido lançadas produções que buscam se contrapor à visão hegemônica da crise política brasileira, construída pela grande mídia, do que é exemplar o documentário O Processo (2018), de Maria Augusta Ramos, que acompanha as movimentações que resultaram no golpe parlamentar de 2016.

Da mesma forma que as demais áreas do campo cultural, a cena cinematográfica, desde o golpe de 2016, tem sido atravessada por um processo intenso de polarização política, à esquerda e à direita. Esta politização pôde ser vislumbrada em diversos episódios recentes, a exemplo das manifestações contrárias ao impeachment de Dilma Rousseff realizadas pela equipe do filme Aquarius (2016), de Kleber Mendonça Filho, na estreia do filme no Festival de Cannes, em 2016, bem como a polêmica que se seguiu à não indicação deste filme como representante brasileiro na disputa pelo Oscar, preterido pela obra de David Schurmann, Pequeno Segredo (2016); das brigas que ocorreram quando da mostra do documentário sobre o filósofo conservador Olavo de Carvalho, O jardim das aflições (2017), de Josias Teófilo, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e nos festivais de cinema de Recife e Brasília; além das manifestações contrárias ao golpe de 2016 que ocorreram na sequência da exibição do documentário O Processo, após sua mostra na Panorama do 68º Festival Internacional de Berlim deste ano. Seria possível ainda inserir nesta discussão as polêmicas impulsionadas pelo lançamento recente na Netflix da série O mecanismo (2018), do diretor de Tropa de Elite, José Padilha, que provocaram um intenso debate na imprensa e nas redes sociais.

Ao longo dos últimos anos, o cinema brasileiro mais progressista tem produzido uma série de obras, que vêm perscrutando aspectos diversos da realidade de um país em crise política e social. Os filmes de Kleber Mendonça Filho, O Som ao Redor (2013) e o já mencionado Aquarius, lançado em 2016, são exemplares no sentido de trazer à tona uma série de tensões que atravessam uma sociedade profundamente marcada pela desigualdade social, aspecto este também visível em outras obras cinematográficas produzidas pouco antes do golpe de 2016, a exemplo dos filmes Que horas ela volta? (2015), de Anna Muylaert e Casa Grande (2015), de Fellipe Gamarano Barbosa. A desigualdade social e seus impactos sobre os marginalizados da sociedade também aparecem com força em documentários que misturam, de forma potente, ficção e realidade, como a produção dirigida por Eliane Caffé, Era o Hotel Cambridge (2016), uma criação coletiva da Frente de Luta por Moradia (FLM), do Grupo Refugiados e Imigrantes Sem Teto (GRIST) e da Escola da Cidade, que aborda os dramas de brasileiros e estrangeiros refugiados sem moradia, que dividem um velho edifício abandonado no centro de São Paulo, e o filme-ficção Baronesa, de Juliana Antunes (2018).

Temáticas que vêm recebendo cada vez mais atenção na esfera pública, em decorrência da pressão de segmentos historicamente excluídos, como mulheres, negros e grupos LGBTT, também ganharam espaço e visibilidade no cinema nacional, como se verifica em filmes como Corpo Elétrico (2017), de Marcelo Caetano, Como nossos pais (2017), de Laís Bodanzky, e Paraíso perdido (2018), de Monique Gardenberg. Há que se destacar também o lançamento, nesta conjuntura de crise política e social, de filmes históricos, que trazem à tona dimensões da sociabilidade violenta e racista do passado brasileiro, que, de maneiras diversas, persistem no tempo presente, do que são exemplares obras cinematográficas, como Joaquim (2017), de Marcelo Gomes, e Vazante (2017), de Daniela Thomas. O olhar histórico e a possibilidade de reflexão sobre continuidades e rupturas na sociedade brasileira se fazem, do mesmo modo, presentes em um documentário como No intenso agora (2017), de João Moreira Salles, que abre, inclusive, caminhos vários para se pensar nas relações e paralelos entre as manifestações que tomaram o mundo no final dos anos 1960 – em especial, o 1968 francês – com as manifestações de junho de 2013, e seus desdobramentos políticos.

Assim como a literatura e o cinema, a cena musical brasileira também vem testemunhando movimentos e iniciativas importantes impulsionadas desde o golpe de 2106. Se a politização à direita também chegou com força neste espaço – o cantor Lobão, que lançou em 2017 o Guia politicamente incorreto dos anos 80 pelo Rock, talvez seja o exemplar mais evidente nesse sentido –, este processo também se deu à esquerda, sobretudo com o destaque que vem ganhando várias vozes periféricas e antes excluídas da esfera pública tradicional, que, com seus corpos, vestimentas e canções, vêm trazendo para a cena a musical brasileira aspectos, visões de mundo e dimensões historicamente silenciadas. Artistas diversos como Karol Konka, Johnny Hooker, Pablo Vittar, Liniker, Rincon Sapiência, Luedji Luna, Jaloo e Linn da Quebrada, e grupos como BaianaSystem, As Bahias e a Cozinha Mineira, além de cantores com outros vieses como Mano Brown, Emicida, BNegão e Criolo, têm contribuído – ao lado de artistas historicamente consagrados, que ganharam nova projeção recente, como Elza Soares, especialmente após a gravação do seu disco Mulher do fim do mundo (2015) e de seu novo álbum, Deus é mulher (2018) – para que sujeitos e temáticas outrora secundarizadas ganhassem projeção, impulsionando movimentos de resistência de grupos excluídos em um contexto de avanço do conservadorismo. Nesse sentido, é interessante perceber de que maneira debates e temas vinculados ao feminismo têm até mesmo, gradativamente, invadido territórios antes pouco visitados, a exemplo da música sertaneja, ensejando, por conseguinte, debates diversos no campo musical, a exemplo do que ocorreu no final de 2017, com o lançamento do clipe “Vai Malandra”, da cantora Anitta, e o debate que se seguiu a ele nas redes sociais sobre seu caráter machista ou feminista.

Outro movimento que merece ser destacado diz respeito a uma espécie de retorno – ainda que o termo seja demasiadamente forçado – de músicos que se destacaram na luta contra a ditadura para uma participação mais destacada na esfera pública. Isso é muito evidente com Caetano Veloso, por exemplo, que embora nunca tenha se furtado em participar da discussão de questões políticas, tem se posicionado com muita frequência publicamente, criticando o governo Temer e se envolvendo em movimentos – a exemplo do já mencionado “342 Agora!” – e atos, como o show que realizou no final de 2017 em comemoração aos vinte anos do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), ao lado de Guilherme Boulos. Chico Buarque também tem se mostrado presente em vários atos políticos desde o acirramento da crise política que resultou no golpe de 2016 – desde as manifestações contra o impeachment naquele ano, passando pela inauguração, ao lado de Lula, no início de 2017, do campo Dr. Sócrates, na escola Florestan Fernandes, do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), até os grandes atos em protesto contra o assassinato de vereadora do PSOL, Marielle Franco, as atividades em defesa de uma frente única da esquerda contra o avanço do fascismo, que foi organizado no Circo Voador, e o “Festival Lula Livre”, que ocorreu em frente aos Arcos da Lapa, quando cantou junto com Gilberto Gil a simbólica canção “Cálice” –, além de ter gravado seu último disco, Caravanas (2017), com músicas que refletem com fineza a crise social vivida pelo país, com destaque para “As caravanas”, tendo seus shows se transformado em espaços importantes de manifestação contra o governo Temer. Outros músicos poderiam aqui ser destacados, a exemplo de João Bosco, que em 2017 lançou seu novo disco intitulado Mano que zuera, que traz várias canções que abordam a crise política e social atravessada pelo país.

Concluo mencionando o clipe “Manifestação”, produzido pela Anistia Internacional e lançado em 2018 em comemoração ao aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Contando com a presença de músicos de diferentes gerações como Chico Buarque, Chico Cesar, Criolo, Ludmila, BaianaSystem e As Bahias, ao lado de atrizes como Fernanda Montenegro, Camila Pitanga e Leticia Sabatela, o clipe, ainda que não seja exclusivamente ligado à conjuntura mais imediata, explicita em uma canção manifesto, de forma forte e poética, este movimento de resistência em um contexto pós-golpe marcado pelo desrespeito e desvalorização das agendas associadas aos direitos humanos.

Cultura e política: diálogos e entrelaçamentos necessários

Ao longo deste ensaio, busquei refletir sobre as relações entre cultura e política no Brasil no período que se sucedeu ao golpe de 2016, com o intuito de discutir os aspectos negativos e virtuosos da “desagregação” recente do campo cultural brasileiro e problematizar o diagnóstico apontando por Mario Sergio Conti em seu artigo na Folha de São Paulo em relação ao “silêncio dos artistas”. O objetivo principal, nesse sentido, foi o de afirmar presenças na cena cultural brasileira, com fortes traços de resistências plurais e heterogêneas, a partir da construção de uma cartografia, ainda que parcial, orientada para o mapeamento de ações, iniciativas e produções artísticas entre 2016 e 2018 nos campos da literatura, do cinema e da música.

Muitas das presenças no campo cultural afirmadas neste texto devem ser interpretadas apenas como manifestações mais visíveis, pontas mais evidentes, de movimentos culturais periféricos que vêm sendo impulsionados na sociedade brasileira, mas que não conseguem se projetar e encontrar espaços efetivos na esfera pública seletiva. A despeito de não lograrem a visibilidade necessária, é fundamental afirmar a existência de vários indivíduos, grupos e coletivos que produzem culturas nas periferias do país e das cidades, conformando aquilo que venho chamando de “esferas públicas subalternas”. O caráter historicamente seletivo da esfera pública no país dificulta a projeção das escritas, imagens e sons produzidos nestas esferas públicas subalternas. Ainda que a internet abra espaços importantes e ainda que exista a possibilidade de explorar algumas frestas na esfera pública tradicional, de modo geral, a sua seletividade estrutural permanece sendo um impedimento para que vozes das resistências encontrem lugares para serem escutadas.

Na atual crise política vivida pelo país, é imperativo refletir de que maneira estas movimentações culturais que vêm ocorrendo fora ou perifericamente à esfera pública tradicional podem se encontrar e contribuir, de forma mais efetiva, no sentido de enfrentar o cenário de conservadorismo intensificado desde o golpe de 2016. Ou dito de outra forma, é necessário pensar de que forma cultura e política podem se articular de modo mais orgânico, sem que isso implique em uma submissão das manifestações culturais à dimensão da política. Como destacado na introdução deste ensaio, creio ser possível sugerir a necessidade de uma articulação mais efetiva entre o ativismo cultural aqui destacado e a política institucionalizada, organizada em torno de partidos políticos progressistas, de modo a fazer com que as pautas, demandas, reivindicações e agendas defendidas pelos artistas consigam tensionar e disputar de modo mais efetivo os rumos do país na esfera pública seletiva.

Este diálogo entre cultura e política enfrenta dificuldades várias, especialmente como decorrência da profunda crise vivenciada pelos partidos de esquerda, com destaque para o PT. Se é possível fazer um paralelo, ainda que forçado, com o texto de Schwarz, naquela conjuntura entre 1964 e 1969, o principal partido da esquerda brasileira – o Partido Comunista Brasileiro (PCB) – também atravessava uma crise de enorme magnitude, tanto como decorrência da repressão sofrida pela ditadura, quanto das intensas críticas que sofria por parte da esquerda, haja vista sua estratégia na conjuntura que resultou no golpe de 1964. No atual cenário político, os partidos de esquerda, em geral, também atravessam uma crise estrutural profunda, que resultou em um afastamento significativo de setores do mundo cultural. Reconstruir essas pontes, ampliar os diálogos, reconectar agendas – sem que isso resulte, repito, em uma subsunção da arte à política – pode ser um dos principais caminhos para a resistência, para a revitalização das forças progressistas e para um enfrentamento mais significativo ao setores conservadores, que têm se posicionado de forma cada vez mais radical, animados pela conjuntura política aberta pelo golpe parlamentar de 2016.

Notas:

[1] SCHWARZ, Roberto. “Cultura e política, 1964-1969”. In: O pai de família e outros ensaios. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978, p.61-92.

[2] CONTI, Mario Sergio. “Memória de um antissemita”. Folha de São Paulo. 27/01/2018.

[3] Sobre o conceito de “esferas públicas subalternas”, ver: PERLATTO, Fernando. As esferas públicas no Brasil. Teoria social, públicos subalternos e democracia. Curitiba: Appris Editora, 2018.

[4] Sobre os intelectuais da “nova direita” no Brasil, ver: PERLATTO, Fernando & CALHOUB, Jorge. A nova direita brasileira: ideias, retórica e prática política. Insight Inteligência, v. 72, p. 24-41, 2016.

[5] Sobre esta espécie de “retorno” das análises de conjuntura nas ciências sociais, ver: PERLATTO, Fernando & SOUSA, Diogo Tourino. “Interpretações do Brasil contemporâneo: cientistas sociais, conjuntura política e a democracia brasileira”. In: 40º Encontro Anual da ANPOCS. Anais do 40º Encontro Anual da ANPOCS, 2016.

* Fernando Perlatto é um dos Editores da Revista Escuta.

** Crédito da imagem: Rafael Arbex / Estadão Conteúdo. Manifestação no dia 26/12/2017 contra o fechamento do Teatro Oficina, em São Paulo. Retirado do site: <https://vejasp.abril.com.br/cidades/ze-celso-oficina-polemica-silvio-santos/&gt;. Acesso em: 08 de agosto de 2018.

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