Jorge Chaloub e Diogo Tourino de Sousa*

O uso do termo “mito” expõe, sem intenção, os fundamentos da força política do candidato à Presidência da República pelo Partido Social Liberal (PSL), Jair Bolsonaro. O deputado federal carioca, atualmente em sua sétima legislatura, cresce em popularidade a partir da conhecida estratégia de “construção mítica” da personalidade pública. Nas reflexões sobre o Brasil, foi o publicista Francisco Campos, mobilizando Georges Sorel, quem apontou, em sua descrição da política no Brasil dos anos 1930, para uma dupla face do “mito político”: os valores de “verdade” e de “ação”[1]. Segundo o jurista, o “valor de verdade” encontraria sua força dentre os que acreditam no “mito”. Pare estes, o discurso mítico em debate não merece tal qualificação, mas reproduz fielmente ao menos parte da realidade, relegando eventuais contradições ao patamar da insignificância. Entretanto, conforme descreve Campos, quando questionado seu “valor de verdade”, o defensor do “mito” ressaltaria a outra face, seu valor de ação, precisamente o que justifica a adesão não por seu conteúdo, mas pelas suas consequências.

Tal estrutura argumentativa pode ser mobilizada para delinear de atores políticos diversos, como a proposta de construção do mito de Getúlio Vargas como “Cesar”, central em “O Estado Nacional” de Campos, bem demonstra. Trata-se de uma estrutura que tem como pressuposto, todavia, a minoridade do povo que, seja pela via da eleição ou da aclamação, resta representado como incapaz de perceber a verdade ou de lidar com ela.

No presente, Jair Bolsonaro recorre a este exato procedimento na construção da sua figura pública. O candidato mobiliza uma importante característica do carisma, conceito caro ao debate sociológico[2], que tende a valorizar acima de tudo a personalidade, e não as ideias que ele defende ou representa. Mais do que os argumentos, importa quem os constrói. O fenômeno, que nada tem de novo, ganha outros ares em tempos de crescente predomínio de uma ação dita performática, cuja preocupação se concentra mais no estilo – em Bolsonaro um suposto “diferente” ante o que aí está –, que no conteúdo.

A recente eleição de Donald Trump seguiu, em parte, o mesmo caminho. Mais do que dos tortuosos argumentos do presidente norte-americano, sua vitória eleitoral decorreu da ideia de que Trump representaria uma personalidade externa ao surrado establishment político, capaz de ser brutalmente sincera em tempos marcados pela mentira e pela inautenticidade. Assim, a escolha pelo homem “que fala a verdade” surge como mais importante que seus eventuais defeitos em tempos vistos como inautênticos e artificiais.

O político brasileiro percorre trilha semelhante. Justamente por isso tem quase nenhum efeito o debate com boa parte do seu eleitorado convicto: não importa o que o deputado diz ou pensa, mas o que ele é. Nesse processo, a verdade é consequência de quem fala, não do que se fala. Quando contestada a argumentação em torno da sua personalidade, o candidato usualmente recorre a “teorias da conspiração”[3] que, por sua própria estrutura, tendem a ser particularmente difíceis de contestar. Isso porque o próprio interlocutor pode ser acusado de participar, voluntária ou involuntariamente, da conspiração, sobretudo quando ele a nega diretamente. Tal como num mundo governado pelo “Deus enganador” de Descartes, nenhuma conclusão é confiável ou razão capaz de se provar. Tudo, mesmo o mais evidente, pode ser remetido à conspiração, cuja própria negação é prova irrefutável da sua existência.

Quando criticada a pretensão de verdade, resta, conforme sugerimos há pouco, a justificativa da ação. Nesta linha argumentativa, Bolsonaro de fato produz absurdos, mas estes são necessários ante alguma dimensão da sociedade brasileira. Os excessos são úteis frente as ameaças do esquerdismo ou a dissolução de valores morais fundamentais para a conservação da boa sociedade, conforme o vetusto debate sobre o “Kit Gay” atesta. Trata-se da combinação de duas das dimensões típicas da “retórica da intransigência”, classicamente descrita por Albert Hirschman: a ameaça e a perversidade. Ambas surgem como formas de legitimar ações e discursos contra determinados grupos sociais, sobretudo minorias, mesmo quando as palavras estão em franco desacordo diante da realidade.

Com efeito, a “construção do mito” soreliano, tal como interpretada por Campos, ganha novos instrumentos em época de franco desenvolvimento de meios de comunicação. Por um lado, a interação constante através das redes sociais dá aos arquitetos do “mito” recursos certamente mais vastos que a conjunção entre DIP, Rádio Nacional e comícios públicos, responsável pela invenção de Getúlio Vargas. Por outro lado, a rapidez das informações torna mais complexo o procedimento que concede ao carisma sua longevidade: a rotinização. Assim, se construir mitos tornou-se mais fácil, fazê-los superar a fugacidade do momento é cada vez mais difícil.

O que dizer, contudo, do processo eleitoral que se avizinha? A eficácia na construção do mito político parece, até o momento, bem-sucedida. Resta, por sua vez, pensar no peso que ele terá na campanha que se inicia. Neste ponto, a comparação com a eleição de Trump permite algumas ilações adicionais.

O recente livro de Manuel Castells, “Ruptura: a crise da democracia liberal”, é feliz ao situar fenômenos radicados em distintas experiências nacionais como parte integrante do que ele conceitua como democracia “pós-liberal”. Assim, a eleição de Trump no EUA, o Brexit na Inglaterra, o Macronismo na França e a desunião europeia como um todo são marcas de um tempo de esgotamento das tradicionais instituições liberais. As raízes da ira, conforme descreve Castells, radicam no enfraquecimento dos Estados nacionais, que tornou suas estruturas progressivamente incapazes de lidar com os desafios postos pelo mundo global. Por um lado, o processo foi capaz de produzir suas elites triunfantes, cidadãs do mundo, com valores que ultrapassam a comunidade e se justificam pela adaptabilidade e pela conta bancária. Por outro, o processo produziu seu “refugo”, os excluídos que em crise de desemprego não identificaram na política liberal os mecanismos postos para sua superação, sobretudo porque a crise impôs aos já excluídos o ônus de um processo do qual nunca se beneficiaram, conforme lemos sob a ótica da “necessária” austeridade cobrada por potências como a Alemanha.

Castells avança identificando nesse processo uma particularidade. Trata-se da presente política midiática, marcada pela construção de mensagens simples que conduzem à personalização da política, onde a destruição moral dos contendores surge como estratégia quase única e a aventada “rotinização” do mito torna-se possível. Essa “política do escândalo”, conceituada pelo sociólogo John Thompson, traz como consequência a possibilidade de aniquilamento da confiança na política como um todo.

Nessa perspectiva, Trump seria uma espécie de fruto da ira. Sua campanha eleitoral é sintomática. Malgrado iniciar o processo com um elevado índice de rejeição, o candidato republicano conseguiu atingir a “América profunda”. E o fez colhendo os erros de Hillary Clinton, por um lado, e reforçando sua personalidade própria, por outro.

Os erros de Hillary podem ser resumidos na postura “arrogante” com a qual a candidata democrata se colocou no pleito. Evidentemente melhor preparada, ela chegou a descrever como “deploráveis” os eleitores de Trump, assumindo uma postura infensa ao debate que lhe custou caro. Ao lado disso, sua vinculação com o establishment político permitiu que Trump reforçasse sua figura como o outsider desejado pelo eleitorado excluído.

O que ficou conhecido como “lixo branco” americano atesta isso. Trata-se do voto branco da América profunda que elegeu Trump, os “deploráveis” de Hillary. Foi precisamente o americano que crê ter perdido com o processo de globalização, testemunha de uma elite globalista triunfante e vítima da austeridade imposta, e que se vê como condenado pelas políticas culturais, “refém” de uma agenda de vanguarda de direitos de minoria que o “acusa” ao invés de convencê-lo. Em outras palavras, Trump atraiu o homem branco, heterossexual, pai de família, temente a Deus e desempregado, cuspido pelo sistema econômico e rejeitado pela elite cultural.

Mas não só. Um exame detido do voto em Trump mostra como o candidato não ganhou apenas entre os homens. Assim como não ganhou pelo voto racista, machista e homofóbico. Foi o voto branco dos grotões da América que elegeu Trump, tendo Hillary conseguido o voto urbano.

Conforme sustentamos, o mito à brasileira que Bolsonaro representa pode ser pensado de maneira produtiva a partir dessa comparação. Isso porque, se por um lado o candidato do PSL endossa a própria personalidade com o carisma do “diferente” – uma estranha candidatura antiestablishment de alguém que avança pela sua sétima legislatura, tendo passado por alguns dos mais tradicionais partidos políticos do país –, por outro, Bolsonaro parece não entrar no “Brasil profundo” com a mesma naturalidade. Se América dos grotões é predominantemente branca e desempregada, o Brasil dos grotões é preto, pobre, mestiço e recém-incluído num processo de dilatação da social-democracia que Bolsonaro critica. Basta ver o modo como o candidato se posiciona ante pautas como as cotas raciais ou a igualdade de gênero no mercado de trabalho.

Isso permite, com efeito, uma comparação importante: o mito à brasileira é bem-sucedido em sua produção. Mas ainda que a esquerda por vezes incorra na mesma arrogância de Hillary, classificando como “lixo” os eleitores de Bolsonaro, sendo incapaz de abrir diálogo com um lado que ensaia a ruptura, o mito local pode ter alcance limitado, encontrando obstáculo na parcela do eleitorado que radica no Brasil profundo.

Em tempos de franca incerteza, onde qualquer ator do mundo político, sobretudo os do campo progressista, pode ser sumariamente alvejado pelas tropas judiciais, previsões eleitorais se aproximam de atos de fé. É, todavia, possível, mesmo neste cenário, prever as dificuldades para uma vitória de Bolsonaro nas próximas eleições. Suas parcas alianças, escassa estrutura partidária, pouco tempo de propaganda eleitoral, franca antipatia da grande mídia e dificuldade de alcançar os grotões o tornam um competidor em desvantagem ante outros.

Mas o mal maior da candidatura militaresca do deputado está, entretanto, nas suas possíveis consequências para o resto do campo político. Bolsonaro pode naturalizar, principalmente entre a direita mais moderada, temas de aberta violação de direitos e ataques às minorias. O flerte do PSDB com propostas distantes das suas práticas neste campo, presente ao menos desde a eleição de 2014, demonstra bem isto. Por tal motivo, importa não apenas o resultado final, sua provável derrota, como o modo pelo qual ela transcorrerá. Tornar o campo bolsonarista uma terra arrasada, e não tardar em salgá-la, tem impactos que vão muito além da destruição de uma aventura eleitoral.

*Jorge Chaloub e Diogo Tourino de Sousa são editores da Escuta.

 

Notas

[1] Francisco Campos discute o tema em sua obra “O Estado Nacional”, publicada originalmente em 1939.

[2] Ver, sobretudo, a obra de Max Weber.

[3] O elemento foi analisado como um dos traços característicos da “nova direita” por Jorge Chaloub e Fernando Perlatto, em “Intelectuais da Nova Direita brasileira: ideias, retórica e prática política”, publicado na Revista Insight Inteligência em 2015.