João Martins Ladeira*

Talvez uma História de Amor (2018, de Rodrigo Bernardo) pertence ao tipo de produção que tem sido rapidamente posta de lado como um exemplo descartável do nosso cinema. A postura – muitas vezes injusta – assombra a comédia de forma muito corriqueira, tratada de modo impiedoso como um gênero menor – conclusão que, por razões que não vem ao caso, ganha maior dimensão em produções como tal filme. Não há dúvida: trata-se de um trabalho com diversos problemas de execução.

É fácil elencar as mais óbvias. Consiste numa comédia, mas, dado o magnetismo indispensável ao gênero, a velocidade e a energia dos atores parecem insuficientes. As razões merecem análise: Talvez existe através da afirmação e da dissolução de certos traços de estilo. Se, por um lado, afirma uma proximidade em relação à screwball comedy, a comédia maluca centrada no casamento, nega-a com a mesma intensidade.

A narrativa toca este estilo, ao mesmo tempo em que dele se distancia. O centro de Talvez está num casal e em seu elo, rompido e depois reconstruído; mas sua execução, não. Virgílio (Mateus Solano) recebe uma mensagem de uma mulher, encerrando um relacionamento que ele nem lembrava existir. Frente a tal imbróglio, decide considerar o recado a sério, iniciando uma investigação que o leva de São Paulo a Nova York em busca de uma tal Clara Miller (Thaila Ayala), parte das memórias de todos ao seu redor, menos dele. O namoro se desfez, e o problema do personagem está em resgatá-lo. Este recasamento animou obras que forjaram alguns dos ícones do cinema: Cary Grant, Katharine Hepburn e Spencer Tracy já tiveram, eles também, de lutar pelos seus amores em filmes de Howard Hawks ou George Cukor. Que hoje este enredo retorne em nosso país permite pensar as idiossincrasias de tal estilo e o que se consegue – ou não – fazer com ele no Brasil do século XXI.

Talvez toma para si apenas metade dos elementos caros à comédia maluca. Estas obras investigam as idas e vindas presentes nos vínculos entre duas pessoas, numa reflexão sobre o sentido de sua união. Escondido nas gags físicas e nos diálogos mordazes, há algo que estes trejeitos indicam sem mostrar. São filmes de ritmo – a mesma energia que falta nesta produção nacional. Diz-se muita coisa, e quem fala num passo atordoante é sempre o casal que se distancia e se reaproxima. Na comédia maluca, as palavras trocadas nada têm de gratuitas, e a falta desta verborragia em Talvez marca uma distância importante. Ao longo de sua busca, Virgílio não vai deixar de conversar com mulheres. Mas, por boa parte do filme, não se vê nem escuta Clara. Nosso personagem se encontra sozinho durante praticamente todo o seu trajeto. As várias moças com quem se depara são apenas pistas para algo que desconhece. Qual o lugar dos amantes que se enfrentam quando um deles está ausente?

A comédia maluca preza pela comunhão conflituosa entre os sexos, através de personagens que constroem seu elo a partir de contratempos responsáveis por aclarar um traço despercebido por eles próprios: o fato de que desejam um ao outro, mesmo sem consciência sobre suas vontades. Não se trata apenas da história da conquista da mulher por um homem, mas das intempéries do par, nas quais uma parte se move em direção à outra sem o saber – ou, melhor, exatamente porque não o sabe. Em Talvez, ocorre o contrário. A questão da narrativa está em entender porque Virgílio e Clara se separaram. No percurso do rapaz, encontramos alguns indícios daquilo que distanciou ambos. Nosso personagem vive num apreço imenso pela repetição. Recusa promoções apenas para evitar a revisão de declarações tributárias, prontas até 2025. Vive em meios a celulares da década passada e outros eletrodomésticos analógicos. Não abre mão do emprego que possui e da vida que leva.

Nesta história específica de recasamento, a reconstrução daquilo que se separou ocorre através de um esforço de esclarecimento bastante unilateral. Compreende-se onde este desencontro do filme de 2018 leva o expectador apenas quando se apreende os fundamentos do gênero. O protótipo da comedia maluca está em Aconteceu Naquela Noite (It Happened One Night, 1934, de Frank Capra). Ellie Andrews (Claudette Colbert), uma jovem rica e mimada, escapa do pai para viver a união que o patriarca proíbe. Por acaso, seu caminho se cruza com o de Peter Warne (Clark Gable), jornalista que, farejando um furo, ajudará a jovem na sua fuga em troca da exclusividade sobre a história. Se todo o filme transcorre sem que saibam do laço que vai envolvê-los, o púbico compreende muito bem que o arranjo terminará na paixão de ambos desde o primeiro instante quando os personagens se encontram.

A variação deste formato ocorre quando o par em questão já se encontra casado, e toda a narrativa procede pela tentativa de reaver esta relação. Um dos exemplos mais bem-sucedidos é Núpcias de Escândalo (The Philadelphia Story, 1940, de George Cukor), na interação entre C. K. Dexter Haven (Cary Grant) e Tracy Lord (Katharine Hepburn). O centro do filme está numa mulher e no embate entre seus dois possíveis homens. Quando o filme se inicia, Dexter e Tracy estão divorciados, e seu reencontro ocorre em meio a um arranjo traiçoeiro. O ex-marido negocia com uma revista de fofocas o acesso exclusivo ao segundo casamento da jovem com um novo-rico insignificante. Contudo, as dificuldades não estão aí, mas onde menos se espera. Residem no repórter encarregado do furo, um adversário à altura de Dexter, trazendo à tona a pergunta sobre quais qualidades fariam Tracy escolher o ex-marido e não “Mike” Connor (James Stewart).

A despeito de suas muitas distâncias, é deste segundo caso que Talvez mais se aproxima. Como na história de Tracy, há, para Clara, a decisão sobre por quais motivos deveria escolher novamente Virgílio como o homem certo; mas existe, ao mesmo tempo, uma distinção em termos do método pelo qual tal decisão procede. As faltas do filme brasileiro em relação ao formato se tornam aqui decisivas. Se, na comédia maluca, o meio pelo qual a resolução se dá implica o confronto verbal capaz de contrapor, mas, também, de reconciliar as partes, é porque as falas são como uma aferição do carisma de ambos, homem e mulher. A resiliência desta ideia é notável, como se pode averiguar em certas revisões menos distantes: a verborragia de A Gata e o Rato (Moonlighting, 1985–1989, de Glenn Gordon Caron) ou de O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook, 2012, de David O. Russell). Mas a comédia maluca dos anos 30 e 40 apontava para algo mais.

Era a primeira vez que se presenciava não apenas o cortejo do personagem feminino, mas um exercício recíproco de interação, voltado a analisar se a constituição do casal se mostra adequada não apenas a uma das partes, mas a ambas: tanto ao marido quanto à esposa. Se a escolha sobre a beatitude da união envolve a habilidade com a qual os dois sexos esgrimam com palavras, é porque se trata de um flerte necessário de executar como um tipo de preliminares as quais, em tais filmes, não são físicas, mas verbais. Através delas, a união dos envolvidos dependerá de uma resolução mútua de cada uma das duas metades, na qual ambos os personagens ultrapassam o conflito entre iguais em que se encontram a fim de permanecerem juntos. O cerne da comédia maluca remete ao casamento, e esta cerimônia precisa se mostrar consensual, como um acordo impossível de obter sem que se conceda uma autonomia bastante ampla à escolha feminina.

Porém, em Talvez a reconciliação ocorre num plano completamente pessoal. Ambos os personagens estão sozinhos, numa jornada dissociada que culmina em seu reencontro, embora sem o espírito que animou o gênero. Quando Virgílio e Clara se veem finalmente face a face, não existe nenhuma razão aparente para que se conceda a ambos a ventura da vida juntos. Pouco importa que a solução ocorra num passe de mágica, pois a mágica sempre nutriu a comédia maluca. Mas a única ação palpável, capaz de justificar a reunião do par, torna-se a decisão unilateral de Virgílio em mudar radicalmente, abandonando suas manias e, com elas, uma vida até então impossível de se desgarrar. Que a felicidade se torne viável num lugar mágico – Nova York – também não é novidade para o gênero. Neste estilo, o júbilo se percebe visualmente como um êxtase em relação ao qual a São Paulo de classe média alta parece insuficiente.

Aqui, a morte e o renascimento se fazem solitariamente, e não a dois. Talvez é a imagem do solipsismo. “Muito bem”, dirá o leitor, “mas qual a razão de discutir um filme claramente menor?”. Ora, os problemas contidos em obras como esta apontam a impossibilidade de discutir tal fração de nosso cinema – e certamente não ele como um todo – sem recorrer a grandes esquemas, arcabouços no qual este ou aquele filme pontual cabe – ou não. Há nestes trabalhos escassa particularidade apta a sobreviver na concretude de sua própria matéria palpável. Na verdade, estes esforços parecem se prestar quase sempre ao exercício de compreender como certos modelos abstratos funcionam ou deixam de funcionar, revelando a carência de algo discreto sobre o qual se ater. Atormentadas como quem, num classicismo fora de lugar, se curva a regras mais ou menos bem aplicadas, estas obras demandam o trabalho da crítica, revirando-as em busca de razões para garantir, no futuro, um novo sorriso.

*João Martins Ladeira gosta de uma discussão. Ponto final. Também colabora com a Escuta.

Anúncios