Fernando Perlatto*

Datas redondas são sempre bons momentos para lembrar. Há eventos que somente se tornam objetos de recordação em efemérides, permanecendo sob o véu do esquecimento durante anos e anos. Precisam deste calendário festivo para que as pessoas parem, repensem, rememorem e cubram de discursos aquele acontecimento que permaneceu durante tanto tempo esquecido, de modo a retirá-lo da tumba da amnésia.

Este, definitivamente, não é o caso de 1968. O ano de 1968 está sempre presente no imaginário, retorna com frequência ao debate, seja como uma boa lembrança daquilo que legou ao mundo, com seus novos sujeitos, reivindicações e desejos, seja como lamento, pelas novas agendas que trouxe, acusadas à direita de imorais, e à esquerda de individualistas e divisionistas. De todo modo, ainda que duradouro no imaginário, não restam dúvidas de que o cinquentenário de 1968 torna-se também uma ocasião especial para uma reflexão sobre aquele período e para um balanço crítico de seus espólios.

No Brasil, os cinquenta anos de 1968 têm sido lembrados, ainda que com menos importância do que merecem. Cadernos especiais nos jornais, eventos em universidades, colóquios em casas de cultura… A indústria cultural também tem buscado responder às demandas criadas por esta efeméride com o relançamento de filmes – a exemplo do box Maio de 68 no cinema, com obras cinematográficas importantes de Jean-Luc Godard, Louis Malle, Chris Marker e Patrick Rotman – e a publicação de livros – reedições, como 1968: Eles só queriam mudar o mundo (Zahar), de Regina Zappa e Ernesto Sotto, e 1968: o ano que não terminou (Objetiva), de Zuenir Ventura, O poder das barricadas (Boitempo), de Tariq Ali, ou lançamentos, a exemplo de 1968. Quando a terra tremeu (Vestígio), de Roberto Sander.

Das obras artísticas originais lançadas até o presente momento, dois trabalhos merecem especialmente destaque, a saber, o documentário No intenso agora, de João Moreira Salles e o livro Um ano depois, de Anne Wiazemsky, publicado pela editora Todavia. O ângulo escolhido por Moreira Salles e Wiazemsky para abordar aquele período, apesar das suas particularidades, se aproxima, na medida em que as duas obras se constituem como relatos muito pessoais, repletos de afetos, sentimentos sinceros, com cortes e seleções particulares, ancorados diretamente em memórias construídas por eles sobre aqueles anos, tendo como eixos condutores da narrativa, no caso de Moreira Salles, a sua mãe, Elisa Gonçalves Moreira Salles, e no caso de Wiazemsky, o seu marido, o cineasta francês Jean-Luc Godard.

Alguns críticos já chamaram a atenção para o fato de No intenso agora, de Moreira Salles, poder ser lido como um grande ensaio sobre o ano 1968, suas origens, características, desdobramentos. De fato, o que temos com este documentário é um ensaio refinado em forma de imagens sobre o maio de 1968 francês e vários outros eventos que ocorreram nos finais dos anos sessenta – com destaque para a Revolução Cultural na China e a Primavera de Praga –, com todos os sonhos, utopias, desejos, vontades, contradições, frustrações, vitórias e derrotas, que a eles estiveram associados. Um ensaio em formato de imagens, repleto de camadas e fragmentos, que vão se desfazendo e se reconstruindo aos poucos, para depois se romperem novamente.

Moreira Salles mistura, de forma sofisticada, sequências de outros documentários sobre o 1968 francês com imagens de arquivos capturadas de filmes profissionais e amadores – inclusive, com a recuperação de imagens muito impressionantes, embora pouco conhecidas, como aquelas, produzidas por uma ainda jovem Eduardo Escorel (que é dos montadores de No intenso agora), durante o cortejo e o enterro do estudante Edson Luis, no Rio de Janeiro, em 1968; as dos tanques soviéticos percorrendo Praga filmados de um janela por um cinegrafista amador; as imagens de uma discussão na porta de uma fábrica sobre o retorno ou não ao trabalho no 1968 francês. Moreira Salles constrói, com este material, um mosaico complexo e diversificado das experiências vividas no final dos anos 1960.

Ao fundo, a voz sóbria do diretor conduz a narrativa em um diálogo permanente com as imagens que atravessam a tela. Embora, como dito anteriormente, a narrativa tenha sua mãe, Elisa, como a principal protagonista – a partir da exposição de várias imagens de sua viagem turística à China maoísta, em 1966, com um grupo de empresários, em um país que atravessava as consequências da Revolução Cultural –, o filme embaralha as dimensões do privado e do público, transitando não apenas pelo universo particular e afetivo dos Moreira Salles, mas também pela China comunista, pelo maio de 1968 francês e pela Praga de Dubcek, invadida pelos soviéticos.

Já o livro de Wiazemsky não é somente um relato pessoal da escritora sobre o conturbado período de 1968, mas também, e especialmente, uma narrativa sobre seu companheiro, o cineasta Godard, e o maio de 1968 francês. Aqueles que assistiram ao filme O formidável, de Michel Hazanavicius, com o protagonista Godard sendo interpretado por Louis Garrel (ator de um dos melhores filmes a retratar 1968, Os sonhadores, de 2003, dirigido por Bernardo Bertollucci) já haviam tido a oportunidade de ter contato com a narrativa de Wiazemsky. Porém, a obra Um ano depois é um testemunho muito mais refinado do que o filme, narrando de forma leve, mas ao mesmo tempo complexa e nuançada, os cenários, os atores, as experiências e os sentimentos da autora e de Godard naquele período.

Quando os protestos tomaram as ruas de Nanterre e de Paris em 1968, Wiazemsky era uma jovem atriz, com apenas vinte anos. Neta do escritor François Mauriac, premiado com o Nobel de Literatura de 1952, Wiazemsky morava no Quartier Latin junto com Godard, que havia dirigido a atriz no filme A chinesa (1967), considerado por muitos como um dos precursores do maio de 1968 francês. Assim como ocorre com o documentário No intenso agora, há aqui uma articulação muito refinada entre os mundos público e privado. O conturbado cenário político e social tem, é claro, guardadas as devidas proporções, seu equivalente no mundo privado, quando se desloca o foco dos protestos públicos para a relação entre o casal Wiazemsky e Godard, que vai se tornando cada vez mais tensa e distante ao longo do livro. E se esta costura entre o público e o privado já é digna de nota, pelo esmero com que é realizada, a narrativa construída por Wiazemsky traz uma contribuição ainda mais relevante: ao falar do grande personagem Godard em 1968, ela o torna “pequeno”, “ordinário”, no melhor sentido do termo, na medida em que ela o humaniza. Mostra que mesmo mitos como o cineasta francês são formados de carne, osso, de emoções, sentimentos contraditórios, que afloram ainda com mais intensidade em conjunturas conturbadas como a de 1968, quando se ampliam as inseguranças, os temores, as expectativas, os sonhos e as decepções.

O documentário de Moreira Salles e o livro de Wiazemsky ajudam a refletir sobre diferentes aspectos acerca da experiência de 1968. Em primeiro lugar, é interessante mobilizar essas duas obras artísticas no sentido de pensar de que maneira 1968 deve ser compreendido como um fenômeno heterogêneo, diverso, múltiplo; nesse sentido, 1968 deve ser interpretado como um mosaico de acontecimentos diversos e não como um evento único e restrito a uma geografia específica. Ainda que conferindo privilégio à experiência francesa, Moreira Salles desloca o olhar, tendencialmente eurocêntrico deste acontecimento, e leva o público a pensar em 1968 de forma descentrada, a partir da valorização de experiências políticas diversas, como a chinesa, a tcheca e também a brasileira, marcadas por características muito particulares. Já o livro de Wiazemsky, embora também centrado na experiência francesa, ao narrar os deslocamentos de Godard e da jovem atriz por diferentes espaços, mostra como 1968 – compreendido em uma chave mais ampla – foi também um momento de impressionante efervescência cultural – inclusive, com uma profunda inter-relação e imbricamento entre cultura e política, como se verifica no mergulho de Godard na militância política – , marcado pelo sucesso de bandas como os Rolling Stones (Wiazemsky narra em seu livro a gravação do célebre documentário Sympathy for the Devil, filmado por Godard e lançado em 1968) e pelo trabalho de uma formidável geração de cineastas, que conviveram com o casal naquele período, como Bertolucci e Pasolini.

Outro aspecto interessante que emerge do documentário de Moreira Salles e do livro de Wiazemsky diz respeito ao fato de que as duas obras mostram como um determinado evento histórico é vivenciado de formas diversas e plurais pelos sujeitos. Muitas vezes quando se pensa em acontecimentos como aqueles que ganharam curso no mundo no final dos anos 1960 tende-se a imaginá-los como experiências “chapadas”, isto é, como momentos vivenciados de uma única maneira pelas diferentes pessoas. Perde-se aí de vista o quanto cada momento histórico, a despeito da dimensão coletiva e societária, é experenciado de forma muito individual pelos sujeitos. Observe-se, por exemplo, o contraste sugerido no documentário No intenso agora entre o mundo político da China maoísta e o mundo privado de Elisa Moreira Salles. Da mesma forma, é possível contrastar as reações diversas de Wiazemsky e Godard frente aos eventos de 1968: a primeira, variando de uma posição mais racional, de uma observadora perspicaz dos rumos dos acontecimentos, até uma postura que beira, em algumas cenas, a alienação deliberada; o segundo, alternando momentos de lucidez com outros de uma militância política que recai, em várias ocasiões para uma ingenuidade gritante, resvalando no patético.

Seria possível analisar outras questões sobre as experiências de 1968 a partir do diálogo entre o documentário de Moreira Salles e o livro de Wiazemsky. Mas, para finalizar, gostaria de destacar um aspecto que aproxima negativamente os dois livros e que, a meu ver, se constitui como o elemento mais frágil destas duas obras. Me refiro mais particularmente a uma perspectiva melancólica, que subjaz ambas as narrativas, como a sugerir que 1968 foi uma experiência da derrota. É até interessante pensar de que maneira as duas obras contribuem no sentido de problematizar uma interpretação festiva e, de certo modo hegemônica, sobre 1968 como uma experiência exclusiva da vitória – que ganha mais corpo em momentos celebratórios como a efeméride deste ano –, chamando a atenção para derrotas e perdas importantes que ocorreram naquele contexto. Porém, o tom geral das duas narrativas – sobretudo por se ancorarem, ainda que implicitamente, em uma visão desconfiada e pejorativa da política e das utopias gestadas naquele contexto – acaba por pesar bastante este lado, privilegiando um interpretação derrotista daquela experiência. Se os vários 1968s não podem ser analisados somente em uma perspectiva positiva, é um equívoco não perceber e valorizar o quanto aqueles anos legaram em termos de possibilidades e sonhos de emancipação política, social e cultural. Valores, sentimentos e agendas que ainda são urgentes nos dias de hoje.

* Fernando Perlatto é um dos Editores da Revista Escuta.

** Imagem disponível em: <https://litci.org/en/may-1968-50-years-from-the-revolutionary-wave-that-shook-france/&gt;. Acesso em: 18 jul. 2018.

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