Jorge Chaloub*

A Copa do Mundo constrói uma peculiar geopolítica. Distintamente dos quadros de medalhas na Olimpíadas, onde as disputas entre potências econômicas e militares hegemônicas costumam estar fielmente expressas nas primeiras posições, o futebol cria cenário onde competidores improváveis subvertem PIB’s, IDH’s e outros indicadores do gênero.

O histórico sucesso em campo do Uruguai ou o protagonismo do Brasil no cenário do futebol mundial contrastam, por exemplo, com sua influência cultural, econômica ou militar.

Creio, na esteira do belo livro de José Miguel Wisnik – Veneno Remédio: o futebol e o Brasil -, que parte significativa desses caminhos decorrem da própria natureza do jogo. A ampla margem narrativa inerente a um esporte capaz de abrigar múltiplas linguagens – ideia que o ensaísta remete a Pasolini –  e onde o placar sempre representa de forma incompleta os eventos do jogo dificulta a reprodução mecânica de situações das partidas e a construção de um biótipo mais adaptado às vitórias, modo pelo qual a hegemonia em boa parte dos outros esportes é construída. Por mais que os bons técnicos se destaquem por sua habilidade de reproduzirem situações de jogo nos treinamentos e que os aspectos físicos do futebol, como velocidade e força, tenham merecido especial destaque nessa Copa, a própria natureza flutuante do jogo sempre foge às determinações aparentemente últimas.

O futebol carrega, assim, caminhos muito complexos em meio a uma aparente simplicidade. O singelo jogo de dois times de onze com regras de simples compreensão traz em sua plasticidade e porosidade percursos imprevistos, que o tornam particularmente difícil de compreendê-lo em sua totalidade. Não sem motivo, são tão comuns as simplificações resolutas dos que comentam o jogo. Nesta toada, o futebol é frequentemente objeto de grandes sínteses definidores e sucessivos fins da história, seja em relação a uma suposta essência compreendida apenas pelo que fala – futebol é “vontade!”, “tática”, “talento”, “força!”, “camisa!” – ou relacionado a estradas definitivamente percorridas pelo jogo: “hoje é linha defensiva de 5 e jogador de 2 metros que ganha Copa!”. Por vezes as grandes conclusões dão certa graça aos debates sobre o jogo, que por seu próprio lugar no mundo demanda adesões apaixonadas, mas, muitas vezes, apenas recaem nas intermináveis ladainhas dos idiotas da objetividade ou da subjetividade.

A Copa é tempo propício para tais grande narrativas simplificadoras. Sobretudo pelo caráter do evento, que pode funcionar aos olhos de muitos como uma síntese dos últimos quatros anos e um caminho para os próximos quatro. Deste modo, a vitória do Brasil em 2002 foi a consagração do talento, a da Itália em 2006 dos sistemas defensivos, a da Espanha em 2010 do tiki-taka, a da Alemanha em 2014 do jogo coletivo agressivo e do “planejamento” e a atual copa, seja que for a campeã, das linhas próximas, que tiram o espaço do adversário, e da força física. Cada uma das guinadas ganhava tons definitivos, como prova de que o futebol mudou e abandonou suas características de outrora.

Há, por certo, tendências mais gerais em curso e são inegáveis, para qualquer um que se dedique a assistir um jogo de Copa de algumas décadas atrás, as transformações no modo de jogar, como a redução dos espaços e tempos. Algumas ponderações, entretanto, são necessárias. Por um lado, essas transformações são uma constante do esporte, claras para qualquer um que não deseje estabelecer uma cisão irredutível entre certa pré-história e uma moderna história do futebol. A clássica seleção brasileira de 1958 traz, por exemplo, transformações como o papel dos laterais, e pontas, e a linha de 4 na defesa a substituir a linha de 3 que, então, ganharam contornos como partes de uma inevitável marcha histórica e, posteriormente, se revelaram mais maleáveis do que a aparência sugeria. Contra a conclusão da tendência inelutável do predomínio do porte físico dos jogadores, podemos expor o papel de enorme destaque que jogadores sem nenhum de tais traços ocupam no futebol mundial – Messi, Neymar, Hazard, Modric, De Bruyne, a lista não teria poucos nomes – ou mesmo a radical diferença do recentemente hegemônico estilo espanhol, vitorioso entre seleções e clubes. Por outro lado, a combinação entre força física, velocidade e técnica pode ser levantada como parte relevante do sucesso e jogadores de outras épocas, como Pelé e Jairzinho, por exemplo.

A Geopolítica, ponto de início do texto, é outro campo onde as grandes conclusões ganham incrível volume ao longo da copa. Usualmente ao lado de uma sociologia apressada, logo surgem heróicas nações multiculturais e bravos povos anticoloniais a enfrentarem notórios representantes do nazi-fascismo e imperialismo. Representantes do mercado, por sua vez, disputam com nações tipicamente anticapitalistas. O movimento ganha ainda mais força com a plataforma das redes sociais mais populares, onde a construções de personas públicas demanda a constante demonstração de “estar do lado certo” das polêmicas do dia.

Não resta dúvida de que as seleções carregam marcas do ambiente nacional do seu futebol, seja em relação ao estilo de jogo ou às culturas políticas lá vigentes. A uniformização de nações inteiras parte, entretanto, de um ponto de vista conservador clássico, de que nações são todos orgânicos e uniformes, premissa cada vez mais difícil de ser defendida frente a jogadores desde cedo socializados em um cenário fortemente globalizado do futebol. Uma direta consequência dessa premissa, difícil de ser evitada uma vez que nela se embarca – é o discurso de fortes tons discriminatórios que marcaram a imprensa internacional ao longo da copa, com destaque para a inglesa, sobre condutas de em campo de jogadores não europeus. Se os fortes ataques a Neymar – que merece críticas, mas não do tipo e intensidade escolhidos – foram destaque, eles não esgotaram esse tipo de narrativa, que atingiu seleções coma a Colômbia e figurou ao lado de construções fantasiosas, como uma suposta tradição de jogo limpo e ausência de malandragem da Inglaterra.

Os problemas não passam pela análise que vê o entorno do futebol dentro das quatro linhas, já que que boa parte das virtudes do jogo decorre do seu caráter poroso ao externo, de modo a reformular em outras linguagens os embates do mundo. A grande questão está, justamente, em como tais análises não adentram as quatro linhas, mas limitam o jogo a um ou outro aspecto externo, escolhido como central para compreensão do que lá transcorre. Falar do jogo não depende de alguma expertise especial, mas demanda uma vivência, das arquibancadas aos campos de pelada,

O olhar para o jogo permite, neste sentido, uma percepção mais clara do que vem de fora, tomando o futebol como lente privilegiada para uma série de fenômenos sociais. O papel dos moinhos satânicos do capitalismo global, com suas consequências destruidoras sobre as culturas locais, é melhor compreendido com um olhar para as transformações do modo de jogar dos sul-americanos e africanos, após seus radicais movimentos de êxodo para a Europa, do que por meio de simples dicotomias requentadas. Até mesmo porque o futebol é pródigo em nos lembrar dimensões mais complexas do mundo social, como a ampla sorte de ações da fortuna e consequências não intencionais das ações, sempre aptas a desmentir generalizações fáceis. Contra as firmes conclusões de uma inelutável hegemonia europeia, as lembranças dos frangos do Júlio Cesar, em 2010, e dos gols perdidos por Palácios e Higuain, em 2014, são lembranças salutares de que, como bem ponderava Tocqueville, a História é feita não apenas das grandes causas, mas também dos pequenos acidentes.

 * Jorge Chaloub é um dos editores da Escuta.

Imagem disponível em: http://www.dicaseducacaofisica.info/copa-do-mundo-1930/

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