Josué Medeiros*

 Cada nova pesquisa sobre as eleições presidenciais é um novo 07 de abril. Naquele dia de profunda injustiça, Lula parou o tempo e deixou em suspenso o país. Desde então, o tempo segue parado e seus eternamente elevados índices de intenção de voto nos levam outra vez a assistir e torcer pelo “cara” em São Bernardo.

A potência disso é evidente e, ao mesmo tempo, paradoxal: Lula banido é o povo farto do que se tornou a vida desde o golpe. “Mas a crise começou com a Dilma em 2015”. É verdade, e se a direita fosse inteligente teria mantido seu compromisso com a democracia e apostado no desgaste do lulismo até 2018. O golpe não só radicaliza um processo de piora da vida das pessoas como adiciona uma nova qualidade nesse processo: a perseguição política, o arbítrio do judiciário. “Como aceitar que tantos políticos investigados concorram e somente aquele que nos fez bem seja impedido?”.

O paradoxo emerge justamente da paralisia que resulta da crise brasileira. Crise da democracia, rio maior alimentado pelos afluentes da crise econômica e política. O povo está farto, esgotado. Toda a energia acumulada em nossa sociedade se esvai no desalento generalizado. O tempo para não em chave positiva, e sim como uma imutável realidade de opressão. A crise, enfim, é crise dos múltiplos tempos que vivenciamos no cotidiano e na nossa história, e que paralisam a política de um modo angustiante.

 

Brasil, periferia e múltiplos tempos da política

 Marx, cujos 200 anos celebramos em 2018, apostava nas crises como momentos de abertura, de um tempo condensado no qual a política pode tudo. O “Mouro” sabia, contudo, que os tempos em cada país caminham diferentes. O tempo é relativo, diria outro revolucionário no século XX, mas Marx já formulava isso politicamente no XIX. Inglaterra como modelo do desenvolvimento da economia política burguesa – O Capital! – e por isso, sede da I Internacional, articulação ampla e plural em que se formulava uma incipiente “economia política do trabalho”; A França como modelo das revoluções, primeiro a burguesa em 1789; em 1848 o primeiro confronto aberto entre burguesia e proletariado da história, com a primavera dos povos; em 1871, a Comuna!

Quando Marx pensava a sua Alemanha, ou a Rússia, percebia que os tempos eram outros. A periferia do capitalismo se mobiliza nos múltiplos tempos, com suas formações nacionais complexas, plurais, atravessadas por um sem número de contradições causadas pelo tsunami da relação-capital em outros modos de vida.

Nós brasileiros temos a estranha mania de nos sentirmos especiais. Em ano de Copa então, levamos isso muito a sério. Daí vem a afirmação de que o Brasil é o melhor exemplo da periferia do capitalismo e seus múltiplos tempos, todos eles crivados de conflitos (ao contrário do que prega uma outra mania nossa, aquela que nos afirma como pacíficos). Conhecemos o tempo lento, da grande marcha (China!). O tempo que se move sem se mover de Canudos, dos Sertões, dos camponeses em êxodo. E também o tempo fragmentado, ágil, e de curta duração das guerrilhas (Cuba!). O tempo que surpreende os poderes, dos quilombos e povos indígenas em simbiose com o território.

O século XX vem com o tempo acelerado das fábricas e das cidades, da classe trabalhadora. Tempos da França e da Inglaterra, da Itália e da Espanha, quiçá da Rússia. As greves gerais de 1917! A luta antifascista nos anos 1940! As greves nacionais de 1953 a 1961, exitosas em atrasar o golpe por uma década! As greves selvagens de Osasco e Contagem em 1968, cuja memória ecoa na brutalidade do AI-5. As greves do Lula, do ABC, das greves gerais dos 1980 (três! Infelizmente ainda pouco estudadas).

Em paralelo a isso, as explosões espontâneas e descontroladas da cidadania que vive na cidade, mas não vive a cidade. Dos pobres, os “vagabundos”. Tempo da Revolta do Vintém, contra o aumento da passagem (não foi só por 0,20 centavos já no século XIX!); da Revolta da Vacina, conjugando direito à moradia e direito à saúde. Lutas pelo direito à cidade antes mesmo dessa noção se consolidar. Um tempo disruptivo dos levantes, dos quebra-quebras de ônibus e trem, dos enfrentamentos contra a autoridade do Estado. O tempo de maio de 1968, o tempo de junho de 2013.

Tempos estes, todos eles, forjados no caldeirão de um intenso e contraditório desenvolvimento econômico, do capitalismo extremo e desigual. Da convergência entre atraso e moderno emerge um tempo paralisado, o tempo do cansaço coletivo e individual, o tempo de uma sobrevivência infinita e impotente. O tempo da fome de Josué de Castro. Das Vidas Secas de Graciliano. O tempo das estatísticas de morte de negras e negros, da violência contra as mulheres. O tempo que não anda. Tempo da crise que nos petrifica.

2018 tem sido o ano auge desse tempo modorrento. Muita coisa acontece, e nada acontece ao mesmo tempo! Como é possível que ninguém faça nada? Não importa o que se passe, eles continuam lá, tudo continua como está. “Tem que manter isso aí”: esse é o grande objetivo das elites nas eleições de 2018. E o nosso?

 

2018: eleições, novos ciclos. Democracia?

Entre o tempo parado da potência do Lula e a paralisia da crise, as eleições têm pela frente a Copa. Ambas sempre se misturam no Brasil: aqui futebol é política desde tempos imemoriais. Esporte dos ricos apropriados pelos pobres, elemento fundamental da identidade nacional a partir de 1930, espaço central da sociabilidade trabalhadora, instrumento de luta contra o racismo. Lula mesmo usou e abusou das metáforas futebolísticas para forjar sua imagem e simbolismo. Ao mesmo tempo, o futebol, de acordo com a bela prosa de Wisnik, é o único esporte com temporalidade fraturada, no qual equipe nenhuma domina o tempo. Os múltiplos tempos são a essência do futebol, a bola que domina os jogadores e não o contrário como no vôlei ou basquete.

Nas bolhas da esquerda nas redes sociais, a bola está mais uma vez dividida em um “Fla-Flu”: contra e a favor da Copa. Há também os “isentões”, como este que vos escreve: vamos torcer e politizar ao mesmo tempo. Múltiplos tempos da adesão e da crítica. Como já ocorrera em 1970. Como deveria ter sido em 2014 se o recado de junho de 2013 tivesse sido compreendido e incorporado pelo petismo.

Em 2018 não há risco do Hexa ser utilizado para legitimar o pior governo da história. Em paralelo ao jogo, habemus processo eleitoral, com a tensão pré-campanha pegando fogo. A superfície disso estará nas articulações de chapas. A substância reside em que tipo de democracia teremos a partir de 07 de outubro de 2018. Aos poucos e com muita dificuldade, as elites políticas e econômicas vão compondo um quadro eleitoral dentro do que eles consideram como “normal” para a manutenção dos modos de dominação do nosso capitalismo extremo. Caminhamos a passos largos, embora lentos, para consolidar, no pleito de 2018, o processo iniciado com o golpe: esvaziamento da democracia e organização de um novo arranjo institucional que supere a Constituição de 1988, perigosa demais para os poderes nacionais e internacionais.

Pela “normalidade” das urnas sem risco, o primeiro a ser excluído foi o Lula. O golpe se completa com a inviabilização de uma alternativa popular e de massas, a lá 1947, quando o PCB foi banido do sistema político após conquistar 10% dos votos na eleição presidencial de 1946. Não é à toa que o PT se vê atravessado por dilemas muito próximos aos do comunismo no final dos anos 1940, com um impulso de autoafirmação que reforça o isolamento bloqueando movimentos mais realistas e frentistas.

Em seguida, busca-se impedir o surgimento de uma alternativa que organize o sentimento da anti política da classe média, permitindo que essa energia permaneça sob controle do PSDB. A saída de Joaquim Barbosa do jogo cumpre esse papel, sobretudo porque a Marina (candidata com potencial de ocupar esse espaço) se inviabiliza sozinha, sem partido, sem programa, sem ideais. A desistência de um pré-candidato com 10% de intenções de voto e perspectiva de crescimento afirmado em todas as pesquisas não pode ser tratado como mera decisão pessoal do ex-ministro do STF. Forças poderosas operaram, provavelmente usando meios escusos. Agora a energia volta-se para a candidata da Rede, com propostas de composição que, embora improváveis, não podem ser descartadas tal é o grau de acordo da ambientalista com os tucanos.

O próximo da lista será o Bolsonaro. O sistema político precisa esvaziá-lo para que o Alckmin se consolide enquanto o líder da mesma coalizão que deu o golpe, quando a direita conservadora e a classe média urbana marcharam unidas contra Lula, Dilma e os mais pobres. Os ataques que o candidato militar sofreu meses atrás foram o prenúncio. Bolsonaro está consolidado em torno de 15%, mas não passou dos 20% com saída de Lula – possibilidade indicada em algumas pesquisas. Tampouco conseguiu atrair um número expressivo de parlamentares. Segue inepto em termos de programa, incapaz de apresentar qualquer proposta consistente. Terá contra si artilharia pesada.

Nesse quadro “normal”, Alckmin e o PSDB lideram a coalizão neoliberal e conservadora. Buscam diminuir a fragmentação (Álvaro Dias, Flávio Rocha, Rodrigo Maia, Henrique Meireles) para garantir os votos da classe média urbana do sul e sudeste, da classe média rural do agronegócio e algum voto entre os mais pobres pela chave do conservadorismo religioso, pelo debate da violência e pelas máquinas estatais.

A direita precisa necessariamente da divisão da esquerda para se viabilizar. O PT, além de perder Lula, segue como alvo central dos ataques golpistas. Se apresentará fragilizado com candidatura própria, sem ser sombra da máquina eleitoral que já organizou, com um potencial enorme de divisão diante de um salve-se quem puder de parlamentares e governadores. Sua única chance é a transferência direta da popularidade de Lula para o candidato petista. A melhor forma de fazer isso ninguém sabe.

Ciro Gomes mantém um bom patamar de partida, porém sem ampliar seu leque de alianças terá dificuldade de se posicionar para ir ao segundo turno. Com a saída de Joaquim Barbosa, abre-se uma possibilidade com PSB. Se esse movimento der certo, o candidato do PDT se fortalece e fatalmente leva junto o PC do B. Os comunistas, apesar do excelente desempenho que a Manu tem tido na pré-campanha, dificilmente resistirão ao seu DNA aliancista. A recente declaração de Flávio Dino é um sinal forte disso. Uma frente desse tipo, caso se viabilize, significará uma pressão enorme para o PT e para Lula e certamente terá condições de chegar diretamente no eleitorado lulista.

Nessa conjuntura, a candidatura Boulos pode crescer bem. PSOL e MTST falam em um processo mais amplo tanto do ponto de vista social – alianças, engajamento de novas personagens políticas – quanto política, com um programa que rompa com o sectarismo que marcou as candidaturas anteriores do PSOL (Heloisa Helena, Plinio e Luciana Genro). O sucesso dessa empreitada também é fundamental para abalar os planos da coalizão golpista. O padrão “normal” conta bastante com a posição sectária dos setores mais à esquerda, o que favorece a divisão e o isolamento. Boulos e a direção do PSOL sabem disso. Resta saber se conseguirão vencer as energias que vivem dentro do seu campo e que empurram o líder sem-teto para o gueto e que fazem o partido submergir em táticas eleitorais exclusivamente parlamentaristas. A entrevista de Boulos no Roda Viva foi um golaço nesse sentido de romper a bolha.

Quanto a Copa, o Brasil vem forte, muito mais do que em 2014, quando o ufanismo nos levou a ignorar não só as vozes dos milhões de jovens nas ruas, mas também a fragilidade de uma equipe com Bernard e David Luiz entre as estrelas. O quarteto Neymar, Gabriel Jesus, Coutinho e Willian promete. Nossa zaga e volantes estão entre os primeiros do mundo. Nosso problema está na saída de bola, pois perdemos Daniel Alves e Renato Augusto, que dividiam essa função com o inigualável Marcelo. E também no banco, com poucas (quase nenhuma) alternativa de jogo. Por outro lado, temos pela frente adversários fortes, mas cheios de problemas. A Argentina não tem treinador – já demitido no pós Copa – nem time; a Espanha, que brilhou no último semestre (sapecou uma goleada nos hermanos) entrou em crise profunda e demitiu o treinador faltando três dias para a Copa começar. A França tem excelentes valores, mas são na sua maioria jovens, sem experiência necessária para um título. Sobra a, sempre ela, Alemanha. Forte. Confiante. Regular. Uma possível final seria a revanche do 7 a 1. Em termos futebolísticos, com certeza. Mas para a vida do povo, somente um resultado eleitoral que nos devolva a democracia, os direitos e o nosso futuro pode nos devolver a alegria e as esperanças.

*Josué Medeiros é professor de Ciência Política da UFRJ e colaborador da Escuta.

Imagem disponível em https://eleicoes.uol.com.br/2010/ultimas-noticias/2010/06/10/serra-pode-aproveitar-melhor-clima-de-copa-diz-especialista.jhtm

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