Wallace Andrioli Guedes*

Numa cena do último episódio da primeira temporada de O Mecanismo, o ex-policial federal Marco Ruffo (Selton Mello) tem uma epifania que o leva a, enfim, entender como funciona a corrupção no Brasil. O diretor Daniel Rezende e o montador Marcelo Junqueira constroem esse momento com uma série de planos-detalhe das mãos do personagem compondo o que parece ser um complexo quadro explicativo do tal “mecanismo”, acompanhados de uma música que sugere ação eletrizante, reforçando a importância dessa descoberta para a trama. Concluído o trabalho, Ruffo olha orgulhoso para o quadro, que simplesmente revela o que já vinha sendo mostrado nos sete episódios anteriores: as relações espúrias entre políticos, doleiros e empreiteiras tendo como centro a Petrobrás (aqui, renomeada PetroBrasil). Pouco depois ele continua sua obra empolgado, sobrepondo a esse primeiro circuito corrupto um outro, originário de um pequeno caso ocorrido em sua rua, e então chama a esposa para explicar o que descobriu: que a corrupção, no Brasil, está presente não só no âmbito macro, envolvendo políticos e empresários, mas também em pequenas ilegalidades cometidas cotidianamente (“o flanelinha que recicla talão, a carteirinha falsificada pra pagar meia-entrada, o suborno pro guarda pra aliviar a multa”). Esse é o “mecanismo”. Isso é O Mecanismo. José Padilha, criador da série, muito provavelmente acredita ter construído uma análise complexa da questão. Talvez ele não saiba que esse é um raciocínio muito presente no senso comum, que poderia ser melhor resumido numa postagem de Facebook, numa corrente de WhatsApp, num meme.

Padilha é um cineasta da anti-política. Não acredita nas instituições, apenas na força de indivíduos de boa vontade que consigam romper com uma lógica sistêmica de dominação. É o caso do Capitão Nascimento em Tropa de Elite 2 (2010), de Ruffo e dos policiais federais Verena (Caroline Abbras), Gilhome (Osvaldo Mil) e Vander (Jonathan Haagensen) em O Mecanismo. Para o diretor, os políticos sintetizam o que há de pior na sociedade: são mentirosos, demagogos, permissivos ao poder econômico, protegem a si mesmos de qualquer ameaça externa pelos meios que julguem necessários e, sobretudo, são quem botam o “mecanismo” para funcionar – ao menos no caso brasileiro, já que em seu filme mais recente, 7 Dias em Entebbe (2018), Padilha mostrou certa admiração pelos líderes israelenses Itzhak Rabin e Shimon Peres. Daí o fetiche com a surra dada por Nascimento no secretário de segurança pública do Rio de Janeiro em Tropa de Elite 2. Daí o descuido na construção do núcleo político em O Mecanismo, que faz com que suas versões de Lula (renomeado João Higino), Dilma Rousseff (na série, Janete Roscov), Michel Temer (Samuel Thames) e Aécio Neves (Lúcio Lemes) soem como caricaturas dignas do Casseta & Planeta – é difícil não lembrar dos presidentes desse programa humorístico (Devagar Franco, Viajando Henrique Cardoso, Luís Inércio Lula da Silva) quando, por exemplo, Janete surge discursando após ser reeleita já portando a faixa presidencial, como se a mandatária do país carregasse o adereço o tempo todo.

Nesse sentido, aliás, é possível entender a atribuição a Lula/João Higino da famigerada frase do senador Romero Jucá (“a gente precisa estancar essa sangria”) não como um ataque direto ao ex-presidente, já que, para Padilha, não faz diferença quem diz o quê: todos os políticos são igualmente corruptos, com Lula, ali, simplesmente representando a síntese dessa máxima, até pela importância que tem. Nas palavras de Ruffo, “não tem partido, não tem ideologia, não existe esquerda ou direita, quem tá no governo tem que botar a roda pra girar, é um padrão. Isso elegeu todos os presidentes, todos os presidentes até hoje. Quem não adere não vinga”.

É uma pena que Padilha não se interesse por dar densidade ao universo dos homens e mulheres poderosos. Quando esboça fazer isso, ao dedicar algum tempo ao choque sofrido por um executivo da PetroBrasil (Leonardo Medeiros) que vai de uma vida nababesca à prisão numa carceragem da Polícia Federal, a série tem alguns de seus melhores momentos (os outros ficam por conta do doleiro José Ibrahim, inspirado em Alberto Youssef e incorporado com irresistível cinismo por Enrique Díaz). Mas falta entrar de fato nos meandros da política, entender as complexidades daqueles que, na visão do diretor, movem o tal “mecanismo”, para além do maniqueísmo. Um personagem como Lula, por exemplo, com seus erros e acertos, forças e contradições, é dramaturgicamente muito mais interessante que policiais, procuradores ou juízes caçadores implacáveis de corruptos.

Para Padilha, no entanto, só importa deslindar o “mecanismo”, que, na verdade, é o mesmo velho “sistema” presente nas narrativas dos dois Tropa de Elite. Uma estrutura impessoal, genérica, aparentemente indestrutível. O realizador se refugia nessa lógica pseudo-sofisticada, mas não consegue deixar de arranhar apenas a superfície do problema. Em nenhum momento, por exemplo, ele pensa a corrupção no âmbito do capitalismo, como parte estruturante desse sistema econômico. Trata-se de uma simples luta do bem contra o mal (como diz a letra da música “Juízo Final”, de Nelson Cavaquinho, utilizada no último episódio da temporada), de corruptos inescrupulosos contra suas vítimas, brasileiros obstinados e indignados, homens e mulheres “de bem”. Padilha, portanto, não vai além de uma leitura dicotômica e moralizante da política.

Decorre daí aquela que talvez seja a maior limitação de O Mecanismo: a ausência de qualquer perspectiva de classe. Há apenas uma rápida menção a “ricos mais ricos e pobres cada vez mais pobres”, mas os delitos de um flanelinha miserável e de um empresário milionário são igualados no discurso da série. Como o próprio protagonista diz, os que roubam pouco e os que roubam muito são igualmente bandidos. Por não considerar o papel da desigualdade social e das relações entre classes na estruturação da sociedade e da política brasileiras, Padilha não consegue compreender, por exemplo, a possibilidade de um governo como o de Lula (ou de Vargas, para retornar mais no tempo), mesmo atuando de acordo com o “mecanismo”, promover benefícios concretos para os “de baixo”. Para o criador da série, isso é secundário, desimportante, diante do mal maior da corrupção.

Consequentemente, O Mecanismo tampouco considera uma questão a posição social ocupada pelos membros do judiciário, apresentados aqui não como uma casta tão, ou mais, autoblindada que a dos políticos, provenientes de uma mesma elite conservadora cristalizada no Estado há mais de um século (é irônico que, numa determinada cena, a série se remeta à história do Brasil para explicar as origens das práticas espúrias no poder público, mas não o faça para localizar a constituição social das elites nacionais, de forte tradição bacharelesca, conservadora e escravista), e sim como instrumento de cura do “câncer” da corrupção. Em entrevista recente, Ricardo Costa de Oliveira, professor de sociologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e coordenador de um grupo de pesquisa sobre as relações pessoais presentes na magistratura paranaense, revelou como a Operação Lava Jato é em boa medida formada por advogados, procuradores e juízes que “vivem na mesma bolha. Têm as mesmas opiniões e gostos políticos e ideológicos”, constituindo o que ele chama de “elite estatal hereditária”, já que mantêm relações familiares, matrimoniais e de sociabilidade dentro de um círculo de poder que domina a região sul do país desde pelo menos a República Velha. Para o sociólogo, se trata de “um sistema pré-moderno”, que “não funciona através de regras impessoais ou de aspectos técnicos, mas com muito poder pessoal. De modo que o ator, na magistratura, tem uma capacidade incrível de determinar a agenda, a temporalidade dos processos, no sentido de escolher os que quer acelerar e aqueles que serão adiados”. Por fim, ele ressalta que “todos os operadores da Lava Jato também são extremamente conservadores e têm perfil à direita, semelhante aos seus parentes que faziam parte do sistema na ditadura. Naquela época, seus pais eram gente do establishment. E eles herdam a mesma visão de mundo. É uma elite social, política e econômica”.

Nesse sentido, uma figura como Lula, proveniente de fora desses circuitos de poder, de um grupo socialmente marginalizado e inferiorizado, incomoda, e, mesmo atuando dentro da lógica do tal “mecanismo”, logo, reproduzindo práticas ilícitas, é muito mais capaz de produzir mudanças concretas na sociedade do que os herdeiros daqueles que dominam a política e o judiciário brasileiros há mais de um século. O mito, corroborado por Padilha em O Mecanismo, de uma geração de procuradores e juízes disposta a fazer diferente, a finalmente moralizar o país, não passa disso, um mito.

* Wallace Andrioli Guedes é doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e professor do Departamento de História da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) – Unidade de Campanha, além de colaborador da Escuta.

** Crédito da imagem: DIVULGAÇÃO/NETFLIX. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/26/cultura/1522065374_243701.html&gt;. Acesso em: 23 mai. 2018.

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