Fernando Perlatto*

Then there’s the matter of language and tone. Beginning with Goodbye Columbus, I’ve been attracted to prose that has the spontaneity and ease of spoken language at the same time that is solidly grounded on the page, weighted with the irony, precision, ambiguity associated with a more traditional written rhetoric” (Philip Roth, Why write?, 2017 p.65).

“Am I Lonnof? Am I Zuckerman? Am I Portnoy? I could be, I suppose. I may be yet. As of now I am nothing like so sharply delineated as a character in a book. I am still amorphous Roth” (Philip Roth, Why write?, 2017 p.133).

Este não é um texto analítico da obra de Philip Roth. Longe de mim pretender fazê-lo, ainda mais no açodamento, no calor mesmo da hora do anúncio de seu falecimento. É uma pequena, singelíssima homenagem a este enorme escritor, que morreu ontem aos oitenta e cinco anos de insuficiência cardíaca. Por coincidência, semana passada terminei a leitura do livro Why write?, lançado em 2017 pela Library of America, com uma coleção de ensaios, entrevistas e escritos não-ficcionais de Roth. Já havia tido contato com algumas das entrevistas do livro, traduzidas na obra Entre nós. Um escritor e seus colegas falam de trabalho (Companhia das Letras, 2008), no qual Roth estabelece diálogos interessantíssimos com escritores como Primo Levi e Milan Kundera. Outros textos ainda não conhecia e confirmei a admirável capacidade analítica e crítica de Roth, que, além de assombroso romancista, dotado de uma prosa sólida e precisa, era também um analista refinado da literatura – assim como acontece com outros grandes escritores ficcionais contemporâneos, como Borges, Nabokov, Fuentes, Kundera, Llosa e Coetzee –, como se vê em ensaios como “Writing American fiction”, texto oriundo de uma palestra sua em 1960 na Universidade de Stanford, no qual ele sinaliza para onde deve caminhar o romance americano no século XX:

“And what is the moral of history? Simply this: that the American writer in the middle of the twentieth century has his hands full in trying to understand, describe, and then make credible much of American reality. It stupefies, it sickens, it infuriates, and finally it is even a kind of embarrassment to one’s own meager imagination” (p.27).

Ainda que com características muito próprias, Roth fez parte de uma notável geração de escritores norte-americanos que produziram suas obras no período pós-guerra – como Saul Bellow, James Baldwin, Bernard Malamud e Juan Pedro Soto –, que, conforme bem percebido por Silviano Santiago em ensaio recente, trouxeram o tema da identidade para o centro da literatura.[1] Não é surpreendente que este tema tenha ganhado protagonismo, como sublinha Santiago, em uma “nação construída pelo genocídio indígena, a escravidão negra, a imigração dos pobres e a diáspora judaica”. Roth, ao lado de outros escritores como Bellow e Malamud, mapeou com uma agudeza e uma inteligência impressionantes os dilemas dos processos de integração e assimilação, preconceitos e dificuldades várias envolvidos nesta “diáspora judaica”, dando tratamento ficcional, com um humor sarcástico e com uma ironia fina, a temas diversos relacionados à identidade e ao antissemitismo, que atravessavam as experiências de diferentes gerações da classe média judaica na América do pós-guerra.

Mas, ainda que seus mais de trinta livros – que se iniciam com a coletânea de contos Adeus Columbus (1959) e se encerram com Nemesis (2010) – sejam sobre judeus – o que lhe valeu, inclusive, ataques diversos da comunidade judaica, pelo tratamento pouco canônico que a eles lhe dedicava, ataques estes, ressalte-se, respondidos por Roth em diversos ensaios como “New Jewish stereotypes” e “Writing about Jews”, contidos na coletânea Why write? –, seria um enorme equívoco restringir a literatura de Roth a uma abordagem estritamente identitária. A literatura de Roth é sobre os seres humanos em suas múltiplas complexidades, contradições, incoerências, com suas pulsões, fragilidades, loucuras, obsessões, dores, insanidades vícios, luxúrias.

Poucos escritores construíram protagonistas tão sofisticados como Roth o fez, como o incomparável libidinoso titereiro Mickey Sabbath (O teatro de Sabbath, 1995), o freudiano masturbador Alexander Portnoy (O complexo de Portnoy, 1969), o estranho e kafkiano acadêmico David Kepesh (O seio, 1972, O professor do desejo, 1977 e O animal agonizante, 2001), além, é claro de seu alter ego, o rothiano Nathan Zuckerman (que aparece com destaque em Zuckerman acorrentado, que contém três romances, O escritor fantasma, Zuckerman libertado e A lição de anatomia, publicados entre 1979 e 1984, além de um epílogo, “A orgia de Praga”, e em outros romances de Roth). E poucos escritores abordaram o tema do sexo da forma como Roth o abordou em suas páginas, sem qualquer intuito de chocar por chocar, mas também sem qualquer condescendência à pieguice ou aos bons modos.

Como vários dos escritores do pós-guerra americano, como Bellow, Updike, Vidal, Kerouac, Baldwin, Styron, DeLillo, O’Connor, Pynchon, McCarthy, entre tantos outros, Roth mapeou com argúcia, a partir de um ponto de vista muito particular, várias das contradições em torno das promessas do “self-made man” e do “American way of life”. Ainda que sua América não seja tão profunda quanto aquela que aparece nas páginas impressionantes de Lucia Berlin nos contos que compõem O Manual da Faxineira, muitos dos romances de Roth abordam a história americana a partir de personagens comuns, aparentemente banais, deste mundo que se move “por baixo”. Exemplos breves: em Pastoral americana (1997), a partir da história em torno dos conflitos do empresário judeu Seymour Levov com sua filha Merry, Roth traz à tona os embates relacionados à Guerra do Vietnã, durante o governo de Lyndon Johnson; em Casei com um comunista (1998), Roth conta a história do exaltado comunista, ator de rádio, Ira Ringold para abordar o período do macarthismo nos Estados Unidos; em A marca humana (2000), Roth mobiliza para o centro de sua ficção o tema do “politicamente correto”, que ganha espaço nos anos seguintes na América e alhures, a partir da construção de um romance que gira em torno das acusações de racismo dirigidas contra o professor de letras clássicas de uma universidade da Nova Inglaterra, Coleman Silk, após uma declaração de duplo sentido em sala de aula; em Complô contra a América (2004), Roth erige um distopia autoritária, parecendo antever a América de Donald Trump, a partir da narrativa do menino judeu Philip em torno da chegada à presidência dos Estados Unidos do antissemita Charles A. Lindbergh, próximo à Alemanha nazista, após derrotar Franklin D. Roosevelt.[2]

Para além desta história particular americana, vista “por baixo”, outra característica evidente na obra de Roth é a sua escrita autobiográfica. Isso fica explícito na segunda epígrafe que abre este texto. Roth pode, nesse sentido, ser associado – embora com ressalvas – a uma característica muito marcante da literatura contemporânea, do embaralhamento entre ficção e autoficção, ainda que, diferentemente de um escritor como Karl Ove Knalsgard, em sua série Minha Luta, a ficção aqui tenha peso muito maior.[3] Nathan Zuckerman é seu alter ego mais evidente. É com Zuckerman, inclusive, que Roth dialoga diretamente em Os fatos. A autobiografia de um romancista (1988), livro no qual o escritor narra a sua história, desde a infância em Newark, New Jersey, até chegar ao seu mergulho na escrita, passando pelos conflitos que teve com sua companheira, Josie, e com a comunidade judaica. O capítulo que abre Os fatos se inicia com a frase “Caro Roth” e o capítulo que encerra o livro é escrito por Zuckerman, criticando pontos da narrativa autobiográfica construída por Roth. Mas, alguns de seus outros livros são explicitamente autobiográficos – a exemplo do impactante Patrimônio (1991), em que aborda a luta de seu pai com a morte – e muitos de seus personagens, sobretudo os protagonistas, são atravessados por marcas autobiográficas. O próprio nome Philip é usado para nomear o menino judeu de Complô contra a América e aparece de modo evidente na discussão em torno da identidade roubada na história narrada em Operação Shylock (1993).

Roth foi um escritor grandioso, com tudo o que esta palavra representa. Recebeu vários prêmios, como o Pulitzer e o National Book Award, além de ter sido o terceiro escritor norte-americano a ter, em vida, presenciado sua obra ser publicada em uma completa e definitiva edição pela Library of America. Roth não venceu o prêmio Nobel de Literatura. Junta-se a uma lista de tantos outros grandes que não receberam a honraria, como Tolstoi, Proust, Joyce, Virginia Woolf, Nabokov, Borges. Neste ano em que o Nobel de Literatura foi suspenso após várias denúncias e escândalos, a Academia poderia conceder um prêmio póstumo e simbólico a Roth, inclusive como uma forma de retomar parte da sua dignidade abalada.

Notas:

[1] SANTIAGO, Silviano. “Quadriculando o círculo do pós-guerra: políticas de identidade”. <http://www.blogdacompanhia.com.br/conteudos/visualizar/Rascunho-criado-automaticamente-sem-titulo685&gt;

[2] Para uma análise da ficção distópica de Roth, Complô contra a América, em diálogo com Margaret Atwood e Michel Houellebecq, ver: PERLATTO, Fernando. “Ficções e distopias políticas no tempo presente: antídotos reflexivos contra o caráter gradativo do mal”. < https://revistaescuta.wordpress.com/2017/12/12/ficcoes-e-distopias-politicas-no-tempo-presente-antidotos-reflexivos-contra-o-carater-gradativo-do-mal/&gt;

[3] Sobre Karl Ove Knalsgard e a série Minha Luta, ver: PERLATTO, Fernando. “Karl Ove Knalsgard e a descoberta da escrita”. < https://revistaescuta.wordpress.com/2017/09/21/karl-ove-knausgard-e-a-descoberta-da-escrita/&gt;

* Fernando Perlatto é um dos Editores da Revista Escuta.

** Crédito da imagem:  BRIGITTE LACOMBE FOR THE WALL STREET JOURNAL. <https://www.wsj.com/articles/philip-roth-whose-raucous-playful-elegant-and-often-outrageous-novels-about-jewish-life-and-sex-and-death-and-betrayal-made-him-one-of-countrys-greatest-novelists-died-today-at-age-85-1527047786&gt;. Acesso em: 23 mai. 2018.

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