Fernando Perlatto*

Em um livro curto, porém repleto de força, intitulado Cascas, lançado no Brasil no final de 2017 pela Editora 34, o filósofo Georges Didi-Huberman constrói um ensaio delicado e complexo sobre a experiência do Holocausto, após revisitar o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, onde seus avós, judeus poloneses, foram assassinados pelo nazismo. A partir de fotografias e da análise com um “olhar de arqueólogo” de pequenos fragmentos e objetos recolhidos no campo – lascas arrancadas de uma árvore, arames farpados, tijolos –, Didi-Huberman traz à tona uma série de temas que permeiam sua reflexão em torno da experiência dos campos de concentração, destacando-se entre elas o questionamento sobre a possibilidade ou não de se representar culturalmente no tempo presente aquele passado atravessado pela barbárie, de sorte a construir uma memória de Auschwitz.

A discussão em torno do caráter representável ou não da experiência do Holocausto nunca cessa. Estrutura, em grande medida, as reflexões de Adorno sobre a impossibilidade da poesia após Auschwitz. Está presente também nos escritos de autores diversos que transitaram pelo tema, sejam eles acadêmicos, como Andreas Huyssen, sejam eles ficcionistas, como W. G. Sebald. Não obstante suas particularidades, o questionamento gira em torno da possibilidade ou não de, mediante representações artísticas a partir de filmes, fotografias, exposições, romances, musicais ou peças de teatro, dar forma àquela experiência traumática de milhares e milhares de pessoas, sobretudo judeus, que foram enviados para campos de concentração.

O debate sempre retorna, sobretudo quando algum produto da indústria cultural ganha destaque na esfera pública, quer seja pelo impulso que promove à discussão em torno da temática – a exemplo do que se deu quando da exibição dos documentários Noite e neblina, de Alain Resnais (1955) e Shoa, de Claude Lanzmann (1985) –, quer seja quando alguns destes produtos da indústria cultural recebem enorme visibilidade pública, como ocorreu com filmes que, a despeito de suas qualidades, trataram direta ou indiretamente da experiência dos campos de concentração, como A lista de Schindler (Steven Spielberg, 1993), A vida é bela (Roberto Benigni, 1999), O pianista (Roman Polanski, 2002), O menino do pijama listrado (Mark Herman, 2008), O leitor (Stephen Daldry, 2008), A fita branca (Michael Haneke) e O filho de Saul (László Nemes, 2016).

A publicação em 2017 do Diário de Anne Frank, em formato de quadrinhos – produzida por dois israelenses, o ilustrador David Polonsky e o cineasta Ari Folman –, por exemplo, reativou o debate em torno do caráter representável ou não da experiência do Holocausto, havendo, de um lado, aqueles que defendem que produtos da indústria cultural podem contribuir para manter viva a memória em torno deste período histórico e, de outro, setores que criticam esta perspectiva, interpretando iniciativas como estas como uma banalização da experiência do terror.

No que concerne mais especificamente ao terreno literário, diversos foram os romances que abordaram de forma explícita ou metafórica a experiência do nazismo, conformando aquilo que Huyssen chamou de uma “literatura do Holocausto”, com nomes como o próprio Sebald, Rolf Hochhuth, Peter Weiss, Paul Celan e Jean Améry. Mas, foi sobretudo a literatura memorialística, daqueles que vivenciaram diretamente a experiência e sobreviveram aos campos de concentração, como Primo Levi, Elias Wiesel, Eva Schloss e Chil Rajchman, Nonna Banister e Marga Minco, que se mostrou mais potente na inquirição daquela experiência.

Dois livros recentemente publicados no Brasil, escritos por romancistas pertencentes a famílias de judeus que foram perseguidos pelo Holocausto, evidenciam a capacidade da literatura memorialística no sentido de retomar fios e rastros não propriamente da experiência dos campos de concentração, mas de dimensões do cotidiano do período de expansão pela Europa do nazifascismo. Refiro-me especificamente às obras A cena interior, de Marcel Cohen, e Léxico familiar, de Natalia Ginzburg, lançados, respectivamente, pela Editora 34 em 2017, e pela Companhia das Letras em 2018. Esses livros se aproximam por serem narrativas autobiográficas, ancoradas na memória, construídas por escritores de ficção pertencentes a famílias judias que tiveram suas vidas, percursos e trajetórias diretamente atingidas pela repressão nazifascista.

Há nos livros de Cohen e Ginzburg um embaralhamento sutil entre ficção, não-ficção e pós-ficção, embaralhamento este característico da literatura contemporânea, como se vê nos escritos de Sebald, Lucia Berlin, Philip Roth e Karl Ove Knausgard. A imaginação atua na reconstrução das memórias dos dois escritores, que testemunharam as manifestações dos autoritarismos sobre suas famílias a partir do olhar infantil e juvenil. De acordo com Cohen, que tinha cinco anos e meio quando tudo ocorreu: “Por mais que constituam pequenos sedimentos, os fatos aqui reunidos são lacunares demais para que se possa esboçar um retrato; tentar liga-los uns aos outros na forma de um relato seria passar à ficção. Ora, uma ficção daria a entender que a ausência e o vazio podem ser expressos” (p.7-8). Como diz Ginzburg, também jovem testemunha dos fatos narrados: “Não inventei nada: e toda vez que, nas pegadas do meu velho costume de romancista inventava algo, logo me sentia impelida a destruir tudo que inventara (…). Embora extraído da realidade, acho que deva ser lido como se fosse um romance: ou seja, sem exigir nada a mais, nada a menos, do que um romance pode oferecer” (p.15).

O livro A cena interior é um capricho. Traz uma gota de delicadeza para o caos e o terror daquele período conturbado. Cohen reconstrói, sem qualquer preocupação com linearidades, momentos das vidas de seus familiares – pai, mãe, irmã, avós paternos, tios-avôs –, transportados e mortos em Auschwitz em 1943 e 1944, quando o autor tinha cinco anos de idade. Cada capítulo é aberto com uma foto do familiar e informações sobre o ano e o lugar do nascimento, além da data e do número do comboio que o/a levou a Auschwitz. Esta reconstrução, repleta “de silêncios, de lacunas e de esquecimento”, e que busca “encontrar uma forma para o informe” (p.9), é realizada a partir da lembrança de conversas, da análise de fotografias, da menção a objetos (par de luvas, livros, violino, rede de cabelo, copo para ovos cozidos, estojo de cigarros); da memória de cheiros de perfumes, de roupas; da recordação de toques, de olhares, de pequenos gestos.

Dessas memórias emergem cenas do cotidiano da repressão dirigida contra os judeus na França, sob o regime colaboracionista de Vichy. A obrigatoriedade do uso da estrela amarela no espaço público, a separação de vagões nos trens, a interdição aos jardins públicos que “eram proibidos aos cães e aos judeus” (p.30), a perda da cidadania e a conversão dos judeus em apátridas, as manifestações de preconceito no cotidiano, a tentativa de se manter discreto para não chamar a atenção, a proibição da atividade comercial por conta do decreto de 26 de abril de 1941, a espoliação dos bens, as batidas policiais nas casas, a obrigação de se submeter a hospitais precários e superlotados reservados às grávidas judias, antes de serem embarcadas para Auschwitz, sob “vigilância das enfermeiras, da gendarmeria francesa à entrada, dos inspetores à paisana e da Gestapo” (p.32).

E são destas memórias também que emergem personagens como os pais de Marcel, Marie e Joseph, que, apesar de toda repressão, buscam gretas e frestas no sistema para o exercício de pequenas resistências e subversões contra o autoritarismo, a exemplo do não uso da estrela amarela em certas ocasiões, da manutenção das reuniões familiares aos domingos, mesmo quando proibidas pelo regime nazista, do apoio de amigos franceses que buscam, ainda que sob riscos, auxiliar de diferentes maneiras aqueles diretamente atingidos pelo arbítrio. E, sobretudo, esta resistência se manifesta na manutenção da dignidade, exemplificada por figuras como Mercado Cohen, que, durante a Ocupação “recusou indignado a toda sugestão de abandonar sua poltrona no bulevar de Courcelles para escapar às batidas policiais. ‘Só os ladrões e os assassinos tratam de se esconder’, repetia ele aos quatro filhos” (p.92).

O livro de Natalia Ginzburg está também centrado na história de sua família judia, mas, assim como ocorre com os Cohen, acaba por ser também a história de parte de uma geração atingida pelo nazifascismo. Ginzburg era a caçula de cinco irmãos da família Levi e conta aqueles anos de ascensão do nazifascismo, a partir de uma perspectiva particular, em uma prosa simples, porém, atravessada por força, sem rebuscamentos e tons emotivos. Léxico familiar não é um livro direto, explícito; está repleto de nuances, entretons. Os personagens da família Levi, o pai e a mãe, os seis irmãos, seus encontros, suas conversas, suas frases e seus léxicos, suas trajetórias, seus afetos e suas discussões, as relações que constroem entre eles próprios e entre os amigos, vão se desenhando aos poucos, se apresentando de forma matizada ao leitor, pelos olhos sensíveis e atentos da narradora.

É a partir das observações de alguns acontecimentos aparentemente banais feitas pelas lentes sensíveis de Ginzburg que vamos percebendo o crescimento gradativo do fascismo na Itália, até alcançar uma dimensão mais explícita, com a “campanha racial”. Diz a narradora em determinado trecho: “Meu pai voltava para casa sempre furioso, por ter encontrado no caminho cortejos de camisas-negras; ou por ter descoberto nas reuniões da faculdade novos fascistas entre seus conhecidos” (p.45). Mais à frente: “Os antifascistas, com o tempo, tornavam-se cada vez mais raros: e meu pai, ao ouvir que existia algum, logo se alegrava” (p.70). Cito outro trecho: “Mas entre os amigos de meu pai e de minha mãe muitos tinham se tornado fascistas, ou pelo menos não tão aberta e declaradamente antifascistas como agradava a eles. Por isso, com o passar dos anos, sentiam-se cada vez mais sós” (p.103). Estas frases corroboram a percepção do caráter gradativo do mal, que, se manifesta pouco a pouco em ações e acontecimentos aparentemente prosaicos, que, uma vez não contidos, acabam se expandindo para o restante da sociedade.

O avanço do fascismo atingirá de forma dramática esta família socialista e antifascista e muitos dos seus amigos próximos – como Filipo Turati, Cesare Pavese e Giulio Einaudi – que, engajados na resistência, terão suas vidas profundamente afetadas, perdendo a cidadania italiana e tornando-se apátridas, sendo afastados de seus postos de trabalho – como ocorre com o patriarca da família, que perde sua cátedra na universidade –, ou sendo presos ou exilados – como acontece com vários dos irmãos Levi. Leone, o primeiro marido de Natalia, após perder a cidadania e ser encarcerado várias vezes, acaba por morrer na prisão, “durante a Ocupação alemã, num fevereiro gélido” (p.171). A violência e o autoritarismo manifestam-se não apenas pelos atos do Estado, mas nos acontecimentos cotidianos, que vão conformando um processo de desestruturação, que somente não é completo, pois resistências existem, e elas aparecem tanto no espaço público, quanto no privado, por famílias como os Levi, que encontram nos afetos familiares as teias que permitem não naufragar diante do avanço do mal.

Em seu ensaio Cascas, mencionado no início deste texto, Didi-Huberman faz o seguinte questionamento: “cumpre então simplificar para transmitir? Embelezar para educar? Radicalizando, poderíamos dizer: temos de mentir para dizer a verdade?” (p.48). Cohen, em A cena interior e Ginzburg, em Léxico familiar, constroem representações muito particulares da experiência nazifascista, sem simplificações e embelezamentos. Misturando memória e ficção, trazem, cada qual ao seu modo, algumas histórias de seus familiares durante aquele período e, sem precisar recorrer a um emotivismo piegas e a frases de efeito, arquitetam representações muito potentes sobre a ascensão e o impacto brutal de regimes autoritários sobre o cotidiano, bem como sobre as resistências construídas no dia a dia. Ao fazerem isso, esses dois livros, para mobilizar novamente Didi-Huberman, contribuem para “rasgar o clichê já formado pela fetichização da memória” (p.101) e sensibilizam o leitor.

 

* Fernando Perlatto é um dos editores da Revista Escuta.

 

Anúncios