Carlos Procópio*

A disputa pela cidade envolve o antagonismo de narrativas. Por um lado o direito à cidade, onde seus defensores conclamam o acesso aos benefícios da vida urbana. Para eles, a questão da moradia demanda uma lógica de inclusão que transforme a cidade em uma coisa que esteja a serviço das pessoas. Por outro lado, a cidade como negócio, onde seus apoiadores desejam uma vida urbana protegida daquilo que ameaça seus interesses econômicos. Para eles, a questão da moradia passa pela defesa de um modelo de habitação que consideram sadias, vistoriadas e caras. Para os primeiros, que também querem moradias limpas e seguras, rechaçando apenas o alto custo dos imóveis, seu antagônico poderia estar ao seu encontro. Para os segundos, que querem uma moradia a altura de quem pode pagar por ela, aqueles que lhes opõem estariam sempre em rota de colisão. Estas duas narrativas se mostram no evento do último dia 01 de maio de 2018, na esquina da Avenida Rio Branco com a Rua Antônio de Godoy, no centro da capital paulista. Um prédio de vinte e poucos andares, ocupado dentro do contexto da luta pela moradia em São Paulo, foi tomado pelas chamas que se iniciaram a partir de um dos apartamentos. Os moradores rapidamente saíram do prédio, enquanto o fogo consumia todo o edifício, que em pouco tempo veio a desabar. Ainda não se sabe o que esperar do meio dos escombros. Os muitos que saíram se acomodaram no entorno da igreja localizada no Largo do Paysandu, próximo ao prédio. No meio da incerteza para onde deveriam ir, emergia o grito pela necessidade de se ter direito a uma moradia digna. Lutavam por isso, sendo a razão pela qual ocupavam o edifício abandonado.

Mal a intensidade das chamas eram controlada, o poder público, a grande mídia e os grupos reacionários se movimentavam para buscar promover o evento a favor dos interesses da cidade como negócio. Essa tamanha mobilização contrasta com a inércia em relação aos problemas que há tempos persistem no entorno do prédio, principalmente moradores de rua que dormiam debaixo das marquises e no largo próximo, que jamais foram foco de ação pública. Alguns políticos tentaram acessar os moradores sobreviventes e deles fazer plataforma política. O discurso do cuidado e do amparo eram acionados. Mudança para abrigos e aluguel social eram colocados à disposição. Os porta-vozes desse pacote de ajuda, prefeito, governador e o presidente, foram fortemente hostilizados. Bem sabiam os moradores que essas garantias não lhes davam condições para viver no centro da cidade. Ao mesmo tempo o discurso de criminalização começava a ser acionado por grupos na rua e na internet. Os ocupantes seriam os responsáveis pelas mazelas do prédio e sua deterioração, que ocasionaram o desabamento. O movimento de luta pela moradia, que organizava as ocupações, é propalado como organização criminosa, uma vez que não deixavam que edifícios como esses fossem tratados como mercadorias, tal como desejavam os defensores da cidade como negócio.

As necessidades levaram com que alguns moradores arrumassem um lugar provisório para passar a noite. Os que não dispunham de meios para ir para qualquer lugar tiveram na resistência a única saída. Sabendo da realidade dos locais para onde o poder público desejava encaminhá-los, decidiram permanecer nas portas da igreja. Apesar de deixados a qualquer tipo de sorte, ainda contavam uns com os outros para trocarem apoio e organizarem o acampamento. A realidade dessas mulheres e homens é bem diferente daquelas que também tiveram que sair dos prédios vizinhos às pressas. Gozavam de recursos para irem provisoriamente para outros lugares, seguramente bem longe da realidade da rua que naquele dia passa a ser espaço de refúgio dos moradores do Edifício Wilton Paes de Almeida.

Aos poucos o acampamento que se formava foi sendo foco das ajudas vindas de moradores do entorno, movimentos sociais e organizações religiosas. Os moradores acampados passaram a noite muito próximos de onde até algumas horas atrás eram suas casas, ainda sobre o cheiro forte da cal e da pedra que queimavam. Noite adentro as redações dos jornais já recebiam informações para apresentar as respostas para a tragédia. Independentemente dos fatos que teriam levado ao incêndio que rapidamente se alastrou, o noticiário do dia seguinte era unânime em afirmar o responsável: as “ocupações irregulares”. Essa era a praga contra qual o poder público lutaria para evitar novos desastres. Na manhã seguinte o acampamento já estava cheio de jornalistas a procura de tragédias pessoais para veicularem ao longo do dia na programação dos telejornais. Relatos familiares de perda e rostos expressando sofrimento acabavam sendo utilizadas para obscurecer o problema do acesso a moradia no centro da cidade, que em nenhum momento era apresentado para o grande público. A mobilização do sentimento coletivo de caridade, que certamente ajuda aliviar a aflição dos desalojados, acaba servindo como subterfúgio para jogar para debaixo do tapete as especulações imobiliárias que não tem interesse em dar fim social para muitos edifícios em São Paulo.

A cidade que amanheceu um dia depois da catástrofe retoma seu ritmo normal. Ainda é uma cidade de contraste e indiferença. O cidade pulsa como pulsava dois dias atrás. Próximo ao local do acontecido a circulação das pessoas segue seu movimento diário. Algumas pessoas param para fotografar e comentar o incidente. A piedade por aqueles que perderam seu lar dá rapidamente lugar para a criminalização das ocupações. A disputa pela narrativa vai tomando a direção desejada por aqueles que anseiam pelos negócios. No acampamento os moradores vão recebendo visitas e apoio dos que eram seus vizinhos e que desejaram outra sorte para a noite passada. Grupos vão se formando para conversar, criticar as ações do poder público ou puxar alguma palavra de ordem. Tudo leva a crer que aos poucos serão retirados no largo, por convencimento ou por repressão, haja vista os agentes da prefeitura que buscam dialogar com os acampados e as dezenas de viaturas da polícia que cercam a região esperando uma ordem para ser cumprida. Mas a resistência em favor do direito à cidade não dá indícios de que cederá tão facilmente ao seu antagônico. Mulheres reclamam que não querem 5 minutos de fama na televisão. Para elas a moradia é um direito e que querem um teto na região em que escolheram para tocar suas vidas e criar suas filhas e filhos. Meninas ainda com tão pouca idade, principal objeto de vilipêndio de câmeras fotográficas e filmadoras e da especulação de jornalistas, quando indagadas se moravam na ocupação, optam pelo silêncio, reclinam a cabeça e a movimentam sutilmente na horizontal. Nos seus poucos anos de vida já entendiam que o prédio era sua casa, um lugar que era delas por direito, muito mais que uma ocupação.

*Carlos Procópio é professor de sociologia e antropologia no Instituto Federal de São Paulo (IFSP), ministra disciplinas nos cursos de Geografia e de Arquitetura e Urbanismo, é Pesquisador vinculado ao Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP) e colabora com a Escuta.

**Crédito de Imagem: cedida pelo autor.