Raquel Lima*

“Eu, Daniel Blake”, de Ken Loach, foi ovacionado com choro e já pouco esperançosos clamores por resistência na sua sessão de estreia durante o Festival de Cinema do Rio de Janeiro, em 2016. Mais um exemplar do cinema político de Loach, o filme conta a saga do trabalhador virtuoso massacrado pela falência do Estado que se vale da pérfida máquina burocrática para vilipendiar os seus direitos.

Ali, a plateia de esquerda, verdadeiramente comovida, buscava transportar Daniel Blake para o eminente cenário de degradação das condições de trabalho no Brasil promovido pelo golpe. Emocionávamos e gritávamos em solidariedade aos nossos.

Narrativas são importantes. Buscamos por registros que nos sirvam para recontar a História, ou melhor, por disputa-la. Vocalizar as injustiças sociais através de Daniel Blake cumpria esse objetivo naquele momento. Mostrávamos o nosso mal-estar, a nossa revolta e sensibilidade ante a tragédia cotidiana. Tão logo a emoção se aquietara, se fazia necessário adaptar aquele enredo ao nosso cenário tropical. Confesso que, toda vez que recorro ao Manifesto Comunista, sinto-me atraída pelo emblemático chamado à união de todos os trabalhadores. Significados distintos do trabalho, contudo, nos impõem o reconhecimento dos nossos Daniel Blake, daqueles que labutam em condições onde os direitos reclamados e exigidos pelos trabalhadores ingleses, retratados no filme de Loach, são muito mais quimeras que realidade.

Assisti Arábia no 1º de Maio de 2018. Finda a exibição, em uma sala pequena, mas novamente cheia de gente de esquerda, se produziu um silêncio cortante, perturbado apenas por uma frase: “Que soco no estômago”. Petrificados e já calejados pelos episódios de nossa história recente, o silêncio imediato não era sinal de ausência de emoção. As cabeças balançavam em sinais afirmativos e os pulmões comunicavam o movimento de introspecção através de longas respirações. Lágrimas não fizeram parte daquela sessão, tal como haviam inundado a projeção de “Eu, Daniel Blake”. Nossos humores, já bastante gastos pela conjuntura, são cada vez mais apresentados em outras modulações. Distintas daquelas de Outubro de 2016.

Ensimesmados ao final de Arábia, precisávamos de tempo para assimilar o personagem que nos havia sido apresentado. Estávamos diante de um trabalhador sem qualquer qualificação, sem qualquer resguardo dos seus direitos, sentenciado pela pobreza e pela sua criminalização à ocupação dos lugares “invisíveis”, convenientemente ignorados.

João Dumans e Affonso Uchôa não deram apenas voz a Cristiano, lhe deram humanidade. O brutalizado é humanizado em uma narrativa primorosa, feita em primeira pessoa, que nos convida à imersão na trajetória árida do personagem central. Não há em cena um herói convencional como Daniel Blake, que esbanja sua “humanidade” ao proteger a mãe desamparada, ao exigir da burocracia estatal empatia, ao demonstrar, sobretudo, o valor do seu ofício através da beleza do que produz. Conferimos automaticamente dignidade a Daniel Blake, pois reconhecemos nele toda a estética e valores que douram nossa visão do trabalho, do trabalhador organizado.

Tarefa mais difícil é conferir essa humanidade dignificada a Cristiano. Sua identidade não pode ser confundida a um ofício, pois ele não o tem. É uma história de trabalho, não aquele dignificante, mas o degradante, destinado a uma sobra de sociedade. Aqueles que não conseguimos nomear, que não conseguimos agenciar em luta. Quebrar pedras, carregar toda sorte de mercadorias, fundir alumínio, colher mexerica, o labor pesado pra gente bruta. É esse o universo que produz o nosso herói, exemplar daqueles com os quais muitas vezes nos comunicamos por monossílabas e, quando muito, nos contentamos a lamentar por suas existências sem interior.

Interior este que é entregue através de um léxico avesso a caricaturas, capaz de nos revelar um ator competente em dar consequência a sua trajetória. A tensão entre liberdade e a prisão, esta ampliada para além da cadeia, é o dilema colocado por Arábia. Cristiano luta por sua subjetividade, transgride por ela, rejeita a ideia de voltar a ser sufocado por uma lógica totalizante que acaba por sentenciá-lo. Seu percurso pelo interior das Minas Gerais após o cárcere, não é apenas o impulso da fruição da liberdade recém conquistada, mas resultado da impossibilidade de voltar ao bairro de sua juventude sem o risco de ser imobilizado novamente. Sua individuação é radical. Não há marcas de pertencimento, não há residência fixa, os seus afetos estão sujeitos a seu constante movimento por sobrevivência.

Faltam-lhe palavras para se comunicar com o que foge à sua experiência. Os afetos que o vinculam aos amigos feitos na prisão, no canteiro da obra, na estrada, são, contudo, transmitidos sem dissonâncias através do diálogo, da música, do apoio mútuo. Ana e o amor correspondido são o que mais o aproximam dos padrões. Dois mundos que estão sentenciados a não se encontrarem, ora pelo infortúnio da vida cotidiana, ora por uma distância social imensa que os separa. Aqui, mais uma vez, a desigualdade nos é sugerida com severidade. Ana é uma auxiliar administrativa de uma tecelagem do interior que domina a língua falada e escrita. Nada mais nos é colocado como produtor de distinções sociais, mas, mesmo assim, compreendemos essa distância, esse quinhão fundamental de dignidade que é interposto entre os dois.

Ironicamente a grande ameaça para o protagonista está no trabalho na metalurgia, realizado na idílica Ouro Preto. Cidade descrita sob um ponto de vista avesso aos cartões postais. Há algo naquele ambiente que o vence, não só a ele, mas a tudo o que o rodeia. Sozinho embrutece, é esquecido, se funde tal como o alumínio na paisagem adoecida pela poeira tóxica.

Arábia é prenhe das belezas de Minas Gerais, da música de Noel interpretada por Bethânia, mas é a possibilidade de ver o belo ante uma realidade insuportável que nos comove. Recurso largamente utilizado no cinema, aqui é colocado para dar vida a um personagem que finalmente ganha identidade aos nossos olhos. Não faltam exemplos na cena artística brasileira, da literatura ao Cinema Novo, do uso da voz de personagens do povo para conferir realismo ao que é representado. Atualização desta rica tradição, o cinema político de Dumans e Uchôa não produz a ilusória imagem do indivíduo potente apto a reinventar a ordem. Nem, tão pouco, sufoca a possibilidade de mudança. Um dos encontros de Cristiano se dá com Barreto, velho sindicalista que irrompeu em lutas por onde passou, mas, como mal agouro para nós, não pode mais se fazer rebelde.

Retrato de uma época, esse registro nos coloca em contato com um personagem presente do nosso cotidiano, que não pode ser folclorizado, nem tão pouco esvaziado de desejos e potências. Conhecemos um pouco dos seus afetos, dos seus crimes, do seu degredo, para criarmos empatia com o que nos é tão incomodamente familiar.

*Raquel Lima é doutora em sociologia e, às vezes,a gêmea má. Também colabora com a Escuta.

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