João Martins Ladeira*

É notável a reconstrução do passado em The Post: A Guerra Secreta (The Post, 2017, de Steven Spielberg). Há um cuidado com as máquinas de escrever, telefones, tipos de impressão, roupas e carros que não existem mais. Comparem-no com Todos os Homens do Presidente (All the President’s Men, 1976) e salta aos olhos, ali, uma construção muito menos preocupada com os detalhes de ambientação. Como poderia ser diferente? Alan Pakula realizou seu trabalho instantes depois dos fatos narrados ocorrerem, numa tentativa de mumificar o presente enquanto ele acontecia. Decerto, as minúcias são importantes em The Post, mas por um sentido que as ultrapassa. Ao refletir sobre os Papéis do Pentágono como uma antessala do Watergate, o filme surge na esperança de que tal tempo ainda não se tenha apagado.

Porém, se, no ímpeto de recapturar uma força do ontem para o agora, é óbvio que o filme não trata apenas de Nixon (mesmo quem nada percebeu viu que versa sobre Trump), tal questão cabe a analistas políticos. Para o cinema, o cerne de The Post reside em como estes detalhes se subordinam à reconstrução do aspecto monumental pelo qual tal tipo de cinema encara a história. É claro: Spielberg está reconstruindo a nação. Absolutamente, não se trata do primeiro diretor norte-americano a fazê-lo, na catarse moral de heróis que precisam ultrapassar seus limites, encontrando, na comunidade, a força para conduzir a sua tarefa. Nesta obra, o espetáculo se constrói entre quatro paredes, num traço sugestivo importante de analisar.

Elaborada através de dois pontos de tensão máxima, toda a narrativa retoma, em cada um deles, uma mesma decisão, como uma espiral. Quando chega o primeiro momento, todos os personagens parecem ainda um tanto incertos sobre a sua missão. O “Let’s publish” de Kay Graham (Meryl Streep) soa indeciso. Ben Bradlee (Tom Hanks) não consegue responder ao advogado do jornal sobre o risco de sua decisão pôr em risco a vida de soldados. As incertezas desaparecem apenas na passagem para o segundo giro, quando Bradlee e Kay se deparam com o risco da prisão. Pleno de certeza, o editor não hesita, agora, em responder de outro modo à pergunta que já lhe havia sido feita. Kay será absolutamente enfática: os conselheiros que não concordarem com sua decisão que entreguem suas posições. Retirem-se do negócio os banqueiros incapazes de compreender que, ao cobrir a Casa Branca de Nixon, o embate com o governo é o feijão com arroz do dia-a-dia.

São circunstâncias em que os personagens se encontram dispostos a pôr em jogo desde a empresa até a própria liberdade. Quando assistimos a um encontro pregresso entre Kay e Bradlee, talvez cogitemos se o empenho do editor em trazer o escândalo à tona não representa apenas um ato de vingança contra políticos que mentiram para todos, inclusive para ele próprio. Outra conversa, desta vez entre Kay e McNamara (Bruce Greenwood), permite indagar se as motivações da heroína não resvalariam na compensação por se ter arriscado a vida de um filho numa guerra inútil. Todavia, no instante decisivo, a lição de sacrifício ultrapassa qualquer egoísmo, deixando claro que ambos retiram forças do mesmo lugar onde o vaqueiro de Caravana de Bravos as tinha encontrado (Wagon Master, 1950, de John Ford).

A questão não é apenas que Spielberg busque – novamente – esta solução. O problema está em como ele o faz. A unidade que procura se constrói não na imensidão do Oeste, mas no interior de residências que mais pareceriam dignas de se tornar cenários para os melodramas dos anos 50 sobre a vida doméstica. Mas vamos com calma. Para chegar à sua solução, Spielberg se utiliza de sua principal habilidade. Em sua crítica na Cahiers du Cinema, Jean-Sébastien Chauvi percebeu brilhantemente a fórmula deste autor. Há, no roteiro de Liz Hannah e Josh Singer, a troca interminável de palavras imposta à narrativa por este tipo de intriga. Contudo, no filme que vemos existe principalmente a ação, oferecida por tal realizador do início ao fim.

A condução da película depende de uma montanha russa de acontecimentos – o estagiário esperto que se infiltra na redação do New York Times ou a montagem paralela conduzindo recorrentemente às máquinas de impressão a nos alertar para o tempo que passa. É de uma precisão engenhosa certa comparação do crítico francês: não se trata tanto a caixa de sapatos nas quais uma parte dos Papéis do Pentágono chega ao Post quanto as embalagens trazidas por Ben Bagdikian (Bob Odenkirk) de seu encontro com Daniel Ellsberg (Matthew Rhys) como a Arca da Aliança de Indiana Jones (Os Caçadores da Arca Perdida, Raiders of the Lost Ark, 1981)? Anthony Lane, na New Yorker, traçou correspondência semelhante, ao associar este mesmo momento quando os repórteres se aventuram nos segredos de Estado à descoberta, no sótão em Os Goonies (The Goonies, 1985, de Richard Donner), de um mapa do tesouro.

Toda a investigação do filme nos guia a certas intervenções semelhantes aos atos de meninos traquinas ou às artimanhas de exploradores sagazes, transformando parte da história do governo Nixon numa aventura da qual o expectador, pelo preço do ingresso, ganha o direito de participar. Todavia, parte dessa ação ocorre não no vazio, mas em cenários bem específicos. O filme gira em torno de alguns poucos interiores recorrentemente revisitados durante a expansão que conduz ao clímax da película. Se é esta a ação capaz de reconstruir a América, ela vai depender, contudo, de fatos que ocorrem em alguns lugares determinados, recintos cujo desenho adquire central importância. O filme de jornalismo versa sobre a redação, decerto; mas, em The Post, é notável a importância que as casas dos personagens adquirem.

Se, como é típico ao cinema norte-americano, a reconstrução histórica aí contida demanda uma coalizão bastante ampla de forças, em The Post a solução implica a reconexão entre dois lugares, reordenando as divisões entre os envolvidos. Por um lado, há os salões de Kay, por onde a acompanhamos sentindo o ar que circula nas altas rodas, com ela estranha, ainda, à tarefa que deverá cumprir. Ao mesmo tempo, vê-se o ambiente da redação, um espaço profissional no qual se presencia a afirmação da ideia-chave: lá, Bagdikian e o advogado do Post contrapõem as visões de mundo do jornalista e do defensor legal. Mas não é neste espaço onde a tensão se resolve. Não por acidente, outra parte da ação se estende à casa de Bradlee, para a qual se deslocam seus garotos em travessuras.

Há uma imagem dobrada em The Post, que se inclina entre um e outro extremo, esperando apenas o instante certo quando os muitos atos convergentes poderão reencontrar a nação. O território de cada casa serve como contraponto a uma outra residência, como modo de mostrar as suas diferenças momentâneas, aguardando o instante decisivo em que se associarão. Conforme a ação se desdobra, é lá que os indivíduos se fortalecem através de fatos que ocorrem em universos particulares repletos da singularidade de cada um.

A casa de Kay possui tons pastéis, uma residência burguesa na qual, num instante crucial, a heroína pende da sala de jantar decorada para os seus seletos convidados, a mesa já posta embaixo de um lustre luxuoso, em direção ao hall de entrada. É neste momento que recebe Bradlee, e o quadro separando a cena em duas metades permite enxergar cada um destes mundos seccionados. Os personagens se movem para o escritório, e, então, o editor repensa seus vínculos com JFK e Jackie. Agora, os elos passados entre mundos estranhos, impróprios à missão do jornal, terão de ceder lugar ao dever. Além das conexões de Bradlee com Kennedy, também as de Kay com o próprio McNamara precisam ser desfeitas para alcançar um objetivo maior. O editor, então, retorna para a sua casa, um ambiente azulado de classe média repartido entre o escritório do jornalista e a o estúdio da esposa.

É lá, e não na redação, que o furo do Post é redigido, assim como é também lá que o conflito entre advogados e jornalistas cresce, num impasse que demanda a intervenção de Kay. Ao professar a sua primeira decisão, é como se a personagem precisasse ser confiscada de seu círculo social para participar da conferência telefônica que faz a ação girar o seu circuito. A sala se fecha, e, enquanto os telefones permitem à montagem saltar de um ponto a outro, a heroína estará sozinha, com a câmera a observá-la do alto, como uma figura em meio ao sisudo escritório de cor marrom. Os instantes de tensão se aproximam do ápice, e os personagens, quando num pico da crise, surgem enquadrados em contraponto ao teto sobre suas cabeças, com o peso de uma elegantíssima decoração.

Ao chegar a hora de enunciar sua vontade pela segunda vez, a sequência decisiva começa com Kay no quarto de seus filhos, cercada por uma singela decoração infantil, até que, convocada por uma serviçal, dirige-se ao primeiro piso por uma escada que separa este espaço do ambiente privado. Os próprios roteiristas confirmaram: o toque específico de seu trabalho reside na figura da Sra. Graham, uma personagem feminina na sua trajetória em direção a este universo masculino. Decerto, alguns críticos argumentaram que o filme deveria se chamar The Times. Ao dizer isso, deixaram de perceber o óbvio: com esta alternativa, se deixaria de lado exatamente aquilo que os escritores decidiram abordar.

Esta ascensão da figura feminina ocorre exatamente em espaços onde a mulher poderia ser vista, outrora, apenas como parte de um drama de Douglas Sirk. Isto quer dizer que The Post se constituiria tão somente como um disfarce para um filme deste outro gênero? Claro que não. Indica apenas que ele se apropria de um traço outrora típico a certo cinema no qual a mulher era a protagonista. Esta sensação de intimidade retorna exatamente porque vai ser utilizada com outros fins, produzindo o lar como meio de expressão num momento delicado, quando a afirmação pessoal adquire um imenso significado coletivo. Nada mais sugestivo que todas as minúcias de The Post – objetos e lugares – sirvam para uma retomada gloriosa do passado em meio a uma mescla curiosa de signos.

*João Martins Ladeira acredita no poder da Primeira Emenda. Mas não disfarça para ninguém: tal crença oscila ao sabor do dia. Do que não duvida é da velha purgação do drama. Também colabora com a Escuta.

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