Joyce Louback*

Na última década e meia, o Brasil esteve imerso em um processo de consolidação e aprofundamento da democracia que resultou em alguns movimentos importantes, como a redução da miséria, o nascimento de um novo mercado consumidor, o aumento da renda e do crédito, a afirmação de identidades, entre outros aspectos. De todas estas transformações significativas, talvez aquela que tenha recebido maior atenção foi o aparecimento da classe C e de seu estilo vida alicerçado no consumo e no acesso a bens – que nem sempre se converteu no acesso a direitos. Neste contexto, a democracia brasileira forjou novas práticas e linguagens cidadãs, que extrapolaram o plano institucional e que ampliaram o entendimento de um ciclo político que propôs a combinação de políticas sociais e prosperidade econômica. Em consonância às mudanças e avanços no campo democrático, a vida cultural brasileira ganhou novo fôlego a partir da pluralização de vozes na esfera pública. A produção artística das periferias brasileiras ganhou proeminência ao traduzir os anseios e conquistas da nova classe média insurgente e, por vias distintas, colocar em discussão as perversidades das tentativas de inclusão social pelo consumo.

O rap e o funk estão na linha de frente do processo descrito acima. Sem querer retomar a gênese dos dois gêneros musicais no Brasil e sua importância seminal para a construção e manutenção da democracia no país, é fundamental reconhecer que ambos revitalizaram os modos de se produzir cultura na periferia após os anos 2000. A batalha do passinho, o funk ostentação, as barbearias especializadas em cortes estilizados, os rolezinhos, as letras feministas, os slams (ou batalhas de poesia), a chegada das lan houses e o reconhecimento no cenário mainstream formam um conjunto de novidades que descrevem a pluralidade das expressões estéticas das periferias brasileiras. Em contrapartida, o sucesso de letras misóginas, a introdução de um discurso conservador no rap, a apologia ao crime, entre outras dinâmicas, podem ser consideradas faces de uma mesma moeda, cujo valor está em tornar visíveis aqueles que sempre estiveram em condição de exclusão. E é justamente a invisibilidade o fator agregador de movimentos artísticos que integram um imaginário que sinaliza todas as mudanças profundas enfrentadas pelas classes populares. Neste contexto surgem figuras centrais que fazem da vida na favela um lugar de construção de redes de solidariedade entre a juventude pobre e marginalizada, as quais engendram um circuito de produtos e subjetividades que percorrem atalhos e elaboram eficazes estratégias de sobrevivência através da arte.

Entre 2009 e 2013, a periferia de São Paulo sofreu a perda de três ícones da cultura periférica, cujas trajetórias de vida foram forjadas na subalternidade, e que, de maneiras muito peculiares, tornaram-se referências salutares para milhares de jovens. As mortes de Dener Antônio Sena da Silva, o MC Zóio de Gato, em 9 de abril de 2009; de Viviane Lopes Matias, a Dina Di, em 20 de março de 2010; e de Daniel Pedreira Senna Pellegrine, o MC Daleste, em 7 de julho de 2013, todas em circunstâncias trágicas, criaram ídolos que, ainda que não tenham experimentado a ascensão e o sucesso comercial, tiveram suas obras e trajetórias referendadas por um público que mantém suas memórias relevantes.

Mas quem foram Zóio de Gato, Dina Di e Daleste? E de que maneira a construção do mito em torno destes três artistas revela tanto sobre a complexidade da vida nas periferias do Brasil? O fascínio exercido pelos ídolos, de maneira geral, talvez revele os sentidos que criamos para as nossas vidas cotidianas, a partir de relações de admiração que estabelecemos com indivíduos que estão espacialmente distantes, mas cujas obras e feitos os tornam porta-vozes das nossas alegrias e angústias mais íntimas. Sendo assim, o que dizer sobre os ídolos da juventude periférica e suas trajetórias de vida tão próximas a de seus simpatizantes, as quais conferem a eles um lugar especial na vida de milhões de pessoas marcadas pelos mesmos infortúnios? A indústria cultural sempre foi pródiga em promover a idealização de pessoas e suas obras, no sentido da concepção de uma imagem representativa e comercializável. O funk e o rap, como produtos desta mesma indústria, também não escaparam destas fórmulas e possuem seus ícones, aquelas figuras que ganharam um status quase sagrado. Mas ao falarmos de Zóio de Gato, Dina Di e Daleste, nos colocamos diante de um impasse, tendo em vista suas condições precárias de vida e as formas de divulgação dos seus trabalhos, que passaram ao largo dos escritórios das grandes gravadoras ou dos planos estratégicos das agências de publicidade. Este texto parte da celebração do legado dos três artistas citados para tentar compreender como a periferia e suas linguagens múltiplas e democráticas estabeleceram conexões fortes com sua juventude a partir do funk e do rap.

Dos artistas citados, apenas MC Daleste experimentou o sucesso comercial. A força da divulgação do seu trabalho pela internet, marca das produções de funk desde o final da última década, fez do garoto da zona leste de São Paulo um ídolo que saiu dos limites da favela, passando a receber um cachê alto, realizando mais de 30 shows por mês, algumas aparições na grande mídia, milhões de visualizações no youtube e uma legião de fãs. O assassinato do MC a tiros no palco de um show em Campinas colaborou para a construção de um mito que permanece vivo nas favelas do Brasil. Seja nos vídeos em homenagem ao cantor, nas músicas dos parceiros ou nas passeatas pedindo por justiça, Daleste ainda é uma referência definitiva para os funkeiros de todo o país.

Zóio de Gato e Dina Di não desfrutaram dos mesmos êxitos de Daleste. Embora pertencessem a gerações e estilos diferentes, os dois artistas nasceram e morreram em condições precárias, sem que suas carreiras tivessem o reconhecimento merecido. Ele, morto aos 16 anos em um acidente de carro na saída de um baile funk na zona sul de São Paulo, e ela, vítima de uma infecção hospitalar, contraída em função das complicações do parto da sua segunda filha, tornaram-se figuras centrais nas cenas do funk e do rap, respectivamente, mesmo atuando longe dos holofotes e do glamour da vida artística. Se Zóio de Gato se auto-intitulava “a voz da favela”, Dina Di tornou-se legitimamente uma representante das mulheres detentas e de todas aquelas que de alguma forma tiveram suas vidas atravessadas pela experiência do cárcere. A construção identitária dos fãs do MC e da rapper se dá, certamente, pelas relações entre a subalternidade, a invisibilidade e as possibilidades de construir algum tipo de resistência aos desafios da dureza cotidiana. Zóio de Gato e Dina Di estão vivos nos grafites nos muros da Vila Natal, nas rodas de rima, nas carceragens, nos som alto dos carros que cortam as vielas, na presença cada vez maior das mulheres no rap e, sobretudo, no imaginário da juventude periférica, que afirma e reafirma a importância destes artistas das maneiras mais sutis e modestas.

O papel da memória na construção do mito em torno de Zóio de Gato, Dina Di e Daleste pode ser compreendido através da produção de discursos que relembram, através da obra de tais artistas, as vivências marcadas pelas privações e sacrifícios, mas que representam um alento para a juventude um alento, uma forma de persistir diante das adversidades. As narrativas sobre a produção cultural das classes populares transitam entre o sucesso comercial e a recente espetacularização da vida periférica. No entanto, há caminhos intrincados que driblam o ciclo conhecido de produção dos ídolos que é balizado pelo consumo e a vida material. Os três artistas tratados aqui foram alçados a condição de ícones, sem que isso tenha significado a construção de heróis com base no reforço aos estereótipos e imagens atreladas ao sucesso. Embora MC Daleste tenha flertado com a fama e o dinheiro, os artistas citados neste ensaio não se encaixavam naquelas características comumente atribuídas aos ídolos. As inserções – transitórias ou não – no mundo do crime, a vida pobre, as letras sobre a vida comum dos jovens favelados, a exclusão permanente, entre outros fatores, compõem um tipo ideal de ídolo que, mesmo após a morte, tem seus discursos fortalecidos por jovens que se inspiram nas trajetórias destes indivíduos desviantes. Mais do que a construção da idolatria, o imaginário heroico vinculado às imagens de Zóio de Gato, Dina Di e Daleste confluem para a constituição de um campo de lutas quase imperceptível que, ao destacar os feitos destes artistas e a importância das suas obras, mantém o interesse permanente por figuras cujas vidas facilmente cairiam no esquecimento, não fossem a potência de suas letras e condutas. As homenagens e o resgate da memória destes artistas são eixos que articulam itinerários periféricos, os quais asseveram um universo de identidades e possibilidades que rompem, ainda que simbolicamente, com a invisibilidade e exclusão.

* Joyce Louback é doutora em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ), além de colaboradora da Escuta.

 

** Imagem disponível em: < http://ihateflash.net/set/batalha-do-passinho-cantagalo-rioeuteamo/344471>. Acesso em: 25 abril 2018.

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