Matheus Vital de Oliveira Mendes*

“Il faut se cacher”, Almeida Faria

O maior inimigo da literatura, diferentemente do feminismo inquisitorial de Vargas Llosa, é, ao meu ver,  a ideia de uma carreira literária, bem como a própria figura imperial do autor na sociedade contemporânea. Isto é, o maior inimigo da literatura é a ideia de que existe um lugar para ela, ou seja, uma profissão no sentido weberiano, e a relação necessária que se criou entre texto e autor- que, por sua vez, é a causa ampla de uma reificação dessa ideia de carreira. De outro lado, é totalmente avessa à produção de uma verdadeira literatura a ideia de que deva haver direitos de participação nesse espaço, que se tornou uma república dentro da república, seja esse direito referente a brancos, negros, mulheres, homossexuais, transexuais, etc. Pois a atividade literária, tal como a surgida no ocidente, vem do não lugar, para qualquer leitor.

Com efeito, as primeiras notícias que temos sobre algo semelhante na forma ao romance moderno, já nos primeiros séculos do primeiro milênio, foram os textos escritos por autores como Luciano de Samósata (115-200 d.c) e Lúcio Apuleio (séc. II d.c). Ambos autores vindos de regiões marginais em relação ao mundo helênico. O primeiro, da Mesopotâmia e o segundo, da mesma África de Santo Agostinho e Tertuliano. Ambos autores com obras marcadamente fantasiosas, como se vê em Diálogo dos Mortos e em O Asno de Ouro,  esse último “romance” parecendo autobiográfico, “com suas aventuras lascivas e vicissitudes de literato viajante, embora a insinceridade inata a Apuleio e sua habilidade de narrador não permitam distinguir realidade e ficção, nem na sua ficção nem na sua vida” (CARPEAUX, p. 32, 2010). O romance picaresco, por sua vez, do qual o romance de Cervantes é um herdeiro, deu origem a obras como A vida de Lazarillo de Tormes: De suas fortunas e Adversidades, cujo autor é até hoje um anônimo, e onde se narra, em primeira pessoa, as aventuras de um pícaro, isto é, “aquele que está fora de qualquer categoria social; desgraçado, miserável” (BECKER, 2008). O gênero deu origem a diversas obras, de autorias hoje conhecidas, mas não tão importantes como é o caso de Gimmelshauser, cujo romance A Pícara Coragem, narrava a história de uma heroína pícara: o essencial para o romance picaresco era uma visão da sociedade a partir de heróis marginalizados, uma visão de fora, sendo a escrita a única arma à disposição contra essa mesma sociedade e a favor de uma sobrevivência digna, mas, muitas das vezes, port-mortem.

Essa ascendência marca profundamente Cervantes, que em Novelas Exemplares, possui um conto completamente picaresco (Rinconete e Cortadillo), em que narra a história de uma guilda de ladrões e, sem dúvida, é influenciado em D.Quixote na construção de um personagem que passa ao largo, igualmente, da sociedade, sendo, devido à sua crença na verdade da ficção em detrimento do real (RANCIÈRE, p,45, 2017), motivo de zombaria por todos que encontrava durante sua jornada cavalheiresca. Agora, já no espaço da literatura moderna, temos autores de importância crucial para o gênero que, se não sofriam as mesmas formas de marginalização que conhecemos atualmente, não eram menos marginalizados, como se pode ver na condição de irlandês de Laurence Sterne, Jonathan Swift e na de pobre de um Daniel Defoe, cuja tardia decisão pela literatura se deu pela necessidade urgente de pagar dívidas, o que o mercado editorial em expansão da época permitia (RICHETTI, 2011).

Aquilo que conhecemos como literatura é, assim, algo que se faz de um lugar desconhecido para um leitor que, no momento da escrita pode ser definido, mas que no momento da leitura já não é, necessariamente, aquele para quem se escreveu. O que é feito, depois da publicação, é submetido ao que Henry James se referiu como a loucura da arte, isto é, quem me lê, qual o meu prêmio, qual o meu reconhecimento. Logo, é um grande problema para a literatura que debates sobre direitos literários (como se se tratasse da mesma discussão do acesso ao ensino superior, ou à escola básica) se sobreponham à busca pela realização de feitos literários e sobre o tipo de preocupação que tais feitos merecem. Repito, porém, que tais preocupações não se ligam, de modo algum, à busca por participação, como se o maior sonho de um bom escritor (entendo por bom escritor o contrário da noção aristotélica que identifica a boa retórica naquela coerência entre vida e discurso), fosse o de fazer parte da república dos vencedores do Nobel, ou dos agraciados pelo prêmio Jabuti, ou com uma publicação pela Companhia das Letras.

Tudo isso é adjacente à preocupação de um escritor, ou escritora séria, demasiados investidos no amor que têm pelo que fazem, no momento em que estão a fazer.

Todo esse debate acerca de feminismo e literatura, negritude e literatura, homossexualidade e literatura, é contraproducente seja do ponto de vista sociológico-político, seja do ponto de vista literário (desse ponto de vista muito menos), pois não compreende que a especificidade da literatura é a sua orfandade, de modo que ela se diferencia completamente de um discurso parlamentar, onde o dito se liga total e imediatamente, àquele que fala. Essa separação, na literatura, é uma condição constitutiva do romance moderno e uma perturbação democrática, como diz Rancière (2017). Diferentemente do discurso conformemente estratificado da República platônica, defende Rancière, onde um enunciado verdadeiro dependeria da autoridade dada pela posição social do falante, a literatura é um texto à disposição de qualquer falante, assim como a democracia é o governo de todos e de qualquer um. Mas é também um texto que cria o seu lugar, de modo que a reflexão feminista pode ajudar na auto-percepção de uma escritora, só que isso não é o assunto principal da sua literatura, se quisermos manter a ligação entre literatura e democracia.

Uma discussão producente para à literatura seria sobre a reificação da carreira literária e sobre a crescente preponderância que o autor e a noção de autoria têm tido em relação à ela, de modo que essa atividade tão importante para as nossas sociedades tem se tornado uma busca pelo melhor holofote, ou pela melhor foto na orelha de um livro, em detrimento da frase mais expressiva e mais verdadeira. Elena Ferrante, mencionada por Fernando Perlatto, no primeiro texto do debate sobre Vargas Llosa, é um exemplo de incômodo com relação à essa excessiva valorização do autor, o que se expressou na sua escolha pelo anonimato agora relativo, pois sabemos algumas coisas sobre ela: que é mulher, que ensina literatura clássica, etc.

Penso, portanto, que o mais interessante debate sociológico e político sobre a literatura seja esse, a despeito de todas as injustiças relativas às minorias, pois, como quero acreditar, essas injustiças são problemas ligados à noção de autoria na sociedade contemporânea. Ou seja, na medida em que a importância de quem diz se sobrepõe ao dito, torna-se cada vez mais importante encontrar problemas ou qualidades na figura do autor, às custas daquilo que se escreve, ao fato literário propriamente dito. Essa importância, essa quase ditadura do autor, explica seja a exclusão de minorias, seja a construção de um cânone branco, masculino e europeu, pois a literatura passa a se tratar de quem diz, e não com aquilo que é dito, situação que era bem diferente em um contexto do século XVII, por exemplo, onde o maior romance da literatura ocidental teve o seu segundo volume falsificado, de modo que Cervantes foi obrigado a desfazer o romanesco acidente no segundo volume de D. Quixote.

O maior inimigo da literatura, assim, não é o feminismo como, de maneira infeliz, se expressou Mario Vargas Llosa em artigo recente e já debatido nessa Revista por Fernando Perlatto e Paulo Cassimiro. O maior inimigo dela é essa crescente reificação da carreira literária e da figura do autor. Essas duas questões criam necessidades de adequação a determinadas atividades, bem como cria a necessidade de se olhar para quem diz, mais do que para o que se escreve, como se a ficção não bastasse, e a vida do romancista fosse imprescindível para completá-la, criando os diversos problemas relativos a uma certa ideia de direito à escrita e à publicação. Desse modo, enquanto não se resolve os problemas da desigualdade social, racial e de gênero, vimos e vemos diversos autores serem excluídos, mas não pelo fato de serem negros, homossexuais, pobres e mulheres, mas, sobretudo, porque se olhou e agora, de um outro ponto de vista, continua-se a olhar, mais para o autor do que para a obra. Ironicamente, mais para a realidade, do que para a ficção.

Referências:

ARISTÓTELES, Retórica, in: Prefácio por Manuel Alexandre Junior, 2012, Martins Fontes.

Anônimo, A vida de Lazarillo de Tormes, Prefácio de Marcelo Backes, Editora L&PM Pocket, 2008.

CARPEAUX, Otto Maria, História da Literatura Ocidental,v.I e II, Edições do Senado Federal, 2010.

Conferência dada por Jorge Luís Borges sobre James Joyce, https://www.youtube.com/watch?v=bhbb0aOnDzA&t=615s.

DEFOE, Daniel, Robinson Crusoé, tradução de Sérgio Flaksman; organização, introdução e notas John Richetti. – São Paulo: Peguin Classics Companhia das Letras, 2011.

RANCIÈRE, Jacques, Políticas da Escrita, tradução de Raquel Ramalhete, Laís Eleonora Vilanova, Ligia Vassalo e Eloisa Araújo Ribeiro- São Paulo: Editora 34, 2017.

* Matheus Vital de Oliveira Mendes é Mestrando em Ciência Política no Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ).

Imagem disponível em: <http://www.gazetadopovo.com.br/caderno-g/g-ideias/a-nova-onda-da-maquina-de-escrever-crpt1xx8mhy19318ie3tjya0z&gt;. Acesso em: 22 mar. 2018.