Paulo Henrique Paschoeto Cassimiro *

Na última atualização da Revista Escuta, Fernando Perlatto publicou um artigo que, com a inteligência e abertura para as contradições que caracterizam o autor, avalia um artigo recente de Mario Vargas Llosa sobre o feminismo como uma das “novas inquisições” do mundo contemporâneo. O artigo de Fernando tem o mérito notável de levantar trabalhos recentes que apontam a sub-representação das mulheres no mercado editorial – no nosso, em especial -, ressaltando a falácia evidente de que a ausência de mulheres escritoras seria explicada pelo simples fato de que elas escreveriam menos que os homens. Sabemos que, historicamente, este argumento é simplório e enganador; há um conjunto canonizado de trabalhos acadêmicos no campo da historiografia mostrando que há uma relação central entre a mulher e a reprodução da cultura letrada no Ocidente – podemos citar os trabalhos clássicos de Régine Pernoud sobre a Idade Média, por exemplo. Ora, se a literatura ocidental se construiu com a quase ausência de mulheres escritoras – claro, podemos citar um punhado de exceções notáveis, mas que apenas serviriam para confirmar a regra – a despeito de a mulher sempre ter composto a parte majoritária do público leitor, só poderíamos explicar essa discrepância através da construção social da desigualdade de gênero na distribuição de prestígio literário e na formação de um “cânone” dos grandes clássicos. Contudo, me faltariam instrumentos para descrever esse processo com propriedade, na medida em que a compreensão do problema de gênero no campo literário escapa às minha esfera de compreensão. Gostaria apenas de fazer algumas considerações sobre o tratamento de Mario Vargas Llosa no texto de Fernando que, ao fim, serão mais ponderações sobre aspectos distintos do que discordâncias profundas de mérito.

Em primeiro lugar, Fernando tem razão ao apontar que existem muitos feminismos que são ignorados por Vargas Llosa; em verdade, qualquer tipo de discurso que se apresenta no espaço público na busca de construir compreensões comuns sobre identidades e produzir mobilizações coletivas apresenta diferenças que, muitas vezes, podem levar um leitor pouco interessado ou desatento – como parece ser Vargas Llosa com relação ao fenômeno contemporâneo do feminismo – à incompreensão. No artigo, contudo, Vargas Llosa se refere a um tipo muito específico de discurso feminista que pretende submeter a criação literária a critérios de gênero, avaliando a qualidade de uma obra criativa a partir do quanto ela contribuiria ou não para reproduzir ou combater signos de dominação de gênero. O artigo é motivado, explicitamente, por outro, publicado também no La Nación pela escritora Laura Freixas, que ressalta a longa permanência da figuração literária de papéis em que a mulher é objeto da submissão sexual e da violência masculina. O principal exemplo desenvolvido por ela no artigo seria o romance Lolita, de Vladimir Nabokov. Ora, se a escritora tem razão ao apontar isso – e lembraria aqui o notável livro de Catherine Clément sobre o mesmo problema na ópera, intitulado L’Ópera ou la Défaite des femmes -, contudo ela se equivoca substantivamente ao avaliar criticamente a obra literária de Nabokov.

Com precisão, Fernando nos lembra em seu artigo que a ideia que associa a representação literária à necessidade de vivenciar determinadas experiências sociais de gênero conferiria um peso maior à experiência em detrimento da imaginação. Mais do que isso, sabemos que a relação entre obra artística e estrutura social passa por uma série de “filtros” de linguagem – a ironia, a metáfora, a parábola, dentre outros – e artifícios de construção do “jogo” narrativo que exigem uma reflexão muito mais complexa para pensar a literatura do que apenas como um discurso do qual podemos deduzir “opiniões” ou afirmações positivas sobre a realidade. A avaliação de Laura Freixas sobre o Lolita de Nabokov é justamente equivocada por ignorar o uso da ironia na construção do protagonista. Humbert Humbert, – um pedófilo e estuprador – é, literariamente, um personagem apresentado em situações depreciáveis ou ridículas e objeto de um humor agressivo por parte do narrador. A sedução é toda exposta narrativamente a partir da perspectiva de Humbert, que desde o principio fica claro ser um homem egoísta e que recalca a culpa criminosa do abuso por trás de imagens românticas de um amor que ele se esforça para crer puro e verdadeiro. O romance de Nabokov faz o que a grande literatura “realista” deve fazer: expõe as misérias daquilo que o ser humano oculta para sobreviver; é uma joia literária sobre a perversidade do autoengano e de seus danos para si e para os outros. (Um testemunho pessoal: quando li o romance pela primeira vez aos 15 ou 16 anos, motivado pela minissérie Presença de Anita, não encontrei ali nem um sedutor cinematográfico, mas um homem ridículo, covarde e desesperado pelo medo das consequências de seu crime e nem uma jovem sensual e maliciosa, mas uma criança, empurrada pelas circunstâncias e cada vez mais desesperada pela situação cruel à qual estava submetida).

Tudo isso escapa à avaliação de Laura Freixas; a autora é cega ao papel que a ironia exerce na obra de Nabokov. Ao contrário, sugere que, ao representar literariamente o massacre psicológico e físico de uma criança o romance contribuiria para, senão justificá-la, reproduzi-la. É a isso que Vargas Llosa se refere quando aponta que, se condicionamos o julgamento da literatura e da arte à necessidade de que ela simbolize estatutos sociais mais desejáveis, mais justos e mais igualitários, estamos submetendo a atividade criativa a algo análogo a um tribunal inquisitorial. Em verdade, o romance como forma sempre sofreu desta incompreensão essencial: ele sempre foi um tipo de forma literária que mimetizava o real, transformando-o a partir do uso da linguagem, especialmente da ironia (vejamos, por exemplo, O Quixote ou o Tristan Shandy de Lawrence Sterne) ao mesmo tempo em que era compreendido por fanáticos como uma analogia do real que produzia juízos de valor corrompedores. O romance foi proibido nas colônias americanas até as Independencias justamente por ser moralmente perigoso; Flaubert foi processado por seu romance Madame Bovary por atentar contra os valores da moral pública; o romance de estreia de Vargas Llosa, La Ciudad y los Perros, foi queimado pelos alunos de uma escola militar em Lima justamente por apresentar de forma critica a vida nos internatos militares do país.

Ora, é evidente que isso não significa que o contrário não seja válido: que a literatura não possa ser engajada em expor estruturas de dominação e opressão. Tantas grandes obras podem ser citadas sobre o tema, desde Zola até Toni Morrison – mulher e negra, cujo grande romance, Canção de Salomão, narra a busca de um homem por suas raízes negras nos Estados Unidos. Contudo, ela será boa ou má literatura na medida em que esses fatores sejam capazes de se articular com sua qualidade como obra criativa e artifício literário, e não em razão dos objetivos virtuosos que ela supostamente expõe.

É bem verdade que, como aponta Fernando, Vargas Llosa é um conservador, marcado por posições elitistas com relação à “alta cultura” e pela defesa de um modelo neoliberal para a América Latina. Discordemos ou não dessas posições – eu, pessoalmente, confesso que tendo a concordar com ressalvas com a primeira e discordar da segunda – Vargas Llosa é e sempre foi um democrata, um defensor das liberdades e um combatente renhido de todas as ditaduras latino-americanas. Não se furtou a criticar mesmo seus ídolos literários, como Borges, quando aceitavam as benesses de um regime autoritário como o de Pinochet. Mas um homem que está há mais de cinquenta anos no centro da vida cultural e política da América Latina – é o último dos sobreviventes do chamado “Boom” latino-americano – com certeza não está isento de contradições, de tomada de posições que podemos considerar equivocadas e perniciosas; contudo, não se pode negar que ele vem lutando o bom combate com generosidade e franqueza. Sua derrota como o candidato à presidência do Peru se deu, após uma imunda campanha de difamação, com a vitória de Alberto Fujimori, cujos resultados para os direitos humanos no Peru conhecemos bem. Sua preocupação com as “novas inquisições” é legitima e deve ser levada a sério; se podemos concordar que ele não é justo e generoso ao avaliar as contradições reais que o feminismo aponta com relação à subalternidade da mulher no mercado literário, devemos nos atentar para certos esforços crescentes em submeter a liberdade criativa a critérios de objetividade social. Uma arte que tem apenas como finalidade representar objetivos morais desejáveis não é mais arte, está vazia da capacidade de simbolizar as contradições de experiências humanas que de outra forma seriamos incapazes de vivenciar e compreender, já que não nos é dado, por natureza, viver mais de uma vida senão por meio da arte.

Há muito inimigos da democracia, dos direitos, das liberdades, da arte e da justiça assomando no horizonte e, creiam-me, dom Vargas Llosa não é um deles.

 

  • Paulo Henrique Paschoeto Cassimiro é bacharel em Ciências Sociais pela UFF e doutor em Ciência Política pelo IESP-UERJ, além de colaborador da Escuta.

**Imagem de Tomas Arthuzzi, disponível em https://www.latam.com/vamos/en_uk/experience/lima-paris-madrid-cities-of-mario-vargas-llosa