Marielle e Anderson

André Rodrigues*

Fui criado por mulheres. E só por isso cheguei a ser homem. É o que ficou girando na minha cabeça enquanto pensava no que escrever sobre a execução da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Minha avó, minha mãe, minha sogra e minha companheira – ela e eu terminamos de nos criar desde nossas adolescências. No fluxo das imagens do rosto de Marielle que passou a correr logo depois de sua morte, eu entrevia o rosto delas. Estava longe de casa e não via a hora de voltar para as abraçar. No meu raquitismo de homem, eu queria me esconder do bruto do mundo na força delas. E elas todas que estavam feridas.

Numa cidade toda feita contra ela, queriam que ela fosse pálida Macabéa, mas ela era MulheRaça. Porque Macabéa não é mulher.  É medo que homem tem de mulher. É inveja que homem tem de mulher. É covardia de homem, neta do medo, filha da raiva, como já ensinou o Chico. E foi na covardia que eles executaram Marielle. Tocaia. Pelas costas. Premeditadamente. Falta de coragem de encarar Marielle de frente. Raquitismo de homem. O bruto do mundo é isso.

Marielle foi executada, em primeiro lugar, porque era mulher. Isso não me sai da cabeça. Não pensaram que ela era vereadora. Não pensaram que ela era uma liderança política. Pensaram em eliminar uma mulher que incomodava. Devem ter calculado que ninguém se importaria com uma mulher negra a menos. Calcularam tudo porque o cálculo também é traço da covardia. Mas não calculavam quantas mulheres viviam em Marielle. E quantos homens que só chegaram a ser homens por causa delas.

O Flamengo jogava e ganhou a partida, mas já estávamos todos abatidos junto com Marielle e Anderson. E o céu desabou inteiro. E teve vento. E teve raio. E teve trovão. Era a vista dos Orixás sobre a covardia dos homens. Era promessa de permanência. Era Marielle presente.

No dia seguinte, as ruas se encheram das mulheres, das negras, das faveladas, das LGBTTQI e dos homens que só chegaram a ser homens por causa delas. E mesmo quem deixou matar, e mesmo quem mandou matar, teve que dizer que sentia muito para disfarçar o medo da multidão. Falaram no vazio como quem se esconde atrás da própria sombra.

Penso na filha de Marielle Franco, na sua família, na família de Anderson Gomes, em seus amigos e amigas, em seus colegas de mandato e de partido. E torço para que tenham algum conforto na dor. A força bruta, filha da covardia dos homens, raquíticos, de armas em punho, não é força. A força esteve nas ruas, em cada fibra que dói.

Eles temerão e tenderão a ser mais brutos ainda. Porque nós conspiraremos, ocuparemos, revidaremos.

* André Rodrigues é Professor adjunto de pensamento político na graduação de políticas públicas do Instituto de Educação de Angra dos Reis da Universidade Federal Fluminense, pesquisador associado do ISER, além de colaborador da Escuta.

 

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Por que diabos prédios republicanos continuam a ser chamados de palácios?

Rodrigo Mudesto**

 

Ainda vão me matar numa rua.

Quando descobrirem,

principalmente,

que faço parte dessa gente,

que pensa que a rua

é a parte principal da cidade

Leminski

Na noite de quarta para quinta-feira (15/03/2018) chegou às redes sociais a notícia do assassinato da vereadora Marielle Franco, do PSOL do Rio de Janeiro, e de seu assessor Anderson Pedro Gomes, que dirigia o automóvel, ambos múltiplas vezes alvejados, trafegando no centro da mais emblemática metrópole brasileira. Liderança jovem, em primeiro mandato, mas com relevante votação no pleito de 2016, fruto de sua militância consistente, e cujo mandato vinha provocando orgulho em seus eleitores, Marielle foi uma política que não padecia do déficit de representação que assola a atividade política contemporânea. Muita esperança se depositava nela e no desenrolar de sua carreira prematuramente encerrada. Diferente do desfile de representantes de si mesmos que engarrafam nosso legislativo, muitos jovens eleitores, eleitores negros, eleitores das comunidades cariocas, mas principalmente eleitoras mulheres se sentiam representados por Marielle. Tudo parecia indicar que no devido tempo sua atuação se encontraria para além da cena política do Rio de Janeiro. Era uma das mais conhecidas e atuantes expressões entre os novos nomes que surgiram para a política brasileira na eleição de 2016 e que buscam responder aos anseios sociais da juventude. Marielle espelhava com sua imagem e atitudes a força de uma geração que mais estudada, preparada e conscientizada que as anteriores, mesmo vivendo o interregno de prosperidade econômica, e agora a crise econômica, sem que cidadania e dignidade tenham se universalizado nesse processo.

Sua morte tem o cheiro de um passado que o Brasil insiste em fazer seu presente. É um fato político impressionista, que tem em si nuvens de tempestades. Se aquelas que já devastam nossa democracia ou se maiores à frente é o que preocupa a todos.

As muitas mortes violentas do Rio de Janeiro – das quais se destacavam aquelas de policiais nos últimos meses e as de lideranças políticas locais na última eleição, vinham traçando, tal qual um pantógrafo, uma representação do dia a dia de uma população fluminense padecendo sob o abuso, o autoritarismo e a violência. Para as famílias e amigos, cada uma dessas mortes é uma dor imensurável, sendo a perda da jovem vereadora nem maior, nem menor. Mas é importante não ser hipócrita e reconhecer que, dada a visibilidade que Marielle alcançou, seu carisma e o amplo círculo de simpatia que se expandia a sua volta, seu assassinato marca a descaída da sociedade em mais alguns degraus. Há menos esperança.

Anderson pode ser tomado como branco, mas Marielle construiu sua imagem publica enquanto uma mulher negra. E enquanto militante negra, feminista e popular foi ceifada.

Não sou a pessoa adequada pra escrever especificamente sobre Marielle Franco, confio isso a quem conviveu melhor com seu trabalho. Mas seu assassinato me leva a escrever sobre algo bem mais amplo, que não necessariamente se mostrará conectado, já que é cedo pra concluir sobre os eventos de sua morte. Apesar de que parece pouco crível a hipótese de assalto. Execução parece ter sido o que aconteceu. A Secretaria de Segurança Pública e o Comando da Intervenção Militar (militar? sim) no Rio de Janeiro devem apuração e transparência. As críticas recentes da vereadora a PM, ao Exército, às milícias e à própria intervenção colocam sob a suspeita quem deveria estar acima dela.

Há um padrão que se torna inegável. Política no Brasil não pode ser desconectada de violência.

Se no famoso adágio de Clausewitz política e guerra formam um contínuo, no Brasil são vias paralelas. Presidentes que não terminam o mandato, vereadores mortos, candidatos a presidência mortos, presidentes aguardando diplomação vindo a falecer, juízes e promotores assassinados, candidatos a vereador e deputados afastados da corrida eleitoral a bala, eleitores vigiados como gado por cães pastores armados de fuzis. Uma miríade de prefeitos afastados ou governando sob judice. Policiais mortos como se fossem membros quaisquer de uma gangue juvenil. Uma salada de violência que torna o estudo acadêmico da política brasileira uma forma de ficção. Qual analista pode afirmar sem constrangimento que a dinâmica eleição/mandato no Brasil está descrita em manuais de constitucionalismo, de marketing político ou de poliarquia?  Estamos em 2018 ou em 1918? Há diferença?

Eventos análogos acontecem ou aconteceram em países centrais? Sim, mas neles se aprende com a tragédia ou fracasso institucional. Há consternação, trauma, responsabilização, “upgrade”. Por aqui hipocritamente é alardeada a força das instituições e a vitória da democracia, ternos são vestidos sobre roupas íntimas pestilentas, e segue. Mesmo que nem um quarto de nossos presidentes tenha completado adequadamente o trivial percurso “vencer a eleição – cumprir o último dia de mandato”. Em boa parte do mundo o revisionismo fricciona o trabalho dos historiadores, aqui é o delírio e o cinismo que frequentam descaradamente as mesas de debates.

De hoje a sete meses enfrentaremos uma eleição presidencial fadada a ser decidida não pela campanha, horário eleitoral, discursos, não pelo embate de ideias, nem mesmo pela televisão como denunciam muitos recorrentemente, mas por eventos e ações agressivas extra jogo. Por fatos que simplesmente não podem ser descritos em uma análise de conjuntura sem que o autor seja tomado por um lunático.

Não dá pra negar. Há uma passarela suspensa vários metros acima da população que permite a circulação desimpedida de políticos, crime organizado e colarinhos brancos em um fluxo promíscuo e intenso. E ali são tomadas de fato as decisões, enquanto acadêmicos falam de leis e regras que parecem feitas de massa de modelar e a população propaga meia-verdades e repete sandices plantadas na imprensa e nas redes sociais;

Como falar seriamente em democracia nessas condições?

Bolsonaro vai sair derrotado porque seu discurso é inadequado para o horário eleitoral? Não.

Lula vai ser derrotado porque as gestões de seu partido no Planalto são alvos de críticas? Não.

Ciro, Alckmin e Marina vão precisar prestar contas de suas biografias políticas para vencer? Não.

Boulos, Manuela e os nanicos à direita enfrentarão o julgamento da radicalidade de suas ideologias? Não.

Em algum momento, um avião vai cair, um tiro vai ser dado, um carro perder o freio, uma operação da PF vai encontrar uma mesa cheia de dinheiro, uma intervenção vai ser decretada, uma normatização ou acordão vai surgir da gaveta do Judiciário.  E é isso, esse fato “aleatório”, “imprevisto” e “coincidente” que vai decidir quem vai morar no Palácio da Alvorada, sabe-se lá, se por um, dois, oito ou vinte anos.

Uma pedrada vinda de cima da passarela do colarinho branco bem na cabeça do eleitor. É essa a democracia brasileira.

Algumas democracias robustas estão sob suspeita hodiernamente, o motivo são montanhas de dinheiro gastas muitas vezes no exterior para inundar suas redes sociais de boatos às vésperas de eleições. Aqui na América Latina podemos ter inveja desses países. O que é um empurrão nas tendências eleitorais, comparado com o que temos vivido?

** Rodrigo Prado Mudesto é Mestre e Doutorando em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e colabora com a Escuta

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