Fernando Perlatto*

Pode-se dizer, sem exageros, que José Anzanello Carrascoza é o autor de um dos grandes livros da literatura brasileira publicados na última década. Caderno de um ausente, lançado originalmente em 2014 pela editora Cosac Naify e reeditado em 2017 pela Alfaguara, é uma obra deslumbrante em sentidos vários. O livro, que ecoa um romance epistolar, se constitui como um caderno escrito por um pai, chamado João, “um homem de cinquenta e tantos anos”, direcionado à sua filha Bia, que acaba de nascer.

Caderno de um ausente é uma coleção impressionante de frases bem escolhidas, palavras bem colocadas. O romance é todo atravessado por uma escrita que explode delicadeza. Em um ritmo muito próprio de narrar, Carrascoza explora e torce a linguagem com ternura, extraindo dela lirismo em alta voltagem. Impressiona a riqueza poética que brota de cada uma de suas páginas. É poesia pura em forma de prosa.

Após a leitura de um livro como Caderno de um ausente é difícil, para não dizer impossível, para o crítico ler outras obras escritas por Carrascoza – sejam aquelas publicadas antes ou depois – sem mobilizá-lo à guisa de comparação. Há de se reconhecer que esta é uma leitura injusta, mas, ao mesmo tempo, inevitável, pelo peso que esta obra impõe.

Carrascoza deu sequência a Caderno de um ausente em uma trilogia publicada em 2017, pela Alfaguara, lançada em um belo box intitulado Trilogia do adeus, que, além do romance original, contém dois outros títulos: Menina escrevendo com pai e A pele da terra. Ao se colocar como imperativa para um leitor crítico injusto, a comparação pesa contra estes dois livros posteriores, que ficam bem aquém da obra original. Menina escrevendo com pai e A pele da terra parecem emular, de modo um tanto forçado, passagens de Caderno de um ausente. Não guardam o mesmo viço poético. Há, é claro, aqui e ali, passagens repletas de lirismo, como não poderia deixar de acontecer em um romance de um escritor com a força de Carrascoza, mas nada que se compare ao primeiro livro da trilogia.

No movimento de lançar as obras de Carrascoza, não apenas originais, mas também as já publicadas anteriormente por outras editoras, a Alfaguara acaba de colocar no mercado editorial o livro de contos intitulado Aquela água toda, originalmente publicado em 2012 pela Cosac Naify. A obra foi vencedora do Prêmio APCA e segundo lugar do Prêmio Jabuti de 2013, na categoria “Contos e crônicas”. A edição lançada este ano pela Alfaguara conta com ilustrações do artista plástico Visca e ressalta o talento de Carrascoza como um grande contista, já comprovado, registre-se, no ótimo O volume do silêncio, de 2006, finalista do Prêmio Jabuti.

Aquela água toda é um livro composto por onze contos curtos. Ainda que não haja grandes inovações formais – com exceção do conto “Mundo justo”, narrado quase todo ele de maneira contínua, sem um ponto final –, as histórias selecionadas expõem o modo muito particular da prosa afetuosa de Carrascoza. A maior parte dos contos é narrada em primeira pessoa, transitando por temas já presentes em outras obras do autor – a exemplo de Aos 7 e aos 40, seu primeiro romance, publicado em 2013 pela Cosac Naify, e relançado em 2016 pela Alfaguara –, com destaque para a questão da infância, dos afetos e das tensões construídas entre membros de uma família.

O ponto de vista privilegiado na maioria dos contos é o das crianças. Elas são as narradoras ou as protagonistas de histórias como “Aquela água toda” – que narra a ida de um menino junto com a sua família à praia e seu reencontro com o mar –, “Cristina” – cujo enredo gira em torno da paixão de um menino pela amiga de escola –, “Medo” – que aborda a amizade de uma criança franzina com um garoto forte em troca de proteção – e “Mundo justo” – que conta a história de um menino jogador de basquete. Isso também acontece nos contos “Passeio” – que narra a ida de dois irmãos ao aeroporto com os pais para ver os aviões –, “Paz” – que acompanha a ansiedade de um menino com a angústia de sua mãe após receber uma carta –, “Vogal” – que narra a história de uma menina e sua relação com a sua tia – e “Chave” – que aborda, a partir do olhar de um menino, o tema da mudança de casa de uma família. E mesmo quando não são as protagonistas ou as narradoras das histórias, as crianças aparecem em momentos precisos dos contos, como é evidente em “Grandes feitos”, “Recolhimento” e “Herança”.

Alguns contos, a exemplo de “Aquela água toda”, “Passeio” e “Herança”, têm enredos mais leves, que narram curtas ou grandes paixões, amizades, deslumbramentos comezinhos, amores, expectativas, pequenas conquistas. Outros, como “Mundo justo”, “Vogal” e Chave”, contam histórias mais tristes, nas quais o tema da morte aparece com destaque. Mas, mesmo nesses contos mais soturnos, há uma ternura muito particular, que distingue e singulariza a prosa de Carrascoza.

Ainda que a comparação de uma coletânea de contos como Aquela água toda com um romance como Caderno de um ausente possa parecer sem sentido – uma vez que estamos a falar de gêneros diversos –, o leitor crítico injusto persiste na sua interpretação comparativa. Mas aqui, Aquela água toda se sai bem melhor do que Menina escrevendo com pai e A pele da terra. Embora seja possível afirmar que alguns contos são mais consistentes do que outros – o que é muito frequente em coletâneas como estas –, olhando o conjunto, Aquela água toda é uma obra que, assim como Caderno de um ausente, derrama sensibilidade e comove o leitor.

A leitura de Aquela água toda permite situar Carrascoza em uma tradição literária muito específica, que aqui chamarei de escritores líricos. Seus livros, de modo geral, e Aquela água toda, em particular, são todos eles atravessados por trechos repletos de poesia. Alguns poucos exemplos de frases extraídas de contos do livro, que corroboram o lirismo de sua escrita: “A noite descia, e mais grossa se tornava a casca de sua felicidade” (p.11); “O menino se levantou, vestiu seu destino” (p.12); “(…) ele se segurava firme no seu medo, inteiramente fiel” (p.32); “Latejava nos dois a felicidade, e era muita: até incômoda” (p.74); “O menino capturava a vida em hora instável” (p.84).

Estas passagens, selecionadas em meio a tantas outras de Aquela água toda, reforçam a interpretação do quanto os romances e contos de Carrascoza se inserem em uma tradição de escritores líricos; tradição esta a que pertencem autores como Raduan Nassar, em âmbito nacional, e Valter Hugo Mãe, no plano internacional. Estes escritores líricos têm como característica mais central de seus romances a transformação, quase como que em um feitiço, da poesia para o formato da prosa. O que emerge das frases delicadamente construídas em seus escritos é precisamente uma poética da prosa.

Se esta ternura e este cuidado lírico no uso palavra de escritores como Carrascoza já encantam por aquilo que têm de belo no campo intrinsecamente literário, elas se tornam ainda mais necessárias em um mundo atravessado pela retórica do ódio, cada vez mais hegemônica nos dias atuais.

* Fernando Perlatto é um dos editores da Revista Escuta.

** Crédito da imagem: imagem retirada do site <https://intertvweb.com.br/bate-papo/joao-carrascoza-uma-referencia-da-literatura-brasileira/&gt;. Acesso em: 11 de mar. 2018.

 

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