Fernando Perlatto*

“Para que falar?, que sentido tem agora contabilizar as perdas ou reconstruir a derrota, sucessiva, inconfundível, a derrota, você me diz. Mas houve triunfos?, eu lhe pergunto, ao menos uma vitória?, (…). Assim é a história, você sabe, lenta, cruel, aglomerada, você diz ou eu acho que você diz” (Diamela Eltit, Jamais o fogo nunca, p.85).

Atrocidades praticadas no passado, sobretudo as que ocorrem com o suporte direto do Estado, não se apagam. Permanecem no tempo. Machucam, dia a dia, aqueles que foram vítimas da barbárie e conseguiram sobreviver. Doem naqueles que, mesmo não tendo sofrido diretamente o arbítrio, se sensibilizam com o sofrimento do outro.

Resta saber como, nos dias atuais, os governos e as sociedades lidam com as memórias sobre estas atrocidades. Há países que, a despeito das dificuldades envolvidas, enfrentaram e continuam enfrentando este passado, impulsionando políticas públicas de memória de sorte a fazer com que o que aconteceu permaneça vivo, como uma forma de constrangimento permanente sobre os indivíduos no tempo presente. O passado, para que não seja esquecido, deve envergonhar, causar desconforto. O intuito das políticas públicas de memória, nesse sentido, é de alguma maneira, promover uma reflexão coletiva sobre o passado para que atrocidades como aquelas praticadas por regimes autoritários, como ditaduras, nunca voltem a ocorrer.

A sensibilização em torno do passado, contudo, não se dá exclusivamente via políticas públicas de memória levadas a frente por governos ou por grupos da sociedade civil. Ela ocorre também, muitas vezes, a partir de representações artísticas sobre este passado.

Livros, exposições, performances, filmes, telenovelas, músicas podem contribuir – embora nem sempre o façam – para impulsionar uma reflexão profunda sobre um momento histórico de determinado país, sobretudo associado a algum evento traumático, a exemplo de períodos autoritários. A depender da forma como uma obra artística representa este passado, ela pode ter um potencial de provocar uma sensibilização em torno da história de modo até mesmo mais intenso do que uma política impulsionada pelo Estado.

A literatura na América Latina, para dialogar com o conceito formulado por Pierre Nora, tem se mostrado como um importante lugar de memória para a reflexão sobre as ditaduras civis militares que assolaram os países da região. Desde os anos 1970, período em que o continente latino-americano testemunhou a ascensão e a consolidação de regimes autoritários, ao mesmo tempo em que viu sua literatura ser projetada no exterior – sobretudo com o boom da chamada “literatura fantástica” –, escritores diversos buscaram produzir obras que, direta ou indiretamente, construíam representações sobre o contexto autoritário em que viviam os países da região, do que são exemplares livros como Conversa na Catedral, do peruano Mario Vargas Llosa (1969), Eu, o Supremo, do paraguaio Augusto Roa Bastos (1974), O Outono do Patriarca, do colombiano Gabriel García Márquez (1975) e Em câmara lenta (1977), do brasileiro Renato Tapajós.

Em tempos recentes, a ficção latino-americana tem sido atravessada por marcas e legados do período ditatorial, quer seja de forma indireta, mediante a presença constante da violência nas obras de escritores diversos – a exemplo dos livros de Roberto Bolaño, no Chile, de Rubem Fonseca, no Brasil, e  de Mariana Enriquez, na Argentina, ou, ainda, da coletânea organizada pelo escritor brasileiro Daniel Galera Acerto de  contas: 13 histórias de crime & nova literatura latino-americana –, quer seja de forma direta, como se verifica na literatura produzida por escritores como o chileno Alejandro Zambra (Formas de voltar pra casa e Múltipla escolha), o brasileiro B. Kucinski (K. Relato de uma busca e Os visitantes) e  o argentino Ricardo Piglia (Respiração artificial e Alvo noturno).[1]

Uma autora exemplar no sentido de evidenciar a força desta literatura latino-americana recente que se debruça sobre o peso do passado autoritário é Diamela Eltit. A escritora chilena tem construído um trabalho sensível em torno dos impactos e dos legados do período ditatorial sobre os corpos dos sujeitos, em especial das mulheres, tanto na forma de ensaios – muitos deles publicados no livro A máquina de Pinochet e outros ensaios, lançado no Brasil em 2017 pela editora e-galaxia –, quanto na forma ficcional, com destaque especial para seu sofisticado romance Jamais o fogo nunca.

Publicado em 2017 pela editora Relicário, com tradução de Julián Fuks, Jamais o fogo nunca é um livro impressionante, arquitetado em torno de uma temática que vai atravessar praticamente toda a literatura latino-americana que aborda o passado ditatorial, que diz respeito à experiência da derrota. Narrado em primeira pessoa por uma mulher que vive com seu companheiro – ambos sobreviventes da repressão e outrora militantes de um grupo, ou uma “célula”, que se engajou na luta armada contra a ditadura –, a narrativa, com sua prosa seca, densa e repleta de nuances, transcorre, em sua maior parte, em um quarto estreito e apertado compartilhado pelo casal. Este quarto, território reduzido, funciona quase como que uma metáfora da vida sufocante daqueles que foram vítimas do arbítrio do Estado, e que ainda trazem as marcas do autoritarismo no corpo e na alma. O sentimento de frustração e desencanto se mostra não apenas em relação ao passado, com a bem-sucedida ação do Estado ditatorial no sentido de reprimir os dissidentes, controlando seus corpos, vontades e desejos, mas também em relação aos dias de hoje, atravessados pela afirmação de uma ordem política e econômica neoliberal, que enterrou as promessas de emancipação surgidas após a redemocratização.

Uma das vertentes mais potentes desta literatura latino-americana recente que volta seu olhar para o passado ditatorial é aquela praticada por escritores que, ancorados em suas próprias vidas, trajetórias e experiências, constroem livros autobiográficos – também chamados de “auto ficcionais” –, nos quais romance e testemunho, ficção e memória, se imbricam e se confundem de forma profunda. O romance autobiográfico de Maria Pilla, Volto na semana que vem, publicado em 2015 pela Cosac Naify, é um ótimo exemplar deste tipo de abordagem, na medida em que a narrativa é toda ela construída em torno da experiência da escritora brasileira como militante da luta armada na Argentina nos anos 1970.

Porém, nos últimos anos, uma nova safra de romances auto ficcionais tem sido publicada por escritores que, ainda que não tenham vivenciado diretamente a experiência da ditadura, foram filhos de pais que participaram da resistência ao regime militar, sobretudo vinculados ou próximos a grupos da luta armada. Dois livros notáveis, lançados recentemente no Brasil, podem ser tomados como exemplares deste tipo particular de literatura produzida por estes “descendentes da dor” [2], a saber, O espírito dos meus pais continua a subir na chuva, de Patricio Pron, e A Resistência, de Julián Fuks.

Lançado em 2011, na Argentina, e publicado este ano no Brasil, pela editora Todavia, O espírito dos meus pais continua a subir na chuva é uma obra diretamente ancorada na experiência biográfica do autor – Pron é filho de pais que militaram em organizações de esquerda da Argentina –, que tem como pano de fundo o período ditatorial argentino. Narrado em primeira pessoa, o enredo se estrutura em torno de um jovem escritor nascido em 1975, viciado em remédios, que, após oito anos, retorna da Alemanha para uma pequena cidade argentina para reencontrar seu pai, um jornalista outrora militante da Guardia de Hierro, uma organização peronista da luta armada, que está à beira da morte. Ao ter contato com materiais guardados pelo seu pai em sua biblioteca, o protagonista se depara com uma série de reportagens por ele guardadas em torno do desaparecimento e assassinato de um habitante da pequena cidade, chamado Alberto José Burdisso. A obsessão paterna em desvendar o que ocorreu com este homem – que o leva a colecionar variados recortes de jornal e fotografias sobre o tema – se explica pelo fato de o morto ser irmão de uma mulher chamada Alicia Raquel Burdisso, jornalista e estudante de Letras, amiga de seu pai, que, em 1977, foi sequestrada e assassinada por agentes da ditadura civil-militar argentina.

A leitura de O espírito dos meus pais continua a subir na chuva abre possibilidades para se pensar sobre os impactos da ditadura sobre os filhos daqueles pais que se engajaram na luta armada. Ao longo do romance, o narrador pontua diversas restrições e cuidados que devia tomar no sentido de não chamar a atenção dos agentes da ditadura: não podia, por exemplo, levar outras crianças para casa, tinha que abaixar a cabeça “sempre que passava um carro de polícia”, não podia “contar a ninguém nada do que escutasse em casa”, tinha que usar “uma plaquinha no pescoço com um nome, minha idade, meu tipo sanguíneo e um telefone de contato” para jogá-la ao chão se alguém, porventura, tentasse lhe puxar para dentro de um carro, e “quando andava sozinho pela rua, tinha que caminhar em sentido contrário ao trânsito e prestar atenção se algum carro parasse perto de mim” (p.130). Todas essas regras, que “tinham o objetivo de me proteger, de proteger meus pais, eu e meus irmãos em uma época de terror” (p.130-31), permaneceram, em certo sentido, inscritas nas práticas e comportamentos do narrador quando adulto: “a prática de rituais privados”, diz ele, “acabaria deixando marcas em todos nós e especialmente em quem era criança naquela época” (p.141).

O aspecto mais interessante do livro de Pron é a articulação refinada que ele constrói entre passado e presente, em torno da temática dos desaparecidos, de modo a evidenciar continuidades entre a ditadura e a democracia na Argentina. O termo desaparecimento, que aparece com frequência nos vários recortes guardados pelo pai do narrador, é repetido “como se fosse uma insígnia fúnebre na lapela de todos os inválidos e infelizes da Argentina” (p.66). A contraparte simétrica do desaparecimento é precisamente a busca, que se converte em outra força propulsora da narrativa do romance de Pron: todos ali estão em busca de algo; a busca, aqui, parece se converter em “um destino de todos os argentinos” (p.146-7). Como destaca o protagonista em determinada passagem: “eu estava procurando meu pai, e meu pai estava deixando seu testemunho sobre a busca por outra pessoa, uma pessoa que talvez ele conhecesse e que tinha desaparecido” (p.47-8).

A busca do protagonista pelo pai está diretamente vinculada à procura pelo entendimento acerca da experiência dos seus pais na luta armada. Trata-se, em grande medida, de uma reflexão não somente sobre aquele contexto ditatorial específico, mas também uma inquirição que busca contrastar os impulsos, sonhos e vontades que moveram a geração anterior de seus pais, quando comparadas com aquelas que movem a geração atual. Ao testemunhar um encontro de seus pais com antigos companheiros da resistência armada, por exemplo, o narrador percebe que, entre “lembranças dolorosas e alegres”, havia entre aquelas pessoas “um afeto, uma solidariedade e uma lealdade”, que lhe soavam estranhos, mas que se conformavam como algo que ele poderia também “ter tido por outras pessoas se tivéssemos vivido juntos algo fundamental e único, se (…) eu estivesse disposto a dar a vida por essas pessoas, e essas pessoas estivessem dispostas a dá-la por mim” (p.141).

Mais profundo ainda do que contrastar laços de camaradagem de outrora e de hoje, interessa ao narrador comparar a entrega da geração de seus pais a uma determinada causa com o rebaixamento de utopias da geração posterior. Esta entrega da geração anterior a uma grande ideia – que teria levado muitos deles a lutarem “uma guerra insensata e perdida de antemão”, “marchando para o precipício da guerra civil contra as forças do aparelho repressivo” –  teria legado à geração futura, ainda que não de forma intencional, um “imperativo ético”, praticamente impossível de ser correspondido. Em determinado momento da obra o narrador se questiona sobre o que a sua geração “poderia oferecer que estivesse à altura do desespero exuberante e da ânsia por justiça da geração anterior, a dos nossos pais”? Seus pais e seus companheiros fizeram algo “digno de ser contado, já que o seu espírito – não as decisões corretas ou erradas que meus pais e seus companheiros tomaram, e sim seu próprio espírito – continuaria a subir na chuva até tomar o céu de assalto” (p.148).

Assim como destacado acerca do livro de Diamela Eltit, O espírito dos meus pais continua a subir na chuva também é um livro estruturado em torno da narrativa da experiência da derrota. Em diversos momentos do romance, o narrador menciona a participação do pai na luta armada e como “todo mundo, tinha perdido essa batalha de uma guerra silenciosa, que foi sua e de toda a sua geração” (p.19). Em determinada passagem, ao se lembrar de companheiros mortos, a mãe do narrador diz: “Seu pai não lamenta ter lutado essa guerra; só lamenta ter perdido” (p.150). Mas, esta derrota, é importante destacar, não é exclusiva desta geração anterior; é algo que permanece na geração atual, como uma espécie de fio a ligar pais e filhos. Como destaca o narrador em uma passagem que vale a citação: “(…) a geração do meu pai sim foi diferente, mas mais uma vez, havia algo nessa diferença que era também um ponto de encontro, um fio que atravessava as épocas e nos unia apesar de tudo, e era espantosamente argentino: a sensação de estarmos unidos na derrota, pais e filhos” (p.31, grifos meus).

O livro de Julián Fuks, A Resistência – vencedor dos prêmios Jabuti e José Saramago de melhor romance – possui proximidades com O espírito dos meus pais continua a subir na chuva. Assim como Pron, Fuks é também filho de pais argentinos que foram próximos a grupos da luta armada e que se viram forçados ao exílio como decorrência da perseguição política. Escrito de forma primorosa, a narrativa do romance A Resistência se conforma como uma mescla entre autobiografia, ficção e ensaio, estruturando-se em torno de capítulos da história familiar do autor, e focando particularmente na história real de seu irmão adotivo. Falar sobre o seu irmão, porém, é falar sobre a sua própria história e, sobretudo, falar sobre a história de seus pais, atravessada pela experiência da resistência à ditadura, do sequestro de recém-nascidos filhos de militantes por agentes do regime civil-militar e da resistência longeva e persistente de grupos como as “Avós da Praça de Maio”. Como destaca o próprio narrador em determinada passagem, trata-se de “um livro sobre essa criança, meu irmão, sobre dores e vivências de infância, mas também sobre perseguição e resistência, sobre terror, tortura e desaparecimentos” (p.57-8).

Muitos dos temas presentes no livro de Pron também aparecem no romance de Fuks. O impacto da ditadura sobre os filhos de pais que participaram da luta armada e que foram alvos da repressão do regime ditatorial perpassa toda a narrativa. Em determinada passagem, ao falar sobre a experiência de exílio dos pais, o narrador destaca o quanto aquela experiência reverberava na vida dele e de seus irmãos, e questiona acerca do peso daquela experiência sobre a geração seguinte: “Pode um exílio ser herdado? Seríamos nós, os pequenos, tão expatriados quanto nossos pais? Devíamos considerar argentinos privados do nosso país, da nossa pátria? Estará também a perseguição política submetida às normas da hereditariedade?” (p.18-9). A Resistência é também um ensaio sobre de que maneira, mesmo encerrada oficialmente, a ditadura, com todas as suas arbitrariedades continua a operar sobre as vidas daqueles que vivenciaram o período. O que se tem aqui é a reflexão sobre “a atrocidade de um regime que mata e que, além de matar, aniquila os que cercam suas vítimas imediatas, em círculos infinitos de outras vítimas ignoradas, lutos obstruídos, histórias não contadas – a atrocidade de um regime que mata também a morte dos assassinados” (p.78).

Os temas do desaparecimento e da busca também estão presentes em todo romance de Fuks – a exemplo da busca de sua mãe pela amiga desaparecida, da busca do próprio narrador pela história dos seus pais e de seu irmão e a busca do irmão em torno de sua identidade –, assim como a reflexão em torno da experiência da derrota e os questionamentos geracionais em relação à luta travada pelos pais. Há compreensão em relação às escolhas realizadas no passado, mas há também questionamentos em relação à luta armada – “jamais quereria ter uma arma nas mãos, e dizê-lo é também uma ação, também constitui uma história política” (p.109), destaca o narrador – e há ponderações que contrastam as lutas daquela geração com aquelas travadas pela geração atual. Em determinada passagem de A Resistência, o narrador lança um reflexão dirigida a si mesmo que evidencia uma angústia geracional em torno da perda de uma causa grandiosa – tal qual presente no romance de Pron – e do peso do legado daquela geração sobre a geração posterior com suas utopias rebaixadas, quando a “insubordinação” passa se limitar quase que exclusivamente a um “ato reflexivo”: “sou o filho orgulhoso de um guerrilheiro de esquerda e isso em parte me justifica, isso redime minha própria inércia, isso me insere precariamente numa linhagem de inconformistas” (p.38).

Os romances de Pron e Fuks podem ser interpretados a partir do conceito de “pós-ficção” proposto pelo próprio Fuks, em ensaio publicado no livro Ética e pós-verdade (Dublinense, 2017), intitulado “A era da pós-ficção: notas sobre a insuficiência da fabulação no romance moderno”. Neste texto, em diálogo com as obras de dois ficcionistas canônicos do “romance pós-ficcional” – Sebald e Coetzee –, Fuks procura chamar a atenção para uma espécie de virada importante do romance contemporâneo, marcada por um movimento a partir do qual a dimensão da verdade passou a assumir “uma centralidade imprevista” (p.76). Para o escritor, esta reinvenção do gênero se explicaria pelo fato dos romances ficcionais terem se mostrado insuficientes para dar conta de uma série de questões do mundo contemporâneo. Diante deste cenário, “por toda parte”, a literatura se veria ocupada em “combater o déficit de memória e a sordidez da linguagem institucional, enfrentando, ainda que tardia e quiçá inutilmente, a máquina coletiva de recalque” (p.84). Na “era da literatura pós-ficcional”, as dimensões tradicionalmente vinculadas ao romance ficcional – tais como a invenção, a fantasia, a fabulação – não seriam necessariamente abandonadas, mas sim mobilizadas a partir de uma articulação mais estreita com a realidade.

Nos próprios romances O espírito dos meus pais continua a subir na chuva e A Resistência, os narradores refletem continuamente sobre o exercício de escrever uma ficção sobre suas próprias vidas e experiências. No livro de Pron, em determinada passagem o narrador afirma: “O que eu vou contar aqui, foi verdadeiro, mas não necessariamente verossímil. Alguém disse uma vez que em literatura o belo é verdadeiro, mas o verdadeiro em literatura é só o verossímil, e entre o verossímil e o verdadeiro há uma distância” (p.21). Ainda que os fatos narrados no livro fossem verdadeiros, ressalta, “alguns deles são produto das necessidades do texto ficcional, cujas regras são diferentes das regras de gêneros como o testemunho e a autobiografia”. E citando o escritor espanhol Antonio Muñoz Molina, “como lembrete e advertência”, destaca: ‘Uma gota de ficção mancha tudo de ficção’” (p.158). Em outro momento, o protagonista diz que, após o mergulho em torno do passado de seus pais, ele percebe que, para narrar e refletir sobre aquela experiência, seria necessário um movimento no sentido de explodir as convenções e as fronteiras dos gêneros literários, misturando de forma profunda realidade e ficção: “não havia forma de contar a história deles à maneira do gênero policial ou, para ser mais preciso, que contá-la dessa maneira seria trair suas intenções e suas lutas, já que narrar a história deles como se fosse uma história de detetive apenas contribuiria para ratificar a existência de um sistema de gêneros, ou seja, de uma convenção, e que isso seria trair seus esforços, que tendiam a desafiar essas convenções, tanto as convenções sociais como seus pálidos reflexos na literatura” (p.114).

Em A Resistência, no decorrer do romance, o protagonista também reflete em diversas passagens sobre o ato de narrar em forma de ficção suas memórias. Em determinada passagem da obra, ele destaca: “Isto não é uma história. Isto é história. Isto é história e, no entanto, quase tudo o que tenho ao meu dispor é a memória, noções fugazes de dias tão remotos, impressões anteriores à consciência e à linguagem, resquícios indigentes que eu insisto em malversar em palavras” (p.23). O próprio desafio de transformar aquelas experiências suas e de seus familiares, em especial de seu irmão adotivo, no formato de romance produz no narrador uma inquietação permanente, como se qualquer movimento nesse sentido pudesse resultar em uma espécie de reducionismo e simplificação das complexidades daquela pessoa em torno de um personagem. Questiona o narrador em uma passagem do livro: “Por que não consigo lhe passar a palavra, lhe imputar nesta ficção qualquer mínima frase? Estarei com este livro tratando de lhe roubar a vida, de lhe roubar a imagem, e de lhe roubar também, furtos menores, o silêncio e a voz?” (p.25).

O que torna ainda mais complexo e interessante este jogo híbrido entre biografia e ficção, memória e romance é o fato de que ao final dos dois livros, tanto Pron quanto Fuks procuram seus familiares para que eles se manifestem sobre as histórias narradas naquelas obras. Nas últimas páginas de O espírito dos meus pais continua a subir na chuva, o narrador ressalta: “Ao ler o manuscrito deste livro, meu pai julgou importante, apesar disso, fazer algumas observações com o objetivo de dar sua visão dos eventos narrados e corrigir certos erros; o texto que reúne essas observações, e que é o primeiro exemplo do tipo de reações que este livro pretende provocar, está disponível no link http://patriciopron.blogspot.com.br/p/el-espiritu-de-mis-padres-sigue.html, com o título de ‘The Straight Record’” (p.158). Já em A Resistência, no capítulo 46, o narrador também destaca a reação de seus familiares à leitura do livro: “Na noite passada”, diz ele, “meus pais leram o livro que lhes enviei. (…). É claro que não podem fazer observações meramente literárias, ambos ressalvam como se quisessem se desculpar, durante toda a leitura sentiram uma insólita duplicidade, sentiram-se partidos entre leitores e personagens, oscilaram ao infinito entre história e história” (p.134-5).

Se as obras artísticas, de modo geral, e os romances, em particular, dedicados a representarem o período autoritário na América Latina têm se mostrado instrumentos importantes no sentido de colaborarem com a conformação de uma política de memória orientada para uma sensibilização em torno das arbitrariedades cometidas por regimes ditatoriais no passado, a “literatura pós-ficcional” – a exemplo daquela praticada por Patricio Pron e Julian Fuks – tem se consolidando como uma das vertentes mais potentes e criativas nessa direção. Livros como O espírito dos meus pais continua a subir na chuva e A Resistência, ao implodirem as fronteiras do gênero literário, consolidando uma aproximação cada vez mais imbricada entre testemunho, ensaio e ficção, potencializam novas aberturas não apenas para a literatura em si, mas para a produção e consolidação de determinados imaginários sobre aquele período ditatorial que contribuem, especialmente em tempos de retrocessos como o que estamos vivendo, para que o passado não volte a se repetir, ainda que com novas roupagens.

A literatura pode – e deve – ser também um exercício de memória e resistência.

Notas:

[1] Para uma análise sobre a literatura brasileira contemporânea e a ditadura, ver, entre outros, texto de minha autoria publicado na revista Estudos Históricos, intitulado “História, literatura e a ditadura brasileira: historiografia e ficções no contexto do cinquentenário do gole de 1964”, que pode ser acessado no site: <bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/view/69138/70165>.

[2] A expressão “descendentes da dor” é derivada de um artigo escrito por mim, publicado em 2017 na revista Poder & Cultura, intitulado “Os descendentes da dor: memórias dos filhos da luta armada”, no qual analiso o documentário 15 filhos, de Maria Oliveira e Marta Nehring, lançado em 1996, e o livro Em nome dos pais, de Matheus Leitão, publicado em 2017, com o intuito de refletir sobre de que maneira cada um deles abre possibilidades variadas para uma compreensão mais ampla dos traumas, desdobramentos e consequências da luta armada para os filhos daqueles que vivenciaram aquela experiência. O artigo pode ser acessado no link: http://poderecultura.blogspot.com.br/p/numero-atual.html.

* Fernando Perlatto é um dos Editores da Revista Escuta.

** Fonte da imagem: <http://www.salada.al/blog/2014/09/documentario-inedito-sobre-as-avos-da-praca-de-maio-estreia-em-terras-caetes/&gt;. Acesso em: 21 fev. 2018.

Anúncios