Marcos Lacerda*

O Brasil vive, ao menos desde 2013, uma espécie de movimentação de reflexividade densa, como se se abrisse um campo de possibilidades e fantasmagorias inéditos e com consequências ainda imprevistas. O marco da movimentação se dá com as manifestações heterogêneas e com sentido difuso de 2013, em que vimos ideologias políticas e comportamentais as mais variadas, como um ressurgimento do anarquismo, maoísmo e esboços do desejo de realização de uma democracia popular, sem as mediações institucionais e as formas de representação da democracia burguesa, ao lado de grupos em verde e amarelo que falavam em fim da corrupção, que também eram contra os partidos políticos, mas que diziam prezar pelas mediações institucionais, especialmente as vinculadas ao poder judiciário.

A pluralidade real de possibilidades políticas afirmadas por 2013, no entanto, se desmanchou em 2015 com uma direção regulada pela centro-direita, direita e extrema-direita: o slogan anticorrupção, o moralismo da justiça formal e o ódio ao maior partido político de esquerda do país, o Partido dos trabalhadores. Com o impedimento da presidente Dilma Rousseff, a caixa de pandora se abriu, a desfaçatez da elite econômica se explicitou, a nova equipe de governo, das mais corruptas e antipopulares possíveis, vem atuando abertamente para desenvolver uma agenda hiper-liberal, de fazer inveja aos projetos de modernização conservadora dos anos FHC, com a destruição de direitos mínimos da classe trabalhadora precarizada, em especial o esboço de rede de proteção social desenvolvido nos dois governos do ex-presidente Lula. O nacionalismo conservador, com amplo leque midiático e capacidade de mobilização de massa, começa a gerar um novo pacto de conciliação de classe, como mais um dos tristes capítulos da modernização conservadora e francamente antipopular no Brasil.

É dentro deste quadro extremamente complexo, original, mas que faz ecoar algo do contexto pré-golpe militar de 64, que emerge um álbum como “De cara no asfalto”, de Paulinho Tó, o seu segundo álbum. Pouca coisa do que surgiu em música popular contemporânea conseguiu apresentar na forma e na expressão muitas das tragédias da sociedade brasileira contemporânea, com um alto nível de resolução estética e poética, tencionando, ao mesmo tempo, estética e política de forma complexa e inventiva.

Lançado em 2016, o álbum de Paulinho Tó tem canções com temática política contemporânea, gosto épico e lirismo denso. Frevo, marcha, repente, toadas e funks estilizados tencionam com o samba, que está sempre no centro. Existe no ar um sarcasmo crítico associado a uma poética afiada, com narrativa equilibrada e tensa, sem deixar de ser direto e sem negar a sofisticação, num tom agudo e áspero, com as palavras se sucedendo de forma articulada e exasperante.

São muitas as qualidades do álbum, em especial, o trabalho artesanal com as palavras, junto à capacidade de movê-las de forma culta e potente; o lirismo cortante e pungente, duro, pesado e, quando preciso, com uma certa leveza melancólica – como é bom ouvir “Luisa e a cidade” e ficar sentindo as palavras se entreolharem como vitrines, espelhamentos de coisas, nomes e olhares da cidade (é tarde/ eu mais que morro/ eu vivo na metade/ de outra metade/ eu morto à parte/ eu vivo em você/ cadê você)

Luisa e a cidade é um belo momento de lirismo benjaminiano, a face da pessoa amada viajando pela cidade, em vitrines, ruas, pessoas, cartazes, tempo, olhares, tempestades.

A canção é circular, como se o reflexo da mulher amada se movimentasse na percepção do poeta, perdido entre o deslumbramento e a procura, o desejo que volteia em meio à cidade; é como se a canção não tivesse fim, e como se este não ter fim fosse mesmo o sentido do desejo que nunca se realiza:  a pulsão sem objeto definido, a pulsão que se impulsiona para a beleza e o abismo. É um momento singular no álbum, cuja beleza suspende provisoriamente a presença do real como instância social, em toda o seu sentido de urgência e desespero. O lirismo utópico de Luisa e a cidade é o instante da beleza possível sempre interrompida, não tanto pelas vitrines da cidade, mas pela tragédia social revelada a cada esquina nas cidades brasileiras

Neste sentido, a canção “De cara no asfalto”, que dá título ao álbum, é sintomática. Diante do encantamento com a beleza sem figuração precisa, emerge a imagem da morte, com um tiro atravessando o corpo de alguém na rua

Alguém caiu

de cara no asfalto

Caiu e ficou

Eu vi lá do alto

Cair de cara no asfalto pode servir como uma metáfora para cair na real, enfrentar o real, despertar para o jogo de forças em sua dimensão crítica – a política da vida social. O tom de resignação acompanha a descrição do poeta que vê o corpo estendido no chão e lamenta

Podia ter sido um raio

Infarto, tifo, o caralho

Mas foi bala, mano, bala

Foi bala de homem fardado

Num movimento lancinante, sem ponto fixo, depois de passar pela beleza sem forma e figura de “Luisa e a Cidade”, interrompida pelas agruras do Real em “De cara no asfalto”, retornamos à canção que abre o álbum: “No tranco”. A canção é uma crônica, ou melhor, a construção de uma tapeçaria que vai desvelando uma figuração possível da sociedade brasileira contemporânea, em meio ao caos social e a violência brutal da desigualdade que nos atravessa e nos aniquila (cadê o fim desse poço/ caraca o tempo tá osso/ é muito alho e sal grosso/ pra mau agouro e despacho/ pra falta d’água, gripe e recessão). É o momento da chegada da crise como diz uma locutora que surge em meio à canção. A canção não se resolve formalmente, fica a sensação de um passo que sempre volta atrás, um samba duro, com volteios entre palavras que se justapõem como se estivessem em atrito, ou mesmo, em antagonismo direto (Vou na marra, sim/Vou no tranco, na draga/Chifrando os barranco)

É a sociedade brasileira contemporânea que se diz ali, com afirmação trágica, realismo de tom crítico surpreendente, com novos atores sociais emergindo através de novos gêneros da música popular (samba-gospel, rap-salvação)

Mas tô firmão aqui, vou pra frente

Café com pão, enxaguando os dentes

Carregando o rojão

Quem não carrega é demente

Vou contornando o leão

Com samba, gospel, rap e salvação

“No tranco” é a síntese do novo quadro, unindo forma artística a processo social, como crônica do Brasil-Absurdo; o Brasil contemporâneo é a condição de estar “no tranco”, num impasse, sem saída, como num antagonismo sem solução. Antagonismo que se revela na figura de “Funk do Mané”, trabalhador precarizado que vive na sombra, à margem, no limiar da sobrevivência física, entre a situação de miséria absoluta e as sobras que o permitem resistir como alguma coisa informe

um trapo sedento e mulato do centro à periferia

roendo o resto do lodo que o patrão deixou

Esta figura disforme e sem rosto explode na pulsão desvairada – sem cabeça, mas com razão – do black bloc, através de um encontro inusitado com o cangaço, na canção “Black Bloc na Caatinga”

Ele acende o pavio do lampião

Mais à frente do coquetel molotov

No momento enfurecido o sangue sobe

Sem projeto, sem cabeça, mas com razão

A figura que explode em pulsão aflita é uma resposta fantasmática da história que foi abolida, varrida, eliminada, das muitas singularidades inconciliáveis e potências políticas populares que foram dizimadas pelo Estado em conluio com o Mercado, ecoando a imagem do sujeito morto de cara no asfalto

Mas um dia a história vomita e alguém se bole

Aí é pedra, ferro e fogo na moringa

Imagine um black bloc na caatinga

E um cangaceiro solto na metrópole

A figura de “No tranco”, dita em primeira pessoa, é parte da mesma figura de “Funk do Mané”, descrita na terceira pessoa e explode como violência legítima e difusa na figura do black bloc e do cangaceiro, como reação, por sua vez, ao assassinato de alguém, furado à bala do homem fardado em “De cara no asfalto”.

Na canção “O articulador”, o quadro se completa, com a figura de um político institucional comentando, entre realista e profundamente deprimido, o seu estado deplorável de saúde, enredado entre lobistas, jornalistas, seus pares e a polícia federal. A sua trajetória vai sendo descrita como mediações de uma série de atores sociais (madeireiras, lobistas, acionistas, grevistas, indígenas), costuras políticas, pactos de conciliação de classe (fui mãe dos miseráveis/ fui tão bom pra burguesia)

Gastrite, pressão alta, marca-passo, coração

Insônia e essa angústia no meu peito

Passei a vida inteira dedicado a esta nação

Um articulador quase perfeito

Culminando com a prisão (fui preso a mandado de um juiz), a posterior saída (mas já saí por ordem médica) e o sarcasmo entre irônico e cínico

E quanto aos carniceiros

Idiotas de plantão

Lhes vejo aqui na próxima eleição

O impasse de “No tranco” se transforma aqui em cinismo, ironia e sarcasmo e apresenta um retrato da política institucional brasileira em sua dimensão estruturante. A engenhosidade da canção é espantosa. A figura descrita é uma espécie de tipo ideal da classe política brasileira e, por extensão, da própria estrutura social em que a política institucional está inserida. Ao mesmo tempo, de forma coerente e consistente, integra o sentido das figuras das outras canções – o impasse em “No tranco”, a figuração sem nome das classes trabalhadoras em “Funk do Mané”, a explosão vital, difusa (sem projeto, cabeça, mas com razão), beirando o niilismo desesperado do “Black Bloc na Caatinga” e, por fim, a vida matável de mais uma morte pela polícia militar em “De cara no asfalto”

No fundo de tudo, ao longe, dá para ouvir o silêncio da procissão em “Santa Matriz” que mantém o clima tenso e evoca sentidos de salvação religiosa e dores da vida real (Eh camarada/ nas veredas da salvação/ Eh camarada/ caspa e tripa do cão)

Ainda poderíamos falar da “Marcha da terceirização/Que mistério tem a China”, “E dá-lhe borracha”, que traz para o cinza da luta de classes o tema de Vinícius de Moraes, do poema “Porque hoje é sábado”; além de “Eu vou”, uma espécie de hino de libertação e desvario, mas fiquemos com “Maré, maré”, que fecha o álbum. É uma espécie de canto coletivo que busca suspender os impasses apresentados em quase todas as canções. E impulsiona para a frente, como a desencadear uma força coletiva capaz de afirmação, ainda que uma afirmação trágica e crítica, sem medo da explicitação da negatividade (Maré, ô Maré/eu vou nesse mar seja lá o que vier). Negatividade que, justamente, tem faltado tanto para a música, quanto para a arte brasileira em geral.

* Marcos Lacerda é  Mestre em antropologia e sociologia pelo IFCS/UFRJ e Doutor em sociologia pelo IESP/UERJ. Integra o núcleo de pesquisa SocioFilo/IESP, vinculado a UERJ e que atua como um laboratório colaborativo. Faz parte do conselho editorial da Revista Cadernos do Sociofilo. É também editor da Revista de crítica musical Polivox, além de colaborador da Revista Escuta.

* Fonte da imagem: https://medium.com/@culturalivresp/paulinho-t%C3%B3-lan%C3%A7a-seu-segundo-disco-no-sesc-vila-mariana-a89fba28cf9e. Acesso em: 15 fev. 2018.

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