Fernando Perlatto*

Nuno Ramos, talvez, seja um dos artistas plásticos mais provocativos em atividade hoje no Brasil. Suas exposições e instalações, a exemplo de Verme (1993), Bandeira branca (2010), Monólogo para um cachorro morto (2010), Fruto estranho (2010), O globo da morte de tudo (2012), Ensaio sobre a dádiva (2014) e O direito à preguiça (2016), sempre provocam incômodo e geram debates intensos e variados no campo das artes, e muitas vezes o transcendem, reverberando de forma mais ampla na esfera pública. Um dos seus últimos trabalhos de grande fôlego é prova evidente nesse sentido. Atualizando duas exposições anteriores – 111 (1992) e O dia deles – 24 horas 111 (2012) –, a instalação-performance 111, a vigília, exibida em 2016, se estruturava em torno da leitura, ao longo de vinte e quatro horas ininterruptas, pelo próprio Ramos e outros artistas e ativistas, como Zé Celso, Ferréz, Paulo Miklos, Bárbara Paz e Laerte, dos nomes de todos os cento e onze prisioneiros que foram barbaramente assassinados por policiais no Massacre do Carandiru, ocorrido em 1992. Mais recentemente, o artista, a partir de uma montagem provocativa, fez com que o impeachment da presidente Dilma Rousseff fosse cantado pelos apresentadores do Jornal Nacional, William Bonner e Renata Vasconcellos, ao som de “Lígia”, de Tom Jobim.

A mesma verve criativa e instigante das instalações e exposições de Nuno Ramos pode ser encontrada em seus ensaios, como aqueles compilados na coletânea Ensaio geral, lançada em 2007. Na sequência desta obra, vários outros textos publicados na revista Piauí, como “A noiva desnudada” – no qual analisa o teatro de Nelson Rodrigues a partir de sua fixação pelo arcaico –, “O turista infeliz” – em que reflete sobre as imposições e obrigações que invadem o lazer dos turistas –, “Esperando Beckett” – artigo refinado em que discute Murphy, o romance de juventude de Beckett –, “No palácio de Moebius” – dedicado a pensar sobre a modernidade brasileira a partir das obras de João Gilberto, Lygia Clark, Graciliano Ramos e Mira Schendel –, além dos primorosos textos “Depois do 4 x 0” e “Depois do 7 x1”, em que reflete, respectivamente, sobre as derrotas do Santos para o Barcelona na final do Mundial de Clubes e 2011 e do Brasil para a Alemanha na semifinal da Copa do Mundo de 2014 – vieram a corroborar a força de sua escrita, situando Nuno Ramos ao lado de outros notáveis ensaístas contemporâneos, que transitam por temas diversos, com enorme erudição e fineza, como José Miguel Wisnik e Silviano Santiago.

Outro território pelo qual Nuno Ramos caminha com desenvoltura é a ficção, se é que assim podemos chamar seu exercício criativo de escrita fronteiriço e interdisciplinar atravessado por poesia, romance, conto, crônica, texto dramatúrgico e ensaio, concretizado em obras como Cujo (1993), O pão do corvo (2001), Ó (2008), O mau vidraceiro (2010), Junco (2011) e Sermões (2015). Ó e Junco foram os vencedores do prestigioso prêmio de literatura Portugal Telecom nas edições de 2009 e 2012. Em 2017, a editora Iluminuras lançou dois livros do artista, o inédito Adeus, cavalo e a reedição de O pão do corvo, que havia sido originalmente publicado pela Editora 34. Estes trabalhos evidenciam muitas das facetas complexas e intrincadas da obra deste autor.

Todos os livros de Nuno Ramos são estranhos. E, essa característica, mencione-se desde já, não é um demérito à sua ficção. Pelo contrário. É precisamente aí, nesta estranheza, que reside sua força principal. É possível pensar seus romances-ensaios-poemas como verdadeiras instalações; na verdade, pequenas e estranhas instalações, repletas de bifurcações e dobraduras, compostas por elementos plurais, incertos, com contornos vários e indefinidos, colorações diversas e indeterminadas. Assim como os parangolés de Hélio Oiticica, que a cada movimento vão revelando suas estruturas internas, os livros de Nuno Ramos são atravessados por ranhuras, fissuras, que, a cada dobra, podem ser desdobradas em outras dobras mais surpreendentes, em uma oscilação de um quase desfazer-se.

Os romances-instalações de Nuno Ramos se apresentam como estruturas que dão a impressão de não estarem completamente acabadas, uma vez que sustentadas em um equilíbrio aparentemente precário, prestes a desabarem, mas que bambeiam até reestabelecerem novamente o precário equilíbrio de antes. Em ensaio publicado na última edição da revista Peixe Elétrico, intitulado “Loser” – uma transcrição de fala proferida pelo artista sobre sua obra em Berkeley, em 2015 –, Nuno Ramos chama a atenção precisamente para esta instabilidade permanente, esta não fixação, este não acabamento de sua obra, que, apesar da força que possui, mantém, paradoxalmente, em seu eixo de sustentação, uma precariedade estrutural. Vale citar um trecho do ensaio que corrobora este ponto: “Há alguma coisa não formada, não acabada, nunca fixa, tanto literal quanto simbolicamente, em quase tudo que faço e escrevo” (grifos do autor).

Um dos traços mais marcantes da produção artística de Nuno Ramos é a forte presença da materialidade, aspecto este, vale o registro, já destacado por outros críticos que se dedicaram a refletir sobre sua obra, a exemplo de Rodrigo Naves, que, em um texto preciso sobre as exposições do artista publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 2006, ressaltou como uma das características centrais de seu trabalho aquilo que ele chamou de “materialismo invulgar”. O que temos em suas diferentes produções, percebe Naves com muita acuidade, é uma “busca obsessiva de uma formalização que, em lugar de domesticar, exponencie a materialidade do mundo”. Mas, esta materialidade, importa reter, não tem a solidez de uma rocha; ela é frágil, terna, delicada. O mundo que emerge das tantas matérias, coisas, objetos, artefatos que compõem seus livros – a exemplo de gavetas, pontas de lápis, pó, fuligens, grãos, borrachas, durex, clipes – não tem solidez; narrado com um lirismo intenso, ele é, quase sempre, o registro de um estado de coisas em ruínas, um mundo em aparente decomposição.

Os romances de Nuno Ramos são difíceis de serem compreendidos em um primeiro movimento. Em uma leitura inicial, eles afastam, repelem o leitor. Os personagens e os enredos de suas obras não são evidentes. Matéria, gente, animais diversos como corvos, cavalos e pombos, transitam pelas suas ficções e se embaralham em um jogo de linguagem complexo. Sua escrita é fragmentada, entrecortada. Vozes múltiplas se misturam, se intercambiam, em um registro polifônico permeado de idas e vindas, com alterações bruscas e repentinas, alternadas com tons lentos e demorados. Livros como Adeus, cavalo, em seu percurso sinuoso, chegam a ser quase herméticos, desafiando o leitor no sentido de encontrar uma possível abertura ao jorro poético de palavras e frases intrincadas que emerge das instalações literárias do autor.

No que diz respeito a esse hermetismo, é possível pensar o quanto a literatura de Nuno Ramos é atravessada pela influência da obra de Samuel Beckett, que, sobretudo no terceiro romance de sua trilogia do pós-guerra – O Inominável – radicaliza sua forma literária, em um sistema quase fechado, uma espécie de anti-romance.[1] Se de um lado, é possível analisar esta influência beckettiana na obra do escritor a partir de outras perspectivas – a exemplo da presença da melancolia como traço forte da obra dos dois autores[2] ou de certa aproximação de estilos em determinadas passagens das obras de Ramos[3] –, o que interessa mais a ser destacado é esta dimensão da estranheza que as obras dos dois autores causam, sobretudo pelo fato de ambos estarem, cada qual à sua maneira, preocupados em pensar outros caminhos para desconstruir a forma do texto literário.

Há nos textos ficcionais do artista-escritor Nuno Ramos uma preocupação evidente, deliberada, no sentido de radicalizar a forma literária, em um movimento de explosão dos formatos tradicionais, na busca incessante por novos caminhos. E é precisamente nessa direção, de escrever contra, de investir tão frontalmente na oposição à “pasteurização” das convenções literárias, que a literatura de Nuno Ramos pode ser pensada como uma “literatura de esquerda”, para dialogar com a proposta do crítico literário argentino, Damián Tabarovsky, em seu provocativo livro Literatura de Esquerda, traduzido para o português em 2017 pela Relicário Edições.

A literatura de esquerda é assim designada não propriamente pelos temas que aborda ou pelo enfoque que privilegia no enredo do romance, mas sim em decorrência da busca permanente pela radicalização da forma literária. Para Tabarovsky, em diálogo com Barthes, esta literatura pode ser chamada de esquerda, posto ela não se submeter aos padrões estabelecidos e se colocar em uma perspectiva contrária à mera “reprodução linguística do poder”. A escrita experimental, característica deste tipo de literatura, faz com que ela não seja direcionada a um público específico, quer seja ao mercado, quer seja à academia, na medida em que ela se dirige exclusivamente à própria linguagem. Ela é, portanto, uma literatura do sem lugar e é a partir deste “sem lugar”, que “fala o escritor sem público”. Esta literatura, como destacado por Tabarovsky, coloca o sentido em suspenso e escolhe a própria trama “para perfurá-la, para buscar esse lado de fora – o fora da linguagem – que nunca chega, que sempre se posterga, se desagrega (a literatura como forma de digressão) esse fora, ou talvez esse dentro inalcançável”.

Se a radicalização da forma literária pode ser pensada como a principal potência desta literatura de esquerda, como propõe Tabarovsky, é possível objetar, em contrapartida, que é precisamente aí que se encontra também sua principal fragilidade. Como reconhece o próprio crítico literário, esta perspectiva, de maneira deliberada, “não funda nada, não implica nenhum estabelecimento, não administra nenhum intercâmbio”. É justamente nessa perspectiva que a literatura de esquerda apresenta seu limite, uma vez que, assim como várias das vanguardas surgidas no século XX, seu hermetismo impossibilita que ela estabeleça a comunicação com um público mais amplo. Se a forma desta literatura de esquerda, tal qual praticada por Nuno Ramos, é, por um lado, libertadora e emancipatória, por outro, ela acaba por se mostrar pouco democrática em termos de difusão para um público mais amplo.

Reconhecer este limite no que concerne à democratização desta literatura de esquerda, contudo, não implica na sua desvalorização, pois esta posição poderia levar à conclusão de que uma literatura emancipatória somente o será caso seja fácil, palatável, consumível pelo grande público, o que equivaleria, por conseguinte, a defender uma completa submissão do escritor ao desejo do leitor, em especial aquele moldado pelo mercado. A literatura de esquerda, a exemplo daquela produzida por Nuno Ramos, em sua sofisticação provocadora, em sua escrita do contra, traz na explosão da forma literária e na radicalização da linguagem a sua própria dimensão emancipatória. E isso não é pouco em dias que o conservadorismo ganha cada vez mais espaço em todos os territórios.

Notas:

[1] Em algumas entrevistas, Nuno Ramos destaca explicitamente Beckett entre as suas principais influências. Esta admiração também fica evidente no ensaio anteriormente mencionado, “Esperando Beckett”, publicado na revista Piauí.

[2] O elemento da melancolia é uma característica destacada por Ricardo Lísias, em um ensaio amplo e cuidadoso sobre Nuno Ramos publicado na edição 5, da revista Peixe Elétrico, no qual destaca: “não existe o menor sinal de histeria na obra de Nuno Ramos, um artista essencialmente melancólico” (grifos meus). Sobre o tema da melancolia em Beckett, ver o livro de Luiz Costa Lima, lançado em 2017, Melancolia. Literatura (Editora Unesp).

[3] O início de O traz ecos fortes da escrita de Beckett, por exemplo: “Meu corpo se parece muito comigo, embora eu o estranhe às vezes. Tateio minuciosamente as pequenas saliências da pele, os pequenos pelos que vão crescendo enquanto caem, e empalidecem, e parecem, aos poucos, cobertos de giz”.

* Fernando Perlatto é um dos Editores da Revista Escuta.

** Fonte imagem: Fotografia: Seth Solo. Retirada do site: <http://www.artecapital.net/exposicao-290-nuno-ramos-fruto-estranho&gt;

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