Jorge Chaloub*

A Noite da Espera é um livro explicitamente político. Se todos os romances de Hatoum tem nos embates políticos um aspecto fundamental da trama, podemos dizer que nesta obra estamos mais próximos das clareza de Cinzas do Norte que das expressões menos evidentes de Dois Irmãos. A juventude do jovem Martim é inundada pelo ambiente da ditadura militar brasileira, de modo a produzir um romance de formação onde o contexto é não apenas sugerido, mas motivação central para os contornos e as transformações dos próprios personagens. O diálogo com o mundo da política não emerge, entretanto, apenas das interpretações do passado. Em movimento que vai muito além de pobres analogias históricas, Milton Hatoum constrói a partir do olhar sobre o período autoritário um claro diálogo com as agruras do Brasil contemporâneo, através de fino jogo de semelhanças e diferenças capaz de iluminar os dois lados da comparação.

Antes de falar da política é necessário, todavia, tratar da memória, matéria prima através da qual o autor tece o cenário do romance. Organizado sobre a forma de um diário, A Noite da Espera reconstrói a partir do exílio – mais precisamente no período entre o inverno de 1977 e o inverno de 1979, em Paris – as experiências do jovem Martim durante o colégio e a Universidade. A memória é tema central da obra do escritor amazonense, mestre em dar vida a narradores marcados pelo esforço de divisar o próprio passado em meio a um mundo de sensações e paixões, quase sempre difíceis de precisar[1]. O esforço mnemônico usualmente parte de protagonistas marcados pela experiência do exílio e do descentramento dele decorrente, mesmo que tais vivências ocorram em meio ao mesmo lugar onde o personagem passou a maior parte dos seus dias, como em Órfãos do Eldorado.

Em A Noite da Espera, a memória não é apresentada como habilidade individual do indivíduo isolado, mas enquanto produto coletivo. Ela surge, em um primeiro sentido, do esforço de um Martim isolado para se aproximar de uma época simultaneamente próxima e distante. Com poucos amigos em Paris, longe da cultura, da terra e da língua, o protagonista compõe um diário a partir de esboços de distintos momentos. Não é o caso da publicação de um diário da época, que com todas as limitações do testemunho ainda pode demandar a autoridade da experiência, limitada mas imponente. Trata-se, antes, de um texto reconstruído a partir da distância, do sofrimento e da saudade. Nas palavras de Hatoum, o exílio surge como “uma longa insônia em que fantasmas reaparecem com a língua materna, adquirem vida na linguagem, sobrevivem nas palavras…” (p. 210). É justamente o esforço de lidar com esta “vida”, de se defrontar com esta linguagem, que impulsiona Martim rumo ao diário que, frente ao leitor, se faz romance.

As memórias, entretanto, não são apenas de Martim, mas de uma série de companheiros de geração. O narrador demonstra consciência do fato quando, defrontado com seu esquecimento, admite: “sem a memória dos outros eu não poderia escrever” (p. 71). Como em Relato de um certo Oriente, Hatoum parte de muitas vozes para, ao lado do narrador principal, reconstruir mundos que constantemente sobrepujam os esforços de compreensão de quem tenta representa-los. O movimento não é exclusividade do escritor amazonense, mas, como bem pontua Leyla Perrone-Moisés, característica da narrativa contemporânea, que comumente organiza o tempo a partir de “uma memória estilhaçada e desordenada”[2]. O material mnemônico inclui, assim, relatos de outros, como exposto no momento em que Julião, personagem ausente da adolescência retratada no livro, doa uma “caderneta de capa verde” a Martim, pois se sente incapaz de lidar com as saudades que já o corroem e seriam ainda mais intensas ante a leitura das anotações. As notas de Julião não se referem ao período mais diretamente tratado pelo livro – transcorrido entre 1968 e 1972, em Brasília – mas aos últimos dias do escriba em São Paulo, momento que será provavelmente tratado nos outros dois volumes da trilogia. Toma nota o leitor, neste sentido, de que por mais que as reminiscências da juventude iluminem algo da vida no exílio, há muito que ele ainda ignora.

A incerteza ganha corpo com o material capaz de aguçar as lembranças. Não estamos diante de um arquivo organizado, mas de “cadernos, fotografias, cadernetas, folhas soltas, guardanapos com frases rabiscadas, cartas e diários de amigos, quase todos distantes; alguns perdidos, talvez para sempre” (p. 16-17), enfim: “a papelada de Brasília e São Paulo”. Neste cenário, o que ressoa não é apenas a voz de Martim no exílio, assombrado e extasiado com uma linguagem que ganha vida e uma vida reconstruída através da linguagem, mas também os registros de inúmeras outras vozes, algumas das quais soam apenas no passado. Por outro lado, não há como esquecer que é Martim quem constrói o diário, filtrando pelo seu olhar o passado a partir não apenas das suas experiências pregressas, mas também das presentes. O próprio protagonista, aliás, sofre as agruras do momento em que retoma o passado e se transforma ao longo deste processo. O passado não é reconstruído durante um dia, uma semana ou mesmo um mês, mas obedece aos humores e vivências de dois anos, período que por certo testemunha diversas mudanças em Martim, não somente em virtude das marcas usuais da vida, mas também da radical experiência de ausência, descentramento e transformação do exílio.

Há, neste sentido, a retomada de um traço anteriormente presente na obra de Hatoum e bem identificado por Daniela Birman: a criação “por meio da escrita” e da “escavação da memória” de um eu, em uma “experiência de subjetivação”[3] que não passa pela simples negação da passado ou pelo aprisionamento do sujeito nos limites da experiência, mas reclama, em chave foucaultiana, uma relação de continuidade/descontinuidade entre a vivência e a memória. Para tanto, é fundamental a escolha de Hatoum por narradores em “posição limítrofe”, marcados por um “olhar fronteiriço”[4], que os permite ver o cenário reconstruído em um “sutil jogo de dentro/fora”[5], de modo a evitar tanto o radical alheamento quanto a rotineira adesão em relação a experiência pregressa. Falando inicialmente deste lugar de fronteira, o narrador reconstrói o seu eu e o seu próprio lugar no mundo, influindo não apenas no passado, mas no presente, para o qual cria “novos possíveis”[6].

As memórias transcorrem sobretudo em Brasília. Como em outros livros, o arquiteto Hatoum faz da cidade um personagem, mas desta vez não estamos na Manaus da maior parte das suas obras, definida em constante tensão e porosidade entre natureza e história. Em sua dimensão “monumental”[7], a capital antes se impõe às perspectivas natural e histórica do que deixa por elas se definir, abrindo, à primeira vista, maiores possibilidades para a ação humana, mas, por outro lado, demandando a interpretação de signos diversos para a sua compreensão. É sintomática a escolha do recém chegado Martim pelo curso de arquitetura, talvez em busca da chave daquele novo mundo que se insinuava. Não é somente a Brasília monumental, entretanto, que se faz presente, mas também a das residências e comércios – da avenida W3, do restaurante Roma e do bar Beirute -, assim como a da natureza controlada, esta diametralmente oposta à amazônica, do Lago Paranoá e do campus da Universidade de Brasília.

Uma experiência de Martim no lago surge como evidente metáfora do transbordamento do mundo político, que adentra todos os rincões da existência naquele momento de crescente endurecimento de um regime autoritário capaz de ganhar fisionomia ainda mais virulenta, mesmo diante da sua face já grotesca e violenta dos primeiros tempos. Distante do mundo político, do qual se aproximaria por meio dos seus amigos e amores ligados ao mundo do teatro, Martim decide não ir numa grande manifestação, mas sair para remar no Lago Paranoá. Alcançado pelo sono, ele acorda em frente ao Palácio da Alvorada, fustigado pelos guardas, e acaba preso na mesma sala de seus futuros amigos militantes. Não havia espaço para isenções naquele mundo de violência que tragava, de uma forma ou outra, os indiferentes. Para os que não aderiam, só restava o confronto ou o exílio, pois mesmo tímidas expressões de autonomia eram interpretadas como claras ameaças à ordem autoritária. Hatoum retrata o momento no qual as produções culturais da esquerda – que perduraram a sua perda de liberdade política, como bem pontua texto clássico de Roberto Schwarz[8] – começam a ser mais sistematicamente atacadas.

As artes são vista com desprezo por figuras como Rodolfo, pai de Martim e personagem típico destes novos tempos. A dureza frente ao belo, que jogara por terra o seu casamento, agora ganhava força com a mágoa frente a antiga esposa, que o trocara por um artista. Nesta toada, ele despreza o cunhado, também engenheiro que enveredou pela fotografia, e recusa qualquer expressão distante da fria natureza do número e do concreto. Entusiasta dos militares, dos quais chegava a colecionar fotografias, Rodolfo também passa a desprezar o filho, por suas amizades e envolvimento com a resistência, o que o aproximava da odiosa figura da mãe.

Em Dois Irmãos, o engenheiro, à vontade neste novo cenário, também surge como representante da nova ordem de coisas. No caso, Yaqub, admirador das fardas e das imponentes construções, se opõe ao dionisíaco Omar, embriagado pela poesia do perseguido Antenor Laval. O fetiche da ditadura pelo concreto e pelas obras grandiosas ganha no personagem típico ideal do construtor uma perfeita representação. Outro personagem de Hatoum marcado pela conjunção entre o amor aos militares e o horror à arte é Jano, de Cinzas do Norte, levado até fim da sua vida pela profunda repulsa à vocação artística e aos confrontos com os militares – condensados na figura do futuro prefeito de Manaus, o coronel Zanda – de seu filho Mundo. A figura de A Noite de Espera mais próxima do magnata do romance de 2005 é, entretanto, Manequim, líder estudantil de direita explicitamente inspirado em Fernando Collor. Não deixam dúvidas as menções à biografia do pai – que matou um homem por engano no parlamento, tal como Arnon de Mello-, a Alagoas e à pinta de galã (p. 63-64).

Homem bem sucedido, Rodolfo não representa apenas o ocaso dos artistas, mas também a decadência dos homens públicos de perfil mais humanista. O enlouquecimento do embaixador, enfermo em um mundo onde não mais se encaixava, alude aos novos tempos, onde os eruditos bacharéis, mesmo os de perfil mais conservador, cediam lugar aos tecnocratas da linguagem econômica. Hatoum constrói, deste modo, uma crítica feroz à modernização conservadora empreendida pela ditadura militar. As transformações urbanas, tendo por protagonista a lógica destes engenheiros, colocaria por terra as reminiscências de um passado atravessado pela ambivalência entre opressão e afetividade. Não há mais lugar para o cenário freyreano – tecido em Casa Grande e Senzala e Sobrados e Mucambos – dos antagonismos em equilíbrio[9], que em meio a dinâmicas extremamente violentas e a construção de vínculos pessoais conseguiria transformar-conservando, de forma que aspectos essenciais do passado perdurassem no presente.

O mundo em transformação confere ao enredo a feição de tragédia, onde os personagens se mostram sempre incapazes de perceber o feitio mais geral do cenário e, com isso, medir melhor as consequências das suas ações. Esta, aliás, é outra característica comum aos romances de Hatoum, sempre hábil em retratar personagens sobrepujados pelos desdobramentos das próprias escolhas. Em A Noite da Espera, o senso trágico atravessa tanto o mundo político quanto a vida amorosa do protagonista.  Martim padece, por um lado, em razão das escolhas das mulheres da sua vida – Lina e Dinah, mãe e namorada, ambas atraídas por artistas -, mas também se faz solitário pela invasão perversa do seu mundo íntimo pelas lógicas autoritárias, como é sugerido pela impossibilidade da mãe visita-lo e explicitamente dito quando da sua separação da namorada. O afastamento é também retrato do novo papel da mulher em um sociedade efervescente em termos de mudanças comportamentais, fato marcado explicitamente pelas tensões entre Lina e sua mãe Ondina. No exílio, atravessado pela solidão e pela saudade, os contornos das memórias aproximam as dimensões que, de fato, se mostravam indissociáveis. Sintomático deste entrelaçamento entre mundo íntimo e disputa política é o momento no qual, ao relatar quando assistiu a Terra em Transe, de Glauber Rocha, Martim aponta que xingava mentalmente todas as vezes que um ator magro aparecia na tela, porque ele “levava o jeito” do amante da mãe (p. 68). A verdadeira política, neste sentido, somente se desvela pelo olhar que ultrapassa os grandes movimentos da conjuntura e, através de temas de forte acento psicanalítico, como as relações familiares e o sonho, percebe suas ressonâncias no mundo íntimo.

Primeiro volume de uma trilogia intitulada O lugar mais sombrio, A Noite da Espera pode sugerir o fácil paralelo com um presente tão atravessado pelo sentimento de regresso. O livro, segundo esta interpretação, seria um modo de compreender o contemporâneo a partir da analogia, recurso capaz de colocar no mesmo plano fenômenos diversos. Não creio, todavia, que esta seja a intenção de Hatoum. Mestre na arte de perceber as ressonâncias universais do local, de modo que o registro mais amplo não surge como uma negação dos particularismos, mas enquanto capacidade de iluminá-los de forma diversa, o escritor agora aponta para uma forma distinta de perceber as permanências do passado no presente. O caminho não passa pela sugestão de uma eterna continuidade, mas pela capacidade – tal como a apontada por Agamben, no ensaio O que é o contemporâneo? – de ser contemporâneo do passado. O esforço não implica em anacronismo, mas justamente na percepção acerca da historicidade do próprio passado, que faz com que o único caminho possível seja perceber seu caráter indissociavelmente presente. Assim como Martin, Hatoum sabe que os caminhos para a retomada desta herança autoritária passam pelo crivo de contemporâneo, responsável pela contínua transformação tanto do próprio narrador como do que é narrado. É ao construir, portanto, passados-presentes e futuros-passados que o romancista confronta o atual cenário político, oferecendo ao leitor enredos que vão muito além da simples repetição de velhas rotinas.

*Jorge Chaloub é um dos editores da Escuta.

Crédito de imagem: Evandro Teixeira, disponível em em CPDocJB e http://memorialdademocracia.com.br/card/passeata-dos-cem-mil-afronta-a-ditadura

Notas

[1] O primeiros dois romances de Hatoum – “Relato de um certo Oriente” e “Dois Irmãos” – tem epígrafes, respectivamente de Auden e Drummond, que remetem ao tema da memória. O próprio escritor, em relato ao IMS no ano de 2001 (disponível em https://blogdoims.com.br/encontro-com-dois-irmaos/), destaca o papel central da memória em sua obra. Sobre o tema, ver também CURY, Maria Zilda Ferreira. Fronteiras da memória na ficção de Milton Hatoum. Santa Maria: Letras nº 26, Língua e literatura: limites e fronteiras.

[2] PERRONE-MOISÉS, Leyla, Mutações da literatura no século XXI, p. 150.

[3] BIRMAN, Daniela. Narrar o passado, recriar o presente:a escrita de si em Milton Hatoum. Revista brasileira de literatura comparada, nº 12, 2008, p. 159.

[4] BIRMAN Daniela. Entre-narrar:Relatos da fronteira em Milton Hatoum. Tese de Doutorado em LiteraturaComparada. UFRJ, 2007, p. 79-80.

[5] SANTIAGO, Silviano. Autor novo, novo autor. Caderno Idéias, Jornal do Brasil, 29 abr. 1989. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=030015_10&pasta=ano%20198&pesq=autor%20novo%20novo%20autor

[6]BIRMAN, Daniela. Narrar o passado, recriar o presente: a escrita de si em Milton Hatoum. Revista brasileira de literatura comparada, nº 12, 2008, p. 187-188.

[7] A ideia de uma dimensão “monumental” decorre de expressão do próprio Lúcio Costa, inclusive dando nome ao eixo central da cidade.

[8] SCHWARZ, Roberto. Cultura e Política 1964-1969. In: As ideias fora do lugar: ensaios selecionados. Penguin, 2014.

[9] O conceito é de BENZAQUEN, Ricardo. Guerra e Paz: Casa Grande e Senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 1930.

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