Fernando Perlatto*

“Foi assim que deixamos acontecer. Quando massacraram o Congresso, nós não acordamos. Quando culparam terroristas e suspenderam a Constituição, nós também não acordamos”(trecho da série Handmaid’s Tale, baseada no livro O Conto de Aia, de Margaret Atwood).

O ano de 2016 marcou a celebração dos quinhentos anos de publicação do clássico livro de Thomas More, Utopia. Sob o impulso desta efeméride, diversas foram as obras lançadas no Brasil voltadas não somente para refletir sobre o livro de More, mas acerca da própria ideia de utopia e o que significa pensá-la normativamente nos dias atuais, a exemplo da coletânea organizada por Adauto Novaes Mutações: o novo espírito utópico (Sesc SP, 2016), com artigos de intelectuais brasileiros e estrangeiros em torno desta temática, e o ensaio de Eduardo Gianetti, Trópicos utópicos (Companhia das Letras, 2016). Neste ano de 2017, como decorrência da rememoração e das celebrações dos cem anos da Revolução Russa, a reflexão em torno da ideia de utopia ganhou renovado destaque impulsionando debates vários relacionados aos significados e aos desdobramentos das utopias gestadas pelos bolcheviques em 1917, e sobre as possibilidades e os limites de retomada nos dias de hoje dos ideais utópicos socialistas.

Porém, ainda que as discussões sobre as utopias tenham voltado à tona, as transformações recentes ocorridas em diferentes partes do mundo – marcadas, entre outros acontecimentos, pelo recrudescimento dos discursos de ódio mobilizados pela extrema-direita, pela chegada ao poder de políticos e partidos conservadores, pelo fortalecimento dos fundamentalismos religiosos de diferentes matizes, pela sequência de atentados terroristas, pela retomada da ameaça da “guerra nuclear”, pela eminência da catástrofe ambiental e pelo avanço, quase que incontrolável, das revoluções tecnocientífica, biotecnológica e robótica – têm trazido à agenda reflexiva outro termo, que se situa em uma perspectiva oposta à utopia, a saber: distopia. “Distopia” significa precisamente o inverso da utopia, uma vez que seu sentido se ancora na ideia da construção de imaginários sobre mundos futuros atravessados não pela possibilidade da emancipação em um mundo perfeito, mas pela invenção de um futuro marcado pela atmosfera opressiva, caracterizado pela expansão de práticas de controle e de repressão direcionadas contra os indivíduos e conduzidas por Estados, regimes ou segmentos totalitários.

Se a queda do Muro de Berlim e a desintegração da União Soviética no final dos anos 1980 e início dos 1990 levaram muitos a aceitarem a influente formulação do cientista político norte-americano Francis Fukuyama sobre o “fim da história”, pensada naquele contexto como a vitória da hegemonia norte-americana e o domínio inconteste dos regimes de democracia liberal-representativa e de economia de mercado, nos tempos sombrios atuais, marcados pela ascensão de Donald Trump e pelo fortalecimento de fundamentalismos de diferentes ordens, a ideia de fim da história parece ganhar outros sentidos, assumindo contornos muito mais nebulosos. Sob a influência direta desses acontecimentos, tem-se testemunhado no âmbito da indústria cultural tanto a ampliação da produção de bens culturais atravessados por imaginários distópicos, quanto a retomada no debate público de livros e filmes produzidos em décadas e anos passados, que parecem ter previsto muitas das tragédias e barbáries que têm se manifestado em diferentes partes do mundo no tempo presente.

A indústria cinematográfica, por exemplo, tem assistido ao longo das últimas décadas a produção de distopias várias, como é o caso de Fahrenheit 451, de François Truffaut (1966), O Planeta dos Macacos, de Franklin J. Schaffner (1968), Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick (1972), Mad Max, de George Miller (1979), Blade Runner, de Ridley Scott (1982), Matrix, de Joel Silver (1999), Minority Report, de Steven Spielberg (2002), V de Vingança, de James McTeigue (2005), Jogos Vorazes, de Francis Lawrence e Gary Ross (2008) e A Chegada, de Denis Villeneuve (2016). Nos últimos anos, a refilmagem de muitos destes clássicos a partir de novas roupagens corrobora este diagnóstico acerca do renovado interesse pelas distopias, do que são exemplares filmes como Planeta dos macacos, de Tim Burton (2001), Planeta dos macacos: a origem, de Rupert Wyatt (2011) e a sequência “o confronto” e “a guerra” de Planeta dos macacos, de Matt Reeves (2014 e 2017), Mad Max, de George Miller (2015) e, mais recentemente, Blade Runner, de Dennis Villeneuve (2017). As séries norte-americanas também têm apostado na produção de distopias de diferentes matizes, atuando quase como que “diagnósticos de época”, ao representarem possíveis ameaças em um mundo que caminha rumo ao caos, a exemplo de The Walking Dead(2010), Black Mirror (2011) e The Handmaid’s tale (2017).

O campo literário tem sido particularmente pródigo na produção de imaginários distópicos variados. A se considerar o século XX, é possível, de forma esquemática, pensar, em pelo menos, três grandes “ondas” de elaborações ficcionais distópicas. Entre os anos 1920 e 1940, no contexto de crise do liberalismo e da ascensão de regimes autoritários, como o nazifascismo e o stalinismo, testemunha-se a publicação em variadas geografias de obras distópicas, que dialogam com o clima de terror da época, com destaque para os livros Nós, de Ievgueni Zamiatin (1924), Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (1932), Não vai acontecer por aqui, de Sinclair Lewis (1935) e 1984, de George Orwell (1949). Nos anos subsequentes à Segunda Guerra Mundial, em uma mais larga duração, observa-se uma segunda onda de produção de ficções distópicas, que abarcam o período da chamada “Guerra Fria”, marcado pela publicação de obras como Fahrenheit 451, de Ray Bradbury (1953), Laranja Mecânica, de Anthony Burgess (1962), Grande Irmão, de George Orwell (1984) e O Conto da Aia, de Margaret Atwood (1985).

Se os anos 1990 podem ser pensados como uma espécie de interregno na produção de romances distópicos, sem grandes produções de maior relevância com este escopo, os anos 2000 assistem a uma “era de ouro” deste tipo específico de ficção, para dialogar com título do artigo de Jill Lepore, “A Golden Age for dystopian utopia”, publicado este ano na revista The New Yorker. Os ataques aos edifícios do Word Trade Center, em 11 de setembro de 2001, pareceram confirmar o equívoco da avaliação do “fim da história” e, nos anos seguintes, diversos foram os romances distópicos publicados, que se puseram a imaginar futuros atravessados pelo caos, pela desordem e pela ampliação da repressão. Exemplares nesse sentido são obras como a tetralogia O reino, de Gonçalo Tavares (iniciada em 2003), Oryx e Crake, de Margareth Atwood (2003), Complô contra a América, de Phillip Roth (2004), Não me abandone jamais, de Kazuo Ishiguro (2005), A estrada, de Cormac McCarthy (2006), a trilogia Jogos Vorazes, de Suzanne Collins (iniciada em 2008), e os livros de Michel Houellebecq A possibilidade de uma ilha (2004) e Submissão (2015). A literatura brasileira contemporânea também tem lidado de diferentes maneiras com o tema das distopias. Em seu livro Mutações da literatura no século XX, Leyla Perrone-Moisés cita como exemplares nesse sentido as obras O livro dos mandarins, de Ricardo Lísias (2009) e Reprodução, de Bernardo Carvalho (2013). Seria possível também inserir neste inventário o livro de Daniel Galera lançado este ano, Meia-noite e vinte,[1] e o conto “2035”, de Veronica Stigger, contido em seu livro Sul (2016), que também dialogam com este imaginário, assumindo tonalidades distópicas, quando não apocalípticas.

De todos os livros distópicos publicados ao longo das últimas décadas, interessa-me neste ensaio, particularmente, refletir sobre três obras do segundo e do terceiro ciclos mais explicitamente políticas, que evidenciam as potencialidades das ficções distópicas abrirem caminhos no sentido de pensarmos sobre possibilidades diversas de opressão no tempo presente. Refiro-me, especialmente aos livros O Conto de Aia, da escritora canadense Margaret Atwood, Complô contra a América, do romancista norte-americano Phillip Roth, e Submissão, do francês Michel Houellebecq.[2] Sem quaisquer pretensões de analisar pormenorizadamente estas obras, o intuito aqui é o de refletir sobre as contribuições que romances distópicos podem dar no sentido de chamarem a atenção para formas distintas de fundamentalismos e autoritarismos, que, paulatinamente, vão se afirmando em determinada sociedade. Nesse sentido, o argumento a ser explorado é o de que ficções distópicas, como O Conto de AiaComplô contra a América e Submissão, podem contribuir como espécies de antídotos reflexivos a ilustrar o caráter gradativo do mal, que, se manifesta pouco a pouco em ações e acontecimentos aparentemente prosaicos, e que quando não combatidos desde suas manifestações iniciais, como destacado por Primo Levi em seu livro de ensaios A Assimetria e a Vida, acabam por desumanizar “os outros, cada crime se irradia, se transplanta em torno de si mesmo, corrompe as consciências, e se cerca de cúmplices subtraído ao campo adversário por meio do medo ou da sedução” (2016, p.60).

Os romances de Atwood, Roth e Houellebecq podem ser colocados em diálogo pelo fato de serem narrados em primeira pessoa. Complô contra a América Submissão são obras mais marcadamente realistas. O livro de Roth narra, quase como que em uma forma de um diário, a história de um menino judeu, chamado Philip, entre seus sete e nove anos de idade, que, entre junho de 1940 e outubro de 1942, testemunha a eleição para a presidência dos Estados Unidos do candidato republicano Charles A. Lindbergh – um aviador de renome mundial, próximo à Alemanha nazista e portador de uma retórica atravessada pelo antissemitismo –, derrotando Franklin D. Roosevelt. A verossimilhança da narrativa é assegurada não apenas pela presença no livro de figuras reais – como Roosevelt, Hitler, além do próprio Lindbergh –, mas de um “Post-scriptum”, que contém uma “cronologia verídica das principais personagens, outras personagens citadas na obra e alguns documentos”.

Em Submissão, de Houellebecq, o procedimento literário é semelhante e figuras reais da política francesa, como François Hollande, Manuel Valls, François Fillon, Marine Le Pen e Nicolas Sarkozy, se convertem em personagens ficcionais com o intuito de se narrar a história de François, um professor de Letras da Universidade de Sorbonne, especialista em J. K. Huysmans, que assiste à eleição para a presidência da França, como sucessor de Hollande, de um candidato da Fraternidade Mulçumana – este, inventado, chamado Mohammed Ben Abbes –, que derrota no segundo turno Marine Le Pen, candidata da extrema-direita pela Frente Nacional, a partir de uma aliança construída com o Partido Socialista (PS), a União por um Movimento Popular (UMP) e a União dos Democratas e Independentes (UDI), em torno de uma “frente ampla republicana”. Já a narrativa de O Conto de Aia, ainda que profundamente factível, se diferencia das duas anteriores, na medida em que se estrutura em torno de um lugar imaginário, chamado República de Gilead – antigamente, os Estados Unidos –, que vive sob o domínio de um regime teocrático e totalitário, no qual os direitos das mulheres foram suprimidos. O romance tem como protagonista Offred, uma mulher de trinta e três anos, que serve de Aia na casa de um Comandante, que vive com sua Esposa e outros criados, e que tem como função única a procriação.

O Conto de Aia, Complô contra a América Submissão podem ser aproximados no sentido de que os três livros são narrados por protagonistas comuns, isto é, sujeitos distanciados da “grande política”, alheios ao que se passa fora da órbita cotidiana. Philip e François passam a dedicar maior atenção aos acontecimentos políticos somente a partir das eleições que resultam nas vitórias de Lindbergh, nos Estados Unidos, e Mohammed Ben Abbes, na França. Pelo que se depreende da narrativa de Atwood, a personagem principal, Offred, antes do estabelecimento da teocracia da República de Gilead, também permanecia um tanto quanto indiferente aos acontecimentos políticos, enquanto vivia com seu marido e sua filha. O desinteresse de Philip pela vida política, em O Complô contra a América, se explica, em grande medida, pelo fato de ser ainda uma criança. Mas não se trata apenas disso. A política não era uma dimensão relevante para o núcleo familiar de Philip, que desfrutava, até a eleição de Lindbergh, de uma vida muito tranquila no bairro de Weequahic, em Newark, onde também viviam várias outras famílias judias. Os pais e o irmão mais velho de Philip constituíam “uma família feliz em 1940” (p.10), uma vez que completamente adaptados aos Estados Unidos e ao American Way of Life. Como diz o pequeno Philip em determinada passagem:

“Todas as manhãs na escola, eu prestava o juramento à bandeira nacional. Com meus colegas, nas cerimônias, cantava hinos que louvavam as maravilhas do nosso país. Observava religiosamente os feriados nacionais, e jamais me ocorreu questionar minha empolgação com a queima de fogos do Dia da Independência, pelo peru do Dia de Ação de Graças, ou pela partida dupla de beisebol do Dia do Soldado. A nossa pátria era os Estados Unidos da América” (p.13).

Em Submissão, o desinteresse de François pelos acontecimentos políticos era deliberado. Segundo ele mesmo manifesta em determinado momento da narrativa: “Muitos homens se interessam pela política e pela guerra, mas eu apreciava pouco essas fontes de diversão, sentia-me tão politizado quanto uma toalha de rosto, o que era uma pena” (p.41). É válido observar, nesse sentido, como a personalidade do protagonista se aproxima, em certo sentido, à de Meursault, o protagonista do livro O estrangeiro, de Albert Camus, sobretudo pela sua frieza, seu desinteresse, apatia e tédio em relação ao mundo. Nada do que acontece fora do seu dia a dia parece lhe chamar muito a atenção. Até o momento em que ocorrem as eleições que resultam na vitória da Fraternidade Muçulmana, a vida de François parece a ele mesmo completamente “insípida”, sem grandes atrações, com exceção das relações sexuais que tem com a namorada, outras alunas e prostitutas. Diz ele em determinado trecho da obra: “Os apogeus intelectuais de minha vida haviam sido a redação da minha tese e a publicação de meu livro; tudo isso já datava de mais de dez anos. Apogeus intelectuais? Apogeus, pura e simplesmente? Seja como for, na época eu me sentia justificado” (p.39, grifos do autor).

Ao contrário dos outros dois romances, que narram com mais detalhes a vida dos protagonistas antes da chegada ao poder dos regimes autoritários, em O Conto de Aia, as informações sobre a vida pregressa de Offred, aparecem como espécies de flashes no decorrer do romance. De todo modo, é possível perceber uma rotina tranquila vivida pela protagonista ao lado do seu marido Luke e de sua pequena filha de quatro anos. Esta rotina é trazida à tona a partir de algumas lembranças que atravessam todo o romance. A visão do jardim da Esposa do Comandante, por exemplo, desperta na personagem principal a memória de que “houve uma época em que eu tive um jardim” (p.21). Ao caminhar por determinado trecho da cidade, ela se recorda de que “Luke e eu costumávamos passear juntos, de vez em quando, por estas ruas. Costumávamos falar em comprar uma casa como uma dessas, uma grande casa velha, e restaurá-la. Teríamos um jardim, balanços para as crianças” (p.34). Ao se lembrar do passado, do período anterior ao estabelecimento da República de Gilead, quando ela podia circular com “shorts, jeans, calça de malha de corrida” e quando ela possuía seu “próprio dinheiro, dinheiro que eu mesma ganhava” (p.35), Offred afirma: “Era verdade, eu não dava o devido valor a muita coisa; eu confiava no destino, naquela época” (p.39).

O cotidiano normal e banal da família de Philip, a vida insípida e justificada de François, e a rotina tranquila de Offred com sua confiança no destino, assumem novos direcionamentos com as mudanças políticas que ocorrem a partir das eleições de Lindbergh nos Estados Unidos, de Mohammed Ben Abbes na França e da mudança de regime que se inicia com a República de Gilead. E o que é interessante destacar é que ao narrarem as histórias de seus livros a partir dos olhos de Philip, François e Offred, estes três protagonistas comuns, Roth, Houellebecq e Atwood deslocam o olhar dos acontecimentos vistos a partir de uma dimensão macro, da “grande política”, lançando a narrativa para o registro do ordinário e do cotidiano, abrindo possibilidades para o leitor se atentar para de que maneira aquilo que se passava “por cima”, na “grande política”, reverberava “por baixo”, nos acontecimentos aparentemente menores e mais prosaicos do dia a dia. E é precisamente a partir deste registro “menor” que Complô contra a AméricaSubmissão e O Conto de Aia contribuem para se olhar para a emergência gradativa do mal, que, pouco a pouco, vai se tornando habitual e naturalizado nesses três diferentes contextos, com seus registros cotidianos de violência física e simbólica.

Em Complô contra a América, a indicação de Lindbergh para disputar a Presidência contra Roosevelt abala, pela primeira vez, de forma profunda, “a imensa segurança pessoal” que Phillip “sentia como coisa natural, sendo um menino americano, filho de pais americanos que estudava numa escola americana e morava numa cidade americana num período em que a nação estava em paz com o mundo” (p.16, grifo do autor). O discurso de Lindbergh, que misturava, de um lado, uma retórica pacifista contra o envolvimento dos Estados Unidos no combate ao fascismo, e de outro, um antissemitismo radical que denunciava o “povo judeu” e a “raça judaica” por vários dos problemas enfrentados pelo país, assustava não apenas pela sua virulência, mas, sobretudo, pelo fato de que o candidato não discursava isolado na defesa de suas agendas, ecoando insatisfações e ódios presentes em diferentes setores da sociedade. Segundo destacado pelo narrador, ao discursar, Lindbergh estava “registrando convicções compartilhadas” com vários grupos radicais e cidadãos espalhados pelos Estados Unidos, que conformavam um setor “maior até mesmo do que imaginavam meu pai, que odiava o antissemitismo, ou minha mãe, que nutria uma desconfiança profundamente arraigada contra os cristãos” (p.23).

Nas semanas que se seguiram à vitória de Lindbergh – registre-se, tanto no voto popular, quanto no Colégio eleitoral –, a situação se tornou ainda mais assustadora para Philip, seus familiares e amigos, sobretudo após o presidente eleito assinar um acordo com Hitler na Islândia assegurando o estabelecimento de relações pacíficas entre a Alemanha e os Estados Unidos. “As crianças menores como eu”, diz o narrador, “chegavam da escola assustadas e perplexas, às vezes até chorando, por conta dos comentários feitos pelas crianças mais velhas a respeito do que Lindbergh dissera sobre nós a Hitler e do que Hitler dissera sobre nós a Lindbergh naqueles almoços e jantares na Islândia” (p.69). Não obstante o pai do protagonista, a princípio, acreditar que as mudanças não seriam, assim, tão profundas – uma vez que “apesar da rapidez extraordinária com que mudava nosso status como americanos, continuávamos a viver numa democracia” (p.70) –, manifestações de antissemitismo começavam a se tornar cada vez mais corriqueiras no cotidiano, a exemplo de constrangimentos que a família de Philip passa em Washington, quando fazem uma viagem a passeio e seu pai é chamado em público de “judeu falastrão” e em um restaurante, quando eles ouvem uma frase que dizia: “os judeus vão aprender logo, logo”. E o mais aterrorizante, diz Philip, é que “metade dos fregueses nem sequer levantou a vista, preferindo fingir nada ter ouvido, mas alguns se viraram para olhar diretamente para os corpos estranhos” (p.95).

Diante desse cenário no qual as manifestações de ódio e preconceito começam a ganhar legitimidade e serem proferidas sem quaisquer contestações, organizações como a Associação Teuto-Americana (ATA) passaram a se sentir mais à vontade para defenderem suas agendas antissemitas. Não se trata de dizer que o antissemitismo já não tivesse força e deitado fortes raízes na cultura política da sociedade americana, como fica bem evidenciando quando Philip relata que, antes mesmo da eleição de Lindbergh, existiam “cotas secretas limitando o número de judeus que podiam frequentar faculdades e escolas profissionalizantes”, já havia o impedimento de “os judeus fossem promovidos a cargos de chefia nas grandes empresas”, além de “restrições rígidas proibindo o ingresso de judeus em milhares de organizações sociais e instituições comunitárias” (p.20). Porém, com a chegada de Lindbergh ao poder o antissemitismo ganha uma nova dimensão, inclusive com a criação de programas governamentais, a exemplo do “Gente como a Gente”, “que pretendia retirar centenas de rapazes judeus entre doze e dezoito anos das cidades onde viviam e estudavam e levá-los para trabalhar por oito semanas em fazendas a centenas de quilômetros de suas casas, onde ficariam morando com a família dos fazendeiros” (p.101) e do “Projeto Boa Vizinhança”, que “tinha o propósito de atrair um número cada vez maior de moradores gentios para os bairros predominantemente judeus, ‘enriquecendo’ desse modo a ‘americanidade’ de todos os envolvidos” (p.315).

Na ausência de constrangimentos institucionais e em um cenário no qual o próprio governo conduzido por Lindbergh promovia políticas públicas orientadas por um viés explicitamente antissemita, “todos fascistazinhos” passaram a se sentir autorizados a colocarem “as manguinhas de fora!” (p.83), para mobilizar os termos utilizados pelo pai de Philip em determinada passagem do livro. Se “durante o segundo governo Roosevelt, o FBI e as comissões parlamentares de inquérito que investigavam a ATA haviam conseguido imobilizar a organização, classificando-a como uma fachada para os nazistas e apresentando queixas-crime contra seus principais líderes”, pelo menos “desde a posse de Lindbergh cessaram as tentativas do governo de intimidar os membros da ATA, que agora haviam conseguido recuperar sua força” (p.200). Como decorrência deste cenário, “a expressão do medo”, diz Phillip, passa a estar presente “em toda parte, principalmente nos olhos dos nossos protetores, aquela expressão que surge na fração de segundo depois que você tranca a porta e se dá conta de que não tem a chave. Nunca tínhamos visto os adultos reduzidos à impotência, todos pensando a mesma coisa” (p.367).

A situação crítica dos judeus se torna ainda mais tensa quando Walter Winchell, um radialista de enorme sucesso que denunciava o antissemitismo de Lindbergh, decide se colocar como candidato para enfrentar o presidente nas próximas eleições. A partir deste momento, a violência simbólica, já legitimada e naturalizada, começa a se converter em violência física. Quando Winchell se desloca para fazer um discurso em Boston para defender sua plataforma política, destaca o narrador de Complô contra a América, “o pequeno grupo que gritava ‘judeu!’ desde que ele saíra de Nova York (…) se transformou numa turba agressiva, munida de cartazes escritos à mão” (p.294). Por todos os lugares em que passava “Winchell conseguiu atrair multidões iradas que gritava ‘Volta pra sua terra, judeu!’” (p.297). Nesse contexto de exacerbação das manifestações antissemitas, se intensificaram, em uma sequência impressionante, de forma cada vez mais célere, os ataques contra os judeus, suas residências, lojas e sinagogas, levando vários deles a fugirem de suas cidades. Como conta Philip em uma passagem, que, apesar de longa, vale ser destacada:

“Ali [em Detroit], no maior bairro judeu da cidade, lojas foram saqueadas e vitrines quebradas; judeus foram impedidos de entrar em seus estabelecimentos e espancados; cruzes embebidas de querosene foram incendiadas nos gramados de casas elegantes do Chicago Boulevard e diante de modestos sobrados habitados por pintores de paredes, encanadores, açougueiros e vendedores de objetos usados e merceeiros, na Webb Street e na Tuxedo Street, e nos pequenos quintais de terra batida onde viviam os judeus mais pobres, na Pingry e na Euclid. No meio da tarde, momentos antes de terminarem as aulas nas escolas, uma bomba incendiária foi jogada no saguão da escola primário Winterhalter, onde cinquenta por cento dos alunos eram judeus; outra bomba foi lançada no saguão do colégio secundário Central, com noventa e cinco por cento de alunos judeus; uma terceira bomba entrou pela janela do Instituto Sholem Aleichem – uma organização cultural que fora absurdamente rotulada de comunista por Coughlin – e uma quarta explodiu perto de outra instituição tachada de ‘comunista’ pelo padre, a Aliança de Trabalhadores Judeus. Depois vieram os ataques aos templos (…). Quando a noite desceu, centenas dos trinta mil judeus da cidade haviam fugido, atravessando o rio Detroit, para Windsor, Ontário, e a história americana registrara seu primeiro pogrom em grande escala, claramente inspirado na ‘demonstrações espontâneas’ contra os judeus alemães que se tornaram conhecidas com a Kristallnacht, ‘a noite dos vidros quebrados’” (p.298-9).

Assim como em Complô contra a América, em Submissão, de Houellebecq, diversos acontecimentos fora do comum começam a ocorrer com cada vez mais frequência na França, especialmente às vésperas das eleições presidenciais. E estes acontecimentos, a princípio “estranhos” vão, aos poucos, gradativamente, assumindo ares de neutralidade. Os conflitos entre segmentos identitários vinculados à extrema-direita e jovens mulçumanos extremistas se convertem em uma quase rotina e, se antes, chamavam a atenção da opinião pública, passam, agora, a ser quase que praticamente ignorados. François, o protagonista do livro, destaca em determinado momento que “a violência nos subúrbios, os conflitos étnicos, ninguém mais falava disso, o problema era simplesmente silenciado”, tendo-se a impressão de que as pessoas haviam “se cansado de ouvir falar do assunto” (p.46). E os conflitos que ocorriam nas franjas da sociedade passaram a ganhar maior dimensão, sobretudo no contexto do segundo turno das eleições presidenciais, quando ocorreu, de fato, o enfrentamento entre Marine Le Pen e Mohammed Ben Abbes. Os embates físicos que ganham as ruas do país ocorrem sem que os meios de comunicação dediquem qualquer atenção ao assunto e sem que as instituições governamentais tomem maiores providências a respeito. Como destaca François em certo trecho de Submissão:

“Ao mesmo tempo [que ocorria o debate entre os dois candidatos] pipocavam em Montfermeil confrontos entre militantes de extrema direita e um grupo de jovens africanos, que não se diziam de nenhuma corrente política – uma semana antes incidentes mais esporádicos tinham acontecido naquela área, depois da profanação de uma mesquita. Um site identitário na internet afirmaria no dia seguinte que os enfrentamentos foram muito violentos e que se contavam vários mortos – mas o Ministério do Interior logo desmentiria a informação. (…). Dois anos antes, a imprensa fizera algumas reportagens chocantes, quando se produziram os primeiros confrontos armados, mas agora se falava deles cada vez menos, tudo isso parecia ter se tornado banal (p.45, grifo meu).

Para além da banalização da violência física no contexto em que ocorriam as eleições presidenciais, pela narrativa de François é possível também notar uma banalização da violência simbólica no período pós-eleitoral, tendo-se em vista algumas mudanças repressivas levadas à frente por Mohammed Ben Abbes, que vão pouco a pouco se expandido e assumindo ares de neutralidade na sociedade francesa. Se, de um lado, tinha-se a impressão antes das eleições, corroborada pelos fatos, de que o partido islâmico moderara o seu discurso antissemita, estabelecendo, inclusive, “relações cordiais com as autoridades religiosas judaicas” (p.43) – aggiornamento este, ressalte-se, que teria possibilitado à Fraternidade Mulçumana vencer a disputa presidencial, com apoio da centro-esquerda e da centro-direita –, por outro, era possível constatar que esta organização não abandonara algumas de suas agendas mais fundamentais. Estas agendas passam, paulatinamente, a serem levadas à frente pelo governo de Mohammed Ben Abbes, que conduz, por exemplo, à conversão da universidade Paris-Sorbonne em uma instituição oficialmente islâmica e na concretização de uma série de reformas educacionais que visavam, no discurso de seus dirigentes, “dar o lugar e a dignidade que a família, célula-base de nossa sociedade, merece” (p.167).

As mudanças mais notáveis ocorrem especialmente em relação à condição das mulheres na sociedade francesa, que são colocadas, pouco a pouco, em situação de completa submissão em relação aos homens. Depois de uma temporada fora de Paris, ao retornar e andar por um dos shoppings da cidade, François percebe, por exemplo, que as roupas femininas rapidamente se modificaram: não apenas “o número de véus islâmicos havia aumentado um pouco”, mas “todas as mulheres estavam de calça cumprida” e “os vestidos e as saias tinham desaparecido” (p.148). Ao ir a uma recepção na Universidade de Paris-Sorbonne, nota que “só havia homens”, na medida em que “nenhuma mulher fora convidada” (p.200). Além disso, as secretárias e alunas da universidade passam a usar véu. Em diversas passagens do livro, François narra situações em que encontra homens casados com mais de duas esposas, a maioria delas ainda adolescentes, usando véu para cobrir o rosto. E, marco importante, os índices de desemprego são reduzidos substancialmente na França pelo governo eleito, uma vez que as mulheres são instadas a permanecerem como donas de casa.

Em O Conto de Aia, as mudanças também vão se processando de forma paulatina na sociedade, até o momento em que, efetivamente, têm um processo de aceleração a partir de um golpe de estado, que põe fim à Constituição e à ordem política então vigente. Mas, antes mesmo da transformação efetiva do regime político, com todas as consequências daí advindas, algumas manifestações de violência – a exemplo da queima de livros, revistas e peças íntimas, bem como da agressão e assassinatos cada vez mais frequentes de homens e mulheres – já sugeriam que algo de grave estava ocorrendo, com uma aceitação quase que passiva de amplos setores da população. A despeito de alguns destes acontecimentos serem noticiados nos jornais, havia certo silenciamento, indiferença ou mesmo alívio por parte daqueles que não haviam sido atingidos pela repressão, pois as vítimas ainda não eram conhecidas ou pessoas próximas, ou, pelo menos, se pensava que aqueles acontecimentos se tratavam incidentes isolados, sem maiores desdobramentos. A protagonista Offred reflete sobre esta questão em determinada passagem do livro:

Nada muda instantaneamente: numa banheira que se aquece gradualmente você seria fervida até a morte antes de se dar conta. Havia matérias nos jornais, é claro. Corpos encontrados em valas ou na floresta, mortos a pauladas ou mutilados, que haviam sido submetidos a degradações, como costumavam dizer, mas essas matérias eram a respeito de outras mulheres, e os homens que faziam aquele tipo de coisas eram outros homens. Nenhum deles eram os homens que conhecíamos. As matérias de jornais eram como sonhos para nós, sonhos ruins sonhados por outros. Que horror, dizíamos, e eram, mas eram horrores sem ser críveis. Eram demasiado melodramáticas, tinham uma dimensão que não era a dimensão de nossas vidas. Éramos as pessoas que não estavam nos jornais. Vivíamos nos espaços brancos não preenchidos nas margens da matéria impressa. Isso nos dava mais liberdade. Vivíamos nas lacunas entre as matérias” (p.71, grifos meus).

Em muitos casos, as manifestações de violência não eram somente silenciadas, mas defendidas, pois se imaginava que suas consequências seriam positivas. Isso fica muito evidente, por exemplo, quando a narradora conta sobre o momento em Os “Mercados Pornô” foram fechados e as “vans da Prazer Sobre Rodas e Garotas Motorizadas” foram proibidas de circular, com apoio de diferentes pessoas, entre elas, a própria protagonista, que diz que não se sentiu “triste por vê-las sumir”, pois “todos nós sabíamos o quanto havia incomodado” (p.209, grifos meus). E completa: “Já estava mais do que na hora de alguém fazer alguma coisa, disse a mulher atrás do balcão, na loja onde eu costumava comprar meus cigarros” (Idem). Quando se suspendeu a Constituição, diz Offred, “não houve sequer nenhum tumulto nas ruas”, pois “disseram que seria temporário” (p.208). Logo depois, “os jornais foram censurados e alguns foram fechados, por motivos de segurança” (Idem), assim como “barreiras nas estradas começaram a aparecer” (p.209). E que é mais fundamental, destaca a protagonista: “Todo mundo aprovava isso, já que era óbvio que não se podia ser cuidadoso demais. Eles diziam que novas eleições seriam realizadas, mas que levaria algum tempo para prepará-las. A coisa certa a fazer, diziam, era continuar como de costume” (Idem, grifos meus).

Com a mudança efetiva do regime, a despeito da existência de poucos focos de resistência – embora, “menores do que se teria imaginado” (p.215) –, a repressão contra as mulheres se exacerba, sendo elas proibidas de trabalhar e possuir qualquer tipo de bem ou recurso. Para a efetiva organização do governo, é constituído na República de Gilead todo um sistema de vigilância destinado a assegurar o controle da população, mediante o estabelecimento do horror e do arbítrio. As práticas de violência física e simbólica, é importante registrar, não atingem somente as mulheres, mas todos aqueles considerados perigosos pelo regime, que, uma vez sendo acusados de traição, transgressão ou desobediência, passam a sofrer penalidades diversas, a exemplo do envio para as Colônias – que funcionam como verdadeiros campos de concentração para as mulheres –, linchamento ou o assassinato. As vítimas são penduradas em ganchos em um grande muro para que todas as pessoas possam ver o que acontece com aquele que não segue as regras.

E um dos aspectos mais poderosos do livro de Atwood é o de chamar a atenção para o quanto que, em um curto período de tempo, esta repressão praticada pelo regime acaba sendo naturalizada e incorporada pelas vítimas. Em várias passagens de O Conto de Aia, Offred manifesta, por exemplo, sua “repulsa” ao seu corpo ou a hábitos que possuía anteriormente – como o uso de trajes de banho na praia –, concluindo em determinado trecho: “Foi preciso tão pouco tempo para mudar nossas ideias a respeito de coisas como essa” (p.40).

É importante destacar que estas mudanças levadas adiante pelos presidentes Lindbergh, nos Estados Unidos, por Mohammed Ben Abbes, na França, e pelo regime teocrático e totalitário da República de Gilead somente obtêm êxito, pois contam com o apoio de determinados segmentos da sociedade, que se aproximam destes governos por interesses diversos, tornando-se – para utilizar os termos de Primo Levi, anteriormente mencionados – “cúmplices subtraído ao campo adversário por meio do medo ou da sedução”. Este é o caso em Complô contra a América do rabino Lionel Bengelsdorf e de Evelyn, tia de Philip, os quais, apesar da enorme consternação da comunidade judaica, apoiam publicamente as políticas com claro viés antissemita, levadas à frente pelo presidente Lindbergh. Em Submissão, o poder de sedução do novo governo fica evidente com o personagem Steve, um colega de François, “professor medíocre” da universidade, “que não conseguira produzir nenhuma publicação digna do nome, e cuja notoriedade era nula” (p.151), e que se converte ao islamismo para permanecer no cargo, em troca de uma melhoria substantiva no salário e da possibilidade de ter mais de uma esposa. Ou na própria postura de François, que por razões distintas também termina, ao fim e ao cabo, fazendo a conversão. Já em O Conto de Aia, são vários os personagens que se aproximam do regime, obtendo dele vantagens diversas, a exemplo das Tias e dos Comandantes. Porém, a despeito dos motivos, o que é importante reter é que a cooptação desses personagens contribui sobremaneira para assegurar a legitimidade necessária para que os governos de Lindbergh, de Mohammed Ben Abbes e da República de Gilead possam levar à frente suas agendas repressivas contra determinados segmentos da sociedade.

Apesar de suas diferenças e particularidades, O Conto de Aia, Complô contra a América e Submissão são três romances distópicos que podem ser mobilizados como aquilo que estou aqui chamando de “antídotos reflexivos” no sentido de abrirem possibilidades para se refletir, mediante a forma ficcional, sobre o caráter gradativo do mal, que, conforme se depreende da leitura destas obras, dificilmente se impõe em uma determinada sociedade de forma brusca e repentina, de uma hora para outra, mas, que, pelo contrário, vai se se expandindo de maneira paulatina, como uma espécie de teia ou praga, que quando devidamente percebida já tomou conta de vários lugares. Sob distintos vieses, os livros de Atwood, Roth e Houellebecq permitem pensar sobre as maneiras pelas quais, para usar os termos de Hannah Arendt, o mal se banaliza e os discursos e práticas de violência simbólica e física contra determinados segmentos da sociedade que outrora eram vistos como absurdos passam – em meio a silenciamentos, a consentimentos e a omissões várias – a serem cada vez mais naturalizados.

A título de conclusão, convém fazer uma observação importante. A despeito de algumas possíveis proximidades entre O Conto de AiaComplô contra a América e Submissão, como enfatizando ao longo do texto, é fundamental destacar que há uma diferença essencial entre as três ficções distópicas, que diz respeito ao tema da resistência. Se no livro de Roth, em diferentes momentos se percebe atos sistemáticos de oposição contra as políticas do governo Lindbergh – evidenciados, por exemplo, em diversas ações dos pais de Philip no decorrer do romance, nos discursos antifascistas pela rádio de Walter Winchell e na constituição de um Comissão de Cidadãos Judeus Preocupados de Newark, além da formação da Polícia Provisória Judaica –, assim como ocorre com a obra de Atwood – atravessada tanto por referências às resistências cotidianas, via murmúrios, sussurros, conversas às escondidas e até mesmo pensamentos, quanto às resistências mais abertas ao sistema, a exemplo das ações da personagens Moira, Ofglen e Nick, e da existência de grupos clandestinos como o Mayday e organizações como a Rota Clandestina Feminina –,   em Houellebecq, com exceção de alguns poucos trechos – a exemplo do momento em que se diz da conformação de núcleos de oposição, sobretudo entre os “laicos de esquerda” (p.168) –, as iniciativas de Mohammed Ben Abbes, inclusive aquelas direcionadas contra as mulheres, “não esbarravam em nenhuma oposição séria” (p.177).

Nesse sentido, se as três ficções podem ser, como venho buscando sustentar, pensadas como antídotos reflexivos contra o caráter gradativo do mal, Submissão perde sua potência normativa pelo seu caráter assumidamente derrotista, quando comparado com Complô contra a América e O Conto de Aia, os quais, sem resvalarem em um otimismo ingênuo, permitem pensar que, mesmo diante do avanço paulatino da opressão, há – e espera-se sempre haverá –, aqueles que, a despeito das dificuldades, resistem e lutam no cotidiano e na esfera pública contra os processos de violência física e simbólica promovidos por regimes autoritários.

Notas:

[1] Sobre Meia-Noite e Vinte, de Daniel Galera, ver: https://revistaescuta.wordpress.com/2017/02/14/escuta-resenha-daniel-galera-meia-noite-e-vinte-e-as-angustias-de-uma-geracao-no-tempo-presente/

[2] As edições utilizadas para a análise neste texto foram as seguintes: ATWOOD, Margaret; tradução Ana Deiró. Rio de Janeiro: Rocco, 2017. ROTH, Philip. Complô contra a América; tradução Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia de Bolso, 2015. HOUELLEBECQ, Michel. Submissão; tradução Rosa Freire D’Aguiar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.   

* Fernando Perlatto é um dos editores da Revista Escuta.

** Crédito da imagem: Otto Stupakoff. Foto retirada do site: <http://iphotochannel.com.br/exposicao-de-fotografia/no-rio-mostra-faz-homenagem-a-otto-stupakoff-pioneiro-da-fotografia-de-moda-no-brasil&gt;. Acesso em: 11 dez. 2017.

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