João Dulci*

Confesso que nunca nutri um amor incondicional pela seleção brasileira. Lembro de ter me entristecido com a derrota de 1990 (flashes de memória construídos ao longo do tempo) e de ter chorado com a vitória de 1994 (Romário é foda. Dá um desconto!). Depois vieram a derrota de 1998, com aquele drama todo em torno do Ronaldo, seguido do chilique do Zagalo (pessoa que eu passaria a respeitar quando se aventurou no Canindé – lugar onde amadores não têm vez) e a vitória de 2002, com um dos times mais esquisitos que já foram campeões mundiais (Rivaldo e Ronaldo eram protegidos por Edmilson, Anderson Polga e Roque Júnior – não precisa dizer mais). Mas a conjuntura se altera. E me peguei torcendo pela seleção na copa de 2010 (Felipe Melo pisoteando um adversário e Kaká buscando seu Deus em algum canto daquele estádio sul-africano) e, principalmente, na copa de 2014. Aquele papo todo de que não ia ter copa, de que a grana da copa tinha que ir pra hospitais, de que a copa acabou com o Brasil, de que a copa ia pra casa do caralho foi me irritando. Fiz o que achei certo: torci pela seleção oficial em troca de um consolo diante do avanço direitista-conservador no país. Vesti amarelo.

É mais ou menos assim: teve uma ditadura, muitos foram perseguidos, torturados e mortos. Com maior ou menor intensidade pessoas próximas ou admiráveis sofreram com aquilo, e aprendi desde cedo que louvar símbolos nacionais era como louvar a família, Deus e a propriedade. Sendo de esquerda desde quando não sabia muito bem o que era isso, a bandeira nacional, o hino (que nunca aprendi e nem me forçaram a aprender na escola de hippie que estudei) e outras patriotadas nunca me apeteceram como algo para se morrer de paixão (muito embora grandes figuras tenham morrido pra eu poder dizer isso). A palavra “pátria” mesmo era algo impensável no meu vocabulário de filho de trotskista-morenista. A combinação “pátria de chuteiras” só podia ser proferida seguida de uma cusparada no chão.

E o cenário da copa de 2014 era o que segue: os ingressos caros fizeram com que fossem aos estádios aqueles coleguinhas de Brasil que não curtiam muito a ideia de se ter uma copa aqui, porque deveriam ter gasto o dinheiro com hospitais; a galera que queria ver copa aqui, ver gringo sambar e ver geral esculachando os branquelos europeus; quem usava os hospitais e as escolas que não teriam sido construídos, sabia que venderia muita latinha de Skol pra gringalhada, mas ficou do lado de fora, vendendo cerveja pra gringalhada (eu sei que os efeitos colaterais da copa foram sentidos por classes baixas também, mas isso aqui não é um tratado de Sociologia urbana. Cada coisa a seu tempo); e a dicotomia seria aguçada alguns meses mais tarde, no momento certo de se fazer isso, quando usar vermelho era risco de vida e usar amarelo era estar de outro lado.

A copa foi, então, dividida muito sabiamente entre coxinhas, povão, gente como a gente, gente diferenciada, São Paulo, Brasil e outros estados à sua escolha. Tinha também gente como a Marilena Chauí e a Maria da Conceição Tavares, mas essas não foram ouvidas. Preferiram ouvir o Roberto Da Matta, antropologizando o futebol. Nada mais chato a se fazer quando se tem uma copa à sua frente. Houve também uma divisão de grupos da Fifa, algo meio incompreensível, que colocou a Itália pra jogar contra a Inglaterra em Manaus, e a Alemanha, que foi pra Bahia ouvir Dorival Caymmi e dançar o Lepo-Lepo (tinha isso em 2014).

Pois muito bem. Chegou-se a conclusão que a ladainha do “não vai ter Copa” encheu o saco, e a hora mesmo era de ver futebol e beber cerveja e matar o trabalho, com a anuência dos patrões, que, coxinhas que são, tinham ingressos e não queriam perder os jogos. E nós ficamos nos mesmos bares de sempre, porque ali gastaríamos uma grana e beberíamos bem mais que a turminha que estava nos jogos. E nós poderíamos falar mal do Galvão. Eles não (a divisão “nós e eles” é a tacada mais genial da humanidade. Funciona em várias situações. Ainda há quem a critique). Aí a bagaça começou.

Vaiaram a Dilma, o Brasil ganhou com a ajuda do juiz, a copa tava comprada. Tudo muito bom pra todo mundo, mas tinha uma merda de futebol no meio do negócio. O Thiago Silva chorou, nego se cagou todo, quase saímos pro Chile (os chilenos estavam querendo fazer isso há mais de 100 anos, desde 1962). Como num furacão da Flórida (nosso sonho eterno é nos compararmos aos Estados Unidos), tivemos um valioso momento de calmaria. Ganhávamos da Colômbia, tranquilamente. Aí veio um camarada, quase aleijou o Neymar, e a coisa começou a escorregar de um jeito estranho.

A semi-final seria contra a Alemanha. Os alemães estavam ouvindo Dorival Caymmi e dançando Lepo-Lepo. Era o que sabíamos do futebol deles. Nós tínhamos um time campeão da Copa das Confederações, que manteve a fortíssima espinha dorsal com David Luiz, Daniel Alves, Paulinho, Oscar e Fred. A perda de Neymar não seria sentida, porque, além da nossa fortíssima espinha dorsal, entraria o garoto Bernard e, como se sabe, a entrada de um garoto inexperiente em uma copa do mundo funciona muito bem desde o início da história das copas, quando Pelé chapelou 380 galeses e 410 suecos e fez dois golaços que a TV em preto e branco imortalizou.

Entramos em campo. Choradeira, hino nacional, Mineirão lotado (dizem ter havido quatro negros nas arquibancadas naquela ocasião, informação nunca comprovada). Os líderes David Luiz e Júlio César seguravam a camisa de Neymar, como se tivessem levado a campo a camisa do Mengão que, segundo Nelson Rodrigues, ainda haveria de jogar sozinha. Alguém deve ter se lembrado de vaiar a Dilma nos primeiros vinte minutos. Muitos compraram grandes copos de cerveja para celebrar a ida às finais. Uns milhares já conjecturavam em qual companhia aérea iriam para o Rio de Janeiro. Foram vinte minutos de profunda glória. Em vinte minutos o Marcelo deu espaço para a Alemanha chegar à linha de fundo 870 vezes. Via-se que a opção de substituir Thiago Silva (suspenso) por Dante, que conhecia muito bem os alemães, havia sido uma tacada genial, afinal Dante conhecia muito bem os alemães. Era amigo próximo. O serviço de inteligência da seleção esqueceu-se de alertar que muito mais amigo dos alemães era David Luiz.

David Luiz, com sua cabeleira de Side Show Bob amarelada como a de Carlos Valderrama era amigo da criançada. Gostava de selfies, de dar autógrafos e de bater selfies dando autógrafos com a criançada. Na Alemanha não havia crianças. Aliás, desde o suicídio do personagem principal de Alemanha Ano Zero que não há crianças na Alemanha. Mas a zaga brasileira nunca viu nada do Rossellini. Afinal, o futebol italiano está em decadência há anos. Logo, não vale a pena perder tempo vendo Rossellini. Conclusão óbvia.

Em quatro ou dez minutos a Alemanha fez dois gols. Enquanto David Luiz assinava autógrafos, esqueceu-se de marcar os avançados alemães. Era questão de instantes para ele se lançar, tal qual um Júnior Baiano de Marfim, para o ataque. Deve ter dito algo para seu companheiro Dante. Algo como: segura aí, cara. Estão precisando de mim lá na frente. Eu vou virar esse jogo. E como um Pelé em blond Power, deve ter completado: “Pelas criancinhas!”

Como disse um amigo muito inteligente, zagueiro não pode ser amigo de criancinha. David Luiz havia questionado seu treinador na Inglaterra que o adiantara para a posição de volante e concluíra que David Luiz, como zagueiro, deixava espaços na defesa. E de espaços na defesa, o Brasil estava farto. A dupla de volantes preferia se desfazer da bola, afinal de contas, só se desarma o adversário se a bola estiver com eles. Isso é lógico. Só quem não entende de futebol pra não entender isso. Melhor com eles do que com a gente, um deles pensou, e ambos concordaram. Marcelo havia percebido que acompanhar os pontas da Alemanha era tarefa muito difícil e que o melhor mesmo era assistir à partida dos alemães, de quem só se sabia que ouviam Dorival Caymmi e dançavam Lepo-Lepo. Escolheu aprender do que ensinar o que não sabia. Tal qual um Paulinho da Viola, quem sabe de tudo não fala, e quem sabe nada se cala, alguns diriam.

Foi uma pausa de mil compassos, de rara poesia. Enquanto Marcelo se lançava no mundo da poesia minimalista, David Luiz, bem… David Luiz preferiu ocupar todas as partes do campo, enchendo-o de manchas criminais (Deus salve a tecnologia no futebol!) para disfarçar seus delitos ao longo de noventa minutos. O crime perfeito. Afinal, quem o acusaria de um crime cometido onde contrabandeava o craque Oscar? Ou quem suspeitaria do zagueiro, numa viela onde o encarregado de extorquir a bola era Maicon? Ninguém.

Ao final do jogo, saía às lágrimas um herói. Um justiceiro. Foram sete gols. Em seis, os abnegados jogadores que haviam decidido por ficar na marca defensiva se perguntaram pelo altivo e voluntarioso companheiro, um general Patton tupiniquim que tinha em De Gaulle sua maior inspiração. O companheiro chorava e pedia desculpas às arquibancadas, onde suas crianças choravam. Os companheiros atônitos miravam aquela cena e, encasquetados com o roteiro, boquiabertos com todo o cenário, se lançavam aos questionamentos: mas afinal, não seria a nós que ele deveria desculpar-se?

*João Dulci é Doutor em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ), Professor da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) e colabora com a Revista Escuta.

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